Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
10 Você não é especial
A superação é, de fato, curiosa. Durante a vida, passamos por situações intermináveis de desespero que nos levam a pura exaustão, e as vezes somos submetidos a estados profundos de angústia que tornam difícil levantar da cama para viver mais um dia. Porém, uma vez que épocas ou acontecimentos terríveis são superados, se alguém pedir para reproduzirmos as dores com exatidão, não seremos capazes.
Vamos usar a escola como exemplo. Não sei como você era na sua época de estudante, mas se você foi uma criança preocupada com o colégio, ou que sofria extrema pressão familiar para tirar notas boas, então sabe como é estar com o pescoço amarrado. Você certamente sacrificou momentos de lazer para estudar, virou noites e noites relendo livros didáticos e realizou listas de exercícios cansativas. Pode ser que o medo da reprovação o tenha feito arrancar os cabelos e soluçar no banho, pois se não passasse, você ficaria sozinho numa turma cheia de crianças mais novas que certamente não iriam te incluir em grupos sociais; seus pais lhe tomariam as revistas em quadrinhos, os jogos e todas as outras coisas que fazem você feliz; seus amigos terminariam a escola antes de você e não lembrariam de te convidar para o jantar de formatura.
Então, a prova passa e você também. O sofrimento fica para trás, as férias chegam, outro ano começa, novas preocupações surgem para tomar conta da sua cabeça. Se eu perguntar quanto você tirou naquele teste desafiador, há uma grande chance de você não lembrar a nota, tampouco o conteúdo que tanto custou para entrar na sua cabeça.
Por fim, seres humanos saudáveis têm a capacidade incrível de esquecer acontecimentos terríveis após a superá-los. Nós podemos recordar o contexto e sermos compassivos para com o pelo nosso Eu do passado, no entanto, somos incapazes de lembrar tudo ou simular o sofrimento, por mais que pensemos o contrário. Portanto, se esse teste escolar está guardado em algum lugar no meio das suas gavetas, pode ser que, um dia, você o encontre e sequer recorde o motivo para tê-lo conservado.
No fim, passamos e passaremos por eventos horríveis aparentemente inesquecíveis e insuperáveis, no entanto, vai calhar de acontecer ambos. A primeira namorada, uma vergonha passada na rua, a morte do animalzinho de estimação, dentre outros acontecimentos que só são recordados em momentos de ócio ou em noites de insônia.
Quando a Tropa de Exploração voltou para o quartel-general, a vida seguiu como sempre foi. Sendo Hange uma pessoa que não se prende ao passado, não demorou para os episódios irremediáveis das últimas vinte semanas serem empurrados para o lado obscuro da memória, onde a luz da consciência não alcança.
No dia seguinte, a comandante foi ao centro comprar roupas novas, pois as suas estavam apertadas. Pelo caminho passou por uma loja de costura com várias agulhas de tricô na vitrine. Hange viu os objetos pontudos com o rabo do olho e não sentiu nada. Quando voltou no fim da manhã, encontrou um pássaro azul bicando migalhas de pão. O animal não lhe deu atenção, e a comandante fez o mesmo. Os pesadelos, o terror e a loucura eram parte do passado, não a afetavam mais.
O mesmo vale para a reunião. Hange perdoou, mas nunca esqueceu a perfídia de Zackly. Afinal, uma pessoa que você considera amiga tentando te prejudicar é, sem dúvidas, algo memorável. A rasteira, junto com a impotência de não conseguir defender a si mesma, acabou virando uma lesão interna. No entanto, a ferida sarou e logo se transformou numa breve lembrança amarga que a atormentaria de vez em nunca. Já as palavras ditas por Weber e a desaprovação dos outros militares viraram vapor, e ela simplesmente o soprou para longe.
Agora a gravidez era pública. Hange finalmente pôde largar a maquiagem, andar por aí com as espinhas berrando para todo mundo ver e aposentar o largo sobretudo nos dias agradáveis. As pessoas próximas, em especial os adolescentes, estavam apaixonados pela bebê, e Hange não se importava em deixá-los paparicar a criança, como aconteceu naquela agradável tarde de trabalho onde encontrou-os limpando a sala de reuniões.
— Oi, bebê, tem um monte de coisa gostosa pra comer aqui fora, sabia? Por favor, saia logo pra eu te levar pra jantar.
Sasha falava com a mão em forma de concha encostada na barriga de seis meses. Os outros adolescentes faziam um semicírculo ao seu redor. Como era dia de faxina, os soldados usavam lenços no cabelo e aventais no corpo. Os panos para proteger o nariz da poeira foram puxados para o pescoço, dava para ver a complacência brilhando nos rostos encantados.
Jean veio pela sua esquerda. O perfume do soldado causou em Hange um pequeno desconforto, nada além de um beliscãozinho logo deixado de lado. Ela só foi perceber que era o mesmo perfume de Nile três dias depois.
— Não acredite nela. Sasha não tem dinheiro nem para comprar balas.
Sasha ergueu-se num solavanco, exasperada. A comandante pôs a mão no ombro do soldado para conseguir apoio e gargalhou até lacrimejar.
— Ei, pare de falar como se eu fosse uma pobre coitada!
— Ah, é? Se tem tanto dinheiro, por que não paga a grana que você tá me devendo?
— Cala a boca, Jean, é feio cobrar as pessoas na frente dos amigos.
Hange enxugou a lágrima no canto do olho e entrou na onda de provocar Sasha.
— Quer um aumento?
— Poxa, até você, comandante!
Armin, sentado numa das mesas ao lado de Eren, levantou e pediu permissão com o olhar. Hange consentiu imediatamente. Ela percebeu que o garoto havia cortado o excesso de cabelo naquele mesmo dia, já Eren, sentado e sorrindo de canto, estava precisando passar a tesoura no seu.
— Oi, menininha, deve ser tão quentinho aí dentro, aqui fora vai nevar daqui a pouco.
A comandante achou graça das palavras de Armin, tanta coisa para falar e o garoto resolve conversar sobre o tempo. De qualquer forma, ficou grata por ele e todo mundo já tratar o bebê no feminino, tão convictos do gênero da criança quanto Hange. O loiro colocou a mão na pele da comandante e esperou. Sem receber resposta, Armin se afastou com a cabeça baixa, sorrindo pequeno.
