Certa vez, os seres humanos resolveram criar um aparelho denominado relógio. A função desse apetrecho é determinar o tempo através de ponteiros, eles são vendidos nos mais variados tamanhos e podem ser comprados em qualquer lugar. O relógio foi construído para que as pessoas pudessem controlar as horas em prol das próprias necessidades individuais. No entanto, o Deus onipresente chamado Tempo continuará o seu caminho interminável independente dos brinquedos humanos.

O relógio na parede do laboratório da Tropa de Exploração estava duas horas atrasado desde a queda da muralha Maria. Hange podia arrumá-lo com dois ou três movimentos, mas achava mais fácil aumentar os números mentalmente do que colocar os ponteiros na posição certa. Portanto, sempre que punha alguma substância para ferver, a cientista contava as horas de acordo com o relógio errado, enquanto o tempo linear do crescimento agia sob a criança trancada no cercadinho, já que quando solta, engatinhava sem parar. E se ninguém estivesse olhando, enfiava sujeira na boca, puxava as toalhas das mesas e o sobretudo dos adultos.

Leona começou a dar os primeiros passos aos nove meses. Como mãe, Hange a alentava... um pouco demais, para ser honesto. Segurava as mãos da filha e a colocava na frente das canelas, ambas andando em ritmo de tartaruga. A garotinha levantava as pernas desajeitadas uma atrás da outra pelos longos corredores do quartel-general. Hange a fazia percorre-los de cabo a rabo, e quando Leona cansava, a comandante a obrigava a ficar em pé e dar mais uma volta, com encorajamento impaciente:

— Anda, sua lerda.

Então, num dia qualquer, a menina conseguiu ficar apoiada nas duas pernas sem ajuda. Hange havia acabado de chegar da Capital quando o fato inédito aconteceu. Leona ficou em pé só de vê-la passar pela porta, como se tivesse passado os dois últimos dias a esperando para mostrar a nova habilidade em sua presença. A babá – substituta da ama de leite – tão surpresa quanto todos, deu certeza de que a menina só engatinhou enquanto Hange esteve fora.

A partir daquele dia, Hange colocava Leona em pé no começo dos corredores e saia despreocupada, assobiando. As perninhas curtas a seguiam pela distância que a falha coordenação permitia. Ao desanimar, Leona punha as mãos no chão, mas Hange, não querendo isso, voltava e a fazia ficar ereta.

— Vamos, você consegue.

E isso se repetiu até a garotinha entender que estava proibido engatinhar. No entanto, ela tinha só dez meses, andar era difícil e as roupas de inverno não ajudavam. Então, ficava sentada no chão frio com as mãos apoiadas no espaço entre as pernas, ouvindo o som apático das botas prosseguindo pelo imenso corredor xadrez iluminado por dez janelas.

À Leona restava mirar o símbolo da Tropa de Exploração cada vez menor conforme a mãe se afastava em linha reta. O coração da garotinha era aterrorizado pelo medo natural de ser esquecida, abandonada naquele corredor longo. E nisso, Leona corria atrás de Hange, porém, as perninhas quase sempre tropeçavam, e ela caia sentada ou de peito. Nesse ponto, Leona estendia os braços para a figura distante e soluçava a sílaba usada para referir-se àquela pessoa, temendo que o choro não fosse mais alto do que o barulho torturante das botas levando sua mãe para longe.

Hange sabia diferenciar os resmungos infantis – reconhecia direitinho fome, carência, desconforto e medo — e aquele pranto geralmente significava “não faça isso”, ou, como Hange gostava de chamar, “você passou dos limites”. As lágrimas cessavam quando a comandante voltava. Uma vez no alto, Leona agarrava-se ao pescoço da cientista, balbuciando “mã” sem parar. Hange geralmente zumbia ao ouvido da menina, a embalando enquanto atravessava os quadrados cor de vinho.

— Pronto, filhotinho, peguei você. Depois a gente tenta de novo.

Eventualmente, com a livre e espontânea pressão da comandante e muita prática, Leona desenvolveu a habilidade de andar sozinha. Os episódios no corredor foram encerrados, e desde então os problemas de Hange para fazê-la andar foram substituídos com problemas para fazê-la parar de andar.

As primeiras palavras vieram de forma mais natural. Tendo passado o primeiro ano de vida no quartel-general, Leona ouviu vários adultos diferentes. A presença da menina deixou de ser novidade para os outros soldados, e eram poucos os que paravam para conversar com ela em sua linguagem de bebê – geralmente quem fazia isso eram os militares do esquadrão 104, sendo a garota de cachecol vermelho, o loiro baixinho e o garoto de cabelo raspado os seus favoritos.

