Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
15 Será que eu conto?
Levi abriu a porta do quarto que um dia pertenceu à Hange. A luz do corredor iluminou a cama arrumada, a mesa de cabeceira empoeirada – o aposento precisa urgentemente de faxina — e o guarda-roupa vazio. Levi encarou as portas abertas desse último móvel parecendo oferecer abraços ao intruso. Lembrou da época em que aquele quarto era ocupado. Estava sempre bagunçado, sujo, e Hange no meio da podridão, sentada no tapete não mais existente, estudando ou desenhando.
A madeira fez mais barulho do que o necessário quando o capitão a fechou. Bateu a porta para interromper os próprios pensamentos e não acabar imerso em nostalgia melancólica, mas não adiantou.
Quando Hange lhe contou sobre os problemas de Leona para superar a mudança, Levi se perguntou o que a comandante pensaria caso confessasse estar passando pelo mesmo. A ausência de Hange afetou sua rotina, e de um ano para cá, a forma como a enxergava também.
Antigamente, Levi podia falar com Hange a hora que bem entendesse. Bastava procurar no escritório, no laboratório, no pátio, no refeitório ou nos dormitórios. Sempre a achava em um desses locais, e caso ela não estivesse presente, Levi saberia da sua saída previamente e era avisado da chegada. Agora, Hange só ficava no quartel-general para trabalhar, e quando tinha algum compromisso fora dele, nem aparecia. A presença dela tornara-se imprevisível. Levi suspeitava que não saber quando ia vê-la outra vez era o principal causador do crescente sentimento confuso nascido há doze meses.
Muita gente não sabe disso, inclusive o próprio Levi, e se ele soubesse, talvez os pensamentos nublados clareassem. Enfim, uma técnica infalível para fazer uma pessoa se apaixonar é estipular limites. Alguns fazem isso de propósito, outros sem perceber, talvez até você já tenha feito ou se pegou interessado por alguém cuja reciprocidade se encontrava no limbo da incerteza.
Exemplificando, imagine o ser humano como uma estrada de muros, e a construção da relação (romântica ou amizade) sendo a destruição dessas barreiras. Um cutucão basta para destruir o primeiro, o segundo surge, você o derruba a um toque, e assim por diante, a dificuldade aumentando a cada muro derrubado, até todos caírem.
A questão é que barreiras fáceis de empurrar são entediantes. Se em meia hora você destrói a estrada, a recompensa não vai valer a pena. Entretanto, se você levar meses ou anos, a vulnerabilidade escondida atrás dessas paredes lhe será a mais bela de todas.
Há quem pense mal das barreiras, porém, elas são pilares emocionais protetores. Você cria novos muros conforme envelhece, e cada vez mais percebe o quão perigoso é permitir que outras pessoas os derrube, incluindo as que que já possui alguma relação com você. Aliás, é por isso que sujeitos extremamente carentes e entregues tendem a assustar os outros e/ou encontram dificuldades para entrar em relacionamentos sadios. Lógica bizarra, eu sei, mas seres humanos saudáveis funcionam dessa forma.
Levi teve isso com Erwin durante os quinze anos de relacionamento. A estrada de muros do falecido comandante dava a volta no planeta quatro vezes, sendo algumas barreiras tão fortes que Levi não pôde quebrar. No fim, o próprio Erwin as derrubou para o capitão chegar ao homem frágil atrás dos cadeados emocionais. Uma pena tê-lo alcançado tão tarde. Mesmo assim, Levi o amou pelo pouco tempo que ainda restava à Erwin no mundo dos humanos, e ainda o amava.
Com Hange era o oposto. Ela era um livro aberto para Levi e vice-versa. Nos últimos anos, não havia nenhum muro entre eles – todos foram quebrados, inclusive os do lado do capitão – e um conseguia enxergar ao outro nas extremidades da estrada.
No entanto, após assumir o comando, a mulher mudou da água para o vinho, e quando Leona nasceu, outra palpável transformação aconteceu. Hange não era mais a mesma, ela envelheceu em todos os sentidos da palavra. Rugas pequenas apareceram em certas partes do rosto outrora liso, olheiras nasceram em baixo de seu olho e até a postura barulhenta deu lugar à compostura, ainda que estivesse longe de ser totalmente discreta. Hange continuava extrovertida e brincalhona, porém, se tornou reservada e distante de uma maneira sutil percebida apenas por Levi. Era como se ela viesse construindo milhões de muros gigantescos no seu lado da estrada, e não tinha nada que o capitão quisesse mais do que extrapolar os limites inconscientemente demarcados por Hange.
