Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)

11 Senti tanta falta da sua voz


Notas iniciais
Olá, como você está? Pessoal, minha escrita vem passando por transição. E por “transição” quero dizer que a minha percepção sobre meus textos evoluiu, mas a minha habilidade ainda não. Quando isso acontece, começamos a odiar todos os nossos trabalhos mesmo estando bons. É bem desconfortável. :// Hoje, vamos descobrir o nome da criança e finalizar a parte 1 da Fanfic. Na verdade, o nome da menina sempre esteve no índice da história (eu achei que vocês tivessem visto kkk). Curiosidade: esse foi o segundo capítulo que escrevi. Ele foi feito em setembro de 2020. Por favor, leiam as notas finais. Boa leitura. Abraços.

Se numa visita ao quartel-general da Tropa de Exploração você acabar parando por engano no prédio dos dormitórios oficiais, talvez você escute o choro abafado de uma menina recém-nascida. O pranto fará você girar no mesmo lugar com os ouvidos atentos em busca do barulho, enquanto sua cabeça questiona se o som é fruto da sua fértil imaginação ou parte da realidade.

Mais tarde, depois de algum soldado te encontrar zanzando pelos corredores ou de você mesmo achar o caminho para fora, pode ser que você comprove, através da conversa de outras pessoas, a veracidade do choro. Caso você odeie fofocas, sairá rapidamente para evitar escutar papos que não lhe dizem respeito, no entanto, se a sua curiosidade for maior, você ficará para ouvir que aquele bebê é filho da comandante da divisão. Você também descobre que a menininha tem quatro dias de vida, e a mulher que a trouxe ao mundo não aparece desde então.

A história sobre mãe e filha pode te deixar compadecido ao ponto de você perder o apetite no jantar e encarar a parede lisa por muito tempo. Ou então, você pode pensar no sofrimento interminável das duas e ficar indiferente. Vai da sua sensibilidade para com a dor do outro.

Após aceitar a gravidez, Hange passou meses entusiasmada para receber a bebê. Quando o grande dia chegou trazendo quatro horas de dor, Hange achou que vivenciaria, finalmente, o momento mais romantizado da vida humana: conhecer o primeiro filho. No entanto, ao término do parto, estava tão exausta que nem o choro saudável da menina foi capaz de animá-la. O cheiro de placenta emanado pela criança não causou nada além de repulsa, e ela só podia agradecer por Mia, a única lúcida naquela equipe de incompetentes, ter respeitado seu espaço.

Já era madrugada quando a comandante voltou para o quartel-general. Hange atravessou o prédio esgueirada feito um rato. Ao entrar no quarto, teve tempo para reparar na falta do berço antes de enfiar-se na cama. Desde então, esteve isolada, tremendo, dormindo, pensando muito e não pensando em nada. Toda visita era expulsa à gritos, e a comida que deixavam para ela mal era tocada. A comandante não tomou banho na primeira madrugada, e a banheira permaneceu seca durante o exílio. Entre o suor, as lágrimas, a roupa suja e a comida estragada, o leite materno marcava presença no ambiente abafado, umedecendo sem controle a frente da blusa vestida desde a volta do hospital. Era como se alguém tivesse misturado água-de-coco com baunilha, deixado azedar por dias e aí atirado tudo em cima dela. O banheiro era anexado ao quarto, porém, a cientista não se sentia disposta o bastante para livrar-se do odor desagradável.

Quando a vida era simples, Hange era uma soldada esquisita interessada em ciências, e seu empenho nessa área fez com que os superiores a nomeassem líder do departamento de pesquisa. Com o tempo, seu talento para comandar e raciocínio rápido a transformaram em líder de esquadrão. Com a morte de Erwin, uma nova Hange nasceu. A tenente-cientista-pesquisadora-esquisita que ela foi deu lugar a comandante Hange, uma mulher que passaria a aguentar muito mais golpes do que seres humanos normais podem suportar e não podia se dar ao luxo de fugir das pancadas, nem olhar para trás – somente para frente, sempre para frente. Pouco tempo depois, a Hange genitora apareceu, e os hormônios que vieram junto lhe deram forças para proteger a barriga grávida de todo o mal externo. A linha entre essas Hanges era tênue. A essência da mulher era a mesma, porém, as responsabilidades exigiam tipos diferentes de tratamento. Agora, com o fim da gravidez, outra identidade aparecia para tomar seu lugar, e essa era a Hange mãe.

