Veni Vidi Vici

5 Sledgehammer


Notas iniciais
Nesse capítulo temos uma festa (tem que ter, né u.u) e esta festa será um fator importantíssimo para MUITOS acontecimentos que virão a acontecer. Música do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=gCJ3rmiZFr8

Algumas pessoas dizem que antes de morrer, toda nossa vida passa pelos nossos olhos.

Algo parecido havia acontecido comigo.

Quando eu me dei conta de que havia perdido tudo, de que eu não possuía mais nada, foi como se algo dentro de mim morresse, então, para fazer jus ao momento e me fazer sofrer mais ainda, foi como se passasse pelos meus olhos todos os bons momentos que tive com Fernanda, Eduarda e Richard, todas as risadas, todas as lágrimas, tudo voltava na minha mente como uma torrente de lembranças.

Eu conhecia Eduarda praticamente minha vida toda, ela sabia de exatamente tudo sobre mim, inclusive das coisas erradas que comecei a fazer para Fernanda desde julho do ano passado, talvez ela devesse ter me dito que o que eu fazia era errado e que eu devia parar de fazer, que eu devia pensar em como a Fernanda se sentiria, ela devia ter feito isso.

Bobagem.

Eu só penso essas coisas porque tento inutilmente colocar a culpa da minha desgraça em outras pessoas além de mim.

Mas eu sou o único culpado.

Eu sou exclusivamente o responsável das minhas decisões.

E eu tomei a decisão de ser imprudente e estúpido todas as vezes que eu tive a chance de fazer a coisa certa.

Esses flashes do meu passado perfeito com meus três agora ex-amigos ainda continuam, eles me levam às lágrimas de vez em quando, e acho que esse é o sinal de que eu ainda não morri, de que eu ainda tenho alguma salvação, ainda estou passando pelos meus últimos momentos de vida.

E eu estou determinado à sobreviver.

Vou ser um sobrevivente.

Eu posso fazer isso.

Vinicius me incomodava o tempo todo sobre o Sarau, tanto no colégio quanto na internet.

Aceitei.

Na verdade não foi tão difícil quanto parece, eu sempre quis cantar em público, sempre imaginei como seria a sensação de ser aplaudido por várias pessoas, porém nunca tive coragem, mas agora com Vinicius era diferente, todo mundo gostava dele, talvez mesmo que a apresentação fosse um desastre as pessoas ainda fingissem ter gostado por causa dele.

Até porque eu já amaria qualquer apresentação só por ver ele tocando violão. Sério, era muito... sexy, talvez seja a palavra.

— Então, que música vamos cantar? – Vinicius me perguntou animado no dia em que aceitei a proposta de cantar no Sarau.

— Arctic Monkeys. – respondi rápido.

— Perfeito! – aprovou Vinicius. – Mas qual?

Estávamos só nós dois no pátio, Amanda não aparecera e Cris estava com outros colegas, o que era ótimo, porque sua presença estava ficando cada vez mais insuportável.

— Fluorescent Adolescent? – Vinicius sugeriu.

— Eu tenho cara de Nicki Minaj pra cantar rápido daquele jeito? – brinquei, rindo de sua sugestão. Vinicius achou hilário, mas concordou que estava fora de cogitação.

— Estava pensando em algo mais lento, tipo sei lá... Do I Wanna Know. – dei a ideia. – Além de que muita gente conhece.

— Boa ideia. – Vinicius aprovou. – Vamos ensaiar.

— Okay. – E Vinicius começa a tocar a introdução e eu a cantar.


Have you got colour in your cheeks?

Do you ever get that fear that you can't shift the type

That sticks around like something in your teeth

Are there some aces up your sleeve

Have you no idea that you're in deep?

I've dreamt about you nearly every night this week

How many secrets can you keep?

'Cause there's this tune I've found

That makes me think of you somehow

And I play it on repeat

Until I fall asleep

Spilling drinks on my settee...

— Olha, acho que você podia ao menos fazer os backing vocals do “Do I Wanna Know”. “Sad to see you go” e etc... – sugeri, interrompendo-o.

— Tudo bem. – Vinicius concorda e continuamos, e me admiro do quanto tudo ocorre bem, algumas pessoas até param para nos olhar, o que me deixa um pouco envergonhado, mas continuo cantando, Vinicius, pelo contrário, parece adorar a atenção recebida e capricha no violão e seus curtos vocais.