Outra mudança significativa na dinâmica dos dois era a nudez. Já haviam ficado nus um na frente do outro várias e várias vezes pelos mais adversos motivos. Antes, Levi mantinha o olhar fixo num ponto além dela, ou, se estivessem conversando, a fitava diretamente na face sem dificuldade. Contudo, agora, era tentado a olhar para baixo. Esse impulso depravado o repugnava.
Levi não se relacionava desde a morte de Erwin, ou seja, há mais de três anos. Nas raras ocasiões em que se masturbava, não chegava ao orgasmo sem estímulo na porta de trás. Essa parte era bem chata, afinal, foder o próprio cu não é lá muito divertido. Costumava se tocar sem pensar em nada, e isso tornava a coisa mais insossa ainda. O prazer era vazio, praticamente inexistente, e ele terminava se sentindo miserável.
Então, numa noite de insônia, Levi, olhando para o teto, se pegou pensando na calça do uniforme deslizando pelas pernas torneadas de Hange, revelando sem cerimônias o formato cheio das coxas e a pele atraente. A pele da comandante era puxada para o creme, o tipo de cor alva que fica bronzeada quando exposta ao sol, bem diferente da sua palidez horrorosa. Ele recordou as marcas do equipamento circundando as pernas longas. Seria maravilhoso dar-lhe outras de presente. A necessidade de se tocar veio naturalmente. Naquela noite, gozou pensando em Hange. Não tinha a menor ideia de como devia se sentir em relação a isso.
Hange sempre gostou de provoca-lo com abraços e brincadeirinhas, e Levi passou a desvencilhar-se dela com mais violência do que antes. Não podia suportar ser agarrado ou acabaria... pois é. E ao mesmo tempo, desejava as chacotas de Hange só para sentir o toque dos seus braços. Um tremendo paradoxo irritante.
Levi não sabia se essa paixão bizarra já existia escondida em algum lugar ou se surgiu após o distanciamento. Tudo o que sabia era que tinha um problema, e precisava encontrar a solução.
Levi não teve muitos relacionamentos ao longo da vida. Quando morou no subterrâneo, comeu meia dúzia de mulheres aleatórias cujas caras nem recordava. Mais tarde, passou quinze anos se relacionando com a mesma pessoa. No fim, sua experiência com relações românticas era quase nula. Queria ficar com Hange, mas não sabia como, nem se devia.
Ele se sentia culpado por Erwin? De jeito nenhum. Seu amor por Hange não apagava o sentimento nutrido por Erwin. Inclusive, ainda tinha uma missão a cumprir para com o falecido amante, viveria o bastante para pagá-la e depois podia morrer em paz. Entretanto, até lá... bom, Hange estava viva. Amaria Erwin até o fim, e isso não o impediria de amar Hange também. A indecisão envolvia outras questões.
O sexo era uma delas. Ele deu a bunda por mais de uma década e não o fez só porque o outro homem preferia ficar por cima. Levi descobriu que gostava de dar a bunda. Era capaz de gozar só por essa porta. Hange era excêntrica e aberta, então, o capitão imaginava que aquilo não fosse ser problema; porém, não deixa de ser vergonhoso, e tinha dúvidas sobre como confessar essa parte da sua personalidade.
Oi, Hange, quero te fazer uma proposta. Eu te como, e aí você me come. Que tal?
Caso falasse algo assim, era provável que a cientista rolasse de tanto rir. Se isso acontecesse, ele não teria coragem de tentar pela segunda vez. Talvez, comentar durante o sexo fosse a melhor saída.
Hange, eu fodi a sua boceta, foi maravilhoso, nhami nhami, agora você vai comer o meu cu. Enfia o pulso, vai, todinho, até o antebraço, eu aguento.
Droga, desse jeito acabaria com outra ereção.
Quem sabe, ignorar o rabo fosse a melhor opção. Entretanto, e se não conseguisse gozar? Isso, de fato, seria tão humilhante que ele nunca mais conseguiria olhar Hange nos olhos. Levi, o soldado mais frouxo da humanidade. Olha o piruzinho dele como cai.
Mas, é óbvio, esse seria o terceiro ou quarto passo, o primeiro nem havia sido tomado. Levi não tinha a mínima noção se Hange sequer concordaria em ficar com ele. Quando pensava nisso, percebia que a paixão nutrida aparentemente não seria correspondida, pelo menos de acordo com sua pouca lógica romântica. A primeira evidência era a reação de Hange à nudez.
Levi passou a sair do quarto quando ela dava indícios de que ia tirar a roupa. Evitar vê-la nua fazia parte do seu imbecil plano sedutor. O objetivo era fazer Hange interpretar o gesto como desconforto sexual – o que de fato era – e chegasse à conclusão inevitável do seu interesse. No entanto, a comandante nada fez além de sair primeiro dos aposentos ou esconder-se para tirar a roupa. E assim, duas orelhas de jumento nasceram nas laterais do crânio de Levi, um pouquinho atrás dos chifres.