— Ah, que pena, ela não quis chutar dessa vez.
— Haha, ela estava agitada pela manhã, deve ter cansado.
O que era algo bom, diga-se de passagem. A bebê empurrava, chutava, se esticava e girava no ventre o tempo todo, e isso nem sempre era agradável – algumas manobras eram bem dolorosas, e a comandante precisava acariciar a barriga para aquietar a bebê.
— Eu consigo fazer ela chutar, querem ver?
Connie ergueu-se feito um guerreiro poderoso de alguma história de fantasia. O garoto causou riso nos outros ao andar na direção de Hange feito um nobre cheio de dignidade. Ele manteve a mesma postura ao agachar-se perto da barriga. A comandante cruzou os braços, descrente naquela maneira debochada de alguém que espera o amigo perder uma aposta.
— E aí, quem é a garota favorita do tio Connie? Bate aqui.
Ele colocou o punho perto da linha nigra, e deu para ver o formato perfeito do pezinho em baixo da pele. Hange parou de sorrir por um milésimo de segundo e explodiu em gargalhadas no outro. Os outros soldados também estavam surpresos, Jean em especial, claramente não esperava aquela súbita reviravolta. E não é que ele conseguiu, afinal?
— Viram? Eu sou ótimo com crianças.
Connie se afastou para dar lugar à Mikasa. A soldada veio puxando os panos da cabeça. Hange previu o que ela faria e não se opôs, já tinha lhe dado a liberdade de encostar o rosto na bebê há bastante tempo.
— Oi, menininha, todos nós aqui já amamos tanto você.
Mikasa encostou a testa na lateral da barriga, e de cima Hange pôde ver o rubor nas orelhas da garota quando a criança reagiu. Apesar da aflição – outro ser humano se mexendo dentro de você é uma coisa bem estranha – Hange gostava de sentir os movimentos da bebê tanto quanto as pessoas de fora. Exceto as manobras agressivas, óbvio.
Eren assistia em silêncio, mas de longe dava para ver o entusiasmo contido atrás do pequeno sorriso resignado. Ela percebeu com certa surpresa que o garoto era o único que nunca pediu para tocá-la até então.
— Eren.
— Huh? Eu posso mesmo?
— Claro.
Ele sorria de maneira encabulada e não a encarava no olho, provavelmente envergonhado. O soldado chegou a levantar da mesa onde estivera sentado, mas uma súbita tosse familiar quebrou a harmonia do grupo e o impediu de dar o segundo passo.
— Atrapalhando a limpeza, hein? Você acha isso bonito?
Hange cobriu a barriga com a blusa e virou-se para Levi no mesmo segundo em que os soldados voltavam para suas funções de origem na faxina. Mikasa foi para as janelas, Armin para as estantes, Eren tirava o pó e Jean varria freneticamente enquanto Sasha e Connie passavam pano nos lugares já varridos.
— Como você é chato, Levi, não dá uma pausa.
O capitão vinha trazendo mais produtos de limpeza. Ele colocou os objetos no chão, ficando só com uma vassoura em mãos, o cabo apoiado no chão e as cerdas para cima. Assim como os outros soldados, Levi trajava roupas de faxina – lenço no cabelo, pano para proteger o nariz e avental.
— Eles fizeram intervalo há meia hora. Agora vamos levar mais tempo para terminar porque você veio aqui encher todo mundo com esse seu papo de grávida.
— Caramba, que mau humor, hein, meu velho? Vou embora antes que eu leve um coice.
A comandante passou pelo capitão para chegar até a porta. Porém, antes de sair, ela parou e olhou-o por cima do ombro, repentinamente tomada pela maldade. Se Hange fosse um desenho animado, um rabo vermelho diabólico teria saído da sua bunda.
— Ou melhor, antes que eu leve uma chifrada, hehe.
Levi virou-se de súbito, a vassoura foi erguida por cima do ombro e ele avançou com os dentes trincados. Hange não ficou para descobrir se o capitão teria coragem de quebrar o cabo da vassoura em suas costas. A comandante chispou rapidinho, sentindo o vento gelado bater na nuca quando o capitão girou a espada improvisada a centímetros da sua cabeça. Os adolescentes não entenderam o motivo da súbita tentativa de agressão e nem se interessaram em solucionar o mistério. Levi e Hange eram desse jeito, simples assim.
Dias após esse acontecimento, mais ou menos quando a neve começou a cair, uma nova turma de recrutas completou o curso do exército ministrado pelo instrutor e ex-comandante Shadis. Como todos os anos, os líderes das três divisões receberam meia hora para discursar acerca de seus respectivos departamentos.
A cientista estava preparada para encontrar Nile. O policial mal a cumprimentou e já foi direto na direção da barriga protuberante com as mãos bem abertas, no entanto, foi barrado pela própria Hange. Ela foi assertiva ao alegar seu descontentamento para com aquele tipo de contato. Nile ficou desconcertado, mas não insistiu no assunto.
A comandante da Tropa de Exploração foi a terceira a discursar para os recém-formados. Como esperado, Hange usou cada segundo do tempo que lhe foi concebido. Sacrifícios, transparência, sede por conhecimento e liberdade foram os tópicos principais do falatório. A Tropa de Exploração vinha recebendo cada vez mais popularidade e Levi, por trás das cortinas, viu os olhos dos recrutas jorrarem admiração conforme Hange palestrava. Ao fim do discurso, a comandante bateu o punho vigorosamente no coração, fazendo o abdômen distendido dar um pequeno salto e a roupa larga esvoaçar. Os recrutas retribuíram o gesto e gritaram, em uníssono, o lema da Tropa de Exploração na mesma veemência.
— Devote o seu coração pela humanidade!
Eles voltaram para o quartel-general trazendo pilhas de nomes. Muitos noviços, incluindo os classificados para alistamento na Polícia Militar, escolheram a Tropa de Exploração. Hange, animada por conseguir tanta gente logo em seu primeiro discurso, passou boa parte da noite admitindo os novos recrutas e só foi para a cama quando Levi apareceu para força-la a deitar.
As semanas passaram, a temperatura caiu e as responsabilidades decolaram. Estar no posto mais alto do exército deixava Hange sem tempo para se dedicar cem por cento ao laboratório, e por isso precisavam de outro cientista. Eles conseguiram um quando a neve batia nos calcanhares. A pesquisadora era uma mulher quase na casa dos trinta, chamada Mayla.
