Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
53 Quem está lá fora?
Notas iniciais
Se você pedisse para Leona classificar o primeiro dia na fazenda em uma nota de zero a dez, ela daria sete. As regras eram duras, a diretora era chata, as roupas fediam a sabão de banha e as instalações deixavam a desejar, mas as crianças eram legais e Buck estava lá. E assim, enquanto milhares de titãs colossais destruíam civilizações, Leona brincava com os novos colegas e aprendia a trabalhar com o senhor Julio e Flick. Ao anoitecer, como o combinado, Flick deu uma bermuda nova à Leona.
Na manhã seguinte, Leona despertou cheia de positividade. Ela esperava ter um dia ainda melhor do que o anterior.
— Bom dia, Alice.
— Bom nascer do sol para você também, Bolinha.
Leona levantou de seu desconfortável colchão e se dirigiu para o banho. No vestiário, enquanto as outras meninas escolhiam saias e vestidos, Leona enfiava-se na roupa dada por Flick. Ela não teve problemas em escolher uma blusa. Agora que se livrara das saias, ela foi mais tolerante em usar as malcheirosas roupas coletivas.
Na saída, Leona deu de cara com Susie, a diretora malvada do internato para órfãos. Por sorte, a diretora não a viu. Susie se encontrava na varanda da casa principal, em companhia das policiais. A testa de Susie estava franzida em várias rugas e as policiais cochichavam sussurros ansiosos, evidenciando a fervura da fofoca. Leona engoliu em seco e deu a volta por trás da casa. Só a Santa sabe o que Susie faria se a visse vestindo uma bermuda diferente da de ontem.
Como sempre, a escola foi uma verdadeira amolação. No entanto, o prospecto de ajudar na estrebaria aliviou a manhã maçante.
Leona terminou de almoçar e correu para o estábulo com a boca suja de pasta de dente. Igual a ontem, o senhor Julio não estava presente. Apenas Flick estava lá. O garoto recebeu Leona com um sorriso e uma bermuda limpinha, a qual Leona guardou.
— Por onde eu começo a trabalhar?
— Cê... hum... — O esquema de ter uma parceira era novo para Flick. — Vai pondo feno no cocho da vaca.
— Certo. — Leona apanhou o ancinho.
— Ei, Bolinha... — Começou Flick no instante em que Leona jogava o montinho de feno no comedouro da vaca. A menina olhou para ele, curiosa. As próximas palavras de Flick saíram numa voz indecisa que dizia que o que ele pretendia falar não era aquilo: — Cê ouviu os policiais conversando hoje?
— Não. — Falou Leona à guisa de "continue".
— O titã da vila Ragako voltou a ser humano. Humana, na verdade.
— Vila Ragako?
Como costumava fazer em seus momentos de raciocínio, Leona pôs o dedo inquieto em baixo do nariz. Ela já havia escutado esse nome em algum lugar.
— Cê sabe, Bolinha. — Insistiu Flick, perplexo por Leona não entendê-lo. — A vila Ragako é aquele vilarejo que teve os moradores transformados em titãs. Essa mulher estava dentro de casa, e o titã dela ficou preso nos escombros; não conseguia se mexer e tals. O titã era protegido pelo governo porque a mulher é a mãe de um soldado da Tropa de Exploração.
— Ah! — Uma vela se acendeu na cabeça de Leona. Ela conhecia o caso do titã da vila Ragako por "a história da mãe do Connie". — Puxa vida, é uma notícia maravilhosa! O Connie deve estar tão feliz!
— Connie?
— É esse o nome do filho dela. Ele é meu amigo. Falaram alguma coisa sobre ele?
— Não. Só disseram que a mulher foi encaminhada para um hospital e que a rainha está envolvida.
— A rainha Historia deve estar cuidando dela. A majestade é muito bondosa. — Afirmou Leona, recordando-se do quão benevolente Historia fora consigo em lhe permitir manter a capa de Hange. Ela enfiou o ancinho no feno e pôs mais um punhado no cocho da vaca. — Será que aqueles titãs colossais também voltaram a ser humanos?
— Não sei. — Flick colocava água limpa nas baias dos cavalos. — Por falar em titãs colossais, com certeza o salvador Eren Yeager tem algo a ver. Cê acha que reverter a transformação do titã de Ragako foi uma maneira de avisar a gente que ele já terminou de aniquilar nossos inimigos?
Leona, que sabia mais ou menos como guerras funcionam e perdera o pai e uma grande amiga no conflito entre Marley e Paradis, não gostou da naturalidade na dúvida de Flick. Ela deu de ombros — tinha coisas mais importantes a pensar. Leona martelou o buço. Hange havia partido para ajudar Eren, não? Se a missão de Eren Yeager estava completa, então sua mãe já devia estar na/retornando a ilha.
— Acho. — Leona concordou, otimista. — Eu gostei tanto da fazenda, Flick, que pena que já vou embora.
— Cê vai embora hoje!? — Exclamou Flick num misto de surpresa e decepção.
— Eu... sim, penso eu. — Respondeu Leona, desconcertada. — Se a guerra acabou, então minha mãe está vindo me pegar.
— Mas n-n-n — Flick iniciou um gaguejo incompreensível. Após alguns n-n-n-n-n, o garoto desistiu. Flick falou, tentando soar displicente: — Certo. Foi bom trabalhar com cê, Bolinha.
Flick tornou-se taciturno depois da conversa. O garoto trabalhava quieto, em movimentos duros. Até o galo percebeu a chateação de Flick, e bicou seus sapatos pretendendo animá-lo. Leona se perguntava por que a volta de sua mãe importunou Flick.
Foi só quando Buck relinchou sem pretensões que Leona compreendeu.
— Ei, é mesmo! — Leona estalou os dedos. — Eu estou te devendo um passeio no Buck, Flick.
Flick se virou de supetão. Toda a soturnidade desapareceu.
— De verdade, Bolinha? — Disse ele, de olhos brilhando. Desde o princípio do diálogo Flick quisera mencionar o cavalo.
— Claro!
— Iuhul! — Flick deu um pulo e bateu os calcanhares. Leona nunca tinha visto uma comemoração tão engraçada. — Vamos alimentar as galinhas e ir!
Flick e Leona arremessaram o milho na cabeça das galinhas e foram-se para a as baias. Eles não só pegaram Buck como também puseram rédeas nos outros dois cavalos, chamados Relâmpago e Marquinhos, porque Leona cismou que os animais iam ficar com ciúmes de Buck se não os levassem. Concordaram em não selar os cavalos, pois assim iriam ao campo mais rápido. Leona queria montar no estábulo, mas Flick avisou não ser uma boa ideia por causa do fluxo de pessoas – imagina se eles atropelam uma criança ou policial.