Os hormônios vinham caindo drasticamente, e ela não sabia se as dúvidas acerca de colecionar mais um título surgiam do puerpério ou derivavam de quem ela realmente é (ou foi). Nesse caso, uma mulher livre que nunca quis filhos.

Desde o nascimento da menininha sem nome, Hange se sentia estranha e vazia. Literalmente vazia; a ausência do peso extra era esquisita. Também viu-se sentindo falta das manobras, mesmo as dolorosas. E, principalmente, a hora de dormir já não era a mesma coisa, pois acostumara-se a adormecer acariciando o ventre. Engraçado pensar que, para voltar a dormir na companhia da criaturinha, bastava sair do covil.

Muitas vezes, podemos pensar que nossa necessidade de descanso é válida, no entanto, é preciso tomar cuidado em algumas situações. Há certos pedidos de repouso que não são súplicas de socorro, mas um truque sujo da autossabotagem para nos afastar daquilo que precisa ser feito. É um tipo ruim de descanso; é aquele das dezesseis horas de sono, aquele que te impede de sair de casa, aquele que faz as tarefas acumularem no calendário. A mente pode virar nossa pior inimiga. De vez em quando, precisamos encher o peito e enfrenta-la para não acabar entrando num poço profundo de ansiedade procrastinada, e foi isso que Hange fez.

Não posso ficar aqui para sempre.

O pensamento foi claro como se tivesse sido dito em voz alta, e talvez tivesse mesmo. Hange abriu o único olho sem pestanejar. O sol raiava, mas foi a escuridão dos cobertores que a recebeu. Lá fora, a tropa de Exploração enfrentava vários desafios sem a sua principal representante, e também havia outra questão: o pânico crescente de não ser capaz de aceitar a criança e ter de enviá-la para a fazenda da rainha, como o maldito Pixis sugeriu dez mil anos atrás. Em suma, pessoas lá fora precisavam dela, Hange não estava mais em posição de se colocar em primeiro lugar.

Ora, vamos, levante daí agora mesmo.

Puxou as cobertas para longe e sentou-se de uma vez só. Respirou profundamente, o ar entrou abafado em seus pulmões. Conseguia ver a luz do sol pelas frestas da janela. Foi preciso muito esforço para não voltar para as sombras, mas não tanto quanto imaginava.

Ela abriu a janela com tanta força que as venezianas berraram ao bater nas paredes externas. O sol ofuscou o olho de Hange, obrigando a cientista a fechá-lo. O febril anseio de voltar para a cama foi controlado, e logo os raios quentes pararam de machucá-la e trouxeram conforto. A comandante apoiou as mãos na janela e colocou metade do corpo para fora, respirando o ar puro. O olho castanho foi aberto aos poucos, e então a consciência da realidade a transpassou. Hange olhou para baixo e viu um grupo de soldados descansando nos fundos. A essa altura, dois ou mais deles já tinham reparado na presença da mulher pálida e sem tapa-olho no parapeito da janela. A visão devia ser assustadora — qualquer pessoa de fora pensaria que a cientista era uma assombração.

Fiquem longe do quartel-general da Tropa de Exploração, o fantasma de uma mulher louca mora lá dentro. Se falar “titã” no espelho três vezes ela aparece. Titã. Titã. Titã. Buuu. Ha. Ha. Ha.

Ela percebeu um dos recrutas saindo em disparada para informar aos outros que a comandante Hange finalmente dera as caras.

Suspirando, a cientista se afastou da janela e foi ao guarda-roupa pegar roupas limpas. A última vez que ela tomou banho foi no hospital, onde usou e abusou do sabonete a fim de livrar-se dos fluidos repugnantes. Desde então, Hange vestia o mesmo pijama sob o corpo nu. Ela olhou distraidamente para a cômoda infantil ao lado, e não sentiu nada além da apatia indefinida. Entrou no banheiro pouco depois, sem se preocupar em fechar a janela.

Hange tomou um demorado banho quente. O vapor da água embriagava seus sentidos, e ela não pensou em nada durante o tempo em que ficou imersa na banheira. A linha nigra continuava bem escura na barriga murcha, e não demoraria para desvanecer. O corpo permanecia inchado em certas áreas, principalmente os seios. Hange agarrou o esquerdo, gemendo de desconforto com a sensibilidade. Sem exatamente pensar, ordenhou o mamilo, e no próximo segundo levava os dedos aos lábios. A língua emitiu barulhos estalados ao bater no céu da boca, tentando capturar a essência do fluído.

