Verdade e Mentiras
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Espero que gostem ^^
Olhou para o relógio novamente, tinha certeza que na rua já devia estar bastante escuro e ele teria que tomar cuidando quando fosse para a sua casa. Lukas passou as mãos pelos fios dourados de seu cabelo enquanto tentava relaxar. O jovem loiro era alguém fora do comum, por causa dos tratamentos químicos a que foi exposto quando menor, e devido às doenças em seu corpo, ele não se desenvolveu corretamente. Sua aparência jovem, delicada e pequena, não era algo que ele gostava de lembrar sempre e odiava quando seus colegas de trabalho ficavam implicando com ele. Sentia vontade de explodi-los. Um sorriso frio se formou no rosto do norueguês, mas logo voltou à sua habitual expressão facial, ainda estava em serviço e queria que todos que o olhassem vissem o policial competente que era. Na verdade, o termo correto era detetive de polícia, no entanto, não vinha ao caso no momento. Tudo o que importava naquele momento era esperar o bandido confessar o crime enquanto era interrogado pelos outros.
Ele estava na delegacia. Havia conseguido pegar o criminoso de um assalto e agora só precisava do nome de seu comparsa e tudo estaria pronto; aliás, não devia estar ali, já podia ter ido para a casa há duas horas, contudo ele sempre gostou de um trabalho bem feito e ia ficar ali até terminar tudo. Quando seus “amigos” saíram da sala de interrogatório, levando o condenado algemado para a sua devida cela, o local onde ia passar os próximos vinte e cinco anos de sua vida, ficou feliz ao notar que tinha menos um grupo de criminosos na rua e foi para a sua mesa fazer o relatório.
Agradeceu a Deus por estarem em um ano mais avançado e não precisar ter que escrever tudo, apenas responder algumas perguntas aos seus superiores online ou gravar as ocorrências do caso e enviar para eles. Assim que realizou todos os devidos procedimentos,escaneou as provas e o material coletado. Não era muita coisa e sequer devia se dar este trabalho, mas ele não confiava muito nos droides daquele lugar. Nada contra robôs, ele só não se dava bem com eles.
Quando estava quase acabando, notou algo estranho na roupa do criminoso. Havia um tipo de papel sintético em branco escondido em sua calça e aquilo lhe chamou atenção. Olhou para os lados e viu seus colegas de trabalho se arrumando para irem embora e com cuidado retirou de lá antes que alguém percebesse. Teve o cuidado de pôr o papel em seu bolso sem perder suas informações, voltando a escanear tudo e procurando mais coisas úteis. Ele sabia muitíssimo bem que se deixasse algo escapar ia comprometer toda a investigação, e aquilo era um erro que não se daria ao luxo de cometer.
Naquele momento, passou por sua mesa a chefe do departamento, Natasha Arlovskaya, a albina podia parecer fofa, mas era a mulher mais mortal que já conhecera, e como de costume, ela parou ao lado da mesa de Lukas e o encarou. Não gostava de vê-lo trabalhar depois do expediente.
- Vou ter que te comprar um relógio, não é? – ela o olhou de forma severa. Ficar ali naquele horário não eram as ordens que deviam ser cumpridas.
- Desculpe, chefa – Lukas nem pôde terminar de escanear tudo atrás de mais provas. A mulher ao seu lado segurou seu braço com força, fazendo-o parar imediatamente.
- Deixe que os androides se encarreguem disso, Lukas. Vá para casa. – com a outra mão que tinha livre fez sinal aos androides perto da porta e quando estes se aproximaram, ela pediu para encaixotarem tudo e mandarem para o galpão de provas. Em seguida, ela virou-se novamente para o norueguês, falando de forma firme, mas compreensiva. – Como eu disse, vá para casa. Não quero nenhum oficial meu cansado demais amanhã.
Vendo que não tinha mais escolhas, ele concordou em ir para a casa. Ao sair da delegacia, andou até o ponto de táxi e conferiu com as mãos o pequeno pedaço de papel em seu bolso. Por sorte continuava lá e não havia sido parado por ninguém até aquele momento, algo muito bom porque ele havia acabado de roubar uma prova de sua própria delegacia.
De repente ele parou de andar. Foi como se sua mente tivesse estalado e ele notasse algo que poderia ser feito, seus olhos brilharam quando teve a ideia e ele resolveu dar meia volta, indo para a outra direção, a procura de uma estação de metrô. Ele sempre se perguntou o porquê daquele nome antigo, afinal aquele meio de transporte mais parecia voar de tão rápido que trafegava e sequer usava o subterrâneo. Ele era como um avião ou jato, porém para curtas distâncias e tinha a forma de um trem bala antigo, outra coisa que ele, também, nunca compreendeu. Por que insistiam em deixar o passado “vivo”?