Com Leona puxando as rédeas de Buck e Flick as de Relâmpago e Marquinhos, as duas crianças trotaram para a cerca que separava a fazenda da pradaria. O campo seria uma planície perfeita se não fosse delineado por colinas baixas. As poucas árvores de pequeno porte lá arraigadas aparentavam ser mais antigas do que as plantações. De onde estavam, as crianças só conseguiam ver o tracinho dos troncos e o desenho das copas.
— É enorme! — Admirou-se Leona.
— Se você cavalgar em linha reta, vai encontrar a outra cerca. De lá dá pra enxergar a estrada e o vilarejo.
— É!? — Leona entusiasmou-se. — Eu quero ver!
— Eu te mostro.
Leona entregou as rédeas de Buck a Flick. Ele montou num único salto gracioso. Leona, por ser baixinha, precisava do apoio da cerca quando não havia estribos. No entanto, ela ficou com inveja de Flick. Assim sendo, Leona fez das tripas coração para subir em Relâmpago (o cavalo que ela julgou ser o mais veloz, em razão do nome) sem suporte. Após três saltos e muitos resmungos esbaforidos, ela conseguiu agarrar-se ao lombo do cavalo. Relâmpago aguentou a birra de Leona pacientemente. Ele era menor do que Buck e de índole tranquila. Parecia a Lucy.
— Uaaah. — Flick forjou um bocejo.
— Pra você é fácil, alto desse jeito. — Leona mostrou a língua.
Flick deu um tapinha no traseiro de Buck e Leona agitou as rédeas de Relâmpago. Saíram galopando campo afora, deixando Marquinhos para trás. O animal rolou de costas na grama, feliz da vida por não estar sendo feito de cavalinho de pau como seus companheiros de estábulo.
Embora o nome "Relâmpago" remetesse a poder e velocidade, era inútil apostar corrida com Buck. Entretanto, Leona quis disputar mesmo assim. Modéstia a parte, ela se achava uma cavaleira melhor do que Flick, e estava certa. Enquanto Flick reprimia o poder total de Buck puxando as rédeas e balindo ÔOOOOÔO, Leona não tinha medo de forçar o limite de Relâmpago.
Logo, a falta de coragem de Flick veio cobrar seu preço, e a fala do senhor Julio sobre o manejo que os cavalos da Tropa de Exploração exigem provou-se verdadeira. Buck ignorou os comandos de seu cavaleiro inábil e correu a toda. Flick não conseguiu manter o equilíbrio e caiu estatelado na grama. Buck não deu a mínima e continuou como se nada tivesse acontecido. Leona só descobriu a queda de Flick porque Buck ultrapassou Relâmpago sem ninguém na garupa.
Leona encontrou Flick estirado de barriga para cima e pernas e braços abertos. Ela desatou a rir. Na opinião de Flick, a dor do tombo não era nada comparada à vergonha.
— De que adianta subir no cavalo sozinho e não aguentar o tranco? — Ria Leona, agarrada ao ventre dobrado. Ela limpou as lágrimas nos cantos dos olhos e, cheia de sapiências, explicou: — Flick, quando a gente monta sem sela, a gente tem que firmar as coxas, e não a batata da perna. Eu vi você todo duro em cima do Buck. Você sempre vai cair se apertar as pernas daquele jeito.
— Eu montei certo, porra. — Ralhou Flick, muito vermelho. — Eu caí porque esse cavalo burro não obedece.
— O Buck é um pouquinho temperamental. — Leona riu entredentes da desculpa esfarrapada de Flick. Ela botou dois dedos entre os lábios e assobiou. Ela não sabia assobiar tão alto e claramente quanto Hange. Por sorte, Buck não estava longe. — Quer tentar de novo?
— Não. Já tive o suficiente. — Queixou-se Flick, limpando a terra da roupa.
— Heh, certo. Tira as rédeas do Buck, por favor?
Flick aquiesceu. Buck mastigou o ar e saiu todo contente. Depois, o garoto montou em Relâmpago fazendo questão de ficar à frente de Leona.
Flick os levou até a cerca do outro lado da pradaria. Dava para ver, lá longe, a estradinha de terra por onde as pessoas chegavam e saiam da propriedade real. Claro, estando na fazenda, era possível observar a estrada com facilidade, mas havia uma espécie de magia em avista-la do campo, sem nenhum terceiro por perto. Tal qual na memória de Leona, a trilha era longa e cheia de curvas. Só os aventureiros mais valentes poderiam percorrer o trajeto sozinhos e de madrugada.
— Dá para ver tudo.
— Eu falei pra cê. Olha, lá está a carroça da companhia Reeves. Tomara que estejam trazendo doces. Carambolas, faz anos que eu não como doces. — Suspirou Flick. — Vamos voltar.
Eles regressaram à fazenda. Ao se aproximarem da civilização, Leona e Flick desmontaram, soltaram Relâmpago e pularam a cerquinha. Leona deu uma olhadela em Flick e riu ao lembrar do tombo do garoto. Incapaz de deixar o assunto para lá, Leona o provocou:
— Amanhã eu te dou umas aulas de montaria. — Zombou ela.
— Como cê é engraçada. Até parece que cê nunca caiu.
— Eu? Jamais! — Mentiu Leona. — Ei, olha lá o pessoal! Oi, gente! Hah, que bicho mordeu vocês?
Leona acenava para o grupo de crianças que vinha em direção a eles. Alice estava lá, e ela, tal qual os seus colegas, não parecia nem um pouquinho faceira. Os órfãos fizeram um círculo ao redor da novata. Flick foi empurrado para a lateral por um garoto da sua idade. Leona entreolhou os colegas, perdida.
— Aconteceu alguma coisa? — Leona abaixou a mão que antes acenava com alegria. — Por que estão me olhando desse jeito?
— Revistem ela, vejam se ela está com uma faca! — Sugeriu um garoto alterado.
— Eu não tenho faca nenhuma! — Alarmou-se Leona.
— Não estamos na cidade subterrânea, seu rato idiota. — Uma menina beliscou o garoto.
— Eu acho possível ela ter uma faca. A mim sempre pareceu que essa exibida estava tentando ganhar a nossa confiança para nos matar pelas costas. — Replicou um dos ouvintes das histórias que Leona contou em seu primeiro dia no internato.
