Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
1 Tenho uma coisa para te contar
Notas iniciais
Levi atravessava o corredor do quartel-general com as mãos nos bolsos e a cabeça nas nuvens. No andar inferior acontecia uma festa cheia de carne e bebida, e o capitão não poderia estar menos interessado em ficar perto de gente contente.
Ele teve um pequeno desentendimento com Erwin. O comandante havia perdido um braço na operação para resgatar Eren, e mesmo incapacitado para batalhas, o loiro ainda queria participar das expedições fora das muralhas. Erwin estava disposto a sacrificar sua própria segurança por causa de um sonho que ele podia muito bem realizar sem precisar se matar e isso irritou Levi de uma tal maneira que o moreno acabou descontando parte da raiva em Eren e Jean, quando foi separar uma briga entre os dois.
Como não estava no clima para festa, Levi acabou se isolando dos demais convidados, incluindo Hange e Erwin. Ele, que não era de beber, passou a noite com uma única caneca de vinho, escondendo-se atrás de paredes e ouvindo, sem querer, conversas sentimentais, como um papo utópico de Armin sobre um gigante lago salgado. Um dia, o capitão foi um jovem acompanhado por dois amigos cheios de sonhos como o garoto, e era impossível não lembrar dos velhos tempos ao observar o trio de Shiganshina.
O capitão se dirigia para o seu dormitório. Já passava das onze, o único barulho no castelo era o som de suas botas contra o chão de pedra, e o rangido de uma porta sendo aberta.
— Levi!
Os lábios de Erwin estavam entreabertos e ele parecia branco demais para uma pessoa que bebeu. A veia na testa de Levi pulsou, ele havia evitado Erwin a noite toda, e de repente lá estava ele, vestido com seu blazer habitual com a manga do braço ausente pendurada ao lado do corpo.
Por que ele não amarra essa merda? Fica prendendo nas coisas.
— Erwin.
— Eu ouvi você no corredor. Está indo para o seu quarto?
O comandante estava na moldura da porta. Levi havia parado alguns centímetros dele, conseguindo sentir o cheiro do vinho daquela distância. A postura de Erwin era cabisbaixa, aparentemente incomodado com alguma coisa. Levi conseguiu identificar remorso nos olhos azuis, que evitavam encarar os seus. Será que ele havia mudado de ideia, finalmente?
— Estou. O que você quer me dizer? Fala logo, estou com sono.
A única mão de Erwin se estendeu na direção da sua e Levi recolheu-se, o olhar duro que deu ao maior indicava que não estava disposto a tocá-lo e reforçava a mágoa em seu peito. O comandante recuou, censurado.
— Levi, eu...
Era estranho ver Erwin assim. Levi o viu bêbado algumas vezes e em nenhuma delas o loiro agiu daquele jeito. De repente, o maior balançou a cabeça de um lado para o outro, colocou a mão na própria testa e apertou-a com a ponta dos dedos.
— Pensando melhor... hoje não. Depois de amanhã, quando estivermos de volta às muralhas, preciso ter uma conversa com você. Eu tenho uma coisa para te contar.
— E por que não conta agora?
— Não é uma boa ideia, quando temos tanta coisa para fazer amanhã.
Levi apertou os olhos, ele odiava enigmas e esse parecia ser justamente o passatempo preferido do comandante.
— Erwin, desembucha logo, que saco.
Por um momento, pareceu que o loiro ia ceder. Ele abriu a boca, e um baixo gemido escapou antes que ele falasse.
— Eu bebi um pouco com a Hange, e aí fomos ver umas estratégias que ela queria revisar.
— E...?
O comandante parou por um segundo, parecendo ponderar sobre o que diria a seguir. Abriu a boca para acrescentar alguma coisa, e foi interrompido por um líder de esquadrão que apareceu abraçado a um jovem recruta transferido das Tropas Estacionárias. Os dois passaram rindo por Erwin e Levi e foram em direção ao quarto do tenente, que ficava quase ao lado do dormitório que costumava pertencer a Mike, e em seguida os dois superiores ouviram o barulho típico de alguém vomitando. Levi e Erwin não falaram nada até o ambiente ficar silencioso outra vez.