Colocou a sua pulseira em cima do aparelho e pagou a passagem. Gostava daquela praticidade, e como a pulseira era de ferro, presa ao pulso, impedia os assaltos. Aquela divertida ideia ajudara na diminuição dos ocorridos e os policiais até agradeceram. Ficou um tempo parado, olhando as notícias no telão. Pelo que assistia, estavam acontecendo alguns desaparecimentos em vários locais e todos eram estranhos demais.
Parecia um crime perfeito que desafiava as leis de todo o planeta. O pior é que aquilo não estava acontecendo somente na Terra. Havia vários outros planetas em que estava ocorrendo a mesma coisa e muitos queriam uma cooperação entre os povos para tentar pegar os culpados. Lukas suspirou cansado ao notar o que estava acontecendo ali. Como detetive, ele estava curioso para pegar o caso, mas sabia que devia ter gente mais apropriada para isso, então ficou quieto.
Não gostava de falar sobre crimes que ultrapassavam as leis da assembleia universal. Era um assunto tão delicado que se algo desse errado ali explodiria uma guerra intergaláctica. Por sorte o planeta Terra se mantinha neutro a tudo e não fazia parte aos países associados, pertencendo ao grupo de simpatizantes e nada mais.
Tentou tirar aquilo de sua cabeça enquanto andava no transporte. O local estava praticamente vazio, o que dava muito espaço para a locomoção de pessoas. Ele e mais três pessoas estavam naquele vagão: duas jovens, que provavelmente vinham de baladas, e um homem que parecia ser advogado. Quando finalmente chegou ao seu ponto, desceu e andou pelas ruas a procura de uma casa. Ao encontrá-la, bateu na porta, querendo entrar. Não demorou muito para ser aberta e um jovem de cabelo castanho o encarar, pela forma que o olhava parecia surpreso, mas logo sorriu.
- Lukas, eu pensei que você só ia aparecer aqui mês que vem – o castanho sorriu forçado enquanto deixava o outro entrar. Aquela era uma situação tão complicada e constrangedora.
- Eu também, Toris, mas achei algo que quero que você veja. – tirou o papel do bolso e deu ao outro, que encarou o pedaço sintético com cuidado. Quando o norueguês notou a peça de roupa íntima no sofá da sala, teve que se controlar para não ficar vermelho. – Você está recebendo alguém?
- Bom, na verdade, sim. – O castanho falou ruborizado. Sabia que seu amante não ia gostar de saber que teria que deixá-lo para fazer um trabalho extra para a polícia.
- Tudo bem, desculpe por aparecer aqui. Por favor, me ligue assim que descobrir algo – Lukas deu meia volta e antes de sair escutou uma voz vinda do quarto, parecia ser do Feliks, um antigo conhecido de ambos.
Preferiu ignorar aquela situação estranha e refez o caminho para a sua casa. Afinal, pelo que se lembrava, Feliks não gostava muito de pessoas estragando sua noite com Toris. Lembrava-se bem do escândalo que o loiro fez quando achou que estava sendo traído. Não culpava Feliks, o castanho agia de forma estranha às vezes e quando este começou a sumir e ter encontros secretos com uma loira chamada Amélia, as coisas pioraram ainda mais.
Por fim, parecia que a real intenção do castanho era comprar uma aliança de casamento para o loiro. Toris sempre gostou do loiro na escola – sim, eles haviam cursado o ensino médio juntos -, e quando começaram a sair o castanho realizava todos os caprichos do loiro de forma esplêndida. Mesmo não achando muito correto aquelas ações metidas e exigentes do loiro, Lukas esperava que tudo acabasse bem, e como explicar a surpresa que teve quando notou o marido exemplar que Toris havia se tornado? No fundo, o norueguês sempre desconfiou que o loiro fosse o passivo, pois que homem ia para a sua formatura usando um belo vestido de debutantes cor-de-rosa?
Tentou fazer de tudo para esquecer aquela cena, entretanto ela parecia ter grudado em sua mente de uma forma impossível de ser retirada. Teve quase certeza de que nunca ia poder se livrar daquilo. Resolveu pensar em alguma coisa diferente, algo relacionado ao trabalho, com o intuito de esquecer aquela casa e as duas pessoas que moravam nela. Então acabou por se lembrar do motivo de ter ido ali.
