Notas iniciais
Algumas descobertas e problemas em casa... Espero que gostem desse capítulo :3

Saio para o trabalho pela porta dos fundos para evitar encontrar os meus pais, e depois que eu pedalo uma quadra, meu celular começa a vibrar em meu bolso. Imaginando que devia ser minha mãe notando que saí, o pego com preguiça e me surpreendo com o nome na tela.

“Mikasa?” Pergunto ao atender.

“Eren!” Sua voz é tão alta no celular que tenho que removê-lo um pouco de meu ouvido. “Por que você não me disse que já tava aqui?”

“Oh...” A verdade é que me esqueci completamente. Tudo aconteceu tão rápido desde que voltei à casa dos meus pais que nem tive tempo para pensar. “Desculpa.”

“Encontrei sua mãe no mercado ontem e ela me disse que você chegou no sábado. Você é uma pessoa horrível.” Ela suspira alto.

“Eu me distrai com umas coisas na minha cabeça... mas desculpa mesmo, eu ia te ligar.”

“Ei, se você precisa conversar, eu tô aqui pra você.” Ela soa preocupada, como eu esperava que ela ficasse. Às vezes ela agia mais como uma mãe do que uma melhor amiga. “Você tava distante nesses últimos meses. Aconteceu alguma coisa na universidade?”

“Nada, na verdade. Não se preocupa, só tô confuso com minhas escolhas.”

“Eu disse que medicina não era pra você.” Ela estala a língua. “A gente devia se encontrar pra conversar sobre isso e todo o resto. Já faz um ano, né? Tenho tanta coisa pra te contar, e eu quero escutar sobre você também. O Armin tá na cidade também, ele adoraria te encontrar.”

“Sim.” Dou de ombros.

Caímos em um silêncio estranho, como se ela estivesse esperando que eu dissesse algo, mas eu não consigo pronunciar uma palavra.

“Ei.” Ela repentinamente diz, me trazendo de meus pensamentos.

“Sim?”

“Sua mãe me disse, tá tudo bem. Não vou te julgar.”

“Sobre...?”

“Seu emprego de verão?” Ela ri.

“Ah.” Dou uma arfada. Bom, obrigado, mãe. Ela tornou algo mais fácil. “Sim, isso.”

“Tem a ver com sua confusão sobre suas escolhas, né?”

“Quase isso. Eu ainda não sei o motivo certo, eu só queria tentar algo novo.”

“Entendo.” Seu tom gentil me acalma um pouco. Acho que esqueci porque ela é minha melhor amiga; nós nos entendemos e nos conhecemos melhor do que qualquer pessoa. “Você tá trabalhando na Shine, né?”

“Sim... No dia que cheguei, ouvi a Srta. Zoe falando com meu pai sobre procurar alguém pro turno de dia, então liguei pra ela e disse que queria o trabalho. Ela ficou surpresa, mas, por sorte, me aceitou.”

“Nossa, você foi rápido.” Ela ri de novo. “E você começou ontem?”

“Sim, tô indo pra lá agora.”

“Hm.” Ela pausa por alguns segundos, como se estivesse pensando. Estava prestes a perguntá-la se havia algo errado quando ela começa a falar de novo. “Então, você conheceu o Levi?”

A menção de seu nome me surpreende. “Sim, ele tá no mesmo turno que eu. Você conhece ele?”

“Mais ou menos.” Ela diz, misteriosa. “Bom, ele é meu primo.”

“O quê?” Desde quando a Mikasa tinha um primo que eu nunca havia ouvido falar? “Como eu nunca conheci ele?”

“Não somos próximos.” Seu tom continua misterioso. “Mal o vejo.”

“Ele parece legal, você devia falar com ele.”

“É...” Ela diz com desdém. “Bom, não vou fazer você se atrasar. Me liga depois pra gente sair.”

“Claro.”