Hange havia recebido muitos currículos, e o da morena foi o que mais a agradou. Mayla trabalhava como professora universitária, tinha experiência com laboratório e atividade em campo. Ela realizou estudos sobre Annie Leonhart que não puderam ser aprofundados devido à falta de recursos. A linha de pesquisa de Mayla era voltada para a biologia de desenvolvimento, enquanto o campo de Hange era aproximado da fisiologia — apesar de nos últimos tempos estar mais ligada a mecânica – e a comandante imaginava que essa pequena diferença nas áreas ia contribuir positivamente para o departamento de ciência da Tropa de Exploração.
A comandante entrevistou Mayla por três horas. A professora tinha a personalidade de alguém que não recusa desafios nem larga problemas pela metade, e isso cativou a militar. Após entrevistar mais três candidatos, Hange resolveu que a mulher de sorriso firme e postura reta era a melhor opção para substituir o seu olho esquerdo.
Os soldados conseguiram, com a ajuda do carrasco diabólico, capturar dois titãs pequenos para experiências. Um deles tinha dois metros, e o outro três. Por causa do tamanho, conseguiam amarrá-los com facilidade. Na época, Mayla ainda não havia sido admitida na Tropa de Exploração por causa do treinamento militar, que é pré-requisito para qualquer integrante do exército, mas isso não impediu Hange de leva-la para lá e para cá, mostrando tudo e mais um pouco, incluindo os novos espécimes.
— Vejam só! Boa tarde, criaturinhas.
Longas cordas mantinham os titãs imóveis. O de três metros foi colocado de bruços, sua larga boca apoiada na fina camada de neve enquanto os braços estavam bem amarrados em longas estacas. O titã era imenso de gordo; o pescoço fundia-se ao queixo, os olhos, dois triângulos apertados no meio da gordura, estudavam os humanos ao redor. Praticamente todos os novos recrutas tinham vindo ver os novos brinquedinhos da comandante.
O titã de dois metros era totalmente o oposto. Magro ao ponto de as costelas aparecerem, sua cabeça era exageradamente grande e os olhos também. A boca desprovida de lábios expunha dentes perfeitamente brancos e alinhados. O monstro estava sentado na neve com as pernas bem abertas e os braços puxados para trás. Dois arpões foram enfiados no crânio do titã para ele não mover a cabeça.
— Hehe, você é magro de doer, e o outro é bem gordinho. Vocês são dois extremos.
Hange estava embevecida. Ela tivera vários titãs ao longo dos anos, a maioria mortos por engano durante experimentos. Os únicos cuja morte fora premeditada foram Sawney e Bean; ah, como Hange lamentou o assassinato desses dois exemplares. Na época, houve quem pensasse que a então tenente chorava pelos titãs, ou seja, pelas criaturas como indivíduos, porém, não foi nada disso. Eles eram trabalho, a perca significava trabalho perdido. Imagine que você esteja escrevendo sua tese de doutorado, e quando esse documento onde você colocou tanto tempo, amor e dedicação, está chegando a duzentas páginas, algum engraçadinho deleta o arquivo. Isso é motivo para entrar em crise, certo? Então.
A cientista contemplou os dois titãs por um longo tempo, encantada com o sorriso permanente do menor e as dobras de gordura do maior. A bebê em seu ventre ainda não tinha nome, conquanto em relação à titãs Hange conseguia pensar num de imediato, como se os próprios monstros lhe sussurrassem os apelidos que tiveram no passado.
— Você será Jeffrey. — Ela apontou para o titã gordo. — E seu nome vai ser Dahmer. — Disse ao magro.
Era doloroso pensar que aqueles dois titãs foram seres humanos, portanto, Hange simplesmente esquecia-se disso durante os experimentos. Sim, eles foram pessoas como eu e você, mas agora eram objetos de estudo, e isso devia ser visto como honra. A comandante achava que não existia nada mais legal no mundo do que ajudar a ciência, até pretendia doar o próprio corpo para a universidade após a morte. Pra que se enterrar na terra quando ainda se pode ajudar a humanidade?
Mayla observava os monstros a distância, sem conseguir esconder o nervosismo. Sendo moradora da muralha Sina, Mayla viu titãs só uma vez: quando Annie Leonhardt se transformou, e foi apenas um vislumbre. Hange arqueou a sobrancelha, desapontada pela hesitação de sua escolhida. Feito dona de cão feroz, estava habituada a lidar com as criaturas e não conseguia entender o pavor inicial das outras pessoas.
— Ei, Mayla, chega mais perto, você não vai conseguir ver direito.
— A Mayla está numa distância ótima, quatro-olhos, é você quem deve se afastar.
— Por quê? Eles estão presos.
— Você não tem a mesma mobilidade, esqueceu?
Levi alertava-a, impaciente. Hange ficou transtornada, não tinha reparado no capitão até então. O moreno não se interessava por ciência, por que diabos estava ali? Para encher o saco, na certa. A comandante, apoiando a mão distraidamente na barriga, deu as costas à Dahmer para encarar o subordinado.
— Hange, não baixe sua guarda!
— Levi, você não tem mais o que fazer? Parece até que você foi possuído pelo espirito do Moblit.
Ao voltar-se outra vez para o titã magrelo, encontrou-o imóvel na mesma posição. Hange encarou os olhos azuis do monstro, e este correspondeu. Sabia que a mulher era tão consciente da sua presença quanto ele era da dela.
— Você é mesmo magrinho.
Os passos de Hange avançaram até alcançar as pernas separadas do monstro. Como Dahmer era pequeno, sentado ficava na altura do pescoço da cientista. Ela chegou perto ao ponto do rosto humano quase encostar nos dentes expostos. Dahmer tentou livrar os braços e as pernas das amarras, sem sucesso. Jeffrey, deitado ao lado, encheu a larga boca salivante de neve ao abocanhar o chão.
A comandante não estava lá por acaso. Ela tivera uma ideia ótima, uma consideração nunca lhe passou pela cabeça antes. Precisava aproveitar aquela oportunidade, pois não teria outra no futuro.
— Você sabe que está olhando para dois seres humanos?