Então, Levi resolveu imitar Hange e afastar-se também. Para tal, construiu muros de mentira na sua parte da estrada, paredes frágeis e deploráveis de isopor. Esperou Hange quebra-los. Contudo, a comandante sequer fez menção de pegar o martelo posto de propósito ao lado da primeira barreira.
E, por fim, por causa de sua violência dramática – e para sua tristeza — as antigas brincadeirinhas e abraços diminuíram até Hange não mais buscar contato físico.
Levi entendeu, talvez meio tarde demais, que instigar Hange a tomar iniciativa não ia funcionar. Droga, era o homem da situação, ele quem devia iniciar as coisas, não esperar por Hange. Levi se via na ponta do penhasco, sendo as únicas opções pular ou recuar.
O capitão pensava nisso enquanto ia para o seu próprio quarto. Era fim de semana, Hange estava em algum lugar longe do quartel-general, brincando com a filha de três anos.
XXX
Duas, três, quatro horas. Há quanto tempo estavam escondidos nas rochas? Levi não trouxe relógio, mas podia presumir o horário através da posição da lua cheia. Ela já descia em direção ao oeste, porém não chegara no horizonte. Mais de meia-noite, longe das cinco. Tinham como música a cantoria constante do mar. A quebra das ondas criava o estranho e irritante chiado abafado ao fundo. Escondidos no círculo de rochedos criado pela natureza, não conseguiriam ver as ondas revoltadas sem subir nas rochas.
Hange descansava à sua frente. A comandante apoiava as costas numa larga pedra e, como de costume, sentava com as pernas afastadas uma da outra. Levi tentava não olhar a virilha marcada nas calças brancas, todavia, a cientista ocupava todo o seu campo de visão, dificultando a tarefa. A alguns centímetros, o soldado marleyano chamado Niccolo jazia algemado, também encostado numa rocha. O homem mantinha a cabeça baixa, provavelmente antecipando a morte. Levi cogitava perguntar a Niccolo se ele era peru para morrer de véspera.
— O som do oceano é tão relaxante. Você não acha, Levi?
Disse Hange cruzando as pernas (obrigado, Santinha!) em posição de lótus, apertando o bico das botas enquanto olhava sonhadoramente para as estrelas. A comandante fechou o olho e focou-se em apreciar o som das ondas. O suspiro dado por ela foi audível, o peito subiu e desceu no ritmo da longa respiração.
— Me dá até vontade de tirar um soninho.
— Eu acho o barulho irritante.
Hange balançou a cabeça exclamando exasperadamente, jogando-a para dar o tapa-olho preto ao capitão.
— Foi você quem pediu a minha opinião.
— Verdade. Não sei por que ainda tento.
Silêncio. Levi mirou a espada ao seu lado, arrependido da resposta mesquinha quando o mar cantou por dois minutos ininterruptos. Num passado não tão distante, o silêncio entre eles era confortável, no entanto, desde a partida de Hange, a quietude se tornara insuportável, levando o capitão a sentir necessidade de conversar com ela o tempo todo. Levi estreitou o olhar e viu Hange desenhando na poeira do chão de pedra. Baixou a cabeça para o desenho e percebeu que, na verdade, ela escrevia a palavra “titã”, colocando um coração no pingo do i.
É o momento perfeito.
Encarou Niccolo de soslaio. O marleyano erguia a face ansiosa em busca de informações sobre seu destino cada vez que os eldianos abriam a boca. Se não fosse pelo soldado, estariam totalmente sozinhos, e poderia confessar seus sentimentos à Hange.
No entanto, daqui a pouco ou daqui a muito, Eren ia aparecer trazendo um navio de guerra nas costas, e a partir dali a vida seria uma incógnita. Podia tanto terminar a noite estirado sem vida na areia da praia quanto estirado roncando na cama do acampamento. O mesmo se aplicava à Hange. E se morresse sem ter se declarado? Bom, isso não faria tanta diferença assim. Mas se ELA partisse antes de saber seus verdadeiros sentimentos, Levi teria outro remorso de estimação para criar. O primeiro era o de não ter matado Zeke em Shiganshina, e este já estava bem grandinho, quase indo pra faculdade.
Tá, mas e Niccolo? Ora, as chances de algo dar errado e o marleyano morrer no lugar deles era altíssima, inclusive superior à possibilidade dos dois eldianos serem mortos. Estavam brigando em solo familiar, afinal, diferente dos intrusos a caminho. Se Niccolo morresse, levaria a declaração junto. E se sobrevivesse, bom... era só ameaça-lo para não contar a ninguém.