A falta das vozes abestalhadas, no fim, acabou sendo bom, pois Leona escutou os mais diversos vocábulos ditos corretamente, e por isso suas primeiras palavras completas vieram por volta dos onze meses.

Foi numa manhã de agosto pouco antes do mês de setembro – sendo o nono mês a época do aniversário tanto da mãe quanto da filha – que o som de uma porta batendo fez Leona despertar antes de seu horário habitual, aninhar-se entre os braços da mulher sonolenta e chamar, em sua voz infantil:

— M-Mãe.

O murmuro teve em Hange o efeito de trombetas. Ergueu-se sobressaltada. A menininha entorpecida esfregou o olho com o pulso, bocejando. Hange, em choque, perguntou a si mesma se estava sonhando. Como que lendo seus pensamentos, Leona repetiu a palavra. A comandante abraçou-a, meio rindo meio chorando, sem acreditar nem compreender o tamanho da felicidade — e do amor — causado pela palavrinha.

— Você falou, Bolinha! Fala de novo, por favor!

Mas Leona adormecera outra vez, o ronco baixo escapando através da boca semiaberta.

A conversa dos militares atuava como incentivo natural para Leona praticar a fala. De tanto ouvir sua mãe e Mayla falarem sobre Jeffrey, Dahmer, Eren e Armin, o segundo termo que Leona aprendeu foi “titã”. Nenhum dos presentes esqueceu dessa tarde.

— Eu vou comer essa comida!

Exclamou Hange, forçando os traços faciais numa cômica expressão esnobe, a colher dançando perto de sua boca. A criancinha na cadeira batia as duas mãos na bandeja, rindo sem parar.

— Dá!

— Você quer tanto assim? Então toma.

A colher flutuou para a boca de Leona. Ela recebeu a comida de bom grado e pediu por mais. Hange mergulhou o talher na papinha de abóbora, cenoura e batata-doce, e deu outra colherada.

Nesse momento, Sasha entrou na cozinha trazendo uma caixa. Ela estava esbaforida, evidenciando o peso do pacote. A soldada colocou-a na primeira superfície segura que viu pela frente, ou seja, no balcão onde os cozinheiros normalmente depositavam a louça limpa. A chegada súbita chamou tanto a atenção da mulher sentada quanto a da bebê curiosa.

— Puxa, te procurei um tempão. — Sasha limpou o suor na testa. — Isso acabou de chegar, é dos fornecedores do laboratório.

— É a encomenda que eu pedi. Obrigada por trazer.

Hange colocou o pratinho na bandeja da cadeirinha, deixando a colher à mercê propositalmente a fim de incentivar Leona a praticar sozinha. A bebê prontamente sujou o queixo tentando colocar o talher na boca. A comandante foi para as gavetas pegar uma faca, e depois para a mesa onde Sasha colocou a encomenda. Hange começou a abrir o pacote, de costas para a filha e a soldada.

Sasha olhou a papinha de soslaio, lambendo os beiços. Pela cara de Leona, a comida devia estar deliciosa. Era quase hora do almoço, e o estômago de Sasha estava mesmo grudado nas costas. Colocou a mão no queixo, estudando o magnetismo de Hange pela encomenda. Então, muito devagarinho, a militar tirou a colher da bebê e fez sinal de silêncio com a outra mão. A menininha piscou, intrigada. Os olhos castanhos quase pularam do crânio ao presenciar Sasha comendo meia colher da papinha.

Hange ainda não temperava a comida de Leona, portanto, o gosto era péssimo para o paladar adulto. Sasha ergueu-se rígida. Lacrimejava, as bochechas inchadas perto de cuspir. A comida desceu raspando, seca apesar de ser um purê. Leona achou a reação da soldada a coisa mais legal do mundo.

— Mãe, mãe, mãe, mãe.

Leona quase derrubou o pratinho batendo a mão na bandeja, com o outro dedo apontava para a criminosa, rindo. Sasha endureceu. Maldita criança fofoqueira. Hange virou-se com o manual do novo equipamento aberto. Ergueu o olho do livro para a filha, e depois da papinha para Sasha. Sorriu de canto.

— Não preciso nem perguntar.

