Verão de 2012
1 único
No final do ano de 2012 o mundo iria acabar, mas Cassie ganhava uma nova oportunidade para ajeitar sua vida. Voltara a estudar numa escola técnica e especializada na área de informática. Quando Cassie lembra dessa época, ela lembra de algumas coisas e muitas são até boas. Ela lembra de pegar um ônibus cheio e de sempre pegar trânsito na volta para casa. De alguma forma, Cassie conseguia se sentar num assento e ela desejava isso profundamente, porque precisava ouvir um disco ou até três, era uma de suas necessidades para viver e era agradável enquanto observava a janela e não prestava atenção nas imagens. Naquela época a primavera acabava e o verão começava, o céu ainda estava claro e ela escutava Deerhunter, Sonic Youth, Kate Nash e tentava gostar de Adore do Smashing Pumpkins. Às vezes ouvia os berros de Midori ou as guitarras distorcidas de J Mascis.
Essa era uma memória agradável e que ela guardou em seu peito. Era tão prazeroso ouvir essas músicas sob o céu azul, que até mesmo chorava. Há pouco tempo ficava presa no apartamento de seus pais o dia inteiro e azul era sua cor favorita. Outra memória de que gostava tanto era das corujas no gramado do terreno amplo antes do prédio da escola, ela andava na trilha de terra batida, enquanto as corujas lhe encaravam de onde havia capim.
Nunca havia visto corujas tão próximas de si. Nessas horas, Cassie pensava o quão agradável era o ambiente escolar. Também gostava de ouvir música debaixo de uma árvore robusta num declínio com dois bancos de cimento, algumas vezes se deitava em um. Outras vezes conversava com uma garota do curso, que fizera amizade. Essa garota morreria depois de três anos, e Cassie começou a ter noção de que já vivera o suficiente para ver pessoas especiais morrerem ao seu redor. Seria a primeira jovem e a primeira amiga que ela teria que lidar com a perda. Não chorou, mas achou injusto e sem sentido, parecia que estava lendo a morte de um personagem que gostava tanto em um livro, morte descrita em apenas uma frase "ele morreu", sem mais rodeios e da forma mais dura. Sua boca até mesmo secou como quando lia essa passagem. Tivera a sensação de que encerrar essa vida fora inútil, não servira para um propósito. Exatamente como nos livros, mortes abruptas e que sem elas, o enredo continuaria a fazer sentido. Mais tarde ela compreendeu que as mortes são abruptas e não fazem sentido nenhum, as pessoas se vão e não deixam uma lição de moral pra trás. Não é como acontece nos filmes de Spielberg.
Mas há memórias além das músicas, corujas e a gentileza de sua amiga. Cassie estava tendo uma nova chance de dar certo naquele final de ano em que o mundo acabaria e o verão parecia ser o melhor de todos. Há quanto tempo não via uma área ampla, somente com arbustos no horizonte? O céu azul encostando na terra, e as corujas com suas cabeças viradas lhe observando com curiosidade?
Era o que ela via toda vez que voltava pra casa, quando trilhava o caminho de terra ou quando fugia daquele lugar prazeroso. Descobriu que as aulas não eram obrigatórias e passou a matar muitas. Sua mente dizia "você está fazendo tudo errado, vai deixar mais uma escola" ou "fuja!". Os colegas de sala se preocupavam e ela só se sentia mais culpada, a sensação era de que estava traindo suas bondades. Tudo naquela escola era perfeito e mesmo assim queria fugir pra longe dali. Não entendia por que matava as aulas, mesmo encontrando um colega pela trilha, lhe dizendo "não vá". Mas Cassie continuava a andar e chorava muito no ponto de ônibus, enquanto já ouvia uma música aleatória.
Não fazia o menor sentido deixar um paraíso daqueles, não fazia sentido nenhum. O ambiente era agradável e os colegas eram carinhosos. Não havia bullying e autoritarismo dos profissionais, havia até mesmo uma psicóloga que a atendia. Porém, autossabotagens não têm algum sentido, e não precisa de um sentido para algo acontecer. Largou a escola e nunca compreendeu por que fugiu mais uma vez, talvez Cassie não ache a resposta para essa pergunta. Talvez não há resposta como na morte abrupta de uma jovem inocente e que não fazia mal a ninguém. Não havia sentido e motivo. A vida não tem a narrativa de um filme hollywoodiano.
Cassie acreditava que tudo nesse mundo há sentido e motivo, mas com o tempo pensou que eram ideias conservadoras, que adquiriu de uma educação rodeada por narrativas hollywoodianas. Porém, ela ainda insiste de procurar respostas para suas perguntas.
Fale com o autor