Levi se virou para Hange, a confissão subiu por sua garganta, chegou ao fim da língua, tentou escapar e voltou outra vez, seca. Levi baixou o olhar constrangido para a espada, cobriu a testa com a mão e arrastou-a pela face até o queixo. Por que isso é tão difícil?
— No que está pensando, baixinho?
Perguntou Hange, sorrindo pequeno. O capitão mordeu o interior da bochecha ao encará-la, inquieto pela docilidade no sorriso. Se recompôs rapidamente e respondeu, ríspido:
— Estou pensando na lentidão desses barcos. Demora da porra.
— Hah, é verdade, não vejo a hora de me livrar desse equipamento.
Hange deu batidinhas nos compartimentos de lâminas, os golpes causaram sons metálicos compassados. Levi concordou; vestir o dispositivo por tanto tempo incomoda bastante. Hange vinha planejando um novo uniforme de batalha buscando justamente maleabilidade. Após essa breve conversa, entraram novamente em silêncio. A declaração preencheu sua boca outra vez, mas Levi a abafou focando a cabeça em outros assuntos.
Quarenta minutos mais tarde, o sinalizador vermelho voou na luz da lua cheia. Os dois militares levantaram. Levi foi direto pegar Niccolo. O marleyano tentou recuar ao ser apanhado, mas o capitão o manteve ereto através da espada. Hange, em pé numa das rochas, não precisava forçar a vista para enxergar o titã de Eren carregando o longo navio nos ombros como se as toneladas de aço fossem tábuas. Levi foi para trás dela, trazendo Niccolo consigo.
— Vai tentar o mesmo plano, mamãe?
— Vou. Não me chame assim, você sabe que eu não gosto.
— Mas o seu plano é horrível, mamãe, nós sempre terminamos usando força bruta.
— Para de me chamar de mamãe. Eu quero dar a eles a chance de se entregarem sem violência.
— Você é retardada, mamãe.
— Levi, vai aparar esses chifres e não enche.
— Grossa. Cadê todo aquele papo de paz? Você está se contradizendo, mamãe.
Hange ergueu os braços para o céu, os dez dedos retorcidos feito galhos malformados foram agitados no vazio. Levi ouviu o ar ser puxado entre dentes trincados. Adivinhou ao imaginar Hange rosnando. A comandante se virou com a sobrancelha franzida e os dentes cerrados, quando falou, sua voz alta soava exageradamente fina.
— ARGH, QUE ÓDIO!
Niccolo fez careta ante a voz estridente. Levi já estava acostumado. A sombra de um sorriso sardônico brotou em seus lábios e desapareceu. Na praia, Eren alcançou a areia. Os olhos do titã eram dois pontos brilhantes no céu, até podiam ser confundidos com estrelas se não fossem os dentes pontiagudos logo abaixo. Eren largou o barco na costa do mar. De onde estava, Levi foi capaz de ver os soldados marleyanos enganchados no navio feito os bonequinhos daquele jogo chamado Pula Macaco. Terminada a tarefa, Eren tomou seu lugar atrás do barco enquanto Hange escalava a rocha mais alta. Levi seguiu-a com o olhar e teve vontade de rir ao vê-la com a bunda suja de areia.
— Olá, povo de Marley. — Saudou Hange, abrindo os braços. — Sejam bem-vindos à ilha Paradis!
Atrás dela, Levi, fazendo Niccolo de refém, colocou-se à vista dos homens no navio. O soldado marleyano suava feito porco. Levi era capaz de ouvir a mandíbula batendo embora o clima fosse ameno. Usava a lâmina da espada para fazer carinho nas costas do estrangeiro, roçando o topo no centro das costas trêmulas. Não pretendia atravessar o tronco de Niccolo e era habilidoso no manejo da arma branca para não deixá-la escorregar. Mesmo assim, era bom o marleyano sentir o selinho frio da lâmina afiada, assim não desejaria o beijo de língua.
— Meu nome é Hange. Vocês cruzaram o oceano até aqui e são muito bem-vindos como nossos convidados! Vocês devem estar cansados da longa viagem, por favor, venham tomar um chazinho conosco!
Levi reparou na gesticulação exagerada e nas gotas de suor voando conforme Hange movia o corpo ansioso de um lado para o outro. Aquele comportamento indicava o mal andamento do plano. Levi não se surpreendeu ao olhar o navio e ver rostos sombrios. De cima da rocha, a cientista começou a rir tremulamente. Ah, sim, Hange e sua rendição pacífica. Levi revirou os olhos.
— B-Bem, deixem-me mostrar como a galera que chegou antes de vocês está sendo bem tratada. Nós já somos melhores amigos.
