Veni Vidi Vici

8 The Crying Game


Notas iniciais
Novo capítulo saindo do forno, parece que aqui no Nyah! eu estou escrevendo pra uma ou duas pessoas, mas ok... Música do Capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=nHppIdkcEL4

22 de Novembro de 2013.

O pior dia da minha vida já indicava indícios de sua proeza.

Luiz Felipe era meu melhor amigo em 2013. Nós éramos colegas e muito próximos, mas nossa amizade se limitava à sala de aula ou algum programa junto com as garotas no Subway ou algo do tipo. A verdade é que eu nunca tinha ficado sozinho com ele.

Ele e Rafaela estavam quase namorando no final do ano. E um dia combinamos de nós três irmos ver um filme na casa dele, não seria tão agradável assim segurar vela, mas eu iria de qualquer jeito, eu gostava de estar com ele.

Eram dois ônibus até a casa dele, quando descemos do primeiro no centro, o celular da Rafa tocou.

Alguns segundos depois ela anuncia.

— Gente, não vou poder ir, minha mãe surgiu com um chá de fralda da minha prima e eu tenho mesmo que ir. – ela nos avisou com uma expressão de que sentia muito. – Mas vão vocês, outro dia a gente vai de novo e tal. – ela apressou a acrescentar.

Rafaela era um amor, ela é outra da minha lista de pessoas que eu amava e que eu fiz merda.

— Ah, que merda. – disse eu, verdadeiramente achando uma pena ela não pode ir.

Luiz estava quieto.

— Bom, Vamos? Eu tenho que pegar ônibus também. – ela disse, fazendo sinal com que andássemos, mas Luiz não se mexeu.

— Ah sei lá. – ele falou por fim. – Se eu for com ele lá sozinho o porteiro e os outros vão achar que eu sou gay.

As palavras dele demoraram para fazer sentido na minha cabeça, com certeza elas fizeram para Rafaela primeiro, já que ela me olhou com as sobrancelhas juntas e os lábios comprimidos.

A verdade me atingiu como um soco.

Luiz sentia vergonha de mim, sentia vergonha de ter um amigo gay, sentia medo de ser visto sozinho comigo e acharem que tínhamos algo ou que ele era gay também.

Ele era meu melhor amigo...

Doeu, doeu tanto...

Eu não pensei, fingi que não me importava de início e iria para casa, mas não consegui, as lágrimas ameaçavam ganhar a batalha a qualquer momento, então saí andando rápido na frente deles, quase correndo, me metendo na multidão. Ouvi Rafaela gritar meu nome mas eu já estava fora de visão. Corri para a parada e tentei com todas as minhas forças não chorar até o caminho de casa. Foi o retorno mais longo que eu já tive.

Chegando lá as coisas não mudaram, eu chorei tanto, tanto quando cheguei e me tranquei em meu quarto que quando parei achei que simplesmente não fosse possível chorar mais.

Tomei remédios para dormir que eu roubava da minha mãe e adormeci até as 3 da manhã.

3:02

Acordo com vontade de ir ao banheiro, a verdade dos acontecimentos me atinge como uma desagradável lembrança que eu queria esquecer.

Mas tem algo mais, algo como um sussurro, não, não um sussurro, mas vozes abafadas.

Meus pais no quarto ao lado.

Me aproximo da parede que faz a divisão e fico no maior silêncio possível e ouço meu pai, o homem com menos sentimentos que eu conheci, chorando.

— Por que com a gente? – ele disse com a voz falha. – Tem famílias com sei lá quantos filhos aí e não acontece essa desgraça, com a gente, que temos só um acontece isso. Por quê?

Novamente, meu cérebro é lento para perceber do que se trata, até que alguns segundos pensando eu me dou conta que ele fala da minha orientação sexual, da qual ele descobriu à pouco tempo.

Não sei quanta dor um coração consegue aguentar, mas eu parecia não aguentar mais nem uma gota.

As lágrimas voltam a jorrar de meus olhos e eu me contorço na cama em gritos silenciosos que eu gostaria de dar até rasgar minha garganta.

O desespero toma conta de mim, passo as unhas pelos braços repetidas vezes o mais forte que consigo.

Eu não tinha unhas grandes então o estrago não é feio, não é doloroso o suficiente.

Uma lâmina.

Tudo que eu preciso é uma lâmina.

Com dificuldade, quebro uma gilete, em nenhum momento enquanto eu faço isso a dor em meu peito diminui. Removo a lâmina e miro em meu braço esquerdo.

HAPPY

É o que faço. Uma total ironia do que eu não sou, do que eu mal sei o que é.

O sangue escorrendo em meu braço não diminui a dor que sinto dentro de mim.

Eu já sentia falta de Vinicius.

Eu não fui na aula ontem.