Sasha abriu a boca para dar qualquer desculpa e teve a resposta interrompida por batidas na porta. A pessoa batendo era Armin. Ele vinha com dois relatórios. As linhas desvanecidas abaixo dos olhos do garoto atestavam a não tão recente transformação.

— Desculpe atrapalhar, comandante, mas a Mayla pediu para te entregar isso o quanto antes.

À pronúncia do nome da cientista, o cérebro infantil fez uma ligação incrível. Mayla estudava o titã colossal, por vezes Leona ouviu-a usar a palavra “Armin” e “titã” na mesma frase. A garotinha pulou na cadeira feito louca, chamando Hange enquanto indicava Armin. Os dois adolescentes também olharam quando Leona gritou, estupefata com a própria descoberta:

— MÃE! ‘ANO, TITÃ!

Sasha e Armin se entreolharam, chocados. Já Hange gargalhou com a cabeça jogada para trás, apontou para Leona e exclamou, orgulhosa:

— Essa é a minha filha!

Leona estirou os braços para o loiro, abrindo e fechando os dedos repetidas vezes. O garoto não teve nojo do queixo sujo e ergueu a garota da cadeirinha, rubro.

— Meu amor, você descobriu que o mano é um titã.

Disse o loiro à menininha alegre. Leona alisou as linhas nas bochechas do garoto, proferindo “titã” sem parar. Ela não sabia exatamente o que era um titã, porém, como todo eldiano, a existência das criaturas lhe era sensória, como se já tivesse noção da presença dos monstros antes de nascer, tal qual sempre soube que Hange era sua mãe mesmo quando não conseguia enxerga-la.

— Titã! ROAAAR!

Leona rugiu para Sasha. A soldada recuou protegendo o rosto assustado com os braços erguidos. O garoto colocou a titã ameaçadora no chão, e ela saiu urrando atrás da militar. Armin imitou a menininha, franzindo as sobrancelhas e abrindo a boca numa expressão de dar medo em moscas mortas. A soldada correu em câmera lenta, fingindo pavor. Hange, exultante, perguntava a si mesma onde Leona aprendeu a imitar titãs. Com Jeffrey e Dahmer, talvez. Uma pena ambos estarem mortos.

O próximo termo a entrar para o vocabulário de Leona foi “entendido”. Costumava pronuncia-lo com os bracinhos erguidos para cima e voz afirmativa em alto e bom tom, feito os recrutas do quartel.

O quarto, pasmem: cala a boca. Junto e rápido — calaboca. A palavra veio puramente pelo contexto.

A garotinha no lado de fora do quartel segurava a mão de Mikasa e chupava o polegar. Eren e Jean estavam lá também, só que Leona preferia que não estivessem, já que bastou um olhar torto para deixá-los eriçados como galos de briga. O soldado de cabelo comprido empurrou o outro, vociferando:

— Um acomodado desses querendo bancar o machão. Você devia ter ido pra polícia, lá que é o teu lugar.

Jean avançou em Eren com o peito, usando a própria altura a seu favor. Mikasa se mostrava calma perante a briga. Leona, por outro lado, não compartilhava a tranquilidade da Ackerman.

— Pra você, todo mundo que quer ter uma vida tranquila é acomodado. Nem todos são loucos por guerra.

— Eu luto — Eren bateu a mão aberta na caixa torácica — para que imbecis como você possam ter essa tal vida tranquila.

— Ah, é? Então por que tantos dos nossos já morreram por sua causa? Mentiroso de merda. Muita gente ainda estaria viva se você não fosse um egocêntrico filho da puta.

— Escute aqui, seu bunda mole-

— CALABOCA!

Leona gritou, estridente, avançando na direção dos maiores. Mikasa a segurou firme pela mão, surpresa. Os dois garotos pararam imediatamente. Eren, paralisado com o dedo indicador ainda na cara de Jean, encarou Mikasa duramente e disse, muito devagar:

— Mikasa, esse bebê acabou de me mandar calar a boca?

— Eu juro que nunca vi ela falar isso! Quem ensinou?

— ‘ana, calaboca. — Leona chamava Mikasa de mana.

— Ei, ela também está me mandando calar a boca.

— Haha, muito bom! Nem a Bolinha gosta de v-

— CALABOCA!

Leona gritou para Jean, investindo outra vez como se aquilo fosse reforçar sua ordem. O cenho franzido encarava os soldados com autoridade, a própria dona do pedaço. Os três adolescentes pasmados olharam para ela de cima, e aí explodiram em risadas. A bebê gritou para calarem a boca, mas nenhum obedeceu.