Hange, sem oferecer as costas ao navio, deu três passos para alcançar a dupla logo atrás. Niccolo estremeceu quando a comandante o abraçou pelos ombros com um braço e bateu em seu peito com o outro. Levi sentiu inveja dele.
— Conta pra eles, Niccolo!
Levi apertou o bico paralelogramo da espada à altura dos pulmões do marleyano só para lembra-lo de seguir o plano certinho. O estrangeiro não estremeceu dessa vez, limitando-se a gemer de pavor. Contudo, mesmo em pânico, Niccolo mostrou ser contrário às ordens do país inimigo até o fim; foda-se o quanto este lhe tratou com respeito e dignidade. A voz do soldado não fraquejou ao gritar:
— Capitão, não se preocupe comigo, atire nos demônios!
O sorriso nervoso de Hange se alargou até as orelhas. Ela sairia de lá com câimbras nos músculos faciais.
— O quê? Que isso, Niccolo?
Perguntou em voz alta para o navio ouvir, enervada. Levi afrouxou a lâmina nas costas de Niccolo, mas o peso da mão não cedeu ao cabo.
— Quanto drama.
Lá em baixo, um dos homens se ergueu. O soldado era inofensivo, principalmente daquela distância, mas a arma em seus braços... ah, essa aí não era nem um pouquinho mansa.
— Marley não vai ouvir essa conversinha. Nós nunca vamos beber o vinho imundo de vocês.
Hange continuava sorrindo, agora de maneira estranha, quase aterrorizante. A boca aberta mostrava o dorso da língua, mas não todos os dentes. A expressão o lembrava sorrisos caninos, mais especificamente, o tipo que cães companheiros dão na chegada dos donos. Só que Hange não teria nada de bom cachorro caso fosse um.
— Acha mesmo que deveria nos insultar assim? Esqueceu do titã bem atrás de vocês? Como planejam fugir daqui?
Os homens no navio só precisaram erguer a cabeça para ver Eren parado feito uma estátua viva e quente. O marleyano com a arma vacilou, se recompôs, bradou um palavrão e, no instante seguinte, apontou o cano do rifle para as rochas, na direção de Hange. Seja lá qual fosse o fim da história, aquele bravo soldado tomara sua decisão em relação à seu papel nela.
— Não vamos ceder a vocês, demônios. Esse aqui — ele colocou o dedo no gatilho — é o nosso jeito de cumprimentar eldianos, sua puta ensebada.
Levi usou Niccolo como escudo humano e Hange saltou para as rochas antes do estouro cortar o canto do mar. O estrondo era diferente das armas eldianas, era mais forte, rápido e perigoso. O próprio Levi sentiu medo do poder da arma, tanto que nem sua inexpressividade natural foi capaz de segurar. Hange, logo à frente, colocou as duas mãos na rocha usada como cobertura e colocou apenas metade da cabeça para fora.
É isso que você ganha por insistir nessa porcaria de pacifismo. Você é preciosa demais para esse mundo cheio de ódio, quatro-olhos.
A essa altura, os dois eldianos e o marleyano rendido já sabiam que a arma do homem no navio nunca atirou, pois a bala de outro soldado veio primeiro, e a autora do disparo estava logo ao lado do morto, trajando a mesma farda. Os outros soldados ergueram seus rifles. Os marleyanos começaram a dialogar. Levi, observando das rochas, teve a impressão de estar presenciando algo importante. A conversa entre as pessoas no navio acabou quando os aliados da mulher deram às caras.
— Levi, olha aquele homem!
Anos atrás, Levi conheceu um fazendeiro cuja pele queimada mantinha a coloração amulatada no inverno. O capitão recordava de ter pensado que o fazendeiro devia ser a pessoa com a pele mais escura das muralhas. No entanto, aquele homem entre os rebeldes o superava. O capitão, em sua ignorância, nunca imaginou que a pele humana pudesse alcançar aquela tonalidade.
Hange, por outro lado, não estava surpresa.
— Eu tinha muita curiosidade sobre a melanina do corpo humano. Sempre acreditei que pudessem existir pessoas com a pele tão escura quanto a dele. Fascinante, não é? Quantos seres humanos diferentes têm por aí, Levi?
Levi tentou, porém, foi impossível ignorar a pontinha de mágoa o cutucando tal qual a espada alisava as costas de Niccolo minutos atrás. Hange nunca tinha lhe contado sobre a teoria das peles. Ela nem tentava mais conversar consigo sobre ciência, anatomia, fisiologia, genética e o caralho a quatro, para falar a verdade. Também, o que esperava? Vivia a cortando. O pensamento fez Levi questionar quantas outras teorias e segredos Hange vinha desenvolvendo às escondidas. A vontade de se declarar veio outra vez, agora com força total. Então, Levi fez uma promessa.
