Vento

1 Capítulo 1


Quando criança, eu, costumava passar os finais de semana na casa dos meus avós.

A casa deles era mais ou menos uma hora e meia da cidade onde eu morava.

Eu odiava lá....

Não pelos meus avós , eles eram aquele tipo de avós que a gente gosta de visitar, pelas historias, pela comida, por aquele ar de conforto, e nem por parecer o fim do mundo no meio do nada sem nem um resquício de civilização.

Lá ventava muito.

Eu odiava o vento .

Dia e noite ele balançava as cortinas, fazia as coisas voarem , e batia nas janelas....era irritante.

Naquele dia ventava muito.

Estava muito frio, muito , muito , muito ,mais do que no dia anterior .

E do outro antes dele.

E do outro antes deles.

E de qualquer outro dia que eu me lembre.

E a unica coisa que eu conseguia fazer era olhar raivosamente para a janela que batia com o vendo.

-Meu amor o que foi?-A senhora que passava por mim bagunçou meus cabelos enquanto ia para a cozinha-Parece tão chateado.

-É essa droga de vento que não passa!

Falei , resmungando mais do que falando.

-Ho meu docinho , não fale assim do coitado , você já parou para ouvi-lo?, ele esta sempre chorando.

Eu a olhei, e logo voltei os olhos para a janela , "chorando?", achei esquisito, "o vento chora?", coloquei o ouvido na janela e ouvi a corrente forte e fria de ar bater nela e se deu para ouvir um gemido triste.

-VOVÓ , VOVÓ , EU OUVI!

-Eu não disse meu querido?!

-Por que ele esta chorando vovó?

Perguntei ainda com o ouvido na janela , o vidro estava frio ,congelando minha orelha que já estava ficando um pouco vermelha.

-Eu não sei meu querido, por que não vai lá fora e pergunta para ele?

Meus olhos cintilaram com a ideia.

-Não coloque bobagens na cabeça do garoto, a unica coisa que ele vai conseguir é um belo de um resfriado .

E senhora sorridente , riu docemente para mim , saiu da cozinha e limpou as mãos no avental branco.

-Não ouça esse velho rabugento , é só colocar um casaco .

Ela então seguiu para o corredor , seus cabelos grisalhos estavam presos em um coque e as marcas da idade envolviam os olhos, e por algum instantes ela sumiu em algum dos quarto ate aparecer com um grande casaco marrom escuro, eu o coloquei e sumi ali dentro , porem não me importei , e segui ate a porta , queria loucamente perguntar ao vento qual era motivo de tanto sofrimento, sai correndo quando a mulher abriu a porta e gritei a procura do vento.

-Não vá tão longe meu querido!

Consegui ouvi-la vagamente gritar porem eu já estava longe .

Passei uma ou duas horas a procura-lo, já estava fatigado quando parei no pé de uma arvore , sentei , e adormeci sem querer pelo cansaço.

Quando recuperei a consciência não abri meus olhos de imediato , senti duas pequenas mãozinhas gélidas tocarem meus braços , logo passarem para meu pescoço , seus pequenos dedos tocavam delicadamente, levemente , graciosamente em mim , ate chegarem ao meu rosto , lábios, nariz, olhos, queria tanto abrir meus olhos para visgar com o olhar a criatura que possuía tão pequenas , delicadas e frias mãos , porem senti que se o fizesse tão criaturinha fugiria , pois mesmo delicadas aos mãos tremiam sutilmente , estavam com medo de mim ?, fiquei ali fingindo sonho ate que senti as mãozinhas se distanciarem lentamente , meu Deus!!, que pânico entrei , e abri os olhos no mesmo instante que segurei-lhe as mãos para que não escapasse.

Um garotinho.

Menor que eu.

Com cabelos azuis claros , pele extremamente pálida, usava uma bermuda branca que chegava a se camuflar em sua pele e uma blusa azul escuro me olhava , com aqueles olhos enlouquecedores , era de uma cor ate mais clara que seus cabelos , eram indescritíveis, eu não poderia dizer com palavras o que aqueles olhos tinham que me hipnotizou , porem embaixo dos olhos estava vermelho como se estivesse chorando.

Lindo garotinho de cabelos azuis céu.

-De-de-desculpe.

As mãozinhas tentaram escapar porem as segurei com mais força.

-Quem é você?, por que esta aqui?, por que chora?

Ele me olhou com dúvida , e me encarou com aqueles olhos brilhantes .

-E...e...eu não tenho para onde ficar , por isso fico aqui , e vo-vo-você o que faz aqui?, quem é você?

Mesmo tendo ignorado minhas outras duas perguntas não me contive em responder as perguntas dele , sua voz era tão melodiosa , baixa, triste.

-Eu sou o neto da senhora que mora naquela casa amarela ali embaixo-Apontei -E vim procurar o vento.

O garotinho arregalou os olhos extremamente curioso e inclinou um pouco a cabeça , ele me olhava de cima para baixo, corei, de vergonha não sei, mais pensei em fazer o mesmo , o olhei de baixo para cima , e percebi , aquele garotinho deveria estar sentindo tanto frio.

-Por que procuras o vento ?

-Não estas com frio?

Ele negou com a cabeça, "mais é claro que deve estar !" , pensei e o puxei , o casaco marrom era do meu tio, que já era homem feito , o casaco era a unica coisa que se tinha da época que ele era criança , e porem uma criança mais velha que eu , o que quer dizer que o casaco era muito grande.Eu puxei o garotinho de cabelos azuis que cambaleou como se fosse uma pena ate meus braços , ele sem dificuldade entrou no casaco comigo , ele era frio feito neve.

-Pronto , agora não ficara mais com frio.

O garoto corou e escondeu o rosto no meu peito .

-Por que procura o vento ?

-Quero perguntar-lhe por que chora tanto.

-Choro por que estou sozinho faz muito tempo ....aqui fora esta muito frio .

Eu então me toquei , o pequeno garotinho que se aquecia no casaco marrom comigo, sozinho , gélido , triste era o vento que rapidamente desapareceu de perto de mim , virou vento, sumiu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.