Estranho. Docinho, mas muito estranho.

Hange se sentiu muito melhor após vestir roupas limpas e passadas. O uniforme a deixou profissional, justamente o seu objetivo. Ao sair, olhou para os dois lados do corredor, avaliando qual era a melhor rota de fuga. Foi pela a esquerda, que dava para a escada do primeiro andar em direção aos refeitórios. Ela começou andando rente a parede num caminhar apressado e estranhamente silencioso para uma pessoa tão barulhenta, a postura ligeiramente curvada. Porém, ao alcançar o andar inferior, Hange ergueu a cabeça, se afastou da parede e mudou a postura. Só essas simples correções já aumentaram sua confiança.

Todos os soldados que encontrou pelo caminho a cumprimentaram com a continência da Tropa de Exploração. Os mais velhos agiam com naturalidade, os mais jovens, no entanto, não conseguiam encará-la nos olhos, e alguns até mesmo erraram o lado correto do coração. Hange cumprimentou a todos em sua clássica maneira bem-humorada, e isso a ajudou a se sentir mais como si mesma.

No refeitório, o almoço era couve com carne. O cheiro dos ingredientes frescos atiçou a fome de quatro dias. Comeu sozinha numa das largas mesas onde os soldados comiam juntos, agradecendo mentalmente por faltar dez minutos para o horário oficial do almoço. Ela devorou o primeiro prato e repetiu mais duas vezes, terminando a refeição com um arroto vigoroso. Os cozinheiros ficaram satisfeitos, mas não falaram nada.

— Vocês sabem aonde colocaram a bebê?

A pergunta saiu com uma frieza natural, como se a comandante estivesse falando do filho de um conhecido distante e não da própria recém-nascida. O cozinheiro respondeu que a criança estava no quarto de Levi. Aquela réplica fez a mulher arquear a sobrancelha, transtornada.

— Com Levi?

— Não tinham nenhum outro lugar para colocar a menina, comandante. O capitão ofereceu o próprio quarto.

Aquela ideia era tão inimaginável que Hange quase perguntou ao cozinheiro se era uma piada. Percebendo a descrença, o homem apressou-se para explicar que o capitão havia emprestado o quarto para a bebê e a ama de leite, e não compartilhado. Levi estava passando as noites no escritório, usando o sofá como cama.

— Agora sim. Você sabe aonde o Levi está?

— Acho que ele está na biblioteca.

— Vou falar com ele. Obrigada pelo almoço, estava delicioso.

XXX

Levi, de fato, estava na biblioteca, mas não inteiro. Hange o encontrou numa das mesas de estudo, deitado de bruços sob um livro aberto. O capitão tinha a testa apoiada nos braços cruzados, o rosto completamente escondido entre eles. O subordinado nunca teve um sono lá muito bom, no entanto, ele só andava caindo de exaustão quando alguma coisa muito séria acontecia — quando Erwin esteve em coma, por exemplo.

A cientista colocou a mão nas costas do amigo. Levi despertou de imediato, um tanto sonso a princípio e logo recobrando a consciência. Ele arregalou os olhos ao ver Hange parada ao seu lado. A garganta emitiu uma curta exclamação e o capitão levantou sem esconder a felicidade, embora a transmitisse através de seus modos sutis.

— Olha só quem resolveu sair da caverna. Você tem merda na cabeça? Preocupando todo mundo desse jeito...

O sorriso pequeno foi a primeira manifestação de bem-estar verdadeiro que ela deu em dias. Abraçou-o sem cerimônias, se inclinando para deitar a cabeça no ombro do subordinado, pedindo em silêncio por um pouquinho de amor. O capitão correspondeu, afagando as costas da comandante e logo subindo para os cabelos, desatando o elástico para entrelaçar os dedos nas mechas castanhas, afagando os nós e deixando as falanges formarem outros ao enrolar as madeixas, oferecendo a própria energia a Hange enquanto ele por sua vez reconhecia a presença da mulher. A comandante o largou depois de muito tempo, parecendo revigorada.

— Como estão as coisas?

— Boas. A Capital já está sabendo da criança — só tem fofoqueiro nessa merda de quartel. Bem, pelo menos, Zackly e Weber entenderam que você está passando por um momento difícil...

A veia na testa do capitão pulsou e ele baixou o olhar por um rápido momento que sequer chegou a um segundo. Hange compreendeu o significado da reação e franziu o cenho.

Os queridinhos estão cheios de empatia porque eu pari um filho do Erwin. Se fosse de qualquer outra pessoa era tchau, Hange, até mais.