Mesmo não sendo, tecnicamente, “legal”, Toris era um dos melhores “loopper” que um dia havia conhecido. Loopper era um terno usado pela polícia estelar e humana para se referir àqueles que sabiam buscar, extrair e decifrar dados — e muitas outras coisas, eles eram como um “faz tudo” em suas especialidades. Embora sua existência não fosse legalizada na Terra, existiam muitos que realizavam aquela profissão, e Toris era um deles. Ele nunca havia sido preso porque cooperava apenas com a polícia. Lukas sabia que o castanho não representava risco algum para a sociedade – não era capaz de levantar a voz nem quando brigavam com ele -, então não via necessidade de acabar com sua vida, afinal o norueguês também sabia que se existia alguém capaz de descobrir o que aquele papel significava era o próprio Toris.
Enquanto andava pelas ruas, passou perto de uma loja, então resolveu entrar e comprar algo para beber. Era muito estranho que mesmo com toda aquela tecnologia e avanços nas áreas universais e mundiais, o mundo humano continuasse a seguir seu tempo lentamente, de forma tão calma e serena que apenas se notavam as mudanças quando já estavam em aplicativos educacionais.
Naquele breve momento de meditação, Lukas entendeu o porquê de alguns extraterrestres acharem a raça humana tão desqualificada de suas vidas a ponto de querer matá-los. Foi uma surpresa geral quando se deram conta que haviam sido “humanizados”. No fim, eles não eram tão diferentes assim, só eram orgulhosos demais para confessar seus erros. Por conta disso, a Terra se tornou um lugar neutro, onde todos podiam tentar suas vidas de forma tranquila e pacata. Os ternos usados pelos outros sempre causavam uma vontade de gargalhar no menor. Nunca entendeu o motivo de serem chamados de “pacíficos” ou “filhotes”.
Enquanto comprava as bebidas, viu um homem loiro entrando na loja. Ele era alto e usava um grosso casaco, não parecia ser velho e sim um jovem forte. Suas feições mostravam que ele gostava de sorrir, contudo não foi aquilo que chamou a atenção do jovem detetive. Aquele rapaz loiro parecia estar bastante nervoso com alguma coisa. Ele havia entrado na loja, ofegante, corrido os olhos para uma seção e começado a tacar algumas coisas dentro da cestinha de compras. Para alguém que não entendia do que se tratava, aquilo mais parecia uma compra de coisas aleatórias, mas para Lukas o comportamento era muito suspeito. O norueguês só pensou em duas coisas quando viu as compras do maior: ou ele estava fabricando drogas ou ele estava cuidando do ferimento de alguém. Seja o que for, não é algo bom.
Mas o que o surpreendeu foi notar que aquele rapaz estava na lista de desaparecidos. Mesmo não sendo de sua jurisdição, Lukas observava as fotos de pessoas desaparecidas todos os dias. Assim que reconheceu aquele rosto chegou a estremecer e tentou se lembrar de seu duro treinamento. Quando ver uma pessoa que fora vítima de sequestro tente acalmá-la,pensou, não a deixe nervosa, por isso deve se aproximar devagar e tente um contato amigável, para não deixá-la em pânico. Por este motivo, desistiu de comprar as bebidas para se pôr em serviço naquele momento. Ele ficou observando o outro o tempo todo e, quando o loiro saiu, ele foi atrás. Pretendia abordá-lo quando estivessem sozinhos, uma vez que ele não queria chamar atenção e temia que alguém se machucasse. Então abordar o rapaz sozinho podia deixá-lo mais propício a contar o que estava havendo.
Lukas não se lembrava muito do caso do outro. Na verdade, ele nem fazia ideia de quem era aquele rapaz de verdade. Só sabia o primeiro nome, porém duvidava muito de que fosse só aquilo. Seu trabalho ia se resumir a pegá-lo e levá-lo até a delegacia mais próxima para depor. Algo fácil de conseguir, foi o que julgou. Seguiu o suposto refém até o estacionamento. O rapaz parecia nervoso com algo e com passos rápidos e sutis o norueguês conseguiu alcançá-lo.
- Licença, senhor, mas está tudo bem com você? – podia parecer uma pergunta inocente, mas como policial ele havia aprendido “truques” para entender o que se passava com a vítima ou com o refém.
O outro encarou Lukas com surpresa, mas logo sua expressão mudou para algo como hesitação e um pouco de desconfiança. Não era comum ser parado na rua com aquela pergunta. Geralmente as pessoas queriam somente saber a localização de algum lugar específico. Apenas policiais perguntavam como as pessoas estavam. Isso... se eles desconfiavam de algo. O maior engoliu seco, não esperava encontrar um policial ali e tinha medo de algo sair errado, pois não era de seu desejo chamar aquele tipo de atenção. Ele estaria bastante ferrado se as coisas fossem para este rumo. Então que pensou Por que não? Talvez se pedisse ajuda a um policial, ia ter menos problema e teria a lei de proteção ao seu lado.