— Eu concordo com o Jack. — Uma garota sardenta levantou a mão. — Vocês sabem, tal mãe, tal filha. Essa duas-caras pode nos machucar a qualquer segundo.
— Huh? — Leona arqueou as sobrancelhas. — O que a minha mãe tem? E eu não sou duas-caras!
— Não se faça de desentendida. — Alice se impôs para cima de Leona. — Nós já estamos a par da dilucidação. Isso significa: a gente já sabe de tudo.
— Sabem do quê?! — Inquiriu Leona, ainda mais desorientada. Ela deu um sorriso vacilante: — Estamos brincando de investigação? É isso?
— Para de bancar a boba, sua boba. — Disse Rosie com desdém. — Você mentiu pra gente sobre a sua mãe traiçoeira.
— A gente veio te notificar, Leona Zöe Smith, — Alice apimentou o segundo nome de Leona com uma boa dose de repulsa — que se a sua mãe atrapalhar o plano do salvador Eren Yeager, nós vamos descontar tudo em você.
— Atrapalhar?! — Leona enfureceu-se. — A MINHA MÃE É A COMANDANTE DO EXÉRCITO, SUA DEMENTE! ELA MANDA NO EREN!
Os órfãos trocaram olhares cheios de significados. Alice, com um gesto exageradamente teatral, retirou um exemplar do Folha de Paradis de dentro da camisa e atirou-o aos pés de Leona. A manchete era ilustrada pelo desenho de uma bandeira da Tropa de Exploração em chamas. Leona começou a ler.
A TRAIÇÃO DOS HERÓIS DE SHIGANSHINA
O porto de Paradis, onde os yeageristas resguardavam os hizuruneses e aguardavam o retorno do salvador Eren Yeager, foi atacado por uma facção contrária aos ideais pró-Eldia. O bando é formado por veteranos da Tropa de Exploração, marleyanos e guerreiros liberianos, incluindo os titãs encouraçado, mandíbula, fêmea e carroça.
Os terroristas chacinaram os yeageristas, assassinaram o recém-nomeado comandante Floch Forster, raptaram os hizuruneses, destruíram a estação ferroviária e sequestraram um navio e um hidroavião. De acordo com os sobreviventes, os agressores planejam impedir o plano do salvador Eren Yeager.
Os malfeitores de Marley são:
Pieck Finger (portadora do titã carroça)
Reiner Braun (portador do titã encouraçado)
Annie Leonhart (portadora da titã fêmea)
Titã mandíbula (portador desconhecido)
Pelo menos 1 soldado marleyano (identidade desconhecida)
Os traidores são, segundo testemunhas e sobreviventes:
Armin Arlert (portador do titã colossal)
Connie Springer (soldado veterano da Tropa de Exploração, gratificado por seus esforços na batalha em Shiganshina)
Jean Kirstein (soldado veterano da Tropa de Exploração, gratificado por seus esforços na batalha em Shiganshina)
Mikasa Ackerman (soldada veterana da Tropa de Exploração, conhecida como A MULHER MAIS FORTE DA HUMANIDADE)
Hange Zöe (14ª comandante da Tropa de Exploração, nomeada após a morte do 13º comandante, Erwin Smith, na batalha em Shiganshina)
A ex-comandante Hange Zöe estava desaparecida desde a tarde do dia 3, após ser rendida na Capital pelo falecido 15º comandante Floch Forster. Conforme boatos, Hange Zöe e o capitão Levi Ackerman haviam sido mortos por Zeke Yeager. O paradeiro do capitão Levi Ackerman é desconhecido.
Os yeageristas atribuem a ordem de ataque à 14ª comandante. Hange Zöe já havia declarado oposição ao salvador Eren Yeager sendo a favor da prisão do homem a quem chamamos de A ESPERANÇA DE PARADIS. Vale lembrar, quando o Folha de Paradis tentou contato com Hange para questionar a prisão de Eren Yeager, a ex-comandante mostrou claros sinais de desequilíbrio mental e impulsos agressivos.
O Folha de Paradis presta suas condolências às famílias dos mortos e repudia a traição dos soldados veteranos.
Nota: a portadora da titã fêmea, em estado de petrificação há oito anos, estava sob custódia na Capital (confira a reportagem na página 4). A policial responsável pela vigília está aguardando julgamento.
Era como se Leona estivesse lendo sobre pessoas anônimas, e não sobre sua própria mãe e seus amigos do quartel. Ela releu a reportagem. A cada parágrafo, Leona recebia um golpe diferente. Ela não sabia o que mais a chocava: a hipotética morte do senhor Levi, as acusações sobre sua mãe ou Floch ser o sucessor dela. A raiva a devorava de dentro para fora a cada frase lida. Na parte em que o Folha de Paradis denegria a integridade de Hange, Leona atirou o jornal no chão.
— ISSO É UMA GRANDE MENTIRA! — Vociferou ela. — A MINHA MÃE NÃO É TRAIDORA, DESEQUILIBRADA E MUITO MENOS AGRESSIVA!
— Você disse que a sua mãe mandou você para cá porque ela "estava trabalhando", não é? — Inquiriu Rosie.
— E qual era esse trabalho? — Completou o tal Jack. — Assassinar pessoas de bem e sequestrar hizuruneses?
— ELA FOI AJUDAR A ILHA! — Desesperada em busca de argumentos, ela gritou: — O JORNAL DIZ QUE OS YEAGERISTAS ESTAVAM APRISIONANDO OS HIZURUNESES!
— Você é adepta à misologia, não?
Leona não fazia ideia do significado de "misologia". Pelas intenções hostis de Alice, não era uma coisa boa. Alice não a deixou devolver o insulto:
— O Folha de Paradis afirmou que os yeageristas estavam RESGUARDANDO os hizuruneses. Resguardar quer dizer "defender".
Leona abriu e fechou a boca a procura de refutações. Os órfãos a encaravam, uns de mãos na cintura, outros de braços cruzados, mas todos prontos para discordar dela.
— PESSOAL, ME ESCUTEM! — Rogou Leona. — A MINHA MÃE NÃO É NENHUMA TRAIDORA! ELA É COMANDANTE, ELA FAZ EXPERIÊNCIAS CIENTÍFICAS, ELA CONV-
Um garoto mais velho a empurrou. Leona caiu sentada um pouco atrás do jornal. Ela tentou se levantar. O menino, um brutamontes de mãos enormes, usou apenas uma para força-la a permanecer no chão.
— Pare de gritar, sua birrenta. — Sibilou ele.
— Ei, cara, precisava cê fazer isso? — Intrometeu-se Flick, nervoso.
