Verão Verde-Azulado
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Acordo na manhã seguinte e fico encarando o teto do meu quarto. Tudo parecia tão estranho agora, tão vazio. Como se nada mais importasse como importava antes.
Penso em levantar, mas então não sinto forças o suficiente. Tudo que eu conseguia pensar era como minha vida é perfeita e como eu deveria ser feliz com ela, mas não sou. Eu sou assim tão egoísta? Eu devo ser muito egoísta e mimado.
Eu deveria ser feliz e não sou.
Escuto os meus pais conversando no andar de baixo. Eu não presto atenção no que eles estão falando mas escutá-los enche meus olhos de lágrimas. Como seria se eu não os tivesse, como Levi não tem? Nossa, dói imaginar.
Eu não consigo nem imaginar a dor que o Levi vive diariamente.
Eu provavelmente fico mais de uma hora na cama, apenas perdido em pensamentos, até que decido pegar meu celular e ligar para o Levi. Eu deveria dizer algo para ele, me desculpar, eu não sei. Eu apenas gosto dele demais para deixar as coisas assim, para deixá-lo triste.
A ligação chama apenas uma vez antes de ele atender. Ele não diz nada, mas eu escuto sua respiração do outro lado. Ele provavelmente estava chorando também.
“Desculpa. Desculpa.” Eu repito. “Desculpa por ser tão egoísta e—“
“Sou eu quem deveria me desculpar.” Ele me interrompe com a voz quebrada. “Eu surtei com você sem motivo. Eu disse todas aquelas coisas horríveis porque eu invejo a vida que você tem, e foi injusto.”
“Mas você tava certo. Eu tava afundando em problemas bobos, e—“
“Você pode ter problemas, Eren. Todos têm problemas, e eles são diferentes, mas eles sempre nos fazem sofrer. É errado compará-los.”
Parece que o Levi sempre estará um passo a frente de mim.
“Eu ainda sinto muito.” Eu digo. “Eu fiquei reclamando sem parar... Pareceu que eu estava reclamando de barriga cheia.”
“Você estava apenas reclamando de algumas coisas. Eu nunca vi você ser ingrato, e eu não consigo imaginar você agindo dessa forma. Você não estava fazendo nada errado.” Ele diz, e meu coração fica um pouco mais leve com isso. “Além do mais, eu poderia ter reclamado sobre minha vida com você também, e eu sei que você me escutaria. Eu apenas alimentei minha inveja. Desculpa.”
“Você vai falar comigo sobre seus problemas agora?” Eu peço. “Por favor.”
“Talvez.” Ele suspira. “Eu só não quero brigar com você por problemas que nem tem a ver com a gente.”
“Eu não quero brigar com você também.” Eu digo, querendo começar a chorar de novo. “Podemos nos encontrar?”
“Vou ver se posso sair. Quero te ver também.”
Encerramos a ligação e alguns minutos depois o Levi me envia uma mensagem dizendo que conseguiu sair. Eu não hesito um minuto e me levanto, visto alguma roupa e saio também.
Nos encontraríamos no parque, no nosso lugar de sempre. Chego lá e encontro o Levi deitado na grama, olhando para o céu e usando óculos escuros. Eu não digo nada e deito ao seu lado, olhando para o céu também.
“Como está seu olho?” Eu decido perguntar, ainda olhando para o céu.
“Vai ficar bom em alguns dias.” Ele murmura.
Antes que eu dissesse algo, noto que Levi esconde seu rosto com sua mão esquerda, e quando eu me viro para olhá-lo, o encontro chorando.
“Levi...” Eu pego sua outra mão e entrelaço nossos dedos.
“Eu odeio tanto essa vida.” Ele confessa entre fungadas, e isso quebra meu coração. “Odeio demais.”
Pressiono sua mão com mais força, sentindo lágrimas virem aos meus olhos também. O que eu deveria dizer? O que eu poderia dizer? Além do mais, eu não faço idéia do quão ele está sofrendo.
Para ele, eu tenho uma vida perfeita. Não há nada que eu possa dizer para ajudá-lo.
“Eu queria tanto poder começar de novo como alguém diferente. Alguém que não passe por toda essa merda.”
“Por que você não guarda dinheiro e se muda?” Eu sugiro, esperando que pudesse ser útil.
“Não acha que eu já tentei?” Ele ri. “Era o meu sonho. Até que o tio Kenny descobriu que eu estava guardando dinheiro e tomou tudo.”