- O senhor sabe falar? – Lukas insistiu, ficou tenso ao pensar que o outro era surdo. Isso iria prejudicar ainda mais seu trabalho, afinal não queria deixar o outro em pânico. Juntando toda a sua paciência, o menor refez a pergunta. – O senhor fala a minha língua? – tentou mostrar tranquilidade, como se ele estivesse apenas realizando algum procedimento de rotina e não havia seguido o outro até ali, o que era uma total mentira.
Novamente, houve silêncio, o dinamarquês não parecia propício a confiar no menor e por esse motivo se mantinha daquela forma. Sendo sincero, ele estava ficando encantado com a beleza do norueguês. Este não era tão pequeno e delicado assim, mas parecia ser um jovem bastante dócil, mesmo sendo da polícia. Com esse pensamento, acabou esboçando um sorriso, o que fez o outro não gostar daquela situação. Lukas já estava ficando irritado e teve que se segurar para não pegar o outro e arrastá-lo até a delegacia de polícia. Ele só não tomou essa ação porque ouviu um barulho estranho vindo do carro do outro.
- O que tem no carro? – o norueguês olhou de forma séria para o outro, já havia até mesmo sacado a arma. Não ia atirar, mas também não queria correr o risco de ter alguém armado lá tomando conta do refém. – Vamos, o que tem no carro? – Lukas não gritou e nem alterou a voz, o seu treinamento pesado havia lhe ensinado a manter a calma e concentração nos momentos difíceis, então ele não ia se irritar com o outro.
- Não há nada que deva se preocupar, policial – Mathias levantou as mãos mostrando que não tinha intenções de criar problemas, porém vendo que o outro não ia deixá-lo em paz resolveu cooperar. — Eu não quero prejudicar ninguém, apenas desejo tirá-lo daqui – ao dizer isso abriu a porta do veículo e deixou que o outro visse um alienígena no banco de trás.
Quando olhou bem para a criatura do outro planeta ficou confuso e surpreso. Pela primeira vez naquela semana, ele demonstrou uma expressão sem ser aquela indiferente que usava sempre. O ser tinha uma cor um pouco esbranquiçada, quase transparente; seus cabelos, assim como suas pernas, mais pareciam ser tentáculos – a única diferença é que nas pernas os tentáculos eram maiores e mais grossos. Seus braços eram longos e finos e suas mãos eram um pouco semelhante à de um humano, com a diferença que tinham três dedos. Olhando seu corpo, viu que ele era muito magro e fino. Ele estremeceu quando notou o líquido cremoso que escorria dele.
O norueguês chegou a congelar por alguns minutos. Ele estava acostumado a lidar com situações de risco, no entanto, nunca havia sido treinado para aquela situação. Ter um viajante-extra – termo gentilmente usado para se designar a pessoas de outros planetas — em sua frente, sangrando, não estava em seus planos de estudo. Quando finalmente teve capacidade para realizar movimentos e falar, abaixou a arma com calma e encarou o outro humano como se indignasse o que ele estava fazendo com aquilo em seu carro, que provavelmente fora roubado.
Mathias sorriu como resposta. Foi um sorriso um pouco forçado, aquele sorriso que você costuma dar quando fica sem graça e tem que explicar uma coisa confusa e/ou complicada para uma pessoa superior.
Antes de o menor conseguir abrir a boca, Mathias viu algo que o assustou. Com movimentos rápidos e precisos, jogou Lukas dentro do carro. Em seguida, fechando aquela porta de trás e abrindo a da frente, ele sentou-se no banco do motorista e ligou o veículo com a intenção de fugir. Aquilo surpreendeu o norueguês que tentava a todo custo brigar com o mais velho. Não gostou da ideia de estar sendo raptado por um refém, aquilo o irritava, apesar de não tanto quanto o fato de que havia um alien perdendo sangue ao seu lado.
- O que pensa que está fazendo, seu grande estúpido? – Lukas olhou para o mais alto, todavia antes que pudesse colocar mais um doce adjetivo no outro, percebeu o que estava acontecendo. Eles estavam fugindo.
- Eu te explico depois, mas, por favor, mantenha a calma – o dinamarquês se manteve concentrado na estrada o máximo que pode. Eles ficaram dando algumas voltas sem destinos pelas ruas escuras até finalmente resolverem parar.