— Não se mete. — Ralhou um terceiro garoto.
— Até que enfim alguém calou a boca dessa pirralha. — Aliviou-se outro órfão.
— Eu juro, — as lágrimas corriam fora do controle de Leona. Os órfãos, em toda a superioridade que a lei do oito contra um oferece, a encaravam com intransigência. A súplica de Leona saiu num murmúrio suplicante; ela estava implorando para acreditarem nela: — a minha mãe nunca mataria paradisianos. Ela é boa.
Seu apelo não tocou os corações de pedra:
— Espero que a vagabunda da sua mãe morra afogada.
— Ou que Eren Yeager a esmague. — Rosie deu um golpe na palma da mão aberta.
— DOENTES! — Esbravejou Leona num rugido bestial. — A MINHA MÃE NÃO TRAIU NINGUÉM! VOCÊS VÃO VER, ELA E OS SOLDADOS VÃO VOLTAR E A RAINHA VAI RECEBÊ-LOS DE BRAÇOS ABERTOS!
As crianças debocharam da fantasia de Leona. Alice, com desdém requintado, pôs a cereja do bolo:
— Regressar? Aceite a realidade, Bolinha. A sua mãe te abandonou.
Leona não saberia dizer quando e nem como, mas num segundo ela estava no chão, e no outro em cima de Alice. Leona nunca havia entrado em uma briga (de verdade) antes. Porém, ela logo aprendeu que era como brincar de soldado e titã, só que os pontapés, os socos e as mordidas eram para valer. Os espectadores incentivavam a pancadaria e encorajavam Alice. Na torcida de Leona, não havia ninguém.
A briga não durou muito. Um som singular, representativo, e especialmente horripilante, dispersou a roda e fez Alice soltar os cabelos de Leona. A menina mais nova, entretanto, continuou distribuindo socos. Ela ia ensinar aquele dicionário ambulante a nunca mais falar de Hange.
Uma mão ágil de dedos pontudos a puxou para longe da órfã. Como Leona não podia atacar Alice com os punhos, ela usou os pés. O adulto intrometido segurou-a com as duas mãos, mas o que a fez parar foi a voz potente de policial:
— Leona Smith, pare com essa selvageria. — Ordenou Susie.
Leona, estarrecida, paralisou como se Susie tivesse lhe jogado um feitiço.
— Quem começou essa briga?
Não deu outra: todos apontaram para Leona, até Flick. A perfídia lhe machucou mais do que os puxões de cabelo de Alice.
— Por que eu não estou surpresa, Leona Smith? — Rosnou Susie. Ela bradou aos órfãos: — Deem o fora daqui.
As crianças obedeceram de prontidão. Flick correu atrás dos outros, sem olhar para trás. Leona ofegava, aflita. Era questão de tempo até Susie ver suas bermudas. A diretora fitou Leona como se ela fosse o verme mais repugnante do mundo. Com uma determinação encontrada lá no fundo da sua dignidade, Leona sustentou o olhar da diretora.
— Explique-se.
— Eles estavam falando da minha mãe. — Respondeu Leona, séria.
— Então você bateu na sua colega só porque estavam rindo de você?
A situação parecia uma grande baboseira quando na boca de Susie. Entretanto, para Leona, nada daquilo era ridículo. Alice ofendeu sua família. Leona apenas a defendeu, e a defenderia de novo. Não só isso, se Leona pudesse, ela iria na sede do Folha de Paradis dar uma surra nos jornalistas.
— Sim. Foi isso mesmo. — Rebateu Leona, inflando o peito.
— A culpa é sua. — Disse Susie com um toque de maldade muito mal disfarçado. — Quem mandou você sair por aí se exibindo, mocinha? A rainha deixou você espalhar histórias sobre sua mãe?
O pânico que a lembrança trouxe congelou Leona a um ponto que ela sequer parou para pensar que Susie a bisbilhotara. A rainha Historia a mandou não contar a ninguém sobre Hange. Leona, julgando o pedido da rainha uma solicitação ilógica e desnecessária, fez exatamente o contrário. Certo, as piadinhas das crianças eram toleráveis. Agora, a decepção da rainha seria demais para Leona suportar. As lágrimas voltaram a cair. A voz de Leona, molhada pelas lágrimas e pelo arrependimento, postulou:
— Por favor, senhora, não conta para a rainha...
A diretora teve a decência de não expressar o seu deleite:
— Não vou contar, Leona Smith. — Respondeu Susie com amabilidade. — Mas, você vai pegar detenção. Vá para o refeitório ajudar as merendeiras a separar feijão.
— Obrigada, senhora. Obrigada, de verdade. — Leona agradeceu, aliviada. Ela se levantou num solavanco e começou a correr.
— Êpa. Pare aí.
A diretora deu um olhar perigoso para a bermuda de Leona. A menina recuou e, tentando proteger suas sagradas roupas, cobriu as pernas como se estivesse nua da cintura para baixo.
— Como você conseguiu essa bermuda?
— Eu peguei no varal.
— Mentirosa. As crianças menores não têm acesso ao varal. Diga a verdade agora ou vou tomar a sua capa.
O tom de Susie não deixava dúvidas de que a ameaça era real. A capa de Hange era o bem mais precioso de Leona. Não valia a pena perdê-la. Leona confessou a verdade a contragosto:
— Eu ajudei no estábulo em troca de bermudas.
Susie estava impressionada, entretanto, não era de uma maneira boa.
— ... Você trabalhou para ganhar essa roupa?
Então, num passe de mágica, o aborrecimento da diretora desapareceu. Susie deu um sorriso tão tênue que seus lábios quase sumiram.
— Bem, se você conseguiu a bermuda de forma honesta, creio que não tem nada que eu possa fazer.
Leona afrouxou a tensão e não pôde evitar o suspiro. Não havia nada de bonito naquele sorrisinho de ares vulpinos, mas Leona se alegrou por Susie não estar zangada. A diretora a deixaria ficar com as bermudas! Leona não precisava mais se esconder pelos cantos!
— Obrigada, senhora!
— Você é mesmo filha da sua mãe, mocinha.
— A senhora conhece a minha mãe? — O rosto de Leona se iluminou. Alice havia mencionado que Susie pertenceu à polícia militar, ou seja, ela de fato pode ser amiga de Hange. Leona respirou fundo e questionou, meio pedindo conforto: — A minha mãe não traiu Paradis. A senhora concorda comigo, não é?