A comandante estalou os dedos perto do abdômen. As pupilas do monstro se transformaram em dois pontos finais, e a língua molhada escapou através dos dentes redondos. Hange deixou o monstro devorá-la pelo que pareceu ser uma eternidade tanto para o titã quanto para os soldados. Quando julgou ser suficiente, ela chamou a criatura pelo nome. O titã não reagiu.
— A-há! Você sabe que eu estou grávida!
Titãs eram, de fato, criaturas fascinantes. Hange sorria até as orelhas. Bateu palmas, estupefata com aquela descoberta, e só não saiu pulando para não correr o risco de escorregar na neve e matar a bebê. O titã ignorou o barulho, obcecado com a barriga de quase oito meses. Os outros soldados, incluindo Mayla, estavam tão pálidos quanto a imensidão branca, mais parecendo bonecos de neve estáticos. Contudo, aquele olhar faminto não incomodava Hange, muito pelo contrário, a deixava em êxtase. O titã havia notado a bebê após ter a atenção chamada, ou seja, ele não havia reparado até receber estímulo visual. A cabeça de Hange começou a trabalhar ferozmente sobre essa questão, e ela se perguntava até que ponto ia a inteligência dos titãs puros. Ainda bem que tinham dois, assim podiam repetir a experiência. Agora mesmo? Sim, agora mesmo!
As cordas atravessadas na cabeça de Dahmer estremeceram quando o titã forçou a cabeça para frente. No entanto, o que quebrou o raciocínio de Hange foi Levi. O capitão surgiu de repente a agarrando pelo bíceps, apertando para machucar. Ele ignorou os protestos da comandante e a levou para longe dos titãs.
— Chega, Hange, antes que esse bicho te faça uma cesárea.
— Levi, o que está fazendo? Para!
— Você já brincou demais.
Hange fincou os pés no chão, obrigando Levi a parar. O capitão virou a face funesta, o olhar fuzilador perguntando por que ela tinha de ser tão teimosa. A comandante não foi abalada pela hostilidade. Ela ergueu a cabeça, encarando Levi duramente. Os demais militares, a grande maioria novatos, sentiram a mudança na atmosfera e ficaram ansiosos.
— Quatro-olhos, esc-
— Você escuta. Não me interrompa quando eu estiver trabalhando.
Por breves segundos, os únicos ruídos foram os gemidos dos titãs e o sopro do vento. Até os que nada tinham a ver com a discussão ficaram nervosos perante a dominância muda. Alguma coisa na expressão severa de Hange dizia que interrupções seriam intoleráveis a partir de agora, e o peso da súbita autoridade não abria espaço para desafios.
No futuro, Hange viria a desenvolver outra versão ainda mais perigosa desse mesmo olhar para controlar uma certa criança.
A prepotência de Levi começou a falhar. Os recrutas não viram a raiva desvanecer na inexpressividade do capitão, mas Hange sim. A implacabilidade desapareceu em sincronia com a persistência do subordinado, e a comandante voltou a ser a velha Hange de sempre. A cientista entendia o significado por trás daquela intervenção, mas isso não era motivo para acatar. Preocupar-se com ela não dava a Levi o direito de se intrometer em seu trabalho.
Mas, para tudo tem um jeito. A boca de Hange desenhou um pequeno sorriso, e seu rosto encheu-se de compaixão. Levi escondia a frustação muito bem atrás da frieza. Ele não reagiu quando a comandante falou, delicada:
— Se você quiser, pode ficar perto de mim enquanto avaliamos os titãs.
O capitão não respondeu com palavras, mas com ações. Os demais militares pensaram que o moreno ia sair do pátio quando ele começou a caminhar naquela passada dura, porém, ele parou aonde os monstros foram amarrados.
Dessa vez, o foco era Jeffrey. O titã tentou virar a cabeça mortífera quando os dois seres humanos e meio pararam atrás de suas costas, mas as cordas o mantiveram bem firme no mesmo lugar. Hange gritou para um dos recrutas trazer seu estojo de experimentações simples, e em seguida voltou-se para Mayla. A professora continuava fantasiada de boneco de neve.
— Mayla, venha aqui, nós não vamos chegar a lugar algum se você tiver medo.
A pesquisadora engoliu em seco, relutante à primeira vista, mas logo obedecendo. Ela deixou pegadas na fina camada de neve ao aproximar-se. Mayla era tomada pelo misto de encanto e pavor, uma sensação muito parecida com a vertigem que sentimos ao contemplamos uma montanha-russa. Ela parou na frente do rosto de Jeffrey, e este ergueu os olhos minúsculos para encará-la, quase revirando-os. A longa língua escapou para fora da boca e lambeu a neve, faminto. Aquele era o momento de tornar a mistura de sensações em algo singular. Pavor ou fascínio, um desses estava prestes a se tornar a opinião definitiva de Mayla em relação aos titãs, e o vencedor ficou claro quando a pesquisadora passou por Jeffrey, indo se juntar aos dois militares.
O recruta voltou com a maleta solicitada por Hange. A mala carregava dois pares de luvas, estetoscópio, um termômetro retal, seringas e alguns recipientes para substâncias.
— É sua primeira vez trabalhando com titãs de verdade, certo?
Hange colocou-se de joelhos – era desconfortável ficar agachada – para ficar na altura do titã, e Mayla fez o mesmo. A comandante fez a professora tocar em Jeffrey, mostrou onde usar o estetoscópio, ensinou-a como tirar temperatura dos monstros e contou várias informações extras. Levi ficou por perto, atento a qualquer perigo. Hange falou até a boca ficar seca, e com isso entende-se: a tarde inteira.
A aula terminou quando já estava anoitecendo. Mayla ergueu-se num único movimento ansioso, parecendo exausta. Hange aceitou a ajuda de Levi para levantar, reclamando de dor nas costas.
Esse acontecimento foi a última ocorrência memorável que aconteceu durante os meses em que Hange esteve grávida. O resto foram papeladas, experimentos, conversas com pessoas importantes, reuniões; em suma, eventos comuns do dia a dia dos soldados da Tropa de Exploração. É claro, as pessoas cochichavam sobre ela pelos cantos, mas a maior parte das palavras cruéis não chegaram aos ouvidos da comandante, e as que vieram entraram por uma orelha e saíram pela outra. Estava segurando as pontas com a Tropa de Exploração, a bebê estava bem e ela também. O resto era só resto.