— ...então disseram para deixar você descansar. Os líderes de esquadrão e eu estamos cuidando de tudo. O Armin está me ajudando bastante.

A resposta de Hange foi um breve menear de cabeça.

— Obrigada por tomar conta das coisas. Acho que estou bem para assumir agora. Esses aqui são os relatórios? — Ela inclinou a cabeça na direção da papelada ao lado do livro onde Levi estivera dormindo. — Já vou leva-los comigo, pode deixar que eu termino.

O rosto de Levi retomara a inexpressividade de sempre, porém, Hange conseguia identificar inquietação nos punhos fechados. Querendo evitar lições de moral, a comandante assentiu com um falso sorriso e passou por ele, levando os relatórios junto.

— Você não foi ver a menina, não é?

Hange parou no meio do caminho sem se virar para Levi. Ela apertou a papelada contra o peito, transtornada.

— Eu não quero lidar com isso agora, Levi.

A confissão saiu num sussurro tão baixo que nem os livros escutaram; quem ouviu foi o piso limpo, para onde a cabeça cabisbaixa pendia.

— Perdão?

— EU DISSE QUE NÃO QUERO LIDAR COM ISSO AGORA.

Hange virou-se ao mesmo tempo em que gritava. A voz ressoante retiniu nas estantes e ecoou nas paredes de pedra. Levi recuou institivamente, a visão duplicando conforme todo o canal auditivo tremia em decorrência do berro da mulher. Ao recuperar-se, Levi fechou a cara e encarou a comandante duramente.

— Desculpe, é que você não ouviu.

— Dessa vez passa. — A voz dele adquiriu um tom mais solidário. — Eu entendo o que você está tentando fazer, Hange, você quer ocupar a cabeça com trabalho.

A comandante aquiesceu, taciturna. Hange nunca teve problemas para se expressar, no entanto, nem a mais falante das pessoas está sempre disposta a conversar. Mas, sim, Levi estava correto, trabalhar até a exaustão era sua finalidade mesmo conhecendo os malefícios. O serviço atuaria como empecilho para a cientista não visitar a filha, e a tendência era procurar mais e mais trabalho eventualmente. Isso iria resultar no desgaste de seu corpo e mente, e o ato de evitar a bebê poderia se transformar numa síndrome do pânico.

— Você acha mesmo que essa é a melhor escolha, Hange?

— Não...

— Não entendi.

— EU FALEI

— Eu escutei, doente. Quis dizer que não entendi o porquê de você querer entupir o cu de trabalho se sabe que vai piorar as coisas.

Hange pensou na enfermeira sorridente com o uniforme sujo falando numa doce voz “que garotinha linda, mamãe” enquanto a recém-nascida chorava sem parar. Respirou fundo e trancou o ar, fechando o olho e só tornando a abri-lo quando o ar quente escapou pela boca. Agarrava-se à papelada com os dois braços pela pura necessidade de apertar alguma coisa.

— Eu subestimei a situação. Achei que eu ia saber o que fazer... que eu ia olhar o rostinho, toda aquela conversa de mãe..., mas só de pensar em chegar perto fico arrepiada.

— Quem diria que bebês fossem mais assustadores que titãs.

O comentário de Levi fez a comandante dar um sorriso pequeno que aliviou a tensão. O capitão retomou a fala sem dar à Hange chance de responder.

— Vamos acabar com isso logo, eu vou com você.

A comandante ficou surpresa com o convite feito por Levi, tanto por ele oferecer ajuda voluntariamente quanto pela naturalidade na voz do homem. Ela largou a papelada na mesinha com relutância — não sentia mais carência de agarrar algo, mas sabia que a vontade logo retornaria. Ela deixou Levi guia-la para fora da biblioteca, ignorando o nervosismo.

— A criança está no meu quarto, então, se você sentir vontade de vomitar, segura.

Hange deu risada do comentário de Levi. O fato dele falar essas frases cômicas em voz séria, como se estivesse passando uma informação e não fazendo graça, deixava as piadas hilárias.

— Os cozinheiros me contaram.

— É mesmo? Eu não tava mentindo quando falei que só tem fofoqueiro aqui. O que mais te disseram?

— Que você dorme abraçado com a bebê.

Ele rapidamente tampou a boca para conter a curta gargalhada. Hange, que caminhava alguns centímetros atrás do subordinado, riu sem mostrar os dentes.

— Que absurdo.

