Ventos da Incerteza
1 Capítulo Único
O suspiro foi audível. Assim como o perdido nas íris claras era óbvio. A cena que se desenrolava diante daquilo era comum, o que não explicava o motivo da hesitação que sussurrava em sua orelha que aquilo não seria uma boa ideia.
Mais a frente de onde estava, Lire e Elesis riam de algum comentário feito por Arme, que parecia mais do que satisfeita em fazer as amigas rirem. Aquilo era normal. As três estavam sempre juntas, e não havia ninguém no grupo que ousasse atrapalhar os raros momentos em que as três se permitiam uma folga e um momento descontraído.
Por esse motivo que Lin estava parada a certa distância delas, o peso do corpo sendo trocado constantemente entre os pés, as mãos se apertando de nervosismo e os olhos vagando indecisos entre as figuras do trio.
Embora não tivesse a real necessidade de fazer aquilo, algo em seu interior dizia que devia ter uma amizade forte com aquelas três, uma ligação talvez tão forte como a que elas mantinham entre si. Não fazia muito sentido, mas talvez o que a impulsionasse a fazer aquilo tudo fosse a imagem nítida que tinha do vitral das Três Deusas.
Tinham que ser as três... os cabelos, as cores, as personalidades, tudo condizia com todas as informações (ou lembranças) que tinha das deusas. E bem, era a reencarnação de Agnécia. Tinha que ser próxima das três.
Mas, ao mesmo tempo que sentia de precisava daquilo, a sensação de atrapalhar a amizade tão bem construída das três parecia tão errada... Será que Agnécia se sentia assim também com as outras? Será que...
— Com inveja por que não tem atenção delas? – a voz banhada de sarcasmo acompanhada pelos olhos vermelhos felinos que pareciam rir da sua indecisão a obrigou a cortar os pensamentos para voltar a trocar farpas com ele.
— E você, Azin, o Jin te trocou para ficar babando pela Amy de novo e te lembrou que ninguém aqui quer ficar perto de você? – sorriu ao retrucar e ver o cavaleiro prateado revirar os olhos e dar de ombros.
— Ora, você não negou estar com inveja delas.
— Inveja? Ainda tenho muito a aprender sobre isso com você.
— Hmpf – Azin revirou os olhos de novo, e Lin sorriu vitoriosa por conseguir deixa-lo sem resposta. Brigar com Azin lhe era uma boa distração.
Distração essa que foi cortada por uma risada alta e escandalosa que lhe obrigou a voltar a atenção para as três. Lire cobria o rosto com as mãos, as pontas das orelhas pontudas vermelhas de vergonha enquanto Elesis tinha os olhos arregalados em surpresa e Arme quase chorava de tanto rir. Seja lá o que Lire tivesse dito, com certeza havia sido algo vergonhoso, já que em pouco tempo a espadachim não conseguiu se conter e passou a rir baixo, o que fez Lire se encolher mais um pouco e começar a praguejar em élfico palavras que provavelmente Ryan a repreenderia por dizer.
O sorriso morreu ali, e nem mesmo notou como Azin analisava a cena, os olhos espertos indo de si para as três, observando suas reações e lendo suas intensões. Maldita raposa.
— Você sabe que vocês não são elas, não sabe? – a voz a assustou novamente, mas não mais que a fala. Desde quando Azin liga pra essas coisas? – Podem ser reencarnações, mas não são realmente elas.
— E o que você quer dizer com isso, raposa? – perguntou de modo ríspido, se virando para ele num rompante e se surpreendendo por não encontrar o costumeiro brilho maldoso.
Ele sorriu, a surpreendendo mais uma vez por não ver nenhum traço de maldade na curva que os lábios fizeram. Eram tão raras as vezes que sentia a aura ao redor de Azin leve como estava naquele momento que não soube reagir. O que estava acontecendo?
— Eu quero dizer que você, Lin, não é Agnécia. Que Elesis não é Ernasis, que Lire não é Lisnar e que Arme não é Armenian. E por isso que você não precisa tentar ser a deusa criadora com elas.
— Seu idiota, Agné-
— Agnécia não está tão presente nos contos, e não se é ensinado muito sobre ela nas escolas de Canaban. Já parou para pensar que, talvez, ela não seja tão famosa e cultuada como as Três Deusas porque não é assim que deve ser? Que talvez ela seja a “deusa esquecida” por um motivo que não seja só o ensinado nos livros de história?
— Vá direto ao ponto, por favor, antes que eu enfie meu leque no seu-
— Lin! – Ele repreendeu, rindo, e Lin se sentiu estranha novamente por estar sendo tão fácil conversar com o guerreiro. – Vou tentar falar de outro jeito, pode ser? Você não é Agnécia, você é apenas uma parte dela. Por que ao invés de tentar ser tudo aquilo que somos induzidos a achar que ela foi, você não se permite ser apenas você, uma parte do que um dia Agnécia foi?
Lin piscou, pensando que talvez Azin tivesse tirado aquele dia para surpreendê-la. Antes de pudesse responder, porém, o sorriso de raposa e o olhar malicioso voltou à expressão do rapaz.
— Eu adoraria continuar aqui quebrando essa sua arrogância comigo, mas se minhas contas estiverem certas, Amy vai abrir o presentinho que eu deixei em seu quarto em alguns minutos, e eu odiaria perder essa cena. Até mais tarde, Lin. Pense no que eu falei.
E foi embora, andando calmamente pelo campo de treino até chegar na casa principal e sumir de sua vista.
Lin franziu as sobrancelhas enquanto voltava a olhar as três interagindo. A voz em sua cabeça não parecia mais nervosa, talvez por que aquela vontade de ser um quarteto com elas já não parecia estar tão certa.
Azin podia estar certo. Precisava? Não. Queria? Não o bastante. Então... Seria apenas Lin, não a reencarnação da deusa, mas a caçadora que gostava de vinho de ameixa e de irritar Azin.
É... aquilo parecia ser bom.
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