O policial se perguntava o que poderia está acontecendo ali. Teve um pouco de medo do rapaz e segurou firme sua arma, considerando que o dinamarquês podia muito bem matá-lo ali e sumir depois sem deixar rastros. Embora fosse forte e treinado em técnicas de combates, Lukas sabia bem que em uma briga contra aquele rapaz, ele estaria em desvantagem. Não precisava ser um especialista em matemática ou cálculos para notar a sua grande possibilidade de derrota.
No entanto, ficou mais tranquilo quando viu que o outro estava tirando coisas dentro da sacola para fazer um curativo no machucado daquele viajante interplanetário. Ao terminar, o motorista saiu do carro, andou até a porta ao lado de Lukas e a abriu. Com gentileza disse:
- Você poderia passar para o banco da frente, policial? – os olhos do dinamarquês demonstravam que ele não queria problemas e, por este motivo, Lukas cooperou com ele, saindo de dentro do carro e entrando novamente, só que dessa vez no lugar do motorista.
Ao se sentar perto do volante, o primeiro impulso que teve foi de ligar o carro e sair dali, contudo controlou-se e resolveu esperar para ver o que o outro ia fazer em relação a tudo aquilo, tendo em conta que ele ainda não havia recebido uma explicação. Acabou por prestar atenção apenas no loiro. Em algum lugar na mente do policial, uma voz dizia Ah, como ele é bonito. Mathias parecia tão concentrado em seu trabalho que logo Lukas notou o que ele era. Ele era um médico, e não era qualquer médico, era um especialista em cuidar de seres de outro planeta.
Que pessoa normal ia saber as coisas necessárias para cuidar daquele tipo de ferimento? Ao observar melhor, Lukas percebia que sangrava muito e o outro estava tentando cuidar disso, ao mesmo tempo em que cuidava para o ferimento não infeccionar. Era um trabalho delicado e complicado e desejava sorte ao maior.
Olhou para fora do carro e viu um outdoor que mudava a imagem a cada dois minutos, no qual aparecia notícias também, às vezes em letrinhas miúdas e outras vezes em grande destaque. Quando viu as horas percebeu o porquê de está com tanto sono, já se passava da meia noite e ele nem sabia que horas ia chegar em casa. Para dizer a verdade, ele não fazia ideia de onde estava e com quem ele realmente estava.
Vendo que não tinha mais jeito, colocou a mão no bolso e tirou de lá um pequeno aparelho preto, colocando-o em cima do outro banco e ao apertar o botão, formou uma imagem de teclado e tela. Lukas começou a checar os dados da polícia enquanto tentava descobrir mais sobre o seu “sequestrador”. Suas dúvidas foram confirmadas: Mathias era mesmo um médico, estava sumido fazia exatamente três meses e, como não tinha parentes vivos, ele já estava quase sendo declarado morto. O outro parecia não se importar com o que Lukas estava fazendo, então o mesmo continuou revisando os casos antigos e conferindo pistas novas. Parecia até uma grande mentira o que ele fazia, mas aquilo era total realidade. Ele estava mesmo conferindo seu dever como policial enquanto era sequestrado.
Quando o outro finalmente parou de mexer no machucado daquele ser, virou-se para Lukas e pela primeira vez naquela noite, tentou abordá-lo diretamente. Era óbvio que o norueguês notou aquela tentativa frustrada de manter um diálogo, por isso o encarou reunindo todas as suas forças para ficar calmo. Seria uma longa e difícil noite.
- O senhor poderia fazer o favor de desligar sua escuta? – o dinamarquês sorriu sem graça. Ele sabia que policiais costumavam andar com escutas escondidas em suas roupas. Era uma forma de precaução para o caso de testemunharem alguma coisa ou serem assassinados.
Lukas fitou o outro por alguns instantes. Aquele loiro parecia saber bastante de como funcionava as coisas. O norueguês estava começando a desconfiar que era o maior quem estava com escutas.Talvez ele seja um agente e esteja trabalhando disfarçado, pensou, enquanto tirava o casaco e o jogava pela janela.
Podia parecer uma ação estranha, mas em seu casaco estava uma escuta, um localizador e sua identificação como policial. Ele queria ter a confiança do outro, então julgou atender ao pedido do maior o mais certo a se fazer. Mathias observava tudo com atenção e quando viu o outro se despindo, embora fosse uma simples peça, ele sorriu um riso com uma pitada de malícia. Com certeza ele gostou de ver o outro tirando a própria roupa.
- Vai me contar o que está acontecendo? – Lukas preferiu ignorar aquele sorriso “presunçoso”, não gostava de brincadeira e já havia passado do horário de ele ir dormir, ou seja, estava de mau humor.