— É verdade. Até parece que um bebê dormiria com você.

A ansiedade começou a crescer conforme se aproximavam do quarto do capitão. Ela e a bebê estiveram no mesmo andar todo esse tempo. Quando encararam a porta fechada, Hange girou a cabeça para Levi, já que o subordinado estava parado a sua esquerda. Ele a encorajou através do olhar e a comandante mordeu o lábio inferior, rapidamente voltando a mirar a porta.

— Que silêncio.

— Ela não tem chorado muito.

O coração de Hange deu um pulo quando Levi abriu a porta sem cerimônia. A ama de leite estava lendo numa cadeira de balanço perto do berço, ambos no centro do quarto. A mulher fechou o livro ao ver os dois militares.

— Comandante Hange! É um prazer conhece-la.

— Boa tarde.

Hange soou exageradamente formal. Os braços da comandante estavam rígidos ao lado do corpo e todos os dedos tremiam. As pernas começavam a bambear, o horror que a envolveu nos últimos dias voltava. Então, a atenção da cientista foi desviada por Levi, que segurou sua mão esquerda com força. Hange apertou os dedos dele e soltou a respiração prendida desde o corredor.

— Você poderia nos deixar a sós, por favor?

Assim que a porta bateu, os ombros rígidos desabaram. Hange soltou uma lamúria esganiçada, arqueando o corpo como se fosse vomitar, a mão suando na do capitão. Agora, o cheiro da criança, outrora fedorento e terrível, fora substituído por uma fragrância leve e penetrante. Hange sentia-se estranhamente atraída, e a situação a fazia pensar numa ratoeira.

A criatura no berço começou a gemer, e logo os resmungos deram lugar a um choro baixo e, Hange percebeu, chateado. Se a comandante era capaz de sentir o cheiro da menina de longe, isso significava que a bebê também era capaz de sentir o seu. Estava reagindo à presença da mãe.

— L-Levi, ela tá me chamando.

— É óbvio que está, você é mãe dela. Vamos, falta pouco.

Ao tentar dar um passo para frente, seus joelhos cederam e Hange precisou agarrar-se ao corpo de Levi para não cair. A voz adquiriu o tom choroso da menininha assustada que ela nunca foi.

— Eu não consigo andar!

— Ok, agora você está tirando onda com a minha cara.

Levi exagerou na violência ao puxá-la, porém, a tática se mostrou eficiente para colocar a cientista nos eixos. Hange conseguiu ficar firme nas duas pernas, e embora seus passos fossem lentos e arrastados como os de uma velha senhora, conseguiu chegar ao berço.

Ela olhou para o conteúdo da caminha e jogou o rosto para o outro lado ao mínimo vislumbre da bebê. A ânsia de vômito subiu e todo o seu corpo ficou gelado de dentro para fora. Hange cobriu a boca com a mão livre, tentando controlar a tontura. O choramingo da criança não ajudava.

Levi limitou-se a segurar a mão da comandante em silêncio, dando-lhe tempo para recuperar as forças. O capitão tentou consolar a criança, mas a bebê fugiu de seus dedos, emitindo uma reclamação chorosa.

Aquela manifestação aflita serviu para lembrar Hange de que, de todos os envolvidos na brincadeira, a recém-nascida não só era a mais prejudicada como também é a única inocente. A bebê não foi feita com amor, ela foi resultado da irresponsabilidade de outras pessoas, sendo que uma morreu antes de saber da sua existência. Era errado Hange martirizar-se por causa de um erro, no entanto, era hediondo outra pessoa sofrer as consequências de seus atos. Não devia tratar a menina como uma pedra na sua vida. A bebê não pediu para vir ao mundo, foi Hange, por uma série de motivos, quem quis que ela nascesse.

A comandante respirou fundo e olhou o subordinado pela última vez. Ela soltou a mão de Levi e agora colocava as duas na borda da caminha enquanto sua cabeça se projetava sob o conteúdo do berço. A criaturinha ficou louca com a proximidade da mãe e direcionou os olhos bem abertos na direção dela.

— Credo! — Exclamou, surpresa. — Que pequena, parece uma bolinha.

Hange olhou a criança fixamente, e demorou até tomar coragem para encostar a mão suada na bebê. A menininha reagiu rapidamente, agarrando o dedo médio da mãe. Não chorava mais.

— Você acaba de conhecer sua filha e a primeira coisa que diz é “parece uma bolinha”.

— A primeira coisa que eu disse foi “credo”.