O médico não a proibira de fazer exercícios físicos, mas alertou para maneirar. Hange seguiu as recomendações e cortou-os totalmente da rotina quando chegou ao oitavo mês de gravidez. A comandante usava o tempo livre para aprender sobre a fase que lhe aguardava através dos livros. Hange gostava de ler no pátio, descansando ao sol do meio-dia, horário mais quente do inverno.
Hange não gastou dinheiro com quase nada relacionado a bebês, pois o quartel-general inteiro quis ajudar. Mikasa a presenteou com lençóis para berço e cobertores. O sobrinho de Floch estava grande demais para o carrinho de passeio, então foi passado adiante para a futura filha de Hange. Sasha e Connie racharam um cercadinho. Eren e Jean compraram o mesmo modelo de cadeirinha para alimentação, e a comandante ouviu dizer isso gerou um tremendo bate-boca que por pouco não terminou em briga. Quanto a Levi, bom, Hange não se surpreendeu quando o capitão apareceu com vários produtos de higiene.
A capital enviou um berço com enxoval branco decorado de dourado, havia uma larga gaveta acoplada ao berço e dentro viera vários véus coloridos para decorar a caminha. A comandante aceitou o presente de bom grado, principalmente por causa da cômoda, que lhe seria útil. A comandante também ganhou muitos, muitos, muitos e muitos brinquedos, roupas e fraldas reutilizáveis. Ela ficou sem lugar para colocar todos aqueles presentes, e alguns tiveram de ficar guardados em caixas até Hange conseguir comprar outro guarda-roupa.
Como a casa de Hange – herdada de sua falecida mãe — ficava em outra cidade, a Capital permitiu que ela continuasse morando no quartel-general (por causa de quem, huh?) até o desmame. Levi foi de grande ajuda na hora de organizar o quarto para a chegada da bebê. Ele poupou Hange da parte pesada e dobrou todas as roupinhas. Apesar das ameaças, a tarde foi excelente.
No sétimo estágio da gestação, Hange escreveu uma longa carta para a mãe de Erwin. A resposta de cinco páginas só foi chegar no mês seguinte, acompanhada de casaquinhos para três crianças de tamanhos diferentes. Na carta, Sophie parabenizava Hange e agradecia por ela ter decidido ficar com a bebê, que era a última lembrança do seu filho. No fim da epístola, Sophie disse ter a guarda do dinheiro que Erwin juntou antes de falecer, o qual Hange estava livre para usar.
O trabalho, os cuidados com o corpo e os preparativos para a bebê a mantiveram tão ocupada que não viu a neve secar. Hange não repousou durante a gestação, porém, quando a linha nigra fez jus ao seu nome, a comandante se viu cansada e ansiosa. Na trigésima sétima semana, o tempo parou. A partir dali, a bebê podia nascer a qualquer momento. Hange, atrás do ímpeto desejo de segurar a filha nos braços e decidir seu nome, nutria uma sincera perturbação crescente.
Partos eram perigosos. Sendo Hange nulípara, o medo era normal. A dor não a preocupava tanto. Para falar a verdade, já estava acostumada a sentir dor, portanto, o que atrapalhava seu sono era a possibilidade de cesárea, uma operação nova na medicina com chance de mortalidade altíssima. As cesáreas aconteciam quando algo dava errado no parto e os médicos precisavam decidir entre salvar a mãe ou o bebê. Como você já deve imaginar, a cesárea prioriza a vida da criança.
Isso, no entanto, não fez Hange entrar em dilemas. Se alguma coisa desse errado e apenas uma delas pudesse escapar, a comandante priorizaria a própria vida. Dessa forma, só faria cesariana caso sua vida estivesse em risco e não tivesse outra escapatória. Um pensamento frio? Talvez. Egoísta? Não, de jeito nenhum. Salvar a própria vida não é egoísmo em hipótese alguma.
Hange só contou essa decisão para Levi. Ela o escolheu para ser seu acompanhante durante o parto, tanto para ampará-la quanto para supervisionar os esforços dos médicos em garantir a sobrevivência da cientista em caso de complicações. Hange já tinha ouvido falar sobre homens serem proibidos em salas de parto, mas não sabia se isso era verdade e achava que não fosse. Quem em sã consciência barra o acompanhante de um paciente?
XXX
Aconteceu num piscar de olhos.
Num segundo, Hange trabalhava no laboratório com Mayla, e no outro algo molhado escorria por entre as suas pernas. Num primeiro momento, ela achou que era xixi e fez piada com isso, mas a cólica que acompanhou o líquido amniótico cortou qualquer chacota.
A notícia correu rápido no quartel-general. O esquadrão 104 apareceu quando a comandante entrava na carruagem para ir ao hospital. Levi, pendurado no vagão, gritou para os adolescentes não se aproximarem, e eles ficaram no portão gritando felicitações e mensagens de boa sorte. Hange, que ainda não chegara no estágio da dor insuportável, acenou animadamente pela pequena janelinha e foi capaz de ver o choro inquieto dos soldados.
— Chegou o grande dia, huh?
Levi sentou na outra extremidade da carruagem. Da cintura para cima, o capitão vestia a clássica monotonia, porém, o joelho esquerdo tremia violentamente para cima e para baixo, gotas de suor brotavam na pele pálida, e as palavras animadas também eram reflexo da ansiedade. Era a primeira vez que a comandante o via daquela forma.
— Do que você está rindo?
As risadas não deixaram a comandante responder. Ela segurou o estômago, agitou as pernas e jogou a cabeça para trás, gracejando feito louca. Contudo, ao chegar no hospital, os motivos para rir acabaram, e Hange não riu novamente por muito tempo.
A primeira parte do ritual não foi novidade, ela leu sobre isso. No hospital, Hange e Levi foram colocados em espera. A parteira chegou pouco depois para entregar uma camisola hospitalar e passar as informações que a comandante já sabia. Sim, ela estava em trabalho de parto, mas isso não significava que o bebê ia nascer agora. Deviam esperar a dilatação do colo do útero alcançar oito centímetros antes de levarem-na para a sala de parto. Quando Hange perguntou como saberia, a parteira, uma senhora velha que já havia visto diversos partos durante a vida e pelo menos três naquele mesmo dia, deu uma risadinha ambígua e limitou-se a responder:
— Você vai saber.