Nós vamos conversar com esses doentes e depois vou ter uma palavrinha com a Hange.
Sim. O plano parecia bom. A súbita missão pessoal o encheu de coragem ansiosa. E de receio também.
Hange continuava olhando o soldado negro, o sorriso satisfeito estampado logo abaixo do olho cintilante banhado no brilho familiar do entusiasmo curioso.
Familiar?
Levi ficou inquieto de repente, tomado por uma ansiedade perigosa e traiçoeira. A sensação era semelhante ao pressentimento de más notícias ao toque da campainha na porta de casa. Devia ser fruto da mágoa ou resultado das semanas desassossegadas, ou, quem sabe, um truque da escuridão da noite.
Teve a impressão de não reconhecer o brilho no olhar da comandante.
— Hange.
Cumprimentou a soldada no navio, agindo com bastante naturalidade para alguém que acaba de matar o companheiro. A marleyana tirou o capacete militar, mostrando o cabelo tigelinha horroroso. Os cativos jaziam de joelhos logo atrás. Hange a encarou, tão abismada quanto Levi.
— Será uma honra tomar chá com vocês.
XXX
Tendas brancas compunham a base militar residindo numa área plana próxima ao oceano. Os cadetes que entraram para a Tropa de Exploração no primeiro discurso de Hange, antes de Leona nascer, há muito já homens e mulheres adultos treinados, tomavam conta dos prisioneiros marleyanos. Os jovens do esquadrão 104, também não mais adolescentes, vigiavam o acampamento das rochas altas.
Na tenda central, Hange e Levi conversavam com os dois marleyanos traidores. A mulher corte tigelinha se apresentou como Yelena, e o negro se chamava Onyankopon. Eles aceitaram o chá oferecido por Hange e não se opuseram ao pedido dela para olhar a submetralhadora marleyana. Levi achou esse detalhe em especial impressionante, Hange poderia tê-los matado com suas próprias armas, se quisesse.
— Entendi. Então é assim que esse negócio consegue disparar múltiplos tiros.
Disse Hange mais para si mesma do que para os outros, apertando o gatilho da submetralhadora descarregada repetidas vezes. Colocou a arma na palma da mão, avaliando o peso do aço. A xícara de chá da comandante permanecia intocada. Haviam outras armas dispostas na mesa onde sentavam Levi e Hange de um lado e a dupla de desertores na outra. A tenda era iluminada pelo minério brilhante no interior de um lampião. Alguns mosquitos rondeavam, atraídos pela luz.
— Essas armas são parte do armamento padrão de Marley. O país dispõe de vinte mil soldados por divisão. São cinquenta no total...
Hange parou de brincar com a submetralhadora e ergueu o olho para Yelena. Uma gota de suor deslizou pelo maxilar da comandante após fazer a conta de cabeça antes da marleyana expor o resultado do cálculo.
— ...isso dá aproximadamente um milhão de militares.
Um milhão era quase o número da população dentro das muralhas. Marley tinha isso somente em soldados.
— Fora esse exército, temos vinte e um navios de batalha, nosso desenvolvimento bélico é espetacular e estamos construindo nossa aeronáutica.
Hange engoliu em seco perante a última palavra. “Aero” era derivado da palavra “ar”. Ambos eram inteligentes o bastante para traduzir o significado do vocábulo recém descoberto. O capitão apertou os braços cruzados sob o peito. A comandante deu um sorriso nervoso.
— Aeronáutica? Você quer dizer... ataques aéreos? C-Como assim?
Levi estalou a língua institivamente e chutou a canela da comandante. Hange olhou-o de soslaio. Tendo a atenção dela, apertou a sobrancelha.
Para de ficar assustada, demente, ela vai nos subestimar.
A última coisa que Levi queria era ser visto de cima por uma mulher de cabelo tigelinha — pelo amor da Santa, quem em sã consciência corta o cabelo assim? Através do sutil movimento na pálpebra de Hange, Levi captou o seguinte pensamento:
“Eu sei.”
Dessa vez, quem falou foi Onyankopon.
— Em resumo, os marleyanos podem atacar pelo mar e pelo céu ao mesmo tempo através de armas móveis.
Levi ficou surpreso. Quando falaram em ataques pelo ar, ele imaginou um equipamento semelhante ao desenvolvido dentro das muralhas, porém, armas móveis nadando no céu superava suas expectativas, e aparentemente as de Hange também. A comandante bateu as mãos na mesa ao erguer-se de repente. A luz logo acima ricochetou nos óculos dela e Levi não foi capaz de enxergar o olho castanho até ela sentar outra vez.