— Engraçadinha.

— Eu não estou brincando. Ela é muito pequena.

— As enfermeiras falaram a mesma coisa. Se quer saber minha opinião, não vejo nada de errado com o tamanho dela.

Hange ergueu-se de repente. Encarou Levi com um sorriso largo e debochado sem dizer palavra alguma.

— Isso não tem nada a ver com a minha altura, quatro-olhos filha da puta.

— Até parece que não. Com esse tamaninho, qualquer coisa pequena parece grande pra você. Até hoje não sei como você consegue subir nos cavalos sem precisar de um banco.

— Ah, sim, disse a mulher mais alta do mundo. Quem é o Titã Colossal perto de Hange e seus incríveis 1,70?

— Respeite quem é maior que você.

— Quer perder o outro olho?

— Ei, tem criança na sala. Haha... horas sofrendo para sair esse pinguinho... eu esperava mais de mim mesma.

A menina agarrava sua mão com toda a firmeza que uma criança recém-nascida pode ter. Hange não reparou que estava sorrindo, nem que seus traços suavizaram da desconfiança para tranquilidade. O polegar alisou a bochecha lisa da filha e a bebê moveu o rostinho na direção da carícia.

— Shh. Desculpe ter demorado tanto para vir ver você, menininha.

Os mamilos da comandante começaram a formigar gradualmente e ela entendeu de imediato o que aquilo significava. A menina arreganhou a boca e voltou a chorar, agora um pranto de verdade, não o choramingo chateado de antes.

— O que você fez?

— Não fiz nada. Acho que ela está com fome.

— Que conveniente. Vou chamar a ama de leite.

— Não precisa, eu quero tentar.

Hange entregou o casaco do uniforme ao subordinado. Ela só precisou abrir os primeiros botões da camisa para alcançar o sutiã. Pegou a menina gentilmente, sequer lembrando que dez minutos atrás morria de medo dela. Sentou na cadeira de balanço com a criança no colo, e a bebê encontrou o mamilo assim que foi aproximada do peito.

— Nossa!

O lábio da comandante tremeu. Já havia passado por dores físicas piores e lido sobre a que sentia no momento, entretanto, nem isso foi capaz de prepara-la para a tortura horrível que tantas mulheres insistiam em romantizar. Era como se a criança estivesse bebendo suas entranhas.

— Tá doendo?

— Bastante.

Durante suas longas pesquisas sobre gravidez, Hange descobriu que algumas mulheres sofriam para amamentar, então, o acontecimento não foi exatamente inédito, porém saber que a condição era possível não deixava o processo menos doloroso. Mesmo assim, estava aguentando. Não proferiu um único grito ou reclamação, controlou o impulso de contorcer o corpo e segurou as lágrimas com garra. Para aliviar-se, buscou a válvula de escape mais silenciosa, que envolvia puxar o cobertorzinho do berço e colocar a ponta entre os dentes, enchendo a boca de pelos. A bebê alimentava-se como se nada estivesse acontecendo. Hange achou que era capaz de controlar a dor, no entanto, não foi, e ela largou o cobertor com um gemido doloroso.

— Quer que eu chame a ama de leite?

A mulher disse não com a cabeça. Hange virou o corpo da bebê cuidadosamente para ela ficar com a barriga colada em seu corpo. A criança resmungou ao ser movida, agarrando-se com gula ao peito da mãe.

— Olha só, mal nasceu e já quer mandar. Ei, calminha- ai! Não faz assim. Não maltrata a sua mãe, bolinha feia.

Hange sorria com ternura apesar da dor latejante. Após posicionar a bebê, usou a mão livre para segurar o próprio seio por baixo. Aquilo fez a menina encaixar a boca desdentada de um jeito diferente, com o queixo e o nariz encostados em sua pele nua. Naquela posição e com a mãe ajudando, não precisava fazer tanta força, o que diminuiu a dor destrutiva para desconforto suportável.

— Pronto, assim está melhor.

Levi estava sentado no chão com os braços apoiados nas pernas cruzadas, sorrindo para a superior na cadeira. A cientista retribuiu, voltando a atenção para a bebê em seguida, sem conseguir acreditar que ficou quatro dias trancada negando a conexão com aquela criança. As mechas douradas eram tão ralas que quase não se moveram quando Hange as tocou. O murmurinho da sucção era quase relaxante.

— É docinho, sabia? Eu provei.