Os ponteiros do relógio se arrastavam feito lesmas. No quarto havia duas poltronas confortáveis e água a vontade, mas Hange não bebeu nem sentou. O breve desconforto transformava-se em dores latejantes, uma espécie de sofrimento interminável. A dor tomava conta de toda a parte inferior do corpo, desde as coxas até o ventre, e ainda não tinha chegado ao pior estágio. Ela conversava com Levi sem parar, falando frases emboladas sobre qualquer coisa enquanto andava de um lado para o outro, a respiração pesada fazendo escândalo no silêncio do quarto.
Então, por fim, a dor ficou insuportável. Algo se soltou dentro dela. Hange foi tomada pela urgência de ir ao banheiro, só que, é claro, devia ir para outro lugar.
Em menos de cinco minutos Hange era colocada numa cadeira de rodas. A enfermeira empurrando a cadeira era jovem ao ponto de ainda ter espinhas grandes e redondas na cara. A garota gritava para as senhoras e os senhores saírem do caminho, por favor, pois aqui temos uma mulher em trabalho de parto, minha gente. Levi, percebendo o teatro da enfermeira, teve a impressão de que a abordagem foi premeditada, como se desde a formatura a garota esperasse atender uma mulher parindo só para correr pelo hospital.
Hange foi levada para uma sala distante da ala de internação, quase no fundo do hospital. Guinchos femininos vieram do aposento ao lado, evidenciando a razão para o isolamento. A dupla nunca tinha estado naquela parte antes. Hange estava nervosa, e ao encontrar o olhar do capitão, descobriu que o sentimento era mútuo.
— Chegamos, mamãe, tente ficar tranquila. Huh? Desculpe, papai, homens não são permitidos.
A enfermeira inclinou a cabeça na direção dos bancos dispostos no corredor, indicando onde Levi poderia esperar. O capitão era parte primordial da autoconfiança de Hange, quase um amuleto da sorte. Agora que não o teria consigo, foi atacada pelo pânico, e o mesmo aconteceu a Levi.
— Como assim!? Eu vou entrar com ela sim. — Esbravejou Levi.
— Desculpe, são regras do hospital. — Disse a enfermeira, dando de ombros.
Levi e Hange ficaram tão agitados que nem se preocuparam em apontar a falta de parentesco entre o soldado e a bebê. Hange colocou as mãos nos braços da cadeira para levantar mesmo com as pontadas de dor, e implorou para a enfermeira deixar Levi entrar junto. No entanto, a garota a fez sentar outra vez e disse não, mamãe, sinto muito, não sou eu quem faço as regras.
A parteira idosa surgiu abrindo a porta da sala de parto. Ela manteve os olhos na direção da jovem enfermeira, mal reparando em Hange. A comandante e o capitão não escutaram a curta conversa das mulheres. A atenção de ambos estava totalmente voltada um para o outro. Hange, desamparada. Levi, por sua vez, abalado e furioso. O capitão se agachou, pegou as mãos da amiga, e sussurrou:
— Eu vou estar esperando. Seja forte, quatro-olhos.
Hange prendeu o ar, sentindo vontade de chorar tanto pela dor quanto pelo súbito e cruel pressentimento de que não veria Levi novamente. Eles foram separados quando a parteira puxou a cadeira. A senhora sorria para a enfermeira, totalmente alheia ao estado da paciente. Já tinha visto muitas iguais a Hange, nada ali era novidade.
— Só vou terminar com essa daqui e te mostro os perfumes que estou vendendo.
— Claro, senhora Margareth, não tenha pressa.
A enfermeira se foi e a parteira entrou de costas no aposento. Ela pareceu finalmente se dar conta da presença de Hange e falou qualquer coisa que a comandante ignorou. Hange sorriu infeliz ao despedir-se de Levi. O capitão desapareceu quando a mulher mais velha fechou a porta.
XXX
O olho de Hange ardeu diante a exagerada iluminação. Quando conseguiu se acostumar com a luz, a comandante descobriu-se no meio de cinco mulheres. Quatro enfermeiras e a parteira. Uma das enfermeiras era muito jovem. A garota ajudou Hange a levantar e outras duas se juntaram para conduzi-la até a cama. Elas a repousaram meio deitada meio sentada, e antes que a comandante pudesse perceber, já estava com as duas pernas encaixadas nos apoios. A parteira chamada Margareth passou uma corda em cada um de seus pés, e as amarras causaram dor quando o nó foi apertado.
As cordas serviam para impedir as mulheres de chutar as parteiras ou fechar as pernas, mas isso não era nem um pouco benéfico para a mãe, em especial para Hange, que entre a dor e o desespero, encontrou espaço para sentir vergonha de estar completamente exposta para cinco estranhas.
— Boa tarde, mamãe, é o seu primeiro filho?
Era a enfermeira mais nova que falava. A garota era dona de um sorriso tão lindo e reconfortante que fez Hange relaxar. Em resposta, a cientista concordou com a cabeça. Sentia dor demais para usar a voz, apesar das cordas vocais estarem vibrando na garganta — loucas para falar. Os dedos da parteira a tocaram entre as pernas. A comandante tentou fechá-las em resposta ao gesto invasivo. Entretanto, amarrada daquele jeito, era impossível.
— Você acha que é menino ou menina?
A comandante abriu a boca para tentar responder e foi interrompida por Margareth antes mesmo de pronunciar a primeira letra.
— Para de bater papo e vai direto ao ponto, menina. Cléo, nove centímetros de dilatação. Estamos quase lá. Me traga toalhas.
Quase lá? Minha Santa! A dor pode ficar pior que isso?
A voz envelhecida da mulher soou autoritária na sala de parto, e a tal Cléo foi aos armários pegar as toalhas, muito bem-mandada. A enfermeira ao seu lado não se abalou pela repreensão, permanecendo com o sorriso empático, dando o encorajamento que a comandante precisava. Ela explicou o básico sobre a segunda fase do parto, algumas coisas já do conhecimento de Hange e outras desconhecidas. A enfermeira lhe mostrou duas cordas amarradas na cabeceira da cama, onde poderia agarrar, caso desejasse, e lhe deu um pano para morder. Em certo momento, a enfermeira ficou séria e falou sobre a possibilidade de precisarem fazer cesárea. Ela perguntou se Hange estaria de acordo, e a comandante respondeu que só acarretaria com a cirurgia caso sua vida corresse perigo. Essa réplica fez as outras enfermeiras trocarem olhares maldosos, mas a que falava com Hange permaneceu impassível.
