Verdade
3 Amnésia
Já havia duas horas que o estranho estava desacordado repousando na minha cama.
Durante esse tempo eu coloquei meu dedo indicador e do meio no seu pescoço para ver se ainda estava vivo. Rezava por isto.
Mas eu não sentia nenhuma pulsação, e seu corpo estava gelado. Fiquei com muito medo. Ter um morto do meu lado não é algo que eu faça todos os dias. Sentir que há alguém já sem vida ao seu lado, e que nunca irá voltar a ela. Ficar se perguntando quem era, o que fez...
Mas eu ainda queria muito ele vivo. Olhei para o seu peitoral, e percebi que se movia.
Ele estava respirando.
Perguntei-me como poderia estar respirando se sua pulsação já havia cessado. Coloquei meu dedo indicador embaixo do seu nariz e pude notar que realmente saia carbono de lá. Mas era um ar frio, provavelmente por conta de sua temperatura corporal.
Chamei duas criadas e as pedi que trouxesse uma roupa de baixo, calça e sapatos sociais, terno e uma gravata borboleta. Queria vê-lo vestido bem, ou ao menos aquecido, eu estava preocupado.
Elas se retiraram rapidamente e pediram com licença. Provavelmente foram fofocar para as outras criadas sobre o novo convidado.
Depois que elas se foram após entregar as roupas, eu mesmo fiz questão de vesti-lo apropriadamente. Claro, deu um belo trabalho por conta da diferença de altura.
Deitei-o na cama de casal do meu quarto, e deitei ao seu lado.
Durante essas duas horas de espera, fiquei jogando Pou e outros jogos de paciência no celular, esperando ele acordar.
Não me preocupava com atividades para casa do colégio, ou assunto para as provas. Um professor particular vinha duas vezes por semana até a mansão e me dava aulas. Eram melhor do que qualquer professor do melhor colégio que eu estudava, então não era problema entender o assunto.
Hoje não era dia de aulas de reforço, então eu simplesmente ficava entediado. Já que não tinha amigos por perto, somente no colégio, eu não podia fazer muita coisa dentro de uma fortaleza da qual eu morava.
Quando eu finalmente passei de uma das fases mais difíceis de um jogo de celular, comemorei avidamente em voz alta, deitado na cama.
-Parece que vai ganhar pontos extras por isto. — Calmamente, disse o cara estranho.
Eu me assustei, e notei que ele estava olhando para o teto, com as duas mãos juntas em cima do seu abdômen, deitado.
Levantei-me da cama, e fiquei o encarando por um tempo. Como ele sabia que eu estava jogando? E como sabia que eu iria mesmo ganhar pontos extras?
-Desde quando você está acordado? — Perguntei ainda pasmo.
-Eu queria já ter ido para a cama há muito tempo... — Novamente disse em um tom de voz calmo, sem nenhuma expressão.
-Hã?
-Qual o seu nome, garoto?
-Demo... — Respondi. — É falta de educação não se apresentar antes de fazer perguntas como estas. — O repreendi.
-Ah! Onde estou com a cabeça... — Virou o seu corpo, e ficou deitado de lado. — Prazer, Demo. Meu nome é Henri.
-Henri... Quem é você?
Eu ainda estava em pé com o celular na mão, olhando para ele como se nunca fosse o suficiente.
De repente, seu sorriso que antes tinha aparecido ao apresentar seu nome, sumiu. Sua expressão ficou duvidosa, pensativa, e então lágrimas começaram a cair da sua face.
-Q-Quem sou eu...? — Perguntou em um tom choroso.
Derrubou sua cabeça sobre o travesseiro e então se pôs a chorar como um bebê.
Além de estranho, parecia ser bipolar. Lembro-me que bateu sua cabeça na privada quando escorregou no banheiro. Talvez estivesse com amnésia...
-É... Calma, você não se lembra de nada? — Perguntei um pouco desajeitado e sem entender a situação.
