Verão Verde-Azulado
14 Capítulo 14
Notas iniciais
O dia seguinte é exatamente como os anteriores. E o após esse também. Levi e eu não parávamos de falar sobre a viagem, como se tivesse sido o evento mais maravilhoso de todas nossas vidas. E talvez tenha sido realmente.
A semana passa sem nenhum acontecimento especial. Continuamos parando para dar uns pegas um pouco no parque após o trabalho, ainda nos escondíamos atrás dos caixas para nos beijar, ainda falávamos no celular todas as noites antes de dormir. Mas agora nós estávamos namorando, e tudo parecia mais doce e seguro. Como se nós pudéssemos relaxar um com o outro. E isso era incrível.
Na sexta-feira, a Mikasa me diz que o Armin finalmente poderia sair conosco, então marcamos de nos encontrar no cinema no sábado – sim, no mesmo cinema destruído no qual Levi e eu demos uns pegas aquele dia. Eu não estava muito empolgado em passar o dia com eles, especialmente porque isso me impedia de ver o Levi, mas eu vou ainda assim. Pelo menos eu poderia entregar o cartão postal para a Mikasa e eles provavelmente não me chamariam pra sair de novo pelo resto do verão.
Comemos alguns cachorros-quentes, Armin nos conta tudo sobre sua universidade, Mikasa diz tudo sobre seus colegas de classe e seu novo interesse amoroso e eu não sinto vontade de contá-los nada mas sou forçado a fazer isso. Eu não prolongo a conversa, apenas digo o que a Mikasa já sabia sobre eu não estar gostando de meu curso, e o Armin tenta me animar, mas isso me deixa apenas pior.
Eu queria estar gostando da universidade como eles.
Após a conversa, assistimos a um filme ruim e o Armin tem que ir embora assim que ele acaba. “Não some, Eren!” Ele diz enquanto acena.
“Não vou.” Eu respondo, tentando parecer empolgado.
“Sim sim, claro.” Ele ri, indo embora.
Mikasa e eu vamos para casa em silêncio. Eu queria acelerar meus passos, assim eu chegaria em casa mais cedo e ligaria para o Levi, mas ela caminha tão calmamente que eu não tenho coragem de acelerar as coisas.
“Você tá meio distraído.” Ela diz de repente.
“Eu tô?” Eu dou de ombros, rindo de leve.
“Totalmente.” Ela arqueia uma sobrancelha. “Pensando em alguma coisa em particular?”
“Não, não, nada disso.” Eu tento desviar o assunto, me sentindo estranho.
“Você nem quis falar sobre sua situação com o Armin. Você já decidiu o que vai fazer? As férias de verão tão quase acabando, logo as aulas vão começar...”
“Ah, nem fala disso.” A ultima coisa que eu queria pensar era nas aulas. Eu não havia decidido nada ainda, e eu não queria aceitar o fato de que eu teria que deixar o Levi para ir a um lugar que eu nem queria estar. “Acho que eu só vou ver como as coisas serão.”
“Isso é bem típico de você.” Ela ri. “Mas você tem que tomar uma decisão, senão vai ficar na mesma situação de antes.”
“Sim.”
E nesse momento meu celular começa a vibrar em meu bolso, e eu o pego rapidamente. Era uma mensagem do Levi, toda em caixa alta.
“MEU TIO VAI SAIR POR UM TEMPO!!! VEM AQUI AGORA”
Meu coração palpita em meu peito enquanto eu guardo meu celular de volta no bolso. Mikasa me olha, curiosa. “Eu tenho que ir.” Eu digo antes que ela pergunte.
“Alguma coisa aconteceu?”
“Não, não, eu só...” Eu começo a andar de ré. “Eu te vejo depois.”
E então eu me viro e saio correndo feito louco. Sim, eu estava assim tão ansioso.
E eu chego à casa do Levi e o encontro esperando na porta. Ele apenas a abre completamente para mim, e nós a fechamos com força e começamos a nos beijar.
“Meu quarto—“ Ele aponta para as escadas.
Eu não sei como nós conseguimos subir sem rolar escada abaixo. Eu apenas dou uma olhada rápida em torno do quarto do Levi, já que nunca havíamos estado lá – era bem simples, apenas alguns pôsteres nas paredes e um armário – e nós caímos na cama, já nos despindo.