— Certo. Vou tirar os seus óculos, tudo bem? Pra não correr risco de você derrubá-los.
Mas o tapa-olho continuou bem amarrado ao redor da cabeça.
A comandante detestava conversar com as pessoas sem saber o nome delas. Portanto, antes que a moça saísse, Hange pegou-a pelo braço. A garganta convulsionou para falar.
— Qual o seu nome?
Hange disse com dificuldade, a voz rouca devido à dor do ventre esmagado. Sorrindo, a enfermeira se desvencilhou da comandante com delicadeza. A cientista não reparou nas marcas redondas e vermelhas deixadas na pele branca da garota.
— Meu nome é
— Mia, dez centímetros de dilatação, pare de bater papo e venha me ajudar. Ai, que menina conversadeira.
Caramba, que mulherzinha difícil.
A tal Mia saiu sem se despedir. Ela caminhou a passos largos para a outra extremidade do quarto, até sumir do campo de visão de Hange. Voltou com uma bacia e foi direto para o lado da parteira. Seu sorriso desaparecera, e no lugar surgiu uma enfermeira fria e competente.
De repente, outra coisa se soltou dentro dela, e foi como se seu corpo tivesse sido rasgado. O óculos era para longe, de forma que a comandante não conseguia enxergar os móveis do aposento e as outras mulheres. Contudo, viu a expressão endurecida da parteira, quando ela ordenou em sua voz envelhecida:
— Mamãe, você está com dez centímetros de dilatação, está na hora. Empurra, vai, empurra.
E então, Hange ficou deitada naquela maca com as pernas absurdamente abertas, ouvindo os gritos da parteira, fazendo força e passando por uma das piores dores que o ser humano pode sentir, chegando a superar o sofrimento do dia em que teve o ombro perfurado. A comandante conseguiu limitar as manifestações de desconforto a bufadas contidas de dor, mas quando a segunda fase alcançou a primeira hora e a cólica rasgava todo o seu ser, Hange não foi mais capaz de segurar a voz. Todos que passaram pelo corredor da ala dos partos ouviram os brados angustiados da comandante da Tropa de Exploração, mas ninguém deu a mínima, aquela parte do hospital foi feita justamente para comportar berros.
O olho remanescente já debilitado pela visão fraca não enxergava nada em meio às lágrimas. O corpo suado agitava a cama hospitalar, e uma das enfermeiras precisou segurá-la para a paciente não desmoronar. Hange enrolava os pulsos nas cordas da cabeceira, puxando até a pele quente arder. A parteira continuava gritando para fazer força, preguiçosa, a cabeça do bebê está saindo.
Perto da terceira hora, Hange estava tão tomada pelo choque da dor que não encontrava forças para gritar. O sofrimento escapava em arquejos e buscas desesperadas por ar, enquanto os movimentos fisiológicos do útero empurravam o bebê pelo canal vaginal. Ela havia defecado minutos antes. O cheiro se misturou ao odor forte do sangue e teria tomado conta do quarto caso as enfermeiras não a tivessem limpado imediatamente.
A saliva escorria dos cantos da boca, encharcando o queixo, as bochechas e até o pescoço. Hange pediu por água três vezes, e seu pedido só foi atendido quando a comandante esbravejou na quarta. A tal Cléo colocou o gargalo da garrafa d'água em seus lábios, e Hange quase se afogou ao beber. A mulher ao seu lado deu uma risadinha astuta, e a enfermeira devia agradecer pelas pernas de Hange estarem amarradas, ou levaria bons chutes.
— É assim mesmo, querida. Na hora de fazer é bom, não? Eu adoro.
A parteira idosa gargalhou entre as pernas de Hange e mais risos femininos vieram de outras partes do quarto, carregados do humor cruel digno das pessoas que trabalham em hospitais. Se antes o vermelhão em suas bochechas era de dor, agora era de raiva.
Quando a fase da expulsão passou das três horas e meia, os gritos da parteira ficaram mais agressivos a cada empurrão fracassado. Até que, por fim, a dor cessou abruptamente, e alguma coisa lá em baixo mudou o humor das profissionais. A expressão centrada de Mia foi abalada, contudo levou só um milésimo de segundo para ela retomar o controle. A parteira, segurando o topo da cabeça da criança, não expressou emoção.
— Quem é o seu médico?
Hange respondeu numa voz enfraquecida. A parteira impaciente mandou ela tirar o pau da boca, a comandante respondeu berrando o nome do doutor e a mandando ir se foder. Uma das enfermeiras saiu do aposento, batendo a porta. A comandante percebeu a súbita sobriedade no local e tentou se erguer, mas Mia a impediu.
— Fique quieta, por favor, e tente não fazer força.
— O que aconteceu?
Mia mordeu o lábio e baixou a cabeça na direção da parteira ranzinza, como se pedisse permissão. A parteira ergueu o braço reto e cortou o ar.
— Por enquanto, nada grave. Fique quieta até o médico chegar, sim?
Hange não identificou sinais de mentira na face da enfermeira, mas aquela resposta era vaga demais. Apoiou as mãos na cama e novamente foi segurada para não levantar. Seu único olho mirou a face de Mia sem exatamente enxerga-la e pediu, tentando passar segurança:
— Eu sou cientista, você pode me falar a verdade, eu vou entender.
Duas pessoas entraram às pressas. Hange não conseguiu reconhecer os traços faciais da sexta mulher, e também não foi capaz de identifica-la pela voz. Pelo contexto da conversa, Hange entendeu que o seu médico saiu mais cedo do turno devido a problemas pessoais, e a doutora ali presente era a única disponível.
— Dá para fazer cesariana? Estamos há horas aqui. É primeiro filho.
Ao som dessa palavra, Hange deu um solavanco violento na maca e teria voado para longe caso não estivesse amarrada. A parteira gritou xingamentos, perguntou se ela queria matar o bebê e desdenhou não saber como uma mulher tão escandalosa pôde ser escolhida para ocupar o posto de comandante do exército.