-Não... — Sua voz estava sendo abafada pelo travesseiro que esfregava no rosto, tentando esconder sua expressão vergonhosa de choro.
-Fiquei aqui, eu já volto. — Avisei.
No que eu estava preocupado? A mansão tinha centenas de quartos, quando saísse nunca mais iria encontrar o meu quarto novamente, talvez ficasse dias perdido e sem sinal de vida pelos quartos.
Mas por precaução, tranquei a porta assim que saí se fininho do quarto.
Fui até a cozinha, onde geralmente conheço pelo ninho das criadas. Sempre conversando, fofocando, e pouco trabalhando, afinal, praticamente só eu moro nesta mansão.
-Urhum. — Fiz um som do qual geralmente é usado para se limpar a garganta, para ver se elas pudessem parar de falar por um momento e prestar atenção em mim.
-Ah, Jovem Mestre. Precisa de alguma coisa?
Todas ficaram assustadas, nunca iriam imaginar que eu iria me dirigir até um lugar com tanta gente como aquele.
-Quero lenços de papel e alguma comida saborosa, de preferência um lanche. — Avisei.
-Claro, Jovem Mestre, em um instante. — Falou apressada, uma das criadas.
Voltei para o quarto já com um pacote de lenços de papel e um sanduiche de peru com legumes e queijo. Será saboroso...?
Destranquei a porta e me deparei com Henri mexendo nas minhas coisas como uma criança num parque de diversões.
-Henri... Eu trouxe comida.
-Não estou com fome! — Disse orgulhoso, como um bebê.
Em menos de um minuto, estava sentado na minha cama, comendo como um mendigo esfomeado. Sentei do seu lado.
-Bem... Eu tenho algumas perguntas para fazer, se não se importa. — Disse ainda um pouco incerto.
-Pódche fater.
Deveria significar “Pode fazer”, provavelmente... Com a boca cheia não dava para falar direito, muito menos escutar.
-Quando você ainda estava inconsciente, seu corpo parecia estar muito gelado, e o ar que você soltava também. Você não é daqui, não é...?
-Eu estava gelado? Eu não sei por quê...
-Do que você se lembra?
-Meu nome é Henri. Tenho vinte e dois anos e lhe conheço de algum lugar.
-Só isto? — Perguntei.
-Só.
Bem, então pode comer o quanto quiser. Se ainda estiver com fome eu chamarei alguma criada para lhe trazer mais comida. Eu estava decepcionado.
Esperava que ele soubesse de algo a mais, que fosse me surpreender ou coisa do tipo, mas no final, ele não lembra nem mesmo quem é.
Deitei-me de lado na cama, de lado contrário a ele, olhando para a janela.
-Vou chamar um médico amanhã para ver se você lembra-se de alguma coisa.
-Tudo bem. — Respondeu.
Sem ao menos perceber, caí no sono. Depois de um dia cheio como este e final de semana de provas eu estava acabado.
Sonhei com fadas, anjos, e com criadas tomando banho na minha jacuzzi. Foi mais um pesadelo. Deteste sonhos como estes. Sempre fico imaginando poder ter alguma coisa mágica ou parecida, mas eu sempre me irrito comigo mesmo, pois não passa de perda de tempo ficar sonhando como sempre faço...
No meu sonho as criadas saiam correndo, mas de repente eram congeladas. As fadas viravam fadas do gelo e os anjos começavam a cristalizar suas asas.
Eu senti um frio nos pés e finalmente acordei.
Quando acordei ainda estava muito sonolento como sempre, mas de bom humor para um sono da tarde.
Os meus pés estavam muito gelados, ao menos era o que eu sentia. Quando realmente me dei conta, não eram somente os meus pés que pareciam estar gelados.
Todo o meu quarto parecia ter ficado horas na temperatura abaixo de zero. Estava tudo totalmente congelado, e eu estava pestes a fazer o mesmo se passasse mais tempo ali dentro.
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