Hange disse distraidamente, focada em ajudar a bebê. O capitão não entendeu de imediato, e por isso balançou a cabeça positivamente. Contudo, ao processar as palavras da comandante, o sorriso doce sumiu. Ele arregalou os olhos, torceu o nariz e o lábio superior mostrou dois dentes, enojado.

— Você provou?

— Provei, ué.

— Puta merda, Hange, que nojo. Só falta você me dizer que já comeu menstruação.

O olho apertado da comandante encarou Levi de soslaio. Sorriu discretamente.

— Porca do caralho.

A resposta de Hange foi uma risada baixa, depois sorriu carinhosamente para a filha. A cabeça oval era um pouco grande demais para o tamanho pequeno, o rosto era enrugado e amassado e a falta de sobrancelha contribuía para o ar alienígena do pequeno filhotinho. Ah, por tudo que é mais sagrado, que criança horrorosa de feia. Por que recém-nascidos são tão estranhos?

No entanto, Hange encontrou beleza naquele pacotinho de feiura, e esse encanto despertou a onda de carinho que pouco a pouco envolveu o coração da comandante. Aquela menininha era parte dela, parte de Erwin, e agora, parte do mundo. O crescente sentimento não era exatamente amor, mas uma afeição poderosa acompanhada do senso de responsabilidade.

Não tinha certeza se era isso que as mães sentiam ao conhecer os filhos, mas o que vivenciou foi uma ligação estranha, um sentimento de posse singular bizarro onde o pertencimento vinha só de uma parte. Ela pertenceria àquela criança para sempre, mas a menina não seria sua até o fim. Apesar de assustador, não era algo negativo. Se fosse, Hange não a teria deixado mamar em seu seio. A comandante era da ciência, do exército, de si mesma e do mundo, porém, foi ela quem deu a vida àquela garotinha, e se parte dela, ou todo o seu ser, tivesse que pertencer a bebê, Hange aceitaria. Lhe passou pela cabeça que seria maravilhoso morrer pensando naquele rosto feioso, e esse pensamento a banhou numa calmaria quase inebriante.

— Qual o nome dela?

— É você que escolhe, retardada.

— Ah! É verdade. Hummmmm...

Ela olhou para o teto, pensativa. Começou a movimentar a cadeira num leve embalo sem reparar, e ficou assim por minutos a fio. Voltou o rosto para Levi subitamente como se tivesse tomado uma decisão, mas o que saiu foi um suspiro longo.

— Não sei, não tenho criatividade. Nomear titãs é mais fácil.

— Eu já ia falar isso.

Hange olhou para a bebê alheia a conversa dos dois adultos, e seu coração outrora resignado derreteu-se ao reconhecer o monstrinho que morou dentro de si por nove meses. Todo o seu corpo e alma reagiam positivamente à presença dela. Hange retirou os acessórios faciais e encostou o corpinho da bebê no rosto, os lábios beijaram a bochecha macia e a cabecinha de cabelos lisos.

Havia um contador de histórias no vilarejo onde Hange nasceu. O velho reunia os moradores, geralmente nas noites de sábado, e passava horas relatando contos belos, assustadores ou impactantes, dependendo da demanda do público (e eram todos verdadeiros, jurava ele pela Santa). Hange ouviu muitos, se não todos, e esquecera a maioria. No entanto, a bebê em seus braços a fez recordar uma.

A historinha é sobre um homem que trabalhava em duas cozinhas para alimentar a esposa doente e a filha. Os empregadores cruéis forçavam o pobre rapaz a trabalhar até altas horas para dar-lhe migalhas. Então, num belo dia, o rei foi a um desses restaurantes e se apaixonou pela comida. Ele pediu para ver o cozinheiro e ficou encantado com a bondade e simplicidade do protagonista. O conto termina com o homem recebendo gratificações financeiras reais para abrir o próprio restaurante de luxo, no entanto, ele usou a maior parte da quantia para curar a doença da esposa e colocar a filha na escola, aplicando o resto do dinheiro na construção de um pequeno restaurante familiar.

A moral do conto gerou discussão entre os garotos presentes naquela noite. Alguns alegaram que a lição era que devemos usar o dinheiro com sabedoria. Outras, incluindo Hange, achavam que a mensagem se referia às compensações do trabalho. Houve quem apontasse sobre “há males que vêm para bem”, pois se não fossem os patrões cruéis, o protagonista jamais seria apresentado ao rei.