— Cesárea não!
Hange rosnou para a médica quando ela a abraçou pelas axilas, e a teria mordido se não tivessem enfiado um pano em sua boca. A comandante tentou cuspir, mas outra enfermeira o segurou firme enquanto as demais a agarraram para que ficasse imóvel. A pupila minúscula na imensidão castanha denunciava a selvageria animalesca de alguém prestes a lutar pela própria vida. Se a soltassem, Hange iria dar um jeito de fazê-las pagar.
Cesárea era uma cirurgia invasiva e perigosa sem chance de volta. As mulheres sobreviventes eram poucas, e Hange duvidava que fosse ser uma delas. Sim, ela desejava ter a criança, mas perder a vida por ela não estava nos seus planos, não mesmo. A comandante já estava aqui antes da bebê e assim ficaria. Doa a quem doer.
— Margareth, para com essa besteira, você assustou a coitada. Não há necessidade de cesárea. Céus, não tem nem como fazer, a cabeça do bebê já saiu.
A médica respondeu na voz de uma pessoa farta do comportamento de alguém, o mesmo timbre usado por Hange na tarde de inverno onde colocou Levi em seu lugar. A parteira jogou a cabeça cheia de dignidade para o lado, emitindo uma exclamação exasperada. A comandante estava em pânico, e por isso as palavras da médica pouco a tranquilizaram.
— Mamãe, escute bem...
NÃO ME CHAMA ASSIM NÃO ME CHAMA ASSIM NÃO ME CHAMA ASSIM
Como não podia gritar, as palavras inflamaram sua cabeça. O único olho se fechou, e ao abrir-se novamente, não transparecia nada além de raiva pura. A médica continuou falando em seu timbre tranquilo.
— ...aquela senhora ali vai se aposentar no ano que vem e só por isso pensa que pode empurrar o trabalho para os outros. O seu caso não precisa de cesárea, nem de confusão. O seu bebê está com o cordão umbilical enrolado no pescoço, não empurre até conseguirmos resolver, sim?
A médica falava num tom calmo e profissional. Ah, sim, é muito melhor quando as pessoas resolvem ser claras com você. A comandante assentiu silenciosamente, seus traços faciais suavizaram e ela foi solta devagar. Elas tiraram o pano da boca de Hange esperando ofensas, e é claro que receberam.
— Façam alguma coisa útil e tirem essa puta velha de perto de mim, ou ela vai se aposentar hoje mesmo por invalidez.
Mia trocou de lugar com Margareth e as coisas fluíram dali por diante. Hange, dopada pela adrenalina, quase não sentiu dor quando a enfermeira pediu para ela empurrar pela última vez. O cordão umbilical havia sido cortado sem muitos problemas. Porém, isso só aconteceu por causa das mãos habilidosas, e principalmente da paciência, de Mia.
O choro da bebê veio pouco depois. Hange, no entanto, não estava nem um pouco animada em ouvi-lo. O útero voltou a fazer contrações, dessa vez expelindo o liquido viscoso por onde a bebê tinha acabado de sair. Hange precisava ficar ali até pôr a placenta para fora, e esse prospecto não a animava nem um pouco. Ela estava exausta e dolorida. Queria voltar para o quartel-general, dormir até morrer ou trabalhar até morrer, qualquer um estava bom.
— Deu tudo certo, você e a bebê estão bem, daqui a pouco poderão ir para casa. Aqui, seus óculos.
A parteira já havia saído da sala, e essa era a voz da enfermeira Cléo. Hange sorriu debilmente. Sim, ela estava bem. Se com bem você quer dizer assustada, se com bem você quer dizer dolorida. Se com bem você quer dizer exausta. Se com bem você quer dizer atormentada. Sim, Hange nunca esteve tão feliz. Uau.
— Que garotinha linda, mamãe.
Mia vinha carregando a criança no colo, envolta numa toalha suja do vermelho do sangue da comandante. A própria enfermeira estava com o uniforme imundo dos fluídos corporais da mulher deitada. Essa visão não agradou Hange, assim como a forma de tratamento. Passar três horas e meia sendo chamada de "mamãe" por várias mulheres adultas a fizeram pegar ranço da palavra.
— Mia, não me chame assim.
— Desculpe, é costume. A menininha já tem nome?
— Ainda não, eu estava esperando vê-la para decidir...
A menina chorava desconsoladamente nos braços da enfermeira – que bom, nasceu saudável. Mia a embalava enquanto se aproximava. Porém, a enfermeira parou no meio do caminho quando Hange ergueu a palma da mão, pedindo distância. A comandante ainda estava em estado de choque. A última coisa que queria era ver a pessoa que lhe fez passar pelo trauma insuperável.
Sim, não era culpa da bebê, porém, Hange não estava em condições de pensar em outra pessoa além de si mesma, não agora; ela só queria ir para casa. Esperou nove meses para ter a criança, e agora era a vez da bebê aguardar. Não vai cair o braço deixar a sua mãe descansar, menina chorona.
— Nesse caso, vamos dar banho e examiná-la. Tem alguém lá fora com quem posso deixa-la?
— Sim. Homem, cabelo preto, baixinho, o nome dele é Levi.
— Peço para esse homem esperar você?
Hange não queria voltar na mesma carruagem que a bebê, tampouco ver Levi.
— Não. Diga para ele ir para casa.
A enfermeira concordou em silêncio, abraçando o corpinho da recém-nascida. Hange não girou a cabeça para vê-la sair, preferindo deixar aquela visão em seu ponto cego. As enfermeiras já haviam a desamarrado, e agora suas pernas pendiam entreabertas enquanto a placenta escorregava livremente pelas coxas.
Deitada na maca, exausta e abalada por uma espécie de apatia vaga, Hange pensou em como a vida pode pregar peças. O que esperava ser um momento feliz foram horas de terror, e ela duvidava que um dia fosse superar aquele dia terrível. Ela havia desejado aquela criança, passou pelo nono mês de gravidez com tanta ansiedade para recebe-la em seus braços, e agora não podia nem com o cheiro da recém-nascida. Talvez, o sentimento nutrido pela bebê até então não fosse amor.
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