Despedimos-nos – ela me faz prometer que eu ligaria – e eu encerro a ligação. Sentia falta de falar com Mikasa e me arrependo de ficar tão distante nos últimos meses. Logo que me mudei para a universidade, conversamos no skype todas as noites e contávamos tudo que estava acontecendo um ao outro. Com o tempo, entretanto, ficamos cada vez mais ocupados até que nossas conversas viraram apenas uns Olás no facebook. Talvez se eu tivesse contado a ela minhas inseguranças sobre a faculdade de medicina eu não estaria me sentindo tão perdido agora.

Pego minha bicicleta e continuo seguindo para a Shine. Assim que chego, encontro o Levi exatamente do mesmo jeito que ele estava ontem, e novamente ele fecha seu caderno rapidamente antes de me cumprimentar.

“Você tá atrasado no seu segundo dia.” Ele murmura sombriamente.

“Foram só cinco minutos.” Rio nervoso, caminhando até o caixa ao seu lado.

“Cinco minutos pode ser muito tempo.” Ele suspira. “Vou deixar passar dessa vez, mas espero que você não continue assim.”

“Não se preocupe.”

Enquanto ligo o computador, lembro de minha descoberta recente e me viro para ele. Analisando cuidadosamente agora, seus olhos azuis e seu cabelo preto são bastante parecidos com os da Mikasa.

“O que foi?” Ele franze a testa com meu olhar.

“Descobri que você é o primo da minha melhor amiga.” Sorrio, puxando a cadeira para me sentar.

“Hã?” Ele franze ainda mais a testa.

“Nossa, vocês realmente não são próximos.” Suspiro. “A Mikasa.”

“Ah, ela.” Ele revira os olhos e volta a atenção para seu computador. “É, não somos próximos.”

“Vocês brigaram ou coisa do tipo?”

“Não, nada disso. Só nunca falei com ela.”

Tinha alguma coisa errada em tudo isso, mas eu não ia continuar perguntando. Ele não parecia aberto a falar desse assunto.

“Então, como você tá?” Tento puxar assunto, já que o silêncio estava chato.

“Ugh.” Ele passa a mão em sua testa. “Por favor, achei que você não fosse do tipo de pessoa que fica fazendo conversa fiada.”

“Nossa, eu só perguntei como você tá.” Acabo rindo. “Tô tentando ser legal.”

“Isso é conversa fiada. E eu odeio conversa fiada.”

“Tá, ok. O que eu deveria perguntar, então?”

“Coisas interessantes, não qualquer coisa.”

Pauso e penso sobre alguma coisa, mas realmente não havia nada que eu quisesse perguntá-lo. Eu só queria falar sobre qualquer coisa.

E assim caímos em um silêncio mórbido. Levi começa a jogar paciência de novo em seu computador e eu encaro meu monitor. Algumas pessoas entram, eu ajudo um cliente a encontrar pasta de dentes e as coisas ficam bastante entediantes depois de uma hora.

Okay, talvez trabalhar aqui não fosse tão divertido quanto eu imaginava.

“O que você fazia quando tava aqui sozinho?” O pergunto, suspirando.

“Não fiquei sozinho por muito tempo... a garota que estava em seu lugar foi embora semana passada.”

“Ah.” Concordo com a cabeça. “Acho que tive sorte, então.”

“Se você considera isso sorte.” Ele dá de ombros.

“É sempre lento assim?”

“Na maioria do tempo, sim.”

“Então o que vocês faziam?”

“Já tá entediado?” Ele ri.

“Não, é só que...” Gaguejo. “Não tô entediado, só tô curioso.”

“Pode ser sincero, isso é chato.” Ele balança a cabeça. “Bom, nós jogávamos jogos online, daí ela reclamava de seu namorado pra mim... e me perguntava sobre seu vestido de formatura umas mil vezes...”

“Parece uma ótima companhia.” Digo ironicamente.

“Ela não era nada mau, eu só cometi o erro de dizer pra ela que eu sou gay e ela era daquele tipo de pessoa que achava que caras gays entendem tudo de moda e relacionamentos.”

“Oh.” Eu pauso com toda aquela informação. Eu deveria dizer algo sobre isso? “Você não parece gay.”

“Pessoas gays parecem diferentes?” Ele me encara, franzindo a testa de leve. “Eu deveria usar um laço rosa na cabeça ou algo assim?”