— Mocinha, eu só conheço a sua mãe pelos rumores, e quase todos os rumores são falsos. — Se é que isso é possível, o sorriso de Susie se tornou mais fino. — Agora, vá cumprir sua detenção.
Leona, cega pelo alívio e pela alegria, interpretou errado a ênfase perversa.
XXX
A vida de Leona tornou-se infeliz desde o cacarejo do galo até a hora de dormir.
Alice não esqueceu a briga, e nem Leona a perdoou por ultrajar sua mãe. As outras meninas não aceitavam Leona em suas rodinhas matinais. Ninguém falava com ela no vestiário. No refeitório, Leona bebia sua caneca de leite isolada no centro da mesa, e as crianças, sem o mínimo de discrição, vilipendiavam a filha da comandante traidora:
"Ainda mandou essa sujinha para cá."
"Tenho medo de ela me matar enquanto durmo."
"Você sabia que ela quebrou o nariz e a perna da Alice?"
"Garanto que é uma falsa igual a mãe."
"Eu nunca confiei nessa pirralha, graças à Santa."
"Quando ninguém estiver vendo, vou dar uma surra nela."
"A gente devia se unir pra expulsá-la."
"Ela devia estar bem longe daqui, junto com a puta da mãe dela."
Leona não se habituou a escutar tamanhas maldades. Seu coração doía, e o alimento lhe dava náuseas. Dessa maneira, Leona passou a pular a primeira refeição do dia. Na hora do jantar, Leona colhia frutas do pomar e as devorava nos galhos das árvores, só para não ir ao refeitório ouvir as grosserias e as piadinhas dos órfãos. Leona teria pulado o almoço também, se a fome não fosse mais forte.
Na estrebaria, as coisas não iam bem, tampouco. A amizade que Leona e Flick construíram fora-se. Flick lhe dirigia a palavra apenas quando Leona precisava de orientação e na hora de lhe entregar as bermudas, e Leona reparara que as roupas sempre eram ou extremamente surradas, ou grandes demais, ou pequenas demais. Ela não entendia o porquê de Flick a tratar com tanto menoscabo, mas evitar ser diretamente rude como os outros. Leona suspeitava que tinha algo a ver com o bondoso senhor Julio.
Temendo que as meninas surrupiassem a capa de Hange, Leona escondeu-a na baia de Buck, em baixo do cocho. Depois de três dias lá amarrotada, a capa encontrava-se imunda, e o cheiro de sua mãe foi substituído pelo de ração de cavalo. A noite, Leona ia dormir no frio, pois as colegas roubavam seu cobertor e ela nem sempre conseguia pegá-lo de volta.
Leona agarrava-se à esperança de que Hange regressaria no seu aniversário. As duas iam voltar para Trost, e Leona reencontraria Peter, Rebeca, Diana, Otto, Adam, Sandler, Kenny, e todas as outras crianças da vizinhança. Ela iria beber quantas garrafas de leite desejasse, usar roupas cheirosas, dormir no seu aconchegante quartinho lotado de brinquedos, e aninhar-se no colo de sua mãe, algo que, ela pensava com uma maldade satisfatória, nenhum daqueles pobres órfãos desalmados podia fazer.
No entanto, o vinte de setembro chegou e Hange não apareceu. Leona duvidava que alguma criança no planeta já tivesse tido um aniversário tão deprimido e solitário como o seu de oito anos. Primeiro, ela acordou alegre, pois acreditava que sua mãe apareceria. Ela enfrentou a escola com a mesma empolgação. Porém, depois do almoço, seu entusiasmo desbotou. Durante o trabalho na estrebaria, Leona, de tempos em tempos, mirava a casa principal para ver se alguma mulher vestindo terno ou o uniforme da Tropa de Exploração estava lá. Os únicos "feliz aniversário" que Leona recebeu foram dos patifes que passaram por ela aos gracejos: "feliz aniversário, filhote de cruz-credo, cadê a sua mamãezinha?"
Pelo menos, Leona tinha Buck. Quando não estava na escola ou cumprindo suas obrigações no estábulo, Leona colocava o cabresto de corda em Buck e cavalgava no campo. Buck ficava um tanto teimoso sem a embocadura, mas Leona não gostava do aparente incômodo do cavalo mastigando aquele ferro constantemente. Ela montava sem mantas ou estribos, tendo como sela o pelo vermelho de Buck.
Buck voava pelo campo verde. A brisa do meio da tarde dava beijos frios no rosto de Leona, e ela pedia por mais. Leona não deveria ir tão rápido, mas a única parte boa de não ter o senhor Levi, Armin ou Mikasa por perto, é que não havia ninguém para refreá-la.
Eles galoparam até a cerca de onde se podia contemplar a trilha de terra que conectava a fazenda e o distrito. Leona ainda estranhava a ausência da muralha Rose no horizonte. Ela sentou-se na cerca e por ali ficou. Buck começou a trotar em círculos, mas logo entediou-se e preferiu pastar.
Leona empurrou as mechas loiras na frente de seus olhos para trás das orelhas. Sua franja nunca fora tão comprida. Seu cabelo precisava de um corte, entretanto Leona tinha receio de cortá-lo sozinha e medo de pedir aos funcionários. Mexer no cabelo desencadeou uma onda de coceira. Leona quase arrancou o couro cabeludo ao coçar-se com as dez unhas.
— Mãe, eu sinto tanta saudade de você.
Lamentou Leona à estradinha. Ela esperou uma carruagem da cidade, ou uma pessoa de tapa-olho caminhando, mas tudo que apareceu foi uma carroça da companhia Reeves carregada de peixes. Leona, com a cabeça repousada nas mãos e os cotovelos apoiados nos joelhos, acompanhou a carroça seguir o percurso para a entrada da fazenda.
Hange tinha dito que viria busca-la assim que fosse possível. Contudo, já se passara um mês. Leona estava cansada de dormir no chão e de conviver com crianças odiosas e adultos insensíveis. Leona pensou, se ela e Buck voltassem para casa sozinhos, será que sua mãe se incomodaria?
— Você acha que a gente deve voltar pra casa, Buck?
Perguntou Leona, coçando a cabeça. A coçadinha se transformou num esfrega-esfrega intenso. Buck não respondeu, mas levantou a cabeça ao ouvir Leona pronunciar o seu nome. No próximo segundo, Buck tornava-se indiferente à menina e recomeçava a pastar.
Leona entendeu aquilo como um não.
— Você tem razão, ela mandou a gente ficar aqui. Minha mãe nunca tomava decisões importantes sem ter uma boa razão por trás. Eu só não consigo entender por que ela nos mandou para esse lugar terrível.