Assim que estamos completamente nus, Levi muda de lugar comigo e fica sobre mim. Vê-lo sentado sobre minha virilha era bastante agradável.
“Quer tentar algo novo, Eren?” Ele pergunta, mordendo o lábio.
“Uh, sim.” Eu sorrio.
Então ele desliza para baixo e me faz um oral. Claro que eu assisto e claro que era a coisa mais quente do mundo. Eu estava muito excitado para pará-lo para perguntar sobre usar camisinha, mas ele não parecia preocupado com isso.
Eu não duro muito, então ele logo desliza de volta para cima.
“Nossa, Levi...” Eu respiro pesado enquanto ele deita sobre meu corpo. “Nossa.”
“Não tenha um infarto, eu ainda preciso de você.” Ele ri.
“Sim, sim, eu vou fazer o que você quiser.” Eu o abraço, acariciando suas costas.
Ele levanta a cabeça para me encarar com um olhar malicioso. Eu realmente me perguntava aonde ele aprendeu a fazer essas expressões tão quentes.
“O que acha de entrar em mim?”
Eu quase instantaneamente fico duro ao ouvir isso.
“Eu posso te machucar.” Eu digo, tentando controlar minha ansiedade. “E eu, uh, não tenho nenhuma camisinha...”
“Nós precisamos disso?” Ele se inclina e começa a beijar meu pescoço. “Nós dois somos virgens...”
Por mais que eu quisesse simplesmente dizer ‘sim, vamos fazer isso’ eu não consigo. Isso era demais. “Eu podia ir comprar uma...” Eu acabo dizendo.
“Não, então esquece. Eu não sei quando meu tio vai voltar, e eu não quero perder mais tempo.” Ele diz, soando bastante frustrado.
Seu tom quase me faz mudar de idéia, mas eu apago esse pensamento de minha mente. E outro pensamento logo toma seu lugar. “Bom, eu posso usar meus dedos.” Eu sugiro em um suspiro.
Ele levanta a cabeça de novo, sorrindo. “Isso vai servir.”
E, é, nós aproveitamos do jeito que deu. Na verdade eu gostaria de fazer qualquer coisa sem roupas com o Levi, então, para mim, isso foi incrível o suficiente. Só quando eu insiro meus dedos nele que eu noto o quão ele gosta disso, então agora eu sei como ele está ansioso para uma ação de verdade.
Após a empolgação ir embora, nós apenas ficamos abraçados, ainda nos beijando suavemente, até que escutamos o carro de seu tio chegar à garagem e eu ter que me vestir correndo pra sair dali. Era um tanto desafiador fugir pela árvore em frente à sua janela, mas eu consigo descer por ela sem um arranhão.
Vou para casa me sentindo no céu. Estar com o Levi me fazia esquecer todos os problemas e acreditar que a vida poderia melhorar, de alguma forma.
Mas o sentimento dura somente até eu chegar em casa e ver a Mikasa me esperando na varanda.
“Mikasa?” Eu caminho até ela, franzindo a testa.
Ela se levanta e caminha até mim também, parecendo séria.
“Eu tenho algo pra te contar.” Ela diz com sua voz trêmula. “E-Eu segui você. Eu sei o que você e o Levi estão fazendo e eu preciso te alertar sobre uma coisa.”
Sinto minhas bochechas queimarem com sua frase.
“O-O que quer dizer?” Eu rio, tentando parecer confuso.
“Tá tudo bem, Eren, sério.” Ela diz, e eu congelo. “Se fosse qualquer outro cara no mundo eu te apoiaria. Mas é o Levi, e tem algo que você precisa saber.”
“O que é, Mikasa?” Eu fico ansioso.
Ela pausa, olha em volta, e parece tentar encontrar uma forma de me contar. Isso apenas me deixa mais ansioso, o que diabos ela tinha pra me contar sobre o Levi? Ele já me contou tudo sobre sua vida, não podia ser algo que eu não soubesse.
“Olha...” Ela começa, cochichando. “Eu vou te contar isso porque você é meu melhor amigo e eu te amo. E eu não quero te ver em perigo.”
“Você tá me assustando.”
