Veni Vidi Vici
11 I Wanna Be Yours
Notas iniciais
4 de Fevereiro de 2015
As desgraças começaram cedo esse ano.
E o pior é que essa eu não vi chegando, essa me pegou totalmente de surpresa.
Era para ser apenas uma noite divertida, talvez fosse apenas isso se Richard e eu não tivéssemos comprado aquelas cervejas e bebido aquele licor.
O céu escuro ameaçava fazer chover a qualquer momento, mas eu estava determinado à dormir na casa de Richard, porque era fim de semana, e fins de semana são os piores dias aqui em casa...
A chuva começou a cair na metade do caminho, quando eu estava esperando o segundo ônibus até a sua casa, mas não cogitei atravessar a rua e pegar um ônibus para voltar para a minha, e agora eu me arrependo, tudo teria sido diferente se eu tivesse voltado para casa.
Mas eu prossegui, cheguei na parada da casa de Richard ensopado, eu admirava ele, tinha apenas 18 anos e já morava sozinho, apesar de eu não saber o porquê.
Richard me buscou na parada e o guarda-chuva não foi suficiente para nos proteger da chuva torrencial que caía, chegamos encharcados no apartamento, sorte que eu havia levado roupa para trocar lá.
Richard tinha comprado várias latinhas de cerveja, começamos à beber enquanto víamos “Frozen – Uma Aventura Congelante”, o que é irônico, um desenho inocente passava enquanto nós começávamos a conversar assuntos sérios.
Richard já tinha bebido demais.
Eu nem tanto.
Ele estava deitado na cama com os pés no meu colo.
— Minha mãe me deixou quando eu tinha seis anos. – ele disse de repente, com os olhos fechados.
— Como assim? – perguntei.
— Ela nos deixou, meu pai estava viajando, e ela deixou eu e meus três irmãos sozinhos em casa. Eu tinha só 7 anos, minha irmã 10, e meus outros dois irmãos tinham 4 e 6. – ele explicou, ainda com os olhos fechados, eu o fitava com atenção, há um bom tempo eu queria saber sobre a mãe dele. – Ela simplesmente foi embora... Foi tão fácil pra ela...
Me emociono mais do que o normal por causa do álcool.
— Ah, Rick... – começo com os olhos marejados. – Eu sinto muito.
Ele assente com a cabeça e vai cambaleante até o banheiro, já eu caminho até a janela do seu quarto e observo a chuva cair, é bonita a vista do apartamento dele, normal, mas eu acho bonita, prédios e mais prédios.
E então eu penso em tudo.
Penso em quantas coisas também deram errado pra mim, em quanto a minha vida é fodida.
Ele volta e se escora do meu lado e eu me abro, como há muito tempo eu não me abria para ninguém.
Falo dos meus pais, a ferida que eles abrem em mim todos os dias, no quanto eu invejava todas as famílias perfeitas por aí, que tem pais unidos e felizes, e o quanto eu entendia Richard e sua família complicada, como o pai dele ficou deprimido depois que a mulher simplesmente sumiu e nunca cuidou deles direito, e que Richard tinha saído de casa o mais rápido que pôde.
Eu chorei, chorei tanto naquela noite, mas eu estava contente de chorar, estava contente de desabafar.
Richard falou coisas lindas para mim.
— Por mais que eu não me dê muito bem com meu pai, meus irmãos... Eu vou estar sempre aqui se eles precisarem, e você... – ele olha diretamente para mim. – Eu posso dizer que você é família pra mim! E eu não abandono minha família! Você pode tá na merda, eu vou estar sempre aqui pra ti.
Não me lembro de qualquer pessoa ter me dito algo assim em toda minha vida, e por essa razão eu choro mais ainda e Richard me abraça forte.
Gostaria que tivéssemos ficado apenas abraçados assim a noite inteira...
Maio.
Fernanda estava amiga de outras garotas da sala, eu, bom, eu não havia feito amigos na sala, o que em parte era bom, pois o segundo ano estava bem difícil e eu precisava estudar, mas isso não importava, porque eu tinha Vinicius e Amanda, eu ficava cada vez mais próximo deles, e isso era ótimo.
Eu ainda tinha problemas para confiar nas pessoas, e não tinha certeza se eu era alguém confiável, e eu não estava feliz, eu estava apenas melhor que antes.
E hoje era o Sarau, então eu estava muito nervoso. Cheguei bem cedo no colégio para Vinicius e eu ensaiarmos uma última vez.
Chegando lá, encontrei ele, Cris, Amanda e outros amigos nossos num cantinho.
— E aí, pessoal. – cumprimentei. Vinicius tocava uma música, ele apenas acenou com a cabeça me cumprimentando, estava um tanto concentrado em seu violão. Apurei os ouvidos para ver se conhecia a música tocada.
— I Wanna Be Yours. – falei, após alguns segundos.
Ele sorri e termina de tocar.
— Eu amo essa música. – falo. – Acho que se eu tivesse que cantar uma música para alguém que eu ame, seria essa.
Vinicius concorda com a cabeça.
— Awn, canta pra mim então! – Amanda me abraça por trás sorrindo.
— Pode deixar, gata! – brinco com ela. Vinicius parece atento.
As outras pessoas que estavam ali começam a se dispersar conforme suas respectivas atividades demandam suas atenções. Em seguida Amanda também.
— Gostosos, eu vou indo porque eu tenho que fazer teatro daqui a pouco. – Amanda anuncia, dando beijinhos em nossos rostos.
— Você está quieto. – observo, depois de ficar sozinho com Vinicius. – Nervoso?
— Um pouco. – ele admite baixinho.
— Nós vamos ser ótimos, Vini. – encorajo-o com um sorriso, e ele sorri e volta.
— Não é só isso, estive pensando em uma coisa... – e vejo que ele não tem certeza se quer falar.
– Você quer me contar?
— Quero... – ele olha para os lados, parecendo envergonhado.
Fico em silêncio esperando com que ele continue.
— Depois... – ele decide.
— Okay. – respeito sua decisão, mas não consigo evitar de ficar curioso. – Último ensaio? – puxo rapidamente outro assunto.
— Claro. – ele confirma sério. E começa a tocar.
Vinicius não errou uma nota em todos nossos ensaios, logo hoje ele erra algumas.
—Vinicius, isso não pode acontecer. – preocupo-me, não está em meus planos passar vergonha na frente da escola toda.
— Não vai. – ele promete sério, Vinicius está definitivamente muito estranho, e isso me deixa desconfortável, porém, não vou pressioná-lo.
* * *
É a nossa hora, eu estou mais nervoso do que jamais estive na minha vida, Vinicius também, mas diferente de mim, que fico inquieto, ele está muito quieto e mal fala, subimos ao palco.
— Tudo bem pessoal? – Vinicius cumprimenta um tanto sem jeito no microfone dele. – Nós vamos cantar uma música do Arctic Monkeys, espero que vocês curtam.
Algumas palmas.
Vinicius me olha nos olhos e eu confirmo com a cabeça.
Ele começa a tocar.
Tem algo estranho.
Tem alguma coisa errada.
Vinicius não está tocando Do I Wanna Know.
Ele está tocando a mesma música de quando cheguei.
I Wanna Be Yours.
Eu o olho confuso buscando explicação, Vinicius nem me olha, concentrado no violão em seu colo.
Não tem jeito, não vou interromper, eu canto a música.
I wanna be your vacuum cleaner
Breathing in your dust
I wanna be your Ford Cortina
I’ll never rust
If you like your coffee hot
Let me be your coffee pot
You call the shots babe
I just wanna be yours
Continuo tentando desesperadamente arrancar uma explicação de Vinicius, mas não recebo nenhuma até que seus olhos negros encontram os meus.
Ele me olha tão fixamente que eu quase perco a letra.
Secrets I have held in my heart
Are harder to hide than I thought
Maybe I just wanna be yours
I wanna be yours
“Acho que se eu tivesse que cantar uma música para alguém que eu ame, seria essa.”
Não pode ser. A ideia que eu tenho é impossível. Mas porque Vinicius trocaria de música em cima da hora sendo que minutos atrás estávamos ensaiando Do I Wanna Know?
I wanna be your vacuum cleaner (I wanna be yours)
Breathing in your dust (I wanna be yours)
I wanna be your Ford Cortina (I wanna be yours)
I will never rust (I wanna be yours)
I just wanna be yours (I wanna be yours)
I just wanna be yours (I wanna be yours)
I just wanna be yours (I wanna be yours)
Tudo sai inesperadamente perfeito, Vinicius continua fazendo os backing vocals como planejado na outra música e nós terminamos. Os aplausos começam mas eu estou atordoado demais, ainda assim consigo forçar um sorriso. Vinicius atua melhor do que eu e solta um “Obrigado, galera!” bem empolgado e nos retiramos.
— Que merda foi essa? – exclamo, assim que vamos para trás do palco onde não há ninguém.
Vinicius está sério e envergonhado e não responde.
— Por que você trocou a música sem me avisar? Depois de termos ensaiado tantas vezes a outra? – eu quero as respostas, preciso de explicações. – E se eu não soubesse a letra?
— Você disse que cantaria essa música pra quem você amasse, óbvio que você sabia a letra. – ele se defende, logo continua muito tímido, quase num sussurro. – Só pensei em fazer o mesmo.
Fico boquiaberto e um turbilhão de pensamentos passa pela minha cabeça.
Vinicius quer dizer com isso o que eu acho que ele quer dizer?
— Vini... – começo sem saber o que dizer.
— Olha, eu não sou tão bom com palavras, tá? Desculpa. – ele finalmente me encara e aqueles olhos negros fazem eu me arrepiar, mas isso só dura um instante, porque ele avança em minha direção e me beija.
De inícios meus lábios não se movem, e então a suavidade deles me ganha e eu fico envolvido no beijo enquanto ele me abraça com um braço e acaricia meus cabelos com a outra mão.
— Isso acabou de acontecer mesmo? – eu pergunto depois de um longo momento em que nos beijamos.
Ele sorri envolvendo meu rosto com as mãos.
— Eu sei que eu não beijo tão mal assim. – ele brinca sorrindo.
— Ah, cale a boca. – e eu puxo para mais um longo beijo em que me deixo perder junto com Vinicius. Queria ficar ali para sempre, queria deixar minha mente vazia como está nesse momento, queria nunca mais precisar sair dali, queria não ter que pensar em mais nada, apenas nos lábios de Vinicius nos meus.
Ele se afasta lentamente e eu gemo baixinho desaprovando.
Ele sorri e faz um carinho no meu rosto.
— Acho melhor irmos para um lugar mais privado. – ele sugere, segurando uma de minhas mãos.
— Concordo plenamente. – abro um sorriso malicioso e ele balança a cabeça sorrindo.
— Eu tenho que avisar o Cris que não vou pra padaria com ele depois da apresentação de teatro dele.
— Não fala que vai estar comigo, ele vai ficar louco se souber que foi trocado. – alerto.
— Pode deixar. – ele confirma com um sorriso e me dá um selinho e sai de trás do palco, eu fico ali, igual um idiota sorrindo bobo encarando o muro na minha frente.
Eu beijei Vinicius.
Não, ele me beijou.
Cara, ele tocou I Wanna Be Yours pra mim, não tem como ser mais perfeito que isso.
Como eu nunca percebi que eu queria ficar com ele?
Acho que as tantas decepções e amores platônicos que eu tive fizeram me afastar de qualquer possibilidade de ter sentimentos amorosos por Vinicius, ele era lindo demais, ele era meu lindo demais, eu queria estar com ele agora, mas ao mesmo tempo não conseguia sair do lugar.
— Aí está você! – Amanda chegava do nada. – Estava te procurando por toda a escola. Credo, você fumou maconha e nem me chamou? – ela acrescenta após ver meu sorriso bobo, o qual eu trato de fechar imediatamente.
— O que foi? – pergunto, voltando à realidade.
— Eu não aguento mais, tenho que contar pra ele, e contar pra você também. – ela diz muito rápido e nervosa, olhando para os lados.
— Contar o quê? Pra ele quem? – pergunto com as sobrancelhas juntas, confuso.
— Para o Vinicius! – ela exclama. – Para o Vinicius. – repete abaixando o tom de voz, percebendo que falou muito alto.
— Falar... o quê? – pergunto, mas inconscientemente eu já sei a resposta e por isso meu coração acelera, não pode ser...
— Olha, eu queria ter te contado antes, mas eu estava com vergonha e... Eu estava procurando o melhor momento pra falar, mas hoje, vendo ele tocar aquela música super romântica, eu não posso mais esconder – ela estava muito nervosa e não sabe o que falar. – Eu estou apaixonada pelo Vinicius, é isso. – ela diz de uma vez só.
Eu encaro-a perplexo, sem saber o que fazer, sem saber o que falar, minha boca se abre um pouco e Amanda parece muito ansiosa para que eu diga algo.
— Fala alguma coisa, cacete!
— Isso... isso é ótimo. – eu reúno todas as minhas forças de falsidade para abrir um sorriso, que Amanda aprova.
— Vou falar pra ele, vou falar agora! – ela diz animada.
— Okay. – eu respondo. – Vai lá.
— Tá bom, obrigada mesmo. – ela me dá um beijinho na bochecha e sai correndo pelo colégio.
Meus olhos se enchem de lágrimas e eu não acredito o quanto estive feliz alguns segundos atrás, e o quanto isso mudou no mesmo intervalo de tempo.
Mas nesse momento eu sabia que teria que tomar uma decisão, a qual, na verdade só havia uma opção.
Eu não poderia ficar com Vinicius.
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