Com o tempo, Leona aprendeu outras palavras; comandante, leite, banho, mano e mana, céu... pai, não. Essa demorou para entrar em seu repertório.

XXX

O vinte de setembro marcou o primeiro ano de Leona fora do útero da mãe. O dia foi comemorado na casa da avó. Sophie chorou ao conhecer a neta. Leona, por outro lado, olhava desorientada para Hange. Quem era aquela senhora e por que ela a alisava tanto?

Voltaram trazendo roupas tricotadas a mão e uma quantia em dinheiro que a mãe veio contando na carruagem. No quartel-general, os soldados as esperavam com presentes, e o estoque de brinquedos e roupas foi renovado.

Mais ou menos nessa época, Leona compreendeu, em sua noção de mundo limitada, que a presença da mulher de uniforme preto-e-branco significava a ausência de Hange. A garotinha ainda não tinha percepção de tempo, de forma que não entendia direito por quantos dias e noites sua mãe ficava fora. Era um período, ao seu ver, infinito. Uma vez feita essa constatação, Leona chorava cada vez que a babá passava pela porta. Ela puxava Hange pelo uniforme, tentando impedi-la de sair. No entanto, mesmo culpada e compadecida, a comandante ia embora de qualquer forma para voltar sabe-se lá quando.

A garotinha já era capaz de diferenciar cada parte do quartel. O quarto onde ela e a mãe dormiam era o local de LAZER, o único aposento da casa onde tinha total liberdade. O laboratório era o lugar de FICAR NO CERCADINHO, de longe, o espaço mais desagradável, tanto pelo tédio quanto pela atmosfera fria. O escritório era a área dos ADULTOS, aonde várias pessoas entravam todos os dias. Haviam muitos outros menos importantes, e agora, Leona estava prestes a conhecer o seu preferido: o estábulo.

— Comandante, eu não acho que isso seja seguro.

— É seguro sim.

— Sinto muito, mas se acontecer alguma coisa, não quero me sentir culpado.

Hange revirou o olho e bufou. A bebê atrás de seu joelho olhava encantada para os cavalos nas baias, e os equinos retribuíam a curiosidade. Era a sua primeira experiência com animais. O cavalariço não estava nem um pouco contente com a presença das duas, e o motivo era claro quando você escutava as intenções de Hange.

— Bom, então faça o favor de olhar a Leona enquanto EU pego o cavalo.

— Coman-

Hange pegou a bebê do chão e entregou-a ao homem sem oferecer opção de recusa. Leona observou o curto trajeto da mulher até a salinha perto da larga entrada do estábulo. Hange voltou pouco depois, trazendo rédeas. Ela sorriu divertida para a filha, e a menininha entrou em êxtase ao deduzir o próximo passo.

Leona deu gritinhos de alegria quando o cavalo colorado saiu do cubículo. Tentou tocar o dorso do animal, mas o cavalariço não deixou. Hange chamou o homem para o lado de fora, onde as nuvens ameaçavam o clima. Quando ele veio, a comandante tomou a filha nos braços.

O cavalariço segurava as rédeas firmemente, nervoso enquanto a superior permanecia calma. Os olhos da garotinha brilhavam de entusiasmo, e estava claro que a mulher ia fazê-la tocar no animal sem levar em consideração o temperamento do bicho – caramba, ele pode arrancar o braço da menina!

— Comandante, eu continuo achando-

Hange não lhe deu ouvidos. A voz doce se sobrepôs à do homem.

— Esse aqui é o cavalo que eu uso nas missões. O nome dele é Buck. Você consegue falar “cavalo”? Vamos, comigo: ca...

A garganta de Leona convulsionou para pronunciar a primeira sílaba. Hange, paciente, a incentivou até a menininha exclamar, de uma vez só:

— Cavaio!

— Muito bem, Bolinha.

As orelhas do “cavaio” ficaram em pé ao escutar a voz fina de bebê. Hange guiou o braço da filha para a parte branca do focinho. O cavalariço, em pânico, virou o rosto, esperando o braço decepado. No entanto, o que veio foram risos de ambas as garotas. Hange fez a menina a afagar o chanfro em movimentos vagarosos, e Leona seguiu no mesmo ritmo após a mãe larga-la. O animal ergueu o nariz, levando o cavalariço a ter outro ataque cardíaco que se mostrou supérfluo, pois Buck nada fez além de cheirá-la.

— Vamos subir.