Houve um pouco de hesitação do outro. Por um momento, o dinamarquês pareceu querer fugir dali ou quem sabe deixar Lukas no meio da estrada sozinho. Entretanto, logo recobrou a consciência e se perguntou: Por que não? Afinal eu já estou bastante encrencado mesmo.Com este pensamento, ele tomou a iniciativa de contar a verdade. Ou parte dela.
- Eu sou um médico especialista em seres não-humanos – ele fez uma pausa buscando as palavras e depois continuou. – Também trabalho com tecnologia e criação de seres não-biológicos – confessou um pouco triste.
Lukas logo entendeu do que se tratava. Ele era uma miragem. Ele entendia sobre a vida e a copiava em seu laboratório, mas não era apenas isso que uma miragem fazia. Eles também eram bastante conhecidos pela polícia como médicos clandestinos, fabricantes de armas e drogas e até mesmo vírus.
Diferentes dos looppers, as miragens geralmente eram pessoas pegas quando crianças por criminosos, geralmente porque os pais os deviam dinheiro ou precisavam do dinheiro. Após serem pegos, eles eram criados e preparados para trabalharem dentro do submundo. Muitos deles conseguiam comprar sua liberdade, entretanto, nunca viviam o suficiente para aproveitá-las.
Em resumo, looppers escolhem ser o que são. Miragens, por sua vez, são levados a força. Entretanto, todos têm o mesmo ponto de partida: uma infância estranha. Sem falar que às vezes a linha entre eles era tão fina que sequer dava para distinguir, este era o caso de Toris. Mathias explicava a Lukas como havia conseguido fugir deles e começado seu trabalho como médico, também explicou que havia ficado com eles apenas até os quinze anos e fugido. Contou da forma estranha que sua casa fora invadida e ele foi levado novamente para aquele mundo.
No entanto, o que surpreendeu o detetive foi quando o outro começou a relatar o que estavam fazendo daquela vez. Lukas chegou a estremecer quando soube que estavam tentando misturar DNA humano com DNA extraterrestre e ainda mexer com coisas mecânicas, aquilo era um absurdo e violava todas as leis de paz do universo.
Enquanto o dinamarquês relatava como eram feitas as transições e os testes, Lukas teve vontade de levá-lo a delegacia naquele momento, mas o norueguês percebeu o motivo do outro pedir para remover a escuta. Mathias estava muito envolvido com tudo aquilo. Tanto looppers quanto as miragenseram ilegais.
Mathias também contou como conseguiam dinheiro para subornar alguns corruptos. O norueguês ficou assustado quando percebeu que tudo o que o outro disse batia perfeitamente com o assalto que ocorrera mais cedo – no qual ele havia conseguido pegar um dos ladrões. O dinamarquês falou por uma hora, praticamente, relatando tudo o que sabia e ao terminar, suspirou. Não estava cansado, mas sim feliz por finalmente estar livre de todas aquelas informações e “pecados”.
- Você tem como provar o que me disse? – a voz do menor saiu baixa, ele estava tão confuso que mal sabia o que devia fazer ou dizer, apenas seguiu o protocolo ou o que sobrou do mesmo.
- Ele, ele acabou engolindo uma das provas, se quiser mesmo checar, leve-o ao médico e faça os exames e verá – olhou para o alien ao seu lado, que agora parecia descansar. – Eu ainda não sei bem o que ele fez, mas todas as provas estão dentro dele – continuou – É como um jogo para eles e não tem apenas humanos metidos nesta destruição de raças. Também há vários extraterrestres no meio disso. — ele fez uma pausa, estava um pouco inseguro de confessar tudo a Lukas, contudo havia gostado fisicamente do rapaz. – E como eu já disse, policial, eu fui apenas criado para cuidar dos feridos desta batalha.
- E dá para recuperá-lo? Tipo, salvar os que estão em cativeiro? – Lukas suspirou fundo quando ouviu aquilo, parecia que estava bastante encrencado dessa vez.
- Às vezes, não. Eles não só fazem experiências genéticas com eles por lá, como também tiram os seus órgãos ou até os vendem como escravos. – o dinamarquês sabia que estava bastante comprometido daquela vez, não havia para onde fugir, o loirinho ia certamente avisar a polícia e ele seria preso e morto por seus crimes.
Lukas bateu a cara no volante, nunca ia imaginar a forma que estava fracassando em seu trabalho. Ele havia se tornado policial para cumprir a lei e manter a segurança dos cidadãos, mas agora via que estava fracassando, e muito, na verdade. O problema era perceber que tudo o que o loiro dizia realmente tinha como provar. Os sequestros, os roubos, a estranha aparição de cadáveres não identificados para ninguém, tudo. Graças à explicação do outro, ele entendia que tudo era um grande e complexo quebra-cabeças.