Não consegui. Não queria.

As coisas que Cris falara realmente tinham me abalado e eu quis pensar sobre, não ir no colégio não era um problema pra mim. Minha mãe não falava nada, meu pai nem perceberia, estaria trabalhando, ele saía cedo de casa e só voltava por volta das 14:00.

Pensei comigo mesmo se Vinicius já tinha visto os cortes e o que teria pensado.

Ele havia me mandado uma mensagem perguntando se eu iria no colégio, confirmei que sim, e antes de nos encontrarmos no intervalo, sabia que não vinha boa coisa quando ele disse que queria conversar comigo a sós.

Ele tinha falado muito pouco comigo por mensagem, praticamente nada, digitando apenas mensagens curtas.

Andamos sob um silêncio extremamente desconfortável até um canto isolado da escola.

O que foi? – pergunto por fim.

Por que você fez aquilo? – ele indaga sério.

Aquilo o que? – respondo confuso.

— As coisas que você falou pro Cris.

Ah, claro que ele tinha falado para o Vinicius...

— É bem irritante ele ser um cavalo comigo o tempo todo. – me defendo.

— Cara, ele tá com um pouco de ciúmes, não é nada demais.

— Continua sendo chato, Vinicius.

— Eu sei, mas não precisava ter falado tudo aquilo...

— Ah, e ele não me falou nada, né? – defendo-me.

Vinicius me encara por um instante sem saber o que falar.

— Eu sei, ele me falou... – ele diz. – Mas você que começou.

— Foda-se, ele também falou merda pra mim e eu não fui correndo te falar e mandar você encher o saco dele. – respondo rispidamente, me irritando com a defesa de Vinicius sobre Cris.

— Cara, sobre as cic... – ele começa.

— Não quero falar sobre isso! – interrompo ele antes que termine – Não quero ouvir ninguém falando sobre o quanto me acham fraco ou covarde! E você e nem ninguém tem nada a ver com isso! O Cris já deixou claro que eu sou um covarde, okay? Você pode ficar do lado dele, sério mesmo, mas eu não sou obrigado a ouvir tudo de novo de você. – a raiva faz com as palavras praticamente pulem da minha boca, novamente sem que eu consiga pensar se elas são mesmo necessárias.

Vinicius me encara por um instante como se não acreditasse no que ouviu e eu me arrependo do que disse, mas não consigo falar nada. Mesmo que por dentro eu queira implorar que ele não dê ouvidos para o que eu acabei de falar, gostaria de ter agarrado as palavras no ar antes que elas chegassem nos ouvidos de Vinicius.

— Não acho que você seja covarde e nem fraco. – ele diz por fim, e nunca tinha visto seus olhos tão tristes. Dizendo isso, ele passa por mim.

— Vini... Espera! – tento chamar, mas ele já está longe, ou simplesmente não quer mais me ouvir.

Droga. Vamos jogar de novo.

Qual o objetivo de jogar um jogo que eu sei que vou perder?

Eu não queria perder Vinicius, ele era a melhor coisa que me acontecia há um bom tempo.

Eu estava tendo uma droga de uma recaída, eu estava voltando a cometer erros com as pessoas que eu gosto, isso era horrível, não sei se todos entendem, mas manter amizades não é a coisa mais fácil do mundo, você pode se ferrar por ser falso, tanto quanto pode se ferrar por ser verdadeiro demais, e por um ou outro eu sempre me dava mal. Mas isso tinha que mudar, logo após a vergonha cicatriz em minha perna, a qual eu chamava de lembrete, eu prometi a mim mesmo que deixaria meus erros para trás e começaria tudo de novo, mas eu não cometeria os erros de novos, a vida não era nem um pouco fácil, ela não facilitava nada para ninguém, muito menos para mim.

E Vinicius estava se tornando um ponto seguro para mim, eu queria confiar nele, por mais que todas as vezes que eu quis falar algum segredo ou simplesmente alguma coisa que ele ainda não sabia, era como se um nó se formasse em minha garganta, impedindo-me de falar, impedindo-me de confiar nas pessoas, eu também havia sido traído, as pessoas também me derrubaram, no fim das contas, talvez eu merecesse isso, mas agora não, eu ainda tinha medo de que Vinicius fizesse o mesmo. Ele parecia ser um amor, parecia ser um bom amigo, mas de início Richard e Gabriel também pareceram.

Não, eu não teria mais medo, não pensaria que Vinicius era igual à todos, de alguma maneira eu queria acreditar que ele era melhor que os meus outros ex-amigos.

Eu não deixaria ele ir.

Notas finais
Heey, se curtiram, por favoooor, comentem, sério mesmo pessoal, é muito gratificante e estimulador. Vejo vocês no próximo capítulo que será postado no dia 4/5. Abraços :3