Leona foi entregue outra vez ao homem para Hange montar. Ela saltou para alcançar o lombo do animal imóvel, montando sem necessidade de estribos. O cavalariço, aliviado e um tanto incrédulo, devolveu a menina. Ele coçou a cabeça, embaraçado.

— Não acredito que deu certo.

A garotinha gritou de felicidade ao ser colocada no garrote, colando as costas na barriga da mulher logo atrás. Mesmo segurando as rédeas, Hange estava atenta para a segurança da bebê que nunca havia visto o mundo de uma altura tão alta. As mãozinhas apanharam a crina e por um segundo ambos os adultos acharam que ela iria machucar Buck, mas Leona limitou-se a acariciar a cabeleira equina sem puxá-la.

— Pronta?

Hange chutou os flancos do animal. Leona agarrava a crina e Hange as rédeas. A garotinha gargalhou agitando as pernas quando Buck passou pela cerca.

A comandante arriscou trote. Recebendo retorno positivo da filha, passou o braço destro ao redor do corpinho e agitou as rédeas para aceleração leve. O cavalo correu pelo campo aberto numa velocidade frustrante – conseguia ir muito mais rápido do que isso, porém, querer e poder são coisas diferente. As duas em seu dorso, por outro lado, riam sem parar, principalmente Leona, cuja velocidade lhe parecia a mais rápida do universo.

A leve garoa ameaçando a manhã começou a pingar. Leona levantou o rosto para o céu com a boca aberta, deixando a água gelada gotejar em sua língua. O campo era aberto, quase sem árvores. Cavalgaram por outros cavalos e alguns bois pertencentes à Tropa de Exploração. A maior parte dos animais não lhes deu a mínima, mas um ou três parou de pastar para prestar atenção nas vozes humanas. Hange guiou Buck quase até a cerca delimitando o terreno. Dali podiam ver, em tamanho reduzido, o prédio onde moravam.

Hange fez o cavalo parar nesse ponto. Leona estava se divertindo com a chuva. Hange sentia a nuca e as costas amarrotando seu uniforme enquanto a menina tentava pegar as gotas preguiçosas. Buck se pôs a pastar na grama úmida, batendo o casco dianteiro na terra à moda equina.

O céu branco não era tempestuoso, a chuva se manteria leve. Hange olhou para o quartel-general minúsculo, sabendo que era daquele jeito que ele parecia para Leona agora. Não poderiam viver lá para sempre. O dia da mudança estava se aproximando, assim como os planos para receberem os Marleyanos. Ambos os objetivos, profissionais e pessoais, a aterrorizavam.

Entretanto, aquela criancinha era a prova viva do quão longe já haviam chegado. Seus dois pais nasceram numa terra ignorante, mas ela não. Leona nunca vivenciaria a mentira de passar a existência trancada acreditando ser parte da última população humana. A presença de Leona e a luta de Erwin lembravam Hange do futuro esperando por todos eles. Eram parte das forças que a faziam acordar dia pós dia. A comandante temia morrer antes de conhecer o horizonte para além do oceano, no entanto, se sua morte fosse garantia de que aquele pedacinho de si mesma ia vê-lo em seu lugar, pereceria sorrindo.

Hange olhou para baixo, encontrando o sorriso de dentes de leite tentando capturar as gotas de chuva, e pensou em como a amava.

XXX

Levi apoiou as caixas num braço e bateu na porta com o outro. Recebeu permissão na primeira batida. O capitão entrou no quarto e colocou as caixas vazias no chão, perto de muitas outras já lacradas. Hange estava no centro do aposento, deitada de bruços no tapete, imersa numa leitura. Ao lado dela jazia um prato de biscoitos e um copo de leite puro.

— Obrigada, Levi.

— Ainda tem muita coisa pra guardar?

— Só algumas roupas e brinquedos que vou doar para o orfanato.

Ela indicou a pilha de roupas infantis e brinquedinhos perto do guarda-roupas vazio. Perto da pilha, ele se agachou para pegar um chocalho na base da montanha e teve lembranças não muito doces em relação àquele brinquedo barulhento. Leona costumava balançá-lo o tempo inteiro e Hange fingia demência. Graças a Santa a fase passara.

Os dois botões castanhos camuflados nos brinquedos fitavam Levi. Já tinha reparado na menina escondida entre as roupas, mas fingiu não a ver. O capitão se preparou para fingir susto quando a garotinha pulasse querendo surpreendê-lo, porém, Leona emergiu do outro lado da pilha, sem dar atenção ao soldado.