Leona estalou os lábios. Buck se aproximou da cerca. Leona montou e retornou para a fazenda. Após abrir a cerquinha, ela pegou o cabresto de Buck e, cabisbaixa, começou a puxá-lo para o estábulo. No trajeto melancólico, Leona passou por uma sombra de árvore onde dois policiais papagaiavam em cadeiras de balanço, com garrafas de vinho no colo e um cachorro velho deitado entre eles. Leona ia indo reto, mas algo na conversa a fez parar de chofre e prestar atenção.
Esse "algo" era o nome do senhor Levi:
— E aí, você acha que o capitão Levi está vivo ou morto?
— Vivo, lógico. — Respondeu o policial com veemência. — Cachorro vira-lata não morre de carrapato. Aposto minha vida que ele participou do ataque no porto.
— Se for verdade, a traição do capitão Levi não me surpreende nem um pouco. Eu sempre tive uma pulga atrás da orelha com esse merdinha depois de ele ter matado o comandante Erwin Smith.
— Eu estava pensando nisso. O comandante Erwin Smith foi o melhor líder que aqueles imbecis da Tropa de Exploração já tiveram. E pensar que ele morreu nas mãos do seu próprio capitão...
— Se você quer saber, eu acho que isso foi tudo um plano a longo prazo para destruir Paradis. Essa gente que veio da cidade subterrânea é tudo meio psicopata.
Leona fez uma careta embravecida e saiu dando um puxão no cabresto de Buck. Não bastava esses urubus inventarem estorinhas sobre sua mãe. Agora, deliravam que o senhor Levi matara seu pai – até o nome de Erwin trouxeram para suas fantasias asquerosas, vejam só! Se o senhor Levi tivesse matado Erwin, Hange jamais teria namorado o capitão ranzinza. E, além disso, sua mãe lhe contaria a verdade, em vez de mascará-la com uma batalha fictícia.
E ainda assim, foi preciso muito esforço para que as palavras mentirosas do policial escapassem pela outra orelha.
XXX
E foi no dia onze de outubro, como Leona muitas vezes recordará no futuro, que a sua estadia na fazenda alcançou o ápice da desgraça.
No antigo colégio de Leona existia um rígido controle de pediculose. A criança que se coçava demais em sala de aula recebia o famoso BILHETINHO DO PIOLHO e se tornava motivo de chacota pelo resto da semana. Leona detestava os remédios da farmácia e odiava ainda mais as "misturinhas científicas" que sua mãe inventava como alternativa. Porém, graças ao zelo materno, Leona nunca fora premiada pelo professor.
Todavia, Hange não estava mais aqui. Foi com muito embaraço que Leona assentiu quando a professora examinou sua cabeça e encontrou piolhos. Os colegas deram risada da cara dela. Leona, contudo, não ficou para trás, e caçoou deles, um por um. Afinal, nenhum aluno escapou a salvo do papelzinho comunicando o horário e o galpão aonde receberiam o tratamento para pediculose.
Leona caiu na turma das quatro horas. A aplicação do veneno estava acontecendo no galpão chamado de "salão dos festejos". Lá aconteciam as festas de aniversário das crianças comportadas, comemorações de feriados festivos e as formaturas dos alunos. Leona nunca tinha visto o galpão de portas abertas, e decepcionou-se bastante ao descobrir que era um galpão como qualquer outro – no fundo, ela genuinamente esperava achar balões, panos coloridos e tudo o mais.
No galpão encontravam-se Susie, dois policiais enfastiados, a professora e cinco funcionárias exaustas. Susie cuidava dos garotos. As últimas seis passavam veneno na cabeça das meninas. Pela cara de cansaço das funcionárias, elas trabalhavam desde o meio-dia. E pelo tédio das garotas, nenhuma estava com paciência de esperar a sua vez.
— Leona Smith, nessa fila. — Ordenou a diretora, apontando para a fileira de garotos. — Passe na frente. Você vai ser a primeira.
Leona mirou os meninos e os garotos devolveram o olhar. Não. Havia alguma pegadinha no intuito da diretora. Desconfiada e insegura, ela fitou o sorrisinho suave de Susie. Então, Leona girou nos calcanhares e partiu em disparada, rumando qualquer lugar bem longe da diretora.
No entanto, os dois policias a apanharam assim que ela passou pela porta. Leona gritou e se debateu feito um porco na porta do abatedouro. Os órfãos deram risada, e muitos dos que estavam se queixando do tratamento encontraram consolação na angústia da menina.
— Em dia de piolho sempre tem alguma criança fujona. É incrível. — Muxoxou o primeiro policial.
— Calma, querida. — O segundo policial desviou de um chute de Leona. — Quer ter a sua cabeça devorada pelos piolhos?
Os policiais a puseram na fila das meninas. Susie exclamou uma negação e apontou seu dedo pontudo para a cadeira a sua frente. Os policiais emudeceram. Leona sentiu-os trocando um olhar desconcertado. Susie respondeu antes que eles perguntassem:
— Essa criança desrespeitou regras importantes do regulamento. Ela precisa aprender uma lição. — As próximas palavras foram ditas para todos no recinto, e fizeram as outras mulheres desviarem o olhar: — Ou vocês preferem deixar uma uma infração "boba" evoluir para um crime de guerra?
— Não, Susie. — Convenceram-se os policiais.
Leona foi obrigada a sentar na cadeira. Os órfãos pareciam estar diante do maior espetáculo do século. Todos tinham olhos para Leona. Ninguém perdia tempo com conversas ou distrações. Um silêncio agourento se fez no galpão, este quebrado pela tosse de Susie. Quando ela falou, o fez num tom casual e descontraído, como se ela e Leona estivessem tomando chá. Seu timbre, no entanto, foi alto o bastante para todos ouvirem:
— Leona Smith, eu pensei muito em você e nas suas bermudas. Já que você quer usar as roupas dos meninos, a partir de hoje você vai ser tratada como um. Você vai dormir com os garotos, tomar banho com os garotos, trabalhar como os garotos, apanhar como os garotos e, é claro, vamos escolher um nome de menino para você. Que tal Leon? Você gosta? É parecido com o seu de menina. — Susie deu um sorrisinho. — E claro, vamos raspar o seu cabelo. As garotas com piolho têm o cabelo lavado, sabe, todas nós sabemos que o cabelo é uma parte importante do charme feminino. Mas para que os meninos precisam dessa vaidade? Responda, mocinho.
