Ventos que me Levam
4 Capítulo 3 Travessuras!
Notas iniciais
CAPÍTULO 3. VENTOS QUE ME LEVAM
Se fosse uma competição de quem corria mais rápido no chalé, com certeza, Gilan, venceria, mas com relação a estardalhaço e a gritaria tínhamos, como ganhador, Will. Era verão, um dos mais quentes verões em Araluen, que sufocava toda a população com altas temperaturas desagradáveis, porém, nem isso parecia de fato incomodá-los. Will já se portava com três anos, a idade tenebrosa de preferir doces a salgados, os nãos mais frequentes e a língua que não parava de falar com perguntas das mais variadas, com o dever de responder às perguntas, Gilan, sendo mais o velho, inventava distraí-lo com brincadeiras, desafios, quando Halt não estava presente precisá-lo manter ocupado e cansado — tarefa complicada, já que aquele menino era um poço de energia e disposição infinita.
Uma cadeira da mesa caiu, estalando no assoalho, fazendo o barulho ecoar como se tivesse caído uma manada de Elefantes, os pés descalços corriam entre risadas animadas. A brincadeira era o seguinte, com cada pergunta feita, Will teria que correr atrás de Gilan e, se ele conseguisse pegá-lo antes do sol bater no topo, sendo às 12:00 horas, todas as perguntas seriam respondidas. A ideia era simples e bastante prática. Entretanto, na verdade, o caos já estava formado onde houvera paz e requinte manhã. Camas bagunçadas, tapetes revirados, a mesa do jantar permanecia torta, a manta que cobria o sofá estava à quilômetros de sua origem, até o pó, que descansava embaixo, cobria agora a superfície do assoalho formando uma camada branca.
Quando criança não tem o que fazer, inventam isso. Desafio.
“Vamos Will! Está muito lento” Gilan pulou em cima da pia vendo os cachos castanhos voarem debaixo da mesa. Resmungando pela altura em que o desafiante se encontrava, o menino jogou o que estava na sua mão, um enfeite qualquer de Halt. Ele voou de qualquer jeito, batendo e quicando algumas passadas, Gilan petrificou, — um cavalo bonito rachava diante de seus olhos — Até a porta ser aberta num baque, revelando a pior carranca que os meninos já viram. Os olhos de Halt estavam escuros numa aura sinistra, usava a capa dos Arqueiros, sua postura era de pura ameaça. Gilan pensou que levaria uma surra, lá estava ele em cócoras na pia e Will descabelado com a carinha mais chorosa que conseguiu fazer no momento. O chalé bagunçado. O ar sumiu dos pulmões e uma veiazinha saltou da testa do homem.
Logo atrás do Arqueiro silencioso, um robusto homem entrou. Barão Arald era uma peça musculosa com ombros largos e cintura avantajada, barba negra e aparada com alguns fios brancos aqui e acolá, com seus 42 anos ainda estava bem para a idade, seus olhos eram escuros contracenando com seu rosto de maxilar largo e sobrancelhas espessas. Will adorava o barão, ele trazia sempre guloseimas com seu humor alegre e bondoso, irritando Halt que abominava as cáries. A bronca ficou entalada quando a risada forte do barão e seu corpo grande empurrou Halt de lado, segurando o menino agarrou o pescoço, escondendo-se do olhar bravo, rindo com as cócegas e os beijos estalados nas bochechas, Gilan desceu devagar, querendo sair de cena sem ser percebido.
“Nem faça isso!” Halt falou entre os dentes, o pupilo dava as costas lentamente, mas parou, o rapaz tinha respeito pelo mestre, então, apenas abaixou a cabeça, barão Arald riu alto:
“Deixe estar homem, são crianças, olhe, Will, te trouxe bolo de banana com bastante mel e, Gilan, te trouxe saborosos Pretze e, para nós adultos, Tarte de Bry”.
“Sente-se à mesa que me sentarei no banco”. Halt coçou a cabeça apertando os olhos, isso era para não deixar uma criança tomando conta de outra.