— Armas móveis atacando pelo céu!?
— Porra, Hange. — Resmungou Levi; não adianta avisar.
Hange sorriu amarelo. Em sua cadeira, Levi sentiu compaixão pela comandante. Afinal, seria responsabilidade dela planejar estratégias para enfrentar as “armas móveis atacando do céu”, à Hange caberia a tarefa de decidir o futuro dos prisioneiros, de Hange seriam cobradas armas poderosas à altura do exército de Marley, e no meio disso tudo ainda existia uma criança pequena pedindo o colo da mãe.
— Marley possui tanto poder... por que não nos atacaram ainda?
Yelena depositou a xícara de chá vazia na mesa, juntou as mãos uma na outra e falou por dez minutos sobre a relação abusiva de Marley com outros países. Levi e Hange prestaram atenção no relato, processando tanto a ideia de um único povo ser tão odiado quanto a realidade de várias sociedades espalhadas ao longo do globo. Quantos segredos ainda tinham para descobrir sobre o mundo lá fora?
Segundo Yelena, Marley vinha fazendo inimizade com países neutros e quebrando contratos com nações aliadas. Levi não entendia direito os conceitos “nação” e “quebra de contrato”. Já Hange fez uma analogia barata com mercadores para simplificar o assunto apresentado. Resumidamente, Marley era um empresário passando por problemas cabeludos com outros gestores, e por isso acabara sem tempo para lidar com Paradis, o pobre vendedor ambulante.
— Outra razão para não teremos invadido Paradis são os titãs puros. Nós começamos a largar titãs aqui para manter vocês dentro das muralhas, no entanto, a quantidade de monstros se tornou exorbitante. Os titãs dificultam ataques em terra.
Ou seja, no fim, a Tropa de Exploração gastou anos assassinando monstros que atuavam como guardiões das muralhas. Agora, sem eles, Paradis estava tão vulnerável quanto um bêbado adormecido. Piadinha engraçada essa. Se Erwin estivesse vivo, teria se mijado de rir. As sobrancelhas de Levi se tornaram pesadas, assim como seu coração.
— Isso é bem engraçado.
XXX
Levi saiu da forte iluminação branca para a fraca luz alaranjada do alvorecer. A cabeça latejante maltratava o pescoço cansado. Ele massageou as têmporas e exercitou a nuca dolorida para aliviar o desconforto. A reunião durou três horas. Três horas de informações densas sobre guerras e titãs. Yelena e Onyankopon confessaram serem espiões de nações contrárias à Marley. O plano deles era unir forças com Paradis em prol de enfrentar o inimigo em comum, nesse caso, Marley. E, quando Yelena confessou o nome do cabeça por trás da proposta, Levi teve vontade de gritar.
O organizador da artimanha era Zeke Yeager, portador do titã bestial, irmão de Eren e assassino de Erwin. O único objetivo concreto de Levi era fazer aquele homem conhecer o sabor da sua lâmina. Contudo, agora precisaria trabalhar com ele em seu “plano secreto” – Yelena alegou não ter as informações completas acerca do esquema. De fato, coisa demais para uma única noite. Sua cabeça ia explodir.
A alguns metros, Hange conversava sobre o funcionamento da base militar e o tratamento oferecido para espiões. O soldado próximo aguardava a hora de levar os voluntários para a tenda onde dormiriam. O rifle nos braços do militar indicava a falta de confiança para com os estrangeiros. Hange, pelo visto, teve a sociabilidade pouco afetada pela longa reunião, dava para ver pela quantidade de palavras proferida por minuto.
Isso era bom, afinal, precisava conversar com Hange sobre o indizível, a reunião, e, especialmente, sobre Zeke. Tinha muito a dizer. Observando-a de longe, Levi sentiu uma maciça carência que fez seus ombros desabarem. Ele estava cansado, chateado... e queria um abraço. É, isso mesmo. Simples assim. No entanto, não bastava ser abraçado por qualquer pessoa, precisava de Hange. Ele sentiu vontade de invadir a rodinha de conversa, envolve-la pela cintura e aproveitar a própria baixa altura para aninhar a cabeça angustiada entre os seios da comandante.
— Peço desculpas, mas preciso deixar alguém vigiando vocês, pelo menos por enquanto.
Levi ouviu Hange dizer ao se aproximar do grupo. A comandante andou para o lado, permitindo a entrada de Levi na roda.
— Nós entendemos.
Yelena moveu a mão num gesto despreocupado. Ao lado dela, Onyankopon não dava indícios de que acompanharia o soldado para os dormitórios dos prisioneiros, e ele de fato permaneceu parado quando o militar saiu levando apenas a mulher consigo. Hange arranhou a garganta para perguntar o que ele queria. Onyankopon sorriu timidamente.