Leona não respondeu. Ela tremia da cabeça aos pés. As lágrimas só não corriam por seu rosto amedrontado porque ela as segurava – a Santa a livre de aqueles órfãos desgraçados verem-na chorar. Leona não queria dormir no dormitório masculino e muito menos tomar banho com os garotos — sua mãe lhe ensinou que os meninos não podem ver as garotas sem calças. E, sobretudo, ela não queria ficar careca. Leona amava a sua cabeleira dourada e sedosa que todos atribuíam aos seus genes paternos. Por fim, ela murmurou:
— Eu sou menina.
— Fala mais alto, mocinho.
— EU SOU MENINA!
— Ué!? — Exclamou Susie em falso espanto.
— Eu não sou menino. Eu sou menina. — Repetiu Leona, fungando. — Eu vou usar saias, senhora. Por favor, me deixa ir para a fila das garotas.
— Oh, tudo bem, mocinha. — Leona conseguia ouvir Susie sorrindo ao enfatizar a sílaba "nha". — Você continua no regulamento das meninas, então. Mas... — Susie levantou o maldito dedo pontudo. — Você não pode sair isenta de castigo. Aqui, todas as crianças que desrespeitam as regras recebem punições severas. Não é justo com os outros, entende? — O "entende" veio num forçado tom gentil. Tendo abandonado de vez a delicadeza, a diretora sibilou: — Afinal, você não deve esperar tratamento especial. Recordo-me direitinho de ter te precavido, Leona Smith. O seu castigo começa agora. — Susie apanhou a navalha e encostou-a na cabeça de Leona. A menina pulou gritando, mas Susie a puxou de volta. — Fique bem parada ou eu furo o seu crânio, mocinha.
Pelos próximos vinte minutos, Leona enfrentou uma das maiores humilhações da sua vida. Os tufos dourados caiam aos montes no chão do galpão. Leona cravava as unhas na cadeira e focava-se em barrar o choro. As crianças apontavam para ela às gargalhadas. Alice e Rosie agarravam-se uma a outra de tanto rir, Alice exclamando "olha lá, como a Leona está indecorosa". A menina que tinha o cabelo encharcado de remédio para piolhos encarava Leona de soslaio, seus olhos quase saindo das órbitas na tentativa de assistir o sofrimento da colega, e a funcionária que a lavava agia igualzinho. Nos fundos, Flick assistia em silêncio, e ele desviou o olhar quando o de Leona cruzou com o dele.
Quando Susie terminou, a cabeça de Leona estava lisa como as dos garotos. Ela imediatamente sentiu falta da franja que há poucos minutos atrapalhava sua visão. Susie lhe deu uma batidinha no ombro. Leona levantou de cabeça baixa. A diretora disse, toda meiguinha:
— Agora vá ao vestiário feminino se trocar. Você já sabe o que a espera se eu te ver usando roupa de menino de novo.
Sob a chacota cruel das crianças e os olhares curiosos dos adultos, Leona zarpou para o vestiário feminino. Ela correu com o braço sobre os olhos para não ser vista chorando. Sua cabeça careca estava sensível, o vento a congelava. Ao entrar no banheiro, Leona viu-se no espelho e deu um grito de horror. Ela se sentou no chão agarrada à cabeça raspada e praguejou maldições ao povo da fazenda.
XXX
A filha da comandante Hange, uma menina outrora confiante, brincalhona e falante, se transformou numa criança retraída e solitária. Leona não interagia com os colegas e nunca levantava a mão em sala de aula, nem quando sabia a resposta das questões da professora.
Não estava ruim só para Leona. Lá fora, os yeageristas tomavam cada vez mais conta da ilha. Era sabido que, agora, os generais e os comandantes da Marinha, da Polícia Militar e da Tropa Estacionária eram membros do grupo Yeager. A Tropa de Exploração, em contrapartida, nem existia mais – os yeageristas planejavam reinventar a divisão.
O Folha de Paradis divulgava a identidade dos "militares anti-Paradis" foragidos e publicava as execuções feitas sob o pretexto de evitar futuras traições. Não obstante, os marleyanos da ilha foram mortos pela mesma razão, incluindo Niccolo, um marleyano conhecido de Leona. Segundo os boatos, bastava dizer uma única palavra sobre a população não-paradisiana perto de um yeagerista que você era enviado para a prisão.
A rainha Historia era contra os assassinatos. Todavia, os yeageristas tinham o apoio do povo e dos nobres. Portanto, Historia estava de mãos atadas. O máximo que ela podia fazer era decretar regras e leis para limitar os homicídios.
Sem sombra de dúvidas, o assunto mais falado em todos os jornais era a suposta extinção dos titãs. A mãe de Connie, o antigo titã da vila Ragako, logo mostrou não ser a portadora de nenhum titã especial. Estudos feitos com ela (estes muito bem supervisionados pela rainha) levantaram a teoria de que os titãs foram anulados do sangue eldiano.
Essa hipótese foi fortemente sustentada por pesquisadores de todas as áreas. Corria o rumor de que o governo vinha realizando experiências científicas secretas com o sangue da rainha – e bem podia ser verdade, uma vez que a rainha passava longos períodos longe da fazenda, deixando a princesinha à cargo de amas de leite e do pai – em busca de refutações ou confirmações dessa conjectura. Porém, os resultados nunca eram publicados. A tensão em torno desse assunto afligia a população mais do que a incógnita vitória de Eren Yeager.
E assim, novas problemáticas, teorias e escândalos vieram. Conforme novembro se aproximava, o assunto TRAIÇÃO DOS HERÓIS deixava de ser novidade, tal qual a existência de Leona no internato para órfãos. Demorou, mas as crianças finalmente cansaram de perseguir Leona, e Susie largou do seu pé. No estábulo, Flick, às vezes, tentava puxar assunto. No entanto, o jovem coração marcado pelo rancor se recusava a confiar naquelas pessoas.
Leona readotou o hábito de dormir com a capa de Hange. Era perigoso, mas Leona não conseguia pegar no sono sem ela. No fundo, Leona sentia que devia odiar Hange por ela ter ido embora. Entretanto, nem se Leona estivesse entre a vida e a morte e odiar Hange fosse o único meio de sobreviver, ela seria capaz de odiar sua própria mãe. Ela continuava acreditando que tudo não passou de um terrível engano. Sua mãe ia voltar sã e salva, e carregando no peito a medalha de comandante da Tropa de Exploração. Hange colocaria os yeageristas malvados para correr, reconstruiria o exército, e levaria Leona para casa.