Os menores comiam alegres, agora, comportados. Algumas coisas foram colocadas nos seus lugares, Will que usava seus talheres com o braço meio torto, olhava com atenção a conversa dos adultos, depois para Gilan,—que nem ligava para o que falavam —este apenas, tinha olhos e barriga para os Pretze frescos, e, o bolo doce e saboroso. O rostinho estava sujo pelo mel, Halt às vezes desviava o olhar, até ele se esticar com um pano limpando aquela sujeira toda, fazendo Will avermelhar de felicidade, pensava que o pai estava com raiva. Então, ficou bem quietinho.
“Nunca me acostumo quando venho”. Arald disse, bebendo seu vinho, vendo o olhar mortal e gelado do arqueiro, ele abriu os dentes com um ar sacana demais para ignorar.
"Esse menino ainda vai me matar, meu velho amigo". Suspirou.
"Ah! Já ia me esquecendo, o festival do verão está próximo de acontecer, leve os meninos lá, vai ser tranquilo" Comentou piscando para Will que riu.
"Tranquilo? Já viu aquele povo todo reunido, parecem um monte de formigas”.
“FORMIGAS!” Grita Will assustando a todos, Gilan se engasgou com o bolo, Halt abriu os olhos pela falta de educação do menino, e claro, o barão riu.
Era dia do festival. A praça parecia mais movimentada do que o normal, não que o Arqueiro andasse em lugares assim todo o tempo nas diversões da população. Já Will era a primeira vez que saia do chalé, e o mundo se tornava maior e mais barulhento, seus olhos brilhantes pulavam com as cores, falas,e rostos desconhecidos, puxava a mão maior, mas Halt segurava com força.
Não iria falar isso em voz alta, mas estava com muito medo de perdê-lo.
As barracas tinha diversos alimentos, brincadeiras,e bonecos de todos os tipos. Gilan andava ao lado, sorrindo para um grupo de garotas do castelo que ficaram surpresa ao verem suas vestimentas de arqueiro; algumas suspiraram, outras ficaram receosas. Will também vestia algo similar, com botinhas macias, um colete de carneiro com calças verdes, já seus cachos caiam nos olhos ao avistar uma iluminada barraca de brinquedos. A senhora chamava as pessoas, Will puxava até lá apontando um singelo e esquecido brinquedo empoeirado. Lá estava ele; madeira clara com arco simples, na verdade, era mais do que simples, pendurado bem atrás dos bonecos de ventríloquo. Halt entortou o rosto pela expressão de medo que a senhora fez. O que ela pensou que ele faria?
“Papai, eu quero!” A voz saiu fina e pedinte.
“O boneco?” Achou estranho, Will não gostava deles, por outro lado, sempre chorava num escândalo quando vinha um. A senhora abriu a boca com a fala da criança, papai, arqueiros eram conhecidos por serem reclusos em seus ninhos, em manter-se em missões e nunca estarem acompanhados, pessoas frias sem passados, também eram chamados de feiticeiros, por sumirem e andarem sem ser vistos. E, agora, havia um bem em sua barraca humilde, ela sorriu amarelo pelo andar elegante e decidido daquele homem, seu rosto forte por debaixo do capuz a deixou com medo, suas feições escurecidas estavam sérias, ela endureceu o corpo quando o menino se apoiou na frente, seu sorriso era lindo.
“Oi, gracinha, o que faz aqui?” Ela disse encantada com os grandes olhos castanhos, ele apontou novamente para cima, para o arco. Halt estava logo atrás, o homem abaixou até o ouvido do menino que balançou a cabeça concordando, depois beijou os fios rebeldes.
Estava impressionado com o garoto, Gilan gargalhou alto com aquele projeto de gente se espichando com o novo presente. Ele crescia rápido, já até sabia escolher seus brinquedos. Algumas moedas foram deixadas para trás, Will acenou para a senhora, que via aquele trio estranho sair no meio da multidão, o Arqueiro segurava com carinho o menino que ria feliz, o aprendiz ria também por alguma coisa engraçada, que deixou o homem emburrado, escondendo-se em seu capuz.
“Papai, agora eu sou como você”. Inocentemente aquelas palavras encheram o coração de Halt.
“Sim, agora você é o meu arqueirinho tratante”.
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