Quando sua mente clareou, ele notou algo que não havia percebido antes. Se esses criminosos eram tão bons assim, então Toris e Feliks estavam correndo perigo, afinal eles estavam com aquele “papel” em sua casa. Sem dar explicações, ao dinamarquês ligou o carro e acelerou, precisava chegar à casa do castanho o mais rápido possível.
Ignorando todas as leis de trânsito, Lukas corria com o carro mais rápido que podia, sem dar importância para freios. Mathias teve que se segurar firme para não ser levado junto do carro, um momento batiam em um poste, no outro em uma lata de lixo. Com muita dificuldade, ele se sentou ao lado do banco do motorista, estava ofegante e confuso. Quando finalmente pararam, estavam em frente a uma casa simples, onde o norueguês carregou a arma e chutou a porta para baixo. Se alguém ameaçasse aqueles dois, ia se sentir culpado pelo resto da vida.
Para a sua surpresa e felicidade, os dois estavam em perfeitas condições deitados na cama. Toris olhava para Lukas com uma face sonolenta e confusa, enquanto seu namorado parecia querer xingar Deus e o mundo. Mathias veio logo atrás confuso também, e os olhos de todos se repuseram para Lukas.
Após aquele susto, todos estavam na cozinha. Mathias havia acabado de deixar o não-humano no quarto de hóspedes e ainda olhavam para Lukas, esperando alguma explicação. O norueguês começou a contar tudo o que havia entendido e também relatou sua preocupação em relação a casa de Toris, o que explicava suas ações.
Depois de tudo se resolver, Toris cedeu o sofá para que os dois visitantes inesperados dormissem. Eles iam passar apenas uma noite ali e quando o Sol surgisse, tomariam os seus caminhos separadamente. Por um breve instante, Lukas ficou um pouco sem jeito ao pensar naquilo. Estava se sentindo atraído pelo dinamarquês, de uma forma estranha, mas estava. Lukas agradeceu pelo amigo tê-los deixado dormirem na sala, deitou-se no sofá e Mathias no chão. Os dois loiros não estavam conseguindo dormir. Parecia que mesmo com aquela noite cansativa e agitada nada ia fazê-los dormir.
Na verdade, Lukas havia ficado preocupado com o maior, pois quem iria cuidar para que Mathias não caíssem de novo nas mãos de pessoas más? Quem ia protegê-lo e cuidar para aquele sorriso nunca sumisse? O norueguês estava começando a sentir atraído pelo outro, julgava ser apenas desejo de seu corpo. Não era estranho homens terem desejos pelo mesmo sexo naquela época, alguns diziam de passagem, outros apenas tinham uma experiência e alguns, os casos mais radicais, eram o que se assumiam e passavam o resto da vida naquilo.
Tentou ignorar os seus sentimentos. Devem ser apenas desejos, pensou enquanto se virava pela quarta vez no pequeno sofá verde.
- Policial – a voz vinha do chão, pertencia a Mathias e, pelo visto, ele estava querendo conversar.
- O que foi, Mathias? – Lukas falou após praguejar contra todos os deuses nórdicos.
- Se a gente se conhecesse em outra ocasião, você toparia sair comigo? – a pergunta foi bastante direta e bem clara, e ao mesmo tempo ela soou um pouco vaga para Lukas.
O menor não respondeu, uma vez que ele não havia compreendido o que o outro queria dizer com aquilo. Ele teria um dia cheio pela frente e mesmo que estivesse preocupado com o outro e sentindo um pouco de desejo, não ia querer alimentar falsas esperanças. Porque não sabia se o dinamarquês o queria como amigo ou em um relacionamento sério e mesmo se fosse para relacionamentos, Lukas não saberia dizer se estava pronto ou não para aquele passo.
O policial sabia que se tivesse um relacionamento com o outro seria problemático. Desde que entrara na academia, ouvira histórias de coisas terríveis que aconteceram a policiais que se apegaram às vítimas ou reféns de seus casos. Todos pareciam ter um fim trágico. E quando ocorria um caso que não tivera um fim ruim, geralmente o homem da lei saía do serviço. Podia parecer absurdo, mas sempre fora avisado para nunca, em nenhuma ocasião, se deixar envolver por qualquer tipo de relacionamentos com a vítima.
Para alguns era um paradoxo e até podiam sugerir que colocassem androides lá em vez de humanos, mas a verdade era que: humano confia mais em humano. Ninguém sabia explicar ao certo, talvez aquilo seja algo emocional, porém era a verdade. Por mais distante e solitário, o humano necessita de carinho e atenção. Algo que Lukas odiava relembrar. Ele preferia permanecer onde estava, apenas vendo todos felizes e ele protegendo esta felicidade. Parecia altruísta. Como nunca encontrou um lugar no qual poderia se sentir bem, ele garantia que os outros poderiam se sentir bem. A mente do norueguês parecia confusa para muitos, entretanto, Lukas a achava simples e se perguntava como as pessoas podiam ser tão estúpidas.