Em meados novembro, seu cabelo ralinho não parecia ter crescido nem um centímetro. Leona se perguntava quando teria seu cabelo dourado de volta. Mesmo usando saia diariamente, Leona ainda não pegara o jeito. Não era incomum vê-la tropeçando na barra da saia ou enfiando-a entre as coxas em falhos esforços de transformá-la numa calça. Era tão desconfortável brincar de saia que Leona nem ao menos tentava. Cavalgar, então, era pior ainda, e ela caiu de Buck três ou quatro vezes. Dava para se manter no cavalo se Leona levantasse a saia e fingisse que ela não existia, mas ela não gostava da bizarra sensação de estar nua. Mesmo assim, Leona continuava tentando de novo e de novo e de novo, em busca doutra alternativa. Há poucos dias ela descobriu que montar de lado garantia sua privacidade e também impedia quedas. Infelizmente, não dava para galopar depressa montando desse jeito.
Observar a estrada se tornara o seu passatempo favorito, pois sempre havia a chance de avistar Hange. Por conseguinte, todos os dias, Leona colocava o cabresto em Buck e o levava para o campo.
Levou um longo tempo para Leona alcançar a cerca. Do alto das costas de Buck, ela observou a já conhecida paisagem rural. Buck começou a comer a grama molhada. Leona se deitou sobre ele e fez carinho no pescoço do cavalo que, além da capa, era o único bem que Leona possuía – e esse adjetivo não tem significado material.
— Você é o meu único amigo, Buck. — Disse Leona, emocionada. — Eu nunca vou te abandonar. Nós vamos ficar juntos para sempre.
Prometeu ela, abraçando o pescoço de Buck. O cavalo nada fez além de levantar as orelhas. Leona continuou olhando a estrada por trinta minutos antes de, por fim, dar meia-volta.
Novembro se transformou em dezembro, e este virou janeiro. O primeiro mês do calendário se encaminhou para fevereiro. A polícia militar quis reorganizar o quadro de policiais escalados para atuar na fazenda, mas Historia não deixou o atual comandante yeagerista demitir os oficiais com quem estivera trabalhando há anos. Pouco antes de janeiro terminar, o Folha de Paradis informou que os experimentos com o fluído transformador de titãs foram infrutíferos e que os cientistas procuravam meios de ressuscitar os titãs.
Leona não se preocupava com as notícias que não incluíam o nome de sua mãe ou de seus amigos soldados – e as reportagens dessa espécie estavam tão extintas quanto os monstros que um dia amaldiçoaram a raça eldiana. A vida de Leona continuava infeliz. De cabelo ralo, vestindo saia e sapato, e dez quilos mais magra, ninguém de Trost a reconheceria.
Nesse ínterim, Leona não descumpriu seu ritual de visitar a cerca. Faça chuva ou faça sol, Leona cavalgava até o campo e contemplava a estrada. Ela viu carroças, cabriolés, coches e caleches, e todos os tipos de comerciantes, plebeus, nobres, militares, yeageristas, e até viu alguns nobres militares yeageristas. No entanto, a visita que Leona aguardava apareceu num momento em que ela não se encontrava no campo, e nem acordada. O visitante chegou às três da madrugada, numa simples carruagem puxada por apenas um cavalo, e quando o policial responsável pela vigia da noite foi acordado por ele, desmaiou de susto.
Nesse horário, muitas meninas estavam acordadas, entretidas em fofocas noturnas sobre assuntos que tangem o mundo das garotas entre os sete e quatorze anos – em geral, os meninos e a escola. Leona, contudo, não tinha nenhuma amiga para papear, e por isso ela se encontrava no mundo dos sonhos, encolhida em seu velho colchão desgastado.
O sono de Leona foi interrompido pelo tuc-tuc-tuc que passara a assimilar com a maldade. O batuque compassado dos sapatos de Susie metia medo em qualquer criança, e hoje o barulho soava mais pesado e ameaçador, dado à força da pisada da diretora. Enquanto as órfãs se apressavam em fingir dormir, Leona e outras garotas despertavam com um crescente pânico ansioso palpitando no peito. Quando Susie entrou no quarto, nenhuma das meninas adormecidas estava, de fato, dormindo.
O tuc-tuc-tuc percorreu o quarto. Cada garota que aprontara alguma travessura durante o dia sentiu o coração bater na boca e retornar ao peito quando Susie passou reto. A diretora parou ao lado do colchãozinho de Leona. Os joelhos de Susie estalaram quando ela se agachou. Leona sentiu a presença da diretora ao seu lado e, por instinto, apertou os olhos e comprimiu os lábios. Susie empurrou seu ombro, e num sussurro afetado de medo, chamou:
— Leona Smith, acorde.
Obedientemente, Leona abriu os olhos e se sentou. A capa da Tropa de Exploração caiu sobre seu colo. Puro desprezo transpassou os olhos de Susie ao fitar o emblema das asas da liberdade.
— Siga-me. E traga a capa.
Leona não entendeu por que deveria levar a capa, mas por experiência própria sabia que não devia contestar as ordens da diretora. Desconfiada e jurando a si mesma fugir caso tentassem roubar o seu tesouro, Leona pôs a capa nos ombros e seguiu Susie.
As duas saíram do dormitório feminino e refizeram, desta vez ao contrário, o caminho que ambas percorreram na noite em que Leona chegou.
— Senhora, aonde estamos indo? — Leona arriscou perguntar.
Susie nada falou. A diretora continuou andando em sua postura ereta e passos duros. Leona surpreendeu-se ao notar que os dedos da mão da diretora que segurava o lampião tremelicavam.
O destino era a casa principal. Susie abriu a porta e segurou-a. Evitando encarar Leona, a diretora fez um gesto para a menina entrar. Leona deu uma olhada acautelada através da porta, tentando ver se o que estava lá dentro oferecia perigo...
— Ande logo. Não temos a noite inteira.
Susie puxou Leona pelo braço e a fez entrar na casa. Leona viu-se no vestíbulo onde ela e Minnie certa vez aguardaram orientações. No recinto achavam-se duas policiais pálidas, o vigia atordoado, a rainha e a babá com a princesinha Ymir no colo. Leona, contudo, não enxergou nenhum deles, pois o sujeito no centro da sala roubou sua atenção. Era um homem baixo marcado pela guerra. Um vergão atravessava seu rosto glabro, e um tapa-olho idêntico ao de Hange cobria o seu olho direito. Ele retirou o chapéu, mas não precisava. Leona reconheceria aquele homem até de máscara.
— Senhor Levi!
E com um impulso férvido, o senhor Levi a abraçou.
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