“Você precisa sempre fazer tudo com segurança com o Levi.” Ela fala de uma vez. “Se é que você me entende.”
Mas que merda é essa. “Mikasa, o que você tá dizendo? Eu não tenho treze anos.”
“Ele tem um passado, tá?” Ela suspira fundo.
“O quê?” Eu rio. “Mikasa, eu não sei por que você e sua família o odeiam tanto, mas eu não vou tolerar que você me diga essas mentiras sobre ele.”
Ela pausa por alguns segundos, me encarando. Sua expressão não parece brava e nem nervosa. Era como se ela estivesse com pena de mim. “Ele se fez de santo pra você, não foi?”
Eu gaguejo por alguns segundos, as palavras não conseguindo sair de minha boca. “O que você quer dizer?”
Ela olha para o lado de novo. “Eu imaginei. Ninguém namoraria com ele sabendo o que ele fez.”
Eu arfo, mas não digo nada.
“Levi sempre foi encrenqueiro, desde que era pequeno. E quando ele entrou na Abbey High, ele finalmente conheceu sua gangue de encrenqueiros.” Ela começa a dizer e eu tento me manter concentrado em suas palavras, mesmo que minha mente não conseguisse entender tudo ainda. “Foi isso que matou seus pais, afinal.”
“O quê?” Eu franzo o cenho. “Eles não morreram em um acidente de carro indo buscá-lo na escola?”
“Sim...” Ela suspira. “Indo buscá-lo porque ele estava fumando maconha no terraço.”
Eu dou um passo atrás com isso. Mas o que diabos.
“Você não sabe de nada sobre o Levi.” Mikasa nota o quão chocado eu estou e se aproxima de mim. “Ele ficou fora do controle depois que eles morreram. E assim que ele se envolveu em algumas coisas ruins...”
“Coisas ruins como o quê?”
“Ele se vendeu, se eu posso dizer dessa forma.”
Alguma coisa estala dentro de mim quando ela diz isso. Eu ainda não queria acreditar, mas eu não posso negar que algo estala. “O que diabos você tá falando, Mikasa?”
“Ele começou a fazer isso na escola, e depois pra todo mundo. Depois de um tempo a escola descobriu e ele foi expulso. E, bom, você pode imaginar que o tio Kenny não ficou nem um pouco feliz ao saber disso...” Ela explica, deixando seu olhar cair ao chão.
De repente tudo que o Levi me disse se desfaz. Era como se eu tivesse encontrado um pedaço perdido de sua vida, e ele explicava algumas coisas que eu não conseguia explicar sobre ele.
Mas... será que ele poderia mesmo ter mentido pra mim? Ele disse que era inexperiente como eu. Será que ele inventaria isso pra mim? “Isso não pode ser verdade.” Eu rio, chocado.
“Mas é verdade. O tio Kenny encontrou o dinheiro que ele conseguiu fazendo isso e era muito. Ele disse que estava juntando para fugir...” Ela diz.
Eu estava prestes a começar a chorar. Ele não podia ter mentido pra mim, ele não podia.
Mas tudo começa a voltar a minha mente. Sua ansiedade sobre sexo, como ele parecia sem vergonhas e atrevido para alguém inexperiente. Como ele parecia saber das coisas, mesmo que ele tenha dito que nunca as experimentou.
E então eu penso no tanto de homens que podem ter o tocado da mesma forma que eu e fico enjoado. Ele mentiu, ele criou uma vida que não teve para mim. Pelo quê?
Qual era sua intenção com isso?
“Você tá bem?” Mikasa coloca a mão em meu ombro. “Eren...”
“Isso não pode ser verdade, Mikasa. Não pode.” Eu começo a chorar. “Se é verdade, ele mentiu tanto pra mim...”
“Eu queria que não fosse, mas é.” Mikasa parece magoada.
Eu não sabia o que pensar mais. Tudo o que eu precisava agora era escutar de sua boca se isso era verdade.
“Eu devia ir falar com ele.” Eu fungo e limpo meus olhos. “Eu preciso escutar isso dele.”
“Ok.” Mikasa diz.
Eu me viro sem me despedir dela e pego meu celular do bolso para ligar para ele.
“Ei Dunga.” Ele diz, feliz.
“Nós precisamos conversar.” Eu digo, controlando a vontade de chorar.
Ele pausa por um momento do outro lado, e eu noto que sua respiração fica pesada. “O que aconteceu?”
“Não pelo celular, pessoalmente, agora.” Eu digo. “Me encontra agora.”
“Eu—Nossa, Eren, o que ta acontecendo?”
Eu encerro a ligação ali, sem forças para continuar falando com ele pelo celular. Já que sua casa era a apenas algumas quadras de distância, eu continuo a andar até lá. Caminhando com passos fracos, como se minhas pernas não quisessem acreditar que isso estava acontecendo.
Ele mentiu para mim. Todo esse tempo eu estive com uma pessoa que não é nada do que eu imaginava.
Como eu poderia acreditar em qualquer outra coisa? Quando ele disse que gostava de mim? Quando ele fingia estar feliz ao me ver?
Eu o encontro já na rua, quando dobro sua esquina. Todas as lágrimas que eu estava segurando no caminho começam a escorrer por meu rosto.
“Eren...” Ele caminha até mim, mas eu não deixo que ele me toque. “O que aconteceu?”
“Você é um mentiroso.” Eu resmungo. “Como você poderia ter mentido pra mim?”
“Se acalma e me explica o que ta acontecendo!”
“Não finja que não sabe do que estou falando.” Eu forço uma risada e seco algumas lágrimas de meu rosto. “Inexperiente uma ova. Eu não posso acreditar que fiz todas aquelas coisas com você.”
Ele congela quando eu digo isso. Ele congela e não diz nada. De certa forma eu ainda queria que ele negasse tudo, dissesse que é apenas um grande mal entendido. Mas ele não faz isso. “Seu vagabundo.”
“Não, Eren.” Seus olhos sempre envidraçados se quebram então, e ele começa a chorar.
“Eu acreditei em você. Como você pode fazer isso comigo?” Eu estava tão bravo que minha cabeça começa a doer. “Ah, claro, talvez você tenha feito tudo isso apenas como um plano seu. Você fez toda essa cena apenas pra que eu te ajudasse a ir embora, não é? Porque eu acho que você faria qualquer coisa pra ir embora.”
“Não é nada disso. Você é o primeiro cara que eu gostei.”
“Por favor, não fala merda.”
“Eu não tenho orgulho do que fiz, tá? Por isso eu menti pra você.” Ele explica, trêmulo. “Eu estava desesperado, meus pais tinham acabado de morrer e ninguém me queria. Mas não funcionou, e isso apenas tornou as coisas piores.”
Eu estava bravo demais para me comover com sua historia triste. Sua mentira não podia ser justificada com isso. “Quantos foram?”
Ele pausa e morde o lábio. “Alguns.”
“Tipo cinco? Dez? Você, ao menos, os selecionou ou você simplesmente pegava qualquer um que estivesse interessado?” Eu pergunto dando de ombros, e ele continua apenas me olhando. “Quanto eles te pagavam?”
“Não importa.” Ele balança a cabeça. “Eu só quero apagar isso como se nunca tivesse acontecido.”
“Mas isso aconteceu e você nunca vai apagar o quão sujo você é.”
Ele funga, mordendo o lábio de novo, mas vê-lo assim não muda como eu me sinto.
“Olha, se você ta preocupado com isso, o tio Kenny me fez fazer exames e eu tô limpo.” Ele diz, e uma lágrima escorre de seu rosto. “Você lembra quando você disse, logo que chegou, sobre estar desesperado e pulando para qualquer oportunidade que aparecesse apenas para sair de uma situação? Foi o que eu fiz, exatamente. E foi o pulo errado.”
“Eu não sei mais quem você é.” Eu o encaro.
“Eu sou o mesmo Levi, Eren.”
“Você não é. Eu não te conheço.” Eu dou um passo para trás, me afastando. “Eu não sei se posso acreditar em você de novo.”
“Não faz isso, por favor.”
Ele tenta pegar meu braço, mas eu saio de perto dele rudemente. “Vou pra casa.”
“Eren...”
Eu me viro e continuo andando, mesmo escutando ele caindo aos prantos atrás de mim. Nada me faz parar. Eu estava tão devastado e ferido que nada me faz me preocupar com ele.
Fale com o autor