Terminamos e recebemos algumas palmas, o que me deixa bem animado e aliviado ao mesmo tempo.

— Tá perfeito! – Vinicius exclama animado. – Nossa apresentação vai ser a melhor de todas!

– Espero que sim. – encorajo-o, lembrando ao mesmo tempo da apresentação de Lorenzo e sua banda, que com certeza, como sempre, seria a melhor apresentação do Sarau, mas ele apenas me encara sorrindo, daquele mesmo jeito que fez quando tocou Fluorescent Adolescent no primeiro dia em que nos vimos e quando eu estava ensinando-o química, ele realmente tinha algo com o olhar, que eu não conseguia encarar por muito tempo.

— Ér... Acho que devemos subir... – tento inventar algum assunto.

—- Não! Tem uma coisa que eu não te falei! – percebo que Vinicius é meio distraído e está sempre se esquecendo de alguma coisa, o que é meio engraçado.

— O que? – pergunto.

— Tem uma festa sábado, se você quiser ir... – ele diz, encobrindo seu repentino interesse, parecendo pela primeira vez desde que eu o conheci, envergonhado.

— Ah, claro, seria ótimo, eu realmente preciso beber. – respondo sinceramente, nem lembro a última vez que bebi, mas só agora noto que seria perfeito ficar bêbado e esquecer de tudo por algumas horas. Pode parecer clichê, mas uma das coisas que eu mais amo no mundo é ficar bêbado, aquela sensação incrível de que nada parecer ser importante e nem preocupante, aquele sentimento forte e verdadeiro de deixar as coisas para lá e fazer tudo que der na cabeça. E fazia um tempo que eu não ficava bêbado, eu costumava ir em festas com a Eduarda principalmente, outras com a Fernanda e o seu namorado, mas depois de tudo que aconteceu, eu fiquei meio sem companhia para as noites.

— Eu também. – Vinicius ri e começamos à subir para nossas salas. – Vou combinar contigo tudo direitinho depois.

— Okay.

* * *

O restante da semana foi bem comum, Fernanda e eu fingíamos que o outro não existia na sala de aula, enquanto parecia cada vez mais se aproximar da garota que sentava à sua frente, Brenda, pouco a pouco eu deixava de me importar com isso, ou era apenas o que eu queria acreditar. Vinicius e eu continuamos com os ensaios um tanto desnecessários nos intervalos, já que eu sabia de cor a letra e ele a cifra.

Sábado.

Eu estava novamente ansioso.

Vários amigos de Vinicius iriam, Amanda iria também e claro, meu “melhor amigo” Cris, que era a única parte que me desanimava.

Porém era sábado, e eu combinei de me encontrar com Vinicius na casa dele às 18hrs para irmos para a tal balada na Cidade Baixa.

Vinicius demorava muito para se vestir, pelo amor... Ele me pediu diversas vezes qual camisa combinava melhor com a sua calça bege, e as trocou umas três vezes, o tênis foi outra novela, já que ele tinha muitos pares e ficava indeciso o tempo todo se aquele ficava melhor do que o que estava usando.

— Meu Deus, que horas você se acorda para ir para o colégio? – pergunto, exasperado, depois da terceira troca de camisa.

— 6:40. Por que? – ele responde inocente.

— Porque se você demora todo esse tempo para se arrumar todos os dias, deve acordar cedo.

Ele sorri, divertindo-se com minha impaciência.

— Fazer o que, tenho que ficar lindo, né? – ele brinca, voltando a passar os olhos no guarda roupa.

— Isso não é uma tarefa muito difícil. – as palavras escapam de minha boca antes que eu decida se elas são adequadas de ser ditas, mas antes que o sangue corra para meu rosto, Vinicius dá uma olhada por cima do ombro para mim, sorrindo, parecendo muito satisfeito com o que eu disse.

— Cale a boca. – digo sorrindo, antes mesmo que ele diga alguma piadinha de auto confiança.

— Ora, eu não disse nada. – ele defende-se rindo.

— Antes mesmo que diga.

Ele fica em silêncio, um sorriso ameaçando sair dos lábios a qualquer momento.

— Bom, eu fico bem de qualquer jeito mesmo. – Vinicius diz quando não se aguenta mais e eu jogo uma camisa embolada nele, rindo, ele vai até o banheiro escovar os dentes.