Por fim, o sono o venceu, fazendo-o adormecer contra sua vontade. Às vezes desejando que o dia não chegasse, porque estava com medo da separação em relação ao Mathias e outras vezes querendo que tudo fosse um sonho. Todavia, sabia que era impossível as suas vontades darem certo.
Xxx
Lukas andava pelos corredores de sua casa nova. Havia comprando-a com o salário de sua promoção no trabalho. Sua grande façanha de descobrir e provar os crimes hediondos que estavam ocorrendo em seu planeta há três anos havia feito dele um dos maiores e mais honrosos protetores da paz. Estava sendo respeitado por todos, havia conseguido passar de um simples detetive para um grande chefe de polícia e agora estava trabalhando para a segurança nacional, isso quando ele não fazia uns trabalhos extras para a assembleia das galáxias. Olhou para as paredes, todas com papéis de parede belos de cores um pouco neutras, nada extravagante; o chão era de madeira e ele fazia um barulho de acordo com os passos do loiro.Talvez seja para dar aquele clima de casa velha e confortável, pensou.
Embora não parecesse, havia muita coisa tecnologia naquela casa. Tudo parecia “ligar” automaticamente quando ele ia chegar perto, as cortinas e janelas se abriam no horário que eram programadas, o café estava sempre pronto quando ele chegava na cozinha. Além de ser uma daquelas casas climatizadas que se adaptavam o clima interno ao gosto do morador. Tudo fora criado e construído para o prazer de Lukas ou para quem quisesse comprar a casa, mas ainda assim o menor permanecia indiferente a todos.
Sendo sincero, naquela manhã em que acordou sozinho na sala, coberto pelo grosso casaco do dinamarquês e com uma presilha em forma de crucifico no meio dos fios dourados de seu cabelo, Lukas havia se dado conta que deveria ter dito “Sim” ao outro. Talvez parecesse loucura, mas ele gostaria de ter dito “Sim, eu saio com você”. Aquele arrependimento o acompanhou o resto do dia, desde que levara Tony – era como se chamava o extraterrestre — à delegacia para dar o depoimento. Talvez aquele tenha sido o dia mais agitado de sua vida, porém Lukas tentava entender o porquê do outro ter deixado aquelas coisas consigo.
Colocou a mão na cabeça, sentindo com os dedos a presilha que havia ganhando enquanto dormia. De vez em quando, pegava o casaco do outro apenas para sentir o perfume dele. Havia conversado várias vezes com Tino, um amigo finlandês pelo qual tinha muita consideração, sobre aquelas estranhas coisas e a resposta o deixou um pouco irritado, afinal ele havia compreendido que estava amando um idiota que mal conhecia. E que talvez nunca fosse conhecer. Sentou-se no sofá macio e branco. Ele não estava a fim de conversas. Sempre que se lembrava de Mathias e qualquer coisa relacionada a ele, ficava irritado. Tinha vontade de espancá-lo ou explodi-lo.
Para a surpresa do norueguês, bateram na porta. Como Lukas não estava esperando ninguém, ficou apreensivo em abri-la. No entanto, após a quinta batida, resolveu se levantar do sofá e ir atender. Arrastou-se até lá e quando se aproximou da porta até parecia que alguém estava fazendo um baita batuque com ela.
- Eu não quero comprar nada – disse quando abriu. Ele pensou se tratar de um vendedor chato, por isso não se deu o trabalho de olhá-lo corretamente.
- Mas, policial, não vai nem me deixar entrar? – a voz era irreconhecível, soou tão forte e penetrante para o menor, que o mesmo chegou a estremecer levemente. – Desculpe por eu ter sumido, policial, mas eu precisava resolver algumas coisas.
- M-Ma-Mathias?
- Shiii – O maior colocou dois dedos por cima dos lábios do outro, silenciando-o. – Eu me chamo Alexander agora, policial. Gostaria que você não usasse esse nome antigo comigo – o loiro sorria descaradamente. Estava feliz e ao mesmo tempo tranquilo. Sem pedir permissão, foi invadindo a casa alheia e pelos seus passos percebia que a conhecia tão bem quanto a palma de sua mão. Virou-se para o outro, sorrindo e então proferiu: — Não vai entrar, Lukas?
Notas finais
Espero que tenham gostado tanto quanto eu^^
Beijos ~
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