— O trabalho que vocês fizeram aqui é impressionante. Eliminar todos os titãs tendo uma tecnologia tão escassa... nossa, incrível.
Hange coçou a nuca e riu. Levi viu as bochechas da comandante ficarem rubras. As suas ferveram.
— Heh. Nós os eliminamos com uma armadilha chamada carrasco diabólico.
— Carrasco diabólico? — Onyankopon levantou as sobrancelhas, rindo.
— Gostou? É uma guilhotina gigante. Fui eu que projetei. Te mostro os desenhos, se quiser, sempre trago o meu portfólio comigo.
Hange carregava os desenhos de suas invenções e fórmulas para caso aparecesse um navio com cientistas dentro. Ela parecia feliz por finalmente encontrar alguém.
— Jura!? Eu ia mesmo te pedir para me explicar a tecnologia de vocês. Claro, se você tiver um tempinho.
Ante o interesse entusiasmado de Onyankopon, as pupilas de Hange dilataram, e quando os olhares de ambos cruzaram, Levi captou a palpável eletricidade surgindo entre eles. Era a súbita ligação sensória de quando você está aglomerado numa multidão e fita diretamente alguém desconhecido por mais de cinco segundos. A camaradagem do olhar compartilhado por dois colegas de classe quando o professor avisa que a prova será em dupla. O sentimento sincero de trocar olhares com alguém querido e pensar no quanto você gosta dele ou dela. A eletricidade entre Hange e Onyankopon tinha o mesmo significado desses três casos.
E talvez outro.
A comandante deu o sorriso mais largo, doce e jovial que Levi já tinha visto. Nossa, que coisa linda de presenciar. Sem ter onde colocar as mãos, Hange enfiou-as nos bolsos das calças e respondeu:
— Bem, podemos fazer uma troca. Eu te conto sobre a nossa tecnologia, e como retribuição você me fala do seu país. Que tal?
— Perfeito.
Hange começou a andar e Onyankopon foi atrás dela, caminhando ao seu lado. Levi, em estado de choque, não conseguiu acompanha-los. Ficou parado encarando as costas da farda marleyana ao lado das asas da liberdade. O ciúme nocivo nasceu em seu ventre e subiu incendiando o peito, destruindo tudo pelo caminho, por pouco não desintegrando o coração.
Eles andaram alguns passos, e então Hange parou de súbito. Ela fitou Levi por cima do ombro direito, o lado do olho remanente.
— Huh? Você não vem, Levi?
O capitão sacudiu a cabeça em negativo, cruzou os braços e desdenhou:
— Nah, esse papinho de ciência é conversa pra boi dormir. Vou pra minha tenda refletir sobre a reunião.
A última parte da frase foi indireta para Hange acompanhá-lo. Um pouco irritadiça e grosseira demais? Provavelmente. Esperou a comandante dizer à Onyankopon "desculpe, meu amigo e eu precisamos conversar" e vir para o seu lado. No entanto, Hange deu de ombros e acenou para o capitão.
— Tudo bem. Boa noite, Levi.
— Boa noite, capitão.
Despediu-se Onyankopon, sorrindo aquele risinho nojento de bom-moço. A resposta de Levi para ambos foi um movimento de cabeça. Sua melhor amiga acabara de trocá-lo por um homem desconhecido. Fez de propósito ou não percebeu a indireta? Levi, furioso, acreditou na primeira opção.
— Bem, meu país se chama Inglaterra...
A voz de Onyankopon diminuiu conforme a dupla se afastava. Hange precisava erguer a cabeça para olhar o inglês, e esse detalhe aflorou a raiva de Levi ao ponto da cabeça já latejante arder de ódio. Ah, sim, era óbvia a preferência de Hange por homens altos, ela costumava ser apaixonada por Shadis — o maldito mede quase dois metros de altura. Onyankopon e Hange andavam lado a lado sorrindo um para o outro. A eletricidade entre eles faiscava. Logo se transformaria num incêndio, Levi pressupunha.
A respiração do capitão tornou-se pesada. Em meio às autopunições por não ter confessado quando teve a chance, encontrou espaço para se sentir péssimo por não ter interesse em ciência, e também para se autodepreciar por medir menos de 1,70. Implicou até com a cor da própria pele, desejando que ela não fosse tão horrorosamente pálida. Os punhos estremeceram e seus olhos se apertaram até não serem mais do que duas frestas minúsculas na face odiosa. Onyankopon e Hange seguiram para o leste, onde o sol subia para o céu sem nuvens.
Fale com o autor