Hange, já adulta, percebia que a estorinha boba falava de todos esses temas ao mesmo tempo, e também de um outro assunto subjetivo. Falava sobre família. A narrativa contava, sobretudo, a história um homem lutando para sustentar as pessoas que mais amava. O herói era um pai zelando pela felicidade da filha. Hange percebia com entusiasmo que a crônica relatava, indiretamente, a vida de uma criança amada pelo pai. E o nome dessa menina era:

— Leona. Leona Zöe Smith. — Sussurrou na pele da filha. — Esse é o seu nome, bebêzinha.

— ...cada um nomeia os seus filhos como quer.

— Ah, Levi, por que você não usa essa boca pra lamber boceta ou chupar um pau bem grosso?

A voz de Hange era tranquila apesar das palavras grosseiras. A cicatriz roçava na criança quase adormecida, e a menina apoiou os braços no rosto da mãe como se tentasse abraça-la.

— Você ainda vai trabalhar hoje?

— Depois.

Hange não prestava atenção no subordinado. Ela tinha puxado as pernas para cima da cadeira de balanço, enrolando-se ao redor da filha como um casulo. Não dava para ver o sorriso da comandante, mas Levi era capaz de absorver a serenidade presente no quarto, o carinho que uma emanava pela outra. O sorriso que cruzou o rosto do capitão estava carregado de aprovação... e de alivio também. Ele deixou mãe e filha sozinhas e foi resolver os próprios assuntos. O sol entrava livremente pela janela aberta, era uma linda tarde de primavera e a comandante não podia estar mais feliz em compartilha-la com a menina em seus braços.

Notas finais
Com esse chapter, encerramos o primeiro ciclo da Fanfic. Eu tenho alguns avisos para dar, e gostaria que você lesse as notas até o fim, se puder. 1. Esse arco demorou muito mais tempo para ser finalizado do que o meu planejamento inicial. Eu pretendia escrever apenas cinco capítulos (o primeiro, o segundo mesclado ao terceiro e ao quarto, o quinto, o sétimo e este aqui) no entanto, quanto mais eu escrevia, mais coisas apareciam para serem ditas e trabalhadas. Meus planos com essa história não incluíam fazer uma grávida passar por situações desesperadoras. Entretanto, como falei anteriormente, essas questões precisavam ser tratadas. Eu não podia ignorar o aborto, as dúvidas, a opressão dos generais, e outros detalhes levantados nesses onze capítulos e trouxeram riqueza para o meu trabalho. 2. A partir da semana que vem, entraremos em outra fase. Vocês vão conhecer a verdadeira história que eu quero contar: a vida de uma garotinha que nasceu em Paradis. 3. Além disso, nós vamos conferir como a Hange, mãe de primeira viagem, vai lidar com a maternidade. Lembrando que eu não tenho irmãos nem filhos, todas as situações que eu vou abordar foram baseadas em casos que vi, li ou ouvi. 4. Infância é o meu tema favorito. Esse assunto abre possibilidades inimagináveis. A partir da semana que vem, vamos acompanhar, sobretudo, a construção da personalidade dessa menina ao longo dos anos, até ela alcançar uma certa idade que não posso falar. 5. Entre as coisas que vocês podem esperar do próximo arco, temos, POR ENQUANTO: — Maternidade; — Fantasia/nonsense; — Romance; — NSFW/Levihan; — Temas sensíveis (não haverá nada tão gráfico e horrível quanto os últimos capítulos); — Capítulos felizes; — Capítulos tristes; — Capítulos de passar raiva; — Capítulos banhados no mais puro desespero; — Capítulos sem progresso de história; — Adaptações do mangá. 6. Como teremos capítulos sem progresso de história, haverá ocasiões onde irei postar dois episódios na semana para suprir essa falta de avanço. No entanto, como eu levo de 8 a 14 dias para escrever, >>PODE SER<< que esse adiantamento atrapalhe meu cronograma e eu precise ficar sem postar por uma semana para me organizar. Não se preocupem, vocês serão avisados se isso for acontecer. 7. Por favor, lembrem-se de que estaremos convivendo com uma criancinha. Não esperem o controle emocional e a inteligência de um adulto. 8. Para todos que vieram pelo plot da gravidez: até mais! Tomara que você tenha gostado da leitura! Por favor, não retire o seu favorito, lembre-se dos elementos que te levaram a me colocar na sua lista. ❤ 9. Para você que continuará comigo: tomara que você goste da menininha! Espero que eu mantenha essa história interessante o bastante para você me acompanhar até o fim. ❤ Nos vemos na próxima terça. Abraços. :3c