Levi observou as costas da criança, e ficou surpreso ao constatar, de repente, como ela cresceu.

Sua filha já vai fazer dois anos, Erwin. Nossa, parece que foi ontem.

O capitão nunca foi fã de crianças, e muitos no quartel sinonimizavam o afastamento com malquerer. Isso, é claro, era uma grande mentira. Ele gostava de Leona. Quando ela veio do hospital, foi Levi quem a supervisionou até a ama de leite de chegar. No começo, sempre que Hange não estava olhando, ele conferia a recém-nascida para ter certeza de que a comandante de péssimos hábitos higiênicos a limpava direito (por incrível que pareça, sim, Leona estava sempre cheirosa). Na madrugada em que ela teve dores de ouvido, Levi trouxe o remédio. Ele lavava, dobrava e guardava todas as roupas de Leona sem ninguém pedir. E, todas as noites, Levi entrava no quarto de Hange sorrateiramente para verificar se o cobertor não sufocava a bebê. O comando e a maternidade exigiam muito de Hange, por isso ela dormia feito uma pedra, sendo apenas o choro da filha capaz de acordá-la – assim imaginava Levi, mas não tinha como ter certeza se a comandante sabia das visitas noturnas.

Ele sempre encontrava Leona com a barriga para cima, imóvel ao lado de Hange, mais parecendo uma boneca do que uma criança de verdade. Vê-la parada daquela forma sempre deixava uma pulga atrás da orelha de Levi, e só se dava por satisfeito após colocar a palma da mão no nariz da bebê e sentir o ar quente na pele. A partir do décimo primeiro mês, Leona começou a despertar quando o capitão as visitava, dando fim às rondas.

Enfim, a amava à sua própria maneira.

Levi ergueu-se e olhou, de cima, o conjunto infantil. Muitos Hange havia ganho antes do parto. Algumas roupas nem chegaram a ser usadas, até tinham as etiquetas. Todas iriam para doação. Quanto aos brinquedos, Hange juntara todos os seminovos para dar ao orfanato também. Os favoritos de Leona estavam bem guardados nas caixas da mudança, e os quebrados foram para o lixo.

— Eu não sabia que ela tinha tanta coisa.

— Nem eu, só fui ter noção quando esvaziei as cômodas.

Levi foi juntar-se à Hange. Sentou na cama. O lençol permanecia forrando o colchão, mas os cobertores já haviam sido dobrados e guardados. Fora o guarda-roupa de Leona, o resto da mobília não acompanharia a mudança.

O dinheiro de Erwin, as economias de Hange e a indenização da farmácia permitiram que a comandante comprasse uma casa num bairro relativamente perto do quartel-general. Ela escolheu estritamente pela localização, que além de próximo do seu local de trabalho, possuía uma escola a poucas quadras. A segurança do povoado não era lá essas coisas, mas não era exatamente perigoso. De qualquer forma, não é como se um cidadão comum fosse ter coragem de mexer com a comandante da Tropa de Exploração.

A mudança de Hange nunca o preocupou muito, mas, agora, era estranho saber que eles parariam de jantar juntos, ir ao centro num feriado e ficar de bobeira no pátio nos fins de semana. Contudo, Hange não podia criar uma menina num quartel. Levi entendia isso. Por maior que o prédio fosse, e por mais que tivessem várias coisas para serem feitas, a habitação militar jamais seria um lar.

A garotinha andava entre as caixas, cutucando o topo de cada uma. Aquele recém-nascido pequenininho transformava-se numa criança falante, agitada e fuxiqueira. A genética dos pais começava a atuar na aparência outrora comum a todo bebê. O cabelo era dourado e sedoso igual ao do pai, embora selvagem feito o de Hange. A cor castanha pintava as íris, mas o formato e a frieza dos olhos grandes de Erwin estavam lá. E, quando Leona encontrava alguma coisa que lhe chamava atenção, seja uma pessoa nova, um inseto ou objeto, ela parava para fita-la fixamente, e nesses momentos de concentração, Levi conseguia ver o relance da determinação inclemente herdada do pai. Esse detalhe sempre o deixava inquieto. Uma premonição cega entalada na garganta.

— Vou sentir falta de morar aqui.

Disse Hange sonhadoramente, fechando o livro. Leona atravessou o quarto e subiu na lombar da mulher de bruços. Mordendo o canto do lábio, a garotinha apoiou o joelho no centro das costas da mãe. Hange virou a cabeça para a esquerda, aí lembrou que não enxergava daquele lado e