Vento nas Folhas

6 Espaço Seguro



(Starset — Ad Astra)


Respirando devagar para sentir em tudo de mim, todas as sensações dessa recém — redescoberta.


Emocionalmente, estou na cabana de madeira no lago enevoado.

-O que tem um deck em direção ao meio da água. Para sentar e molhar os pés. -

Estou sentada na cadeira de balanço, apreciando o nascer do sol no meio da névoa fria. Já uma caneca de café fumegante.

Uma manta xadrez nos ombros.

Um sorriso simples e satisfeito no rosto.

.

Também há um espetáculo de cores no amanhecer da calmaria.

.

O vento que toca essas folhas, não é mais furioso. É dançante, te convidando para brincar.

.

O sorriso satisfeito, não desvanece.

Ele é interrompido apenas pela xícara nos lábios e os pequenos murmúrios de satisfação.

Tudo tem cor de amanhecer.

.

Desapertando.

.

Recriando.

.

Renascendo.


Tudo descongelando e saindo do inverno.

Dá para sentir no ar, ainda gélido, o calor vindo, dançando e invadindo. Com suas vestes de fogo e verão.


Este se tornou meu novo lugar seguro, novamente.


E neste, estou sozinha.


Apreciando e lembrando das coisas que já estavam aqui e realocando as coisas que não usarei mais.

Juntando a beleza da rusticidade, as coisas que são minhas agora.

Tem uma vitrola tocando ao fundo uma música o tempo todo.

Na maior parte do tempo, cantarolo e danço.

Quando chove, ajeito um café e vou para a varanda assistir o espetáculo das gotas, fazendo uma nova canção.

Quando o dia amanhece. Estou na varanda assistindo e quando ele se encerra, deito no deck com os pés dentro da água. Assisto imponente, mais um dia ir embora, em completo contentamento silencioso.

Tudo é muito satisfatório.

As cores. Os sons. A calmaria.

Os pensamentos continuam em polvorosa, mas a paz da paisagem, os silencia por alguns momentos e mesmo eles, se debruçam na janela da alma para absorver a beleza e a sensação de que finalmente, encontramos uma saída.

E de que finalmente, o caos pode cessar.

Como pode algo tão simples ser tão bom?

.


Mesmo o vento que me beija, parece mais suave.

Despenteia meu cabelo com amor e graça.

Parece que me sorri, com um segredo que apenas nós compartilhamos.

Tão confiante, farfalha: “te disse, tudo ficará bem.”

E de fato, pela primeira vez em muito tempo, há um sentimento de tranquilidade.

Em alguns momentos, muito precisos, me pego observando as flores que desabrocharam na copa das árvores.

Seu contraste sob o céu azul de brigadeiro… o cheiro que exalam quando movidas pela brisa suave.

Os sons que a água mansa faz encontrando a terra,

O som que o sino do vento faz pendurado na varanda.

Não há tédio e marasmo, apenas um dia após o outro. Simples.

Reorganizando. Limpando. Cantando.

Dançando, jogando fora o que não será usado, mas, que ficou apenas ocupando espaço e juntando sujeira…

Apenas eu e o prazer do meu silêncio e melodia.

Pela manhã, antes de qualquer atividade que inicio, abro a porta, vou até o pilar da entrada da varanda, respiro fundo maravilhada pela beleza e magnificência da paisagem.

Nunca me canso dela. Parece que toda vez que olho, sinto o mesmo da primeira vez, apenas espero o vento me beijar brincalhão, convidando para mais um dia. Lhe sorrio. Lhe observo com olhos de profundo amor.

“Que melodia faremos hoje, hum?”

Sua gargalhada faz as copas dançarem.

Os pássaros voarem, a água tremeluzir, num um infinito de cor e graça ao nosso redor.

Não consigo disfarçar um sorriso também.

Vida de volta aos ossos.

Cinza substituído por cor.


O vento que era tempestade, dançou e ricocheteou até virar farfalhar de esperança… Rodopiou até lágrimas se transformarem em sorrisos de amor.

Desemaranhou os cabelos que ele mesmo emaranhou.


O furacão que me esfregou na lama, se desfez em brisa fresca e me colocou em pé quando percebeu que me dobraria, mas, não me faria quebrar.


Me acolheu em seu abraço gentil;

Finalmente,

Sem dor.

Apenas nosso espaço seguro…



.

.

.



“E agora, que melodia faremos, hein?”

🍃🍃🍃🍃🍃🍃