“Por que ele fez isso?” Não era algo que seu tio pudesse fazer. Ele é maior de idade e trabalha. O dinheiro que ele recebe é para qualquer coisa que ele quiser fazer. “Ele não pode simplesmente tomar seu dinheiro.”
“É o jeito que ele é. E ele continua pegando meu dinheiro no fim do mês.” Ele dá de ombros. “Eu não posso ir pra lugar nenhum, eu tô preso.”
“Isso não tá certo.” Eu resmungo. “Ele não pode fazer isso. Por que você não tenta falar sobre isso com outros parentes?”
“Como a família da Mikasa?” Ele ri amargamente de novo. “Eles nunca aceitaram a minha existência. O pai da Mikasa nunca aceitou que meu pai engravidou sua irmãzinha, que é minha mãe, quando ela tinha apenas 18 anos.”
“Bom, eles podem não aceitar como isso aconteceu, mas eles não podem simplesmente te ignorar.” Eu conheço os pais da Mikasa e eles são as pessoas mais doces do mundo. Não consigo imaginar eles recusando ajudar alguém, muito menos se for da família. “Aposto que eles poderiam te ajudar, ao menos a colocar algum juízo na cabeça do seu tio.”
“Me deixar sem dinheiro foi idéia deles. O tio Kenny apenas o faz.”
“Sério?” Era algo que eu nunca esperaria deles; tinha que haver alguma explicação. Mas antes que eu dissesse algo, Levi interrompe meus pensamentos.
“Se eles se importassem comigo, eles teriam ficado comigo quatro anos atrás. Mas não, eles me deixaram com o tio Kenny, que nem gostava de crianças.”
“Eles... recusaram a ficar com você?”
“Basicamente, sim.” Ele dá de ombros. “Se o tio Kenny tivesse dito não também, eu teria ido pra um orfanato, já que eu não tenho nenhum outro parente disponível. Eu tenho um pouco de sorte por ele ter sentido pena de mim. Tipo, meus pais morrem do nada e ninguém me quer, isso é tão legal.”
Saber dessas coisas me deixa chocado. Eu tinha uma visão completamente diferente da família da Mikasa, como se eles fossem ótimas pessoas e tal. Mas, entretanto, eu nunca havia ouvido falar do Levi, considerando que eu conheço a Mikasa desde o ginásio.
Será que a Mikasa sabe de tudo isso? Eu ficaria tão desapontado se ela soubesse e apenas ficou do lado do seus pais.
As pessoas podem ser tão falsas.
“Posso te perguntar uma coisa?” Pergunto suavemente e ele concorda. “Como eles morreram?”
“Foi um acidente de carro.” Ele murmura lentamente. “Eles estavam indo me buscar na escola mas nunca apareceram.”
A história da sua vida ficava apenas pior quando ele me contava mais algum detalhe. “Isso é horrível.”
“Sim.” Ele suspira. “Eu sinto tanta falta deles.”
“Eu imagino.”
Ele funga baixinho de novo, e eu não podia apenas continuar deitado ali sem abraçá-lo. Então eu viro para o lado para trazê-lo mais para perto e ele segura minha camiseta. Seus óculos escuros estavam me impedindo de ver seus olhos, então eu decido tira-los e ele deixa. A marca roxa em seu olho faz uma lagrima escorrer de meu olho, então eu apenas o abraço mais forte.
Eu deixaria que ele chorasse o que quisesse agora. E eu seria forte por ele.
“Sabe...” Ele murmura fracamente após alguns minutos, então eu gentilmente me afasto um pouco para poder encará-lo. “Quando você disse que estudava na universidade de Nova York eu quase tive um infarto. Eu tava tão irritado com você, tipo ‘o que diabos você ta fazendo aqui?’”
“Você me perguntou algo assim, na verdade.” Eu sorrio de leve.
“Nova York deve ser incrível.” Ele diz. “Eu leio tanta coisa sobre lá na internet... É tão triste que seja tão perto daqui, mas eu nunca irei até lá.”
Eu não consigo imaginar como o lugar que eu passo a maior parte do tempo pode ser um sonho para ele. Talvez a idéia de ir para Nova York nunca tenha sido impossível de se realizar, então eu nunca criei expectativas sobre isso. “Claro que você irá. Eu te levo, um dia.”