O cabelo também foi um dilema à parte, por mais que eu não conseguisse entender porque ele demoraria tanto para arrumar um cabelo que bastava passar a mão uma vez e ficava perfeito. No fim, tive que arrastá-lo para fora do banheiro, sob seus protestos de que ainda não estava perfeito.

Acabamos por chegar lá às 21hrs, Encontramos Amanda e Cris e outros amigos deles. Alex, Marina, Julia, Anderson e Thales.

Esses eu até tentaria gravar os nomes, mas conforme o álcool ia entrando em meu organismo, ficava cada vez mais difícil. Logo estávamos rindo e brincando o tempo todo. Diversas músicas tocavam e dançávamos como loucos no meio da multidão.

Eu não sabia até agora o quanto eu senti falta dessa sensação.

Não lembrar de nada.

Não se importar com nada.

Deixe ir...

Não se importe...

Era incrível finalmente poder obedecer essas ordens implícitas que eu dava à mim mesmo.

Vinicius parecia tão feliz quanto eu, ele pulava e abraçava nós na pista segurando uma garrafa de vodca que ele passava para nós.

Eu confesso que sou mais fã dos kits, as misturas, mas depois de estar “no brilho”, eu nem me importava mais com o gosto desagradável da Natasha em minha boca ou queimando minha garganta.

Eu me sentia feliz.

Eu realmente me sentia feliz.

E isso era tão inacreditável que cada vez eu queria curtir mais e dançar mais e fazer tudo mais...

I don't admit it, I play it cool

Every minute that I'm with you

I feel the fever and I won't lie, I break a sweat

My body's telling all the secrets

I ain't told you yet.”

Vinicius chegou do meu lado e passou um dos braços pelos meus ombros.

— Acho que você não tá curtindo o bastante, hein? – ele brinca com a minha empolgação.

— Ah, você acha? – eu paro um pouco de dançar e me viro mais para ele, fazendo com que nossos rostos fiquem apenas alguns centímetros separados, o que com certeza é em consequência do álcool, eu nunca faria algo assim sóbrio.

— Acho... – ele me olha nos olhos e tudo que eu quero fazer é beijá-lo. Seus olhos ficam ainda mais negros e profundos com a pouca luz do ambiente e são hipnotizantes para mim.

— Se você pudesse sentir meu pulso agora, ele estaria batendo como uma marreta. – cito a música que toca no momento, Vinicius sorri e é o momento, tenho certeza que vamos nos beijar, mas obviamente como é comigo, alguma coisa acontece para impedir.

— Aí Vinicius, passa a Natasha! – grita uma das garotas, acho que Julia, fazendo com que nos afastemos rápido um do outro.

— Vou ao banheiro. – anuncio enquanto Vinicius, muito corado, passa a garrafa para a garota, que agradece com um sorriso. Em seguida, vejo a mesma beijar Cris. O que me deprime ainda mais.

Abro espaço com dificuldade até a porta afastada do banheiro masculino e me olho no espelho, passando água no rosto, apesar da minha visão turva, eu acho que estou parecendo bem, os cabelos um pouco desarrumados e a pele um pouco suada, mas em resto okay.

Droga, eu quase havia beijado Vinicius. Eu queria tanto isso.

Mas por um lado era bom não ter acontecido, porque me conhecendo bem como eu me conheço, sabia que iria começar a gostar dele, ele provavelmente se arrependeria do que tinha feito – isso se ele lembrasse – e iria fingir que nada aconteceu, ou pior, acabaria com nossa recém formada amizade, o que ele acharia que eu era? Algum gay escroto que embebeda os amigos héteros para “dar uns pega?”.

Afastei todos os pensamentos da cabeça, com uma grande e bem-vinda ajuda do álcool e voltei para a pista de dança para procurá-los, algo que tive grande dificuldade com aquele monte de gente se balançando.

Mas o pior foi a cena que eu encontrei.

Amanda e Vinicius juntos.

Muito juntos.

Se beijando.

A cena não devia me deixar com essa sensação.

Talvez um pouco surpreso. Mas não era bem isso o que eu estava sentindo. Na verdade eu não sabia o que eu estava sentindo.

Enjoo.

De repente eu me senti muito enjoado, então corro de volta para o banheiro, com o beijo dos dois repetindo incansavelmente em minha cabeça.

Notas finais
Pliiis, comentem se curtirem (ou não), incentiva muuuito mesmo. E favoritem e/ou acompanhem para serem notificados quando sair capítulo novo. O 6º capítulo sai dia 23/04. Nos vemos lá :*