“Não, eu não quis dizer desse jeito.” Engulo seco em nervosismo. “Desculpa se te ofendi.”

“Tudo bem, você é legal.” Ele sorri com o canto da boca. “Só não conta pra Hanji. Eu não ligo de pessoas da nossa idade saberem, mas não estou pronto pra lidar com os adultos ainda.”

“Não se preocupa.” Dou de ombros. “Bom, que jogos online vocês jogavam?”

Então ele me diz para trazer minha cadeira mais para perto e vai para esse website que tem vários mini games, e alguns deles eram para dois jogadores. Compartilhamos seu teclado e jogamos um de luta, e depois um de puzzle – nós ficamos presos em uma fase por mais de uma hora – e depois decidimos colocar música e continuamos jogando, apenas parando quando algum cliente entrava.

A tarde passa bem rápido depois disso.

Assim que nossos turnos acabam, saímos da loja e eu o ofereço uma carona de novo. Ele hesita antes de aceitar, e eu sinto que ele não relaxa atrás de mim.

“Por que você tem tanto medo de bicicletas?” Decido perguntar.

“Cai de uma quando estava aprendendo a andar, acho que fiquei traumatizado.”

“Bom, mas você não podia ter parado só por ter caído uma vez...”

“Ok, mas eu parei. E ainda não gosto de bicicletas.”

“Então você não sabe andar?”

“Não.” Ele diz.

Então eu paro a bicicleta abruptamente, fazendo-o se segurar em minha camiseta ainda mais forte.

“O que foi?”

“Você não pode não saber andar de bicicleta!” Eu digo. “Troca de lugar comigo.”

“O quê?”

“Vou te ensinar.”

“Mas eu não quero aprender!” Ele grita. “Apenas continua, Eren.”

“Mas—“

“Continua antes que eu saia dessa bicicleta e nunca mais pegue carona com você!” Ele ameaça.

Engulo seco, com medo de suas palavras, e continuo pedalando.

“Um dia vou te ensinar.” Murmuro.

“É, claro.”

O deixo na porta de casa novamente, ignorando seus protestos, e o observo entrar. Não sei por que fiz isso, mas decido não pensar a fundo sobre o assunto e volto pra casa.

Assim que chego, vou para a cozinha e encontro meu pai fazendo o jantar com a minha mãe lá. Os dois pareciam felizes, cantando uma música que estava tocando no rádio, e minha presença quebra completamente o estado deles.

“Desculpa.” Digo enquanto os dois me encaram na porta. “Vou pro meu quarto.”

“Eren, espere.” Meu pai chama, desligando o rádio. “Você não pode me evitar para sempre, venha aqui.”

Suspirando, entro na cozinha e sento em uma cadeira à mesa. Meu pai senta do outro lado enquanto minha mãe olha o fogão.

“Você precisa de alguma ajuda?” Ele pergunta, preocupado.

“Não, pai.” Suspiro de novo.

“Podemos ajudar se você precisar de algo. Não fuja de nós dessa maneira.”

“Não estou fugindo de vocês.”

“Então por que estava me evitando?”

“Porque eu sei que você não gosta da idéia de eu trabalhar na loja! E a última coisa que quero é um sermão seu.”

“Mas Eren, por que você está trabalhando lá?” Minha mãe interfere. “Você tem tantas opções, por que perder tempo trabalhando em uma loja?”

“Nós poderíamos te ajudar a encontrar algo mais interessante para fazer, as férias de verão apenas começaram. Você pode—“

“Não, não!” Balanço a cabeça. “Eu tô bem, tá? Só tô tentando algo diferente, e eu tô gostando de trabalhar lá.”

“Você está desperdiçando seu potencial, Eren.” Meu pai fala sem hesitação. “Trabalhar lá não te ajudará em nada.”

“Talvez pra você não vai; mas pra mim vai.” Levanto, cansado. Não precisava escutar mais disso. “Vou pro meu quarto.”

“Eren...”

Não os deixo dizer mais nada e sigo para o meu quarto.

Notas finais
Até semana que vem :3 obrigada por acompanhar!