“Sim, claro.” Ele ri. “Meus pais passaram a lua de mel lá, eu tenho algumas fotos disso. Minha mãe estava grávida de mim, então, de certo modo, eu já estive lá.”
“É verdade.” Era doce o tom que ele usava para falar de seus pais.
“Eu quero visitar os museus de lá. Nunca fui a um museu e acho que eles seriam meu passeio predileto. Mas eu mal posso sair de casa, quando eu poderei visitá-los?” Eu não tenho palavras para dizer a ele. Minha mente ainda recusava a ver o quão preso ele estava. Provavelmente devido à minha liberdade eu não conseguia ver a gaiola de outra pessoa. “Eu estou dizendo isso, mas dois anos atrás era ainda pior. Eu literalmente não podia sair, apenas pro trabalho e voltar. O tio Kenny ficou muito mais relaxado comigo agora.”
“Mas o que você fez pra ele te tratar assim?” Decido perguntar. “Você não faz nada errado.”
Ele fica em silencio por alguns segundos. “Ele não gosta de mim. Ninguém na minha família gosta.”
Eu ainda não conseguia entender. Não gostar dele não era motivo para tratá-lo como lixo. “Você devia—“
“Não.” Ele suspira, cansado. “Vamos parar isso aqui, você deve estar enjoado de ouvir minha história triste.”
“Claro que não, Levi.” Eu digo seriamente. “Quero que você fale comigo.”
Ele sorri suavemente, e era o sorriso mais bonito que eu já vi. “Claro, mas por enquanto é isso. Ta?”
Eu suspiro fundo. “Tá.”
“Então me abraça.”
Eu faço como ele pede e deixo que ele esconda seu rosto em meu peito. Enquanto ele se acalma, eu começo a pensar em alguma forma de ajudá-lo. Poderia parecer pretensioso pensar que eu poderia fazer algo para ajudá-lo, mas de certa forma eu sinto que havia algo ao meu alcance.
Eu não poderia deixá-lo completamente feliz, é claro. Mas, ao menos eu poderia tentar tirá-lo dessa situação.
Eu poderia ajudá-lo no seu próximo pulo.
Ficamos mais meia hora assim, até que o Levi diz que é melhor ele ir pra casa. Ele não tinha certeza do quão bravo seu tio ainda estava, então ele não devia provocá-lo ficando fora até tarde. Eu apenas concordo e o levo para casa em minha bicicleta. A forma que ele se segura em mim, segurando minha cintura forte por trás, me faz querer chorar.
Eu não queria deixá-lo.
Mas então eu o faço, já que não havia muito que eu pudesse fazer. Murmuramos nossas despedidas tristes e eu observo enquanto ele vai até a porta da frente. Ele olha para mim por alguns segundos antes de fechar a porta, e meu coração dói em meu peito.
Eu pedalo lentamente para casa e, quando chego lá, não sinto forças para responder aos meus pais quando eles me perguntam sobre o jantar. Eu apenas murmuro um “qualquer coisa ta bom” e vou para o andar de cima para me trancar em meu quarto. Caio em minha cama e apenas um pensamento preenche minha mente.
O que eu poderia fazer para ajudar o Levi?
Era meu objetivo agora. Mesmo que só um pouco, apenas uma distração desse mundo.
Qualquer coisa serve.
Enquanto estava perdido em pensamentos, minha mãe me chama dizendo que o jantar estava pronto. Eu me levanto com preguiça e olho em torno de meu quarto. O que um pirralho mimado como eu poderia fazer? Eu mal sei sobre o mundo real, já que eu sempre vivi nessa realidade artificial que meus pais criaram para mim.
Não que eu os culpe, longe disso. Como o Levi disse, eu sou eternamente grato a eles e todas as oportunidades que eles me permitiram.
Mas isso me fez cego de um mundo lá fora.
Antes que eu saísse de meu quarto, olho para o meu mural e vejo as fotos que pendurei lá. As fotos da escola, da minha primeira semana na universidade com meus novos colegas...
Em um passeio por Nova York, conhecendo os pontos turísticos. Visitando o central park, os museus.
Os museus.
Talvez fosse ruim, mas uma idéia surge em minha mente. Não era nada de mais, mas era algo, ao menos como uma distração temporária. Como uma forma de mostrar que as coisas podem ser possíveis.
Eu vou jantar com apenas essa idéia em mente.
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