O moreno voltou a encarar o homem que era seu chefe e amante, e o que viu foi um homem sério e taciturno, com ar de quem tomou uma decisão importante sobre um assunto de mais importância ainda.
— Então?
— Deixa pra lá, Levi, eu ainda não estou completamente sóbrio, e esse não é um assunto que se deva conversar assim. Quando voltarmos da missão, a gente lida com isso.
— Fala sério.
— Desculpe, mas é melhor assim, acredite. Boa noite, Levi.
O comandante deu um passo para trás e eles se encararam pela última vez antes do loiro fechar a porta. Naquele breve segundo, Levi foi tomado pela vontade de barrar a entrada e agarrar-se àquele homem, perdoá-lo e esquecer de uma vez a deprimente conversa que tiveram mais cedo.
No entanto, Levi não fez isso. Ele agarrou-se à ideia birrenta de que continuava chateado e indisposto, e assim deixou que Erwin fechasse a porta. Essa decisão, assim como a escolha impulsiva e imbecil de Erwin ao ceder às vontades igualmente impulsivas de outra pessoa, tal como os caminhos que outros envolvidos tomaram e ainda iriam tomar, teve um importante peso no desenrolar dos eventos que aconteceram no dia seguinte, e no ano que viria depois de dezembro, e até uma década no futuro.
XXX
Hange acordou em sua própria cama com uma leve dor de cabeça. A tenente se espreguiçou até os pés aparecerem por baixo do cobertor pesado, sentindo-se bem apesar do pequeno desconforto entre as pernas, que não era de todo desagradável.
A noite anterior estava fresca em sua memória. Ela havia bebido um pouco mais do que pretendia, mas não o suficiente para perder o controle, de maneira que a cientista estava plenamente consciente de seus atos. Mesmo que não estivesse arrependida agora, mais tarde, quando o assunto fosse abordado, Hange teria problemas em assumir que foi ela quem tomou a iniciativa de beijar o comandante, e que também foi ela quem insistiu e colocou a mão entre as pernas do chefe e amigo, embora ele também tivesse uma grande parcela de culpa. Quando um não quer, dois não brincam, e naquele momento onde os dois, meio bêbados, compartilhavam estratégias de batalha, ambos quiseram.
A até então tenente não se considerava uma pessoa sexual. Na época que o emblema em suas costas era o desenho de duas espadas, ela foi a única menina que não teve relações carnais com um cadete homem até o ano da formatura. Seu foco sempre foi estudo e trabalho, de forma que ela só pensava em sexo nos momentos de ócio ou em raras ocasiões onde simplesmente estava a fim, como na noite anterior.
Hange deu um largo bocejo antes de levantar-se, sentindo o corpo pegajoso por causa da noite com Erwin. Transar com o loiro era uma antiga fantasia que ela desenvolveu na época de recruta, quando o atual comandante era um líder de esquadrão em treinamento. Nas vezes em que tinha insônia e nada para pensar sobre trabalho, ela imaginava o que mais Erwin podia fazer com a língua além de manipular o comandante Keith (outro participante das suas fantasias, diga-se de passagem) e como seria legal se ele a pegasse no colo e... bom.
É claro que Hange abandonou o faz-de-conta após tornar-se amiga próxima de Erwin e amante de Moblit. No entanto, aquele pequeno interesse permaneceu escondido em seu subconsciente, e só foi dar-se conta disso na noite anterior, quando de repente transar com Erwin lhe pareceu uma ótima ideia, embora a experiência não tenha chegado nem perto das fantasias que a cientista costumava sonhar acordada.
O sexo foi cru e um tanto breve demais na sua opinião. Eles fizeram no escritório, com a mulher debruçada na escrivaninha e o comandante atrás. Hange ficou vestida da cintura para cima e Erwin sequer tirou as calças completamente, só colocou o pau para fora e a fodeu, pronto. Quando terminaram, o comandante permaneceu no escritório e a cientista foi direto para o próprio quarto sem tomar banho. Resumindo, não foi uma coisa de outro mundo, mas foi bom. “Okay”, a palavra exata. Foi legal, sentia-se bem, mas não faria de novo. Nota cinco, Erwin.
Sexo não era uma coisa estranha para Hange. Desinibida como era, conseguia transar com as pessoas e conversar com elas no dia seguinte sem a mínima vergonha, tenha sido bom ou ruim. Sua personalidade excêntrica e um tanto intimidadora fazia com que a tenente não tivesse muitos parceiros disponíveis, mas os que se dispunham, eram ótimos. Claro, ela teria preferido ficar com Moblit, uma pessoa com quem além do relacionamento profissional possuía uma amizade colorida beirando namoro, no entanto, o assistente havia desaparecido no meio da festa e ninguém o encontrou. Hange, que estava a fim de fazer sexo – uma mulher pode e deve se dar essa liberdade de vez em quando, principalmente as tão ocupadas como ela – acabou transando com Erwin. Bom, fazer o quê? Acontece.
A líder de esquadrão tomou um banho rápido e saiu do quartel-general com o cabelo ainda pingando. Era cedo da manhã, a expedição só ia começar no finzinho da tarde, já que objetivavam viajar na noite de lua nova para evitar titãs. Hange tinha o dia todo para fazer o que precisava fazer, que era algo que ela já tinha feito um milhão de vezes assim como outras mulheres mais velhas e mais novas também faziam com regularidade. Entretanto, ela tinha tendência a esquecer-se de assuntos menos importantes – não que o tópico em questão não seja, mas perto de seus outros problemas, é – e por isso, sempre que dormia com alguém, sua primeira tarefa no dia seguinte era ir a uma farmácia.
XXX
— Não! Não! Não, não, não, nãaaao!
A cena seria cômica se não fosse trágica. O garoto dentuço puxava os próprios cabelos com força para cima, preferindo a breve dor física ao desespero crescente que tomava conta do seu corpo de dentro para fora, fazendo a ânsia de vômito subir pela garganta e a merda bater na porta do ânus. O adolescente sapateava no mesmo lugar e seu rosto era só olho e dente enquanto contemplava os frascos quebrados em meio a uma enorme poça verde. O caixote que usava para carregar os remédios jazia aos seus pés, e o garoto o chutou para o outro lado do estoque. O gesto causou mais dor ao seu dedão do que ao objeto de madeira.
Ele ouviu um barulho no salão. Ficou imóvel, as mãos ainda agarradas aos cabelos e os olhos ansioso correndo de um lado para o outro. O silêncio era preenchido pelo ronco de sua barriga, que enfrentava dificuldades para segurar o café da manhã que insistia em querer escapar, seja por cima ou por baixo. Por sorte, os próximos sons foram os protestos de seu próprio corpo, e o garoto, por fim, relaxou.
O adolescente se chamava Klaus e era filho do farmacêutico. Ter um pai “empresário”, como o velho referia-se a si mesmo, não era nada bom, pois você era feito de escravo o dia inteiro e não ganhava uma moeda por todo o serviço prestado. Também não recebia sequer um “obrigado, meu filho” pelo trabalho, mas qualquer mínimo erro era o suficiente para o papai empresário puxar o cinto e lhe dar uma surra. As marcas que Klaus escondia em baixo das roupas estavam lá para provar.
Agora, o menino contava o número de cintadas que iria levar. Quarenta frascos quebrados, um golpe para cada nota que o pai perdeu. O medo crescia dentro do garoto enquanto ele se apressava para limpar a bagunça usando um pano úmido em água e vinagre para tirar o cheiro do chá abortivo derramado. Já escutava a voz grave do pai gritando “você é um desajeitado, não presta para nada” acompanhada do barulho cortante do cinto.
Quando terminou de arrumar a bagunça que ele mesmo causara, tirando o cheiro do vinagre, parecia que nada havia acontecido no estoque. Podia arranjar uma desculpa genérica por ter limpado o chão, como mijo de rato. Sim, iria funcionar, eles tinham mesmo problemas com ratos. Klaus foi para o salão como se nada tivesse acontecido e encontrou o pai arrumando a prateleira dos produtos para higiene pessoal. O velho parecia tranquilo.
Ótimo, ele não ouviu nada. Se eu ficar quieto, pode ser que ele pense que esqueceu de comprar chá abortivo.
Klaus foi para o seu lugar atrás do balcão e fingiu naturalidade. Apoiou os braços na bancada e começou a assobiar uma música alegre enquanto olhava a entrada do salão com expectativa, desejando que ninguém aparecesse enquanto o pai estivesse por perto.
Não muito depois, uma mulher vestindo o uniforme da Tropa de Exploração entrou na farmácia. Era mais alta que o garoto e tinha o cabelo oleoso preso num penteado desleixado. Como todo adolescente da sua idade, Klaus olhou imediatamente para o peito da soldada e ficou decepcionado por ela não ter muito para mostrar.
A mulher atravessou o salão sem olhar para os produtos nas prateleiras, o que significava que ela tinha um item específico em mente que só pode ser pedido no balcão. A ansiedade de Klaus inflou e ele sentiu, outra vez, o café da manhã borbulhando no estômago.
— Bom dia.
— Olá, como posso te ajudar?
Não pede chá abortivo não pede chá abortivo não pede chá abortivo ai minha santinha ai ai ai meu pai vai me arrebentar ai ai não pede chá abortivo sua puta desgraçada por favor tenha piedade.
— Tem chá abortivo?
Cadela nojenta filha da puta andou fodendo né piranha desgraçada ah você vai ver.
O garoto esboçou um sorriso educado. Seus olhos foram da mulher para o pai, que continuava organizando os shampoos e condicionadores na prateleira. Klaus pensou em mandar a soldadinha pegar um creme para cabelo oleoso e enfiá-lo no rabo. É óbvio que manteve o pensamento para si.
— Vou verificar, só um segundo.
Pálido como um fantasma, o menino foi até o estoque com o andar enrijecido. Não estava preparado para apanhar logo de manhã, quando ainda tinha um longo dia de escravidão pela frente. Ele olhou para a variedade de remédios já sabendo que não encontraria chá abortivo, pois os que tinham foram para o lixo.
Analisando a seção dos virais, Klaus percebeu que o xarope para sarampo tinha uma cor muito parecida com a mistura de canela, boldo, cravo-da-índia e uma porção de outras porcarias que mulheres indecentes enfiavam goela a baixo quando queriam interromper a fecundação de um óvulo. Bem, quem sabe sua esperteza o livrasse de algumas cintadas, já que ele efetuou a venda de qualquer forma. Vai saber.
Sendo assim, Klaus foi para a lixeira onde jogara os frascos quebrados e quase gritou de alegria ao encontrar um rótulo seco. Ele tirou o papel com todo cuidado do mundo e substituiu com o do sarampo. Prontinho, um chá abortivo novo em folha! Ele saiu do estoque com o frasco adulterado em mãos sem perceber que o rótulo original caia no chão através do bolso furado.
Klaus voltou para o salão com seu típico sorriso cortês, embora grandes rodelas de suor se fizessem presentes em suas axilas. Ele colocou o “chá” num saco e o entregou a soldada, desejando que ela fosse embora de uma vez.
Quis gritar quando a desgraçada abriu o saco para ver o remédio.
— Só estou conferindo a data de validade. Nunca se sabe.
— É. Nunca se sabe.
O seu nervosismo devia estar muito perceptível, pois o pai, lá do outro lado do salão, parou tudo o que estava fazendo para espreitar o filho. Em segundos, o homem corpulento atravessou a farmácia na direção do estoque. Klaus expôs o desespero através de um peido abafado que a mulher não ouviu. Ela colocou três notas de papel no balcão, que para Klaus significavam três cintadas a menos.
— Obrigada.
Klaus assentiu educadamente, tão nervoso que acabou esquecendo de conferir o tamanho do quadril da cliente. O pai do adolescente encontrou o rótulo do xarope caído no chão no exato segundo em que Hange, do outro lado da rua, bebia o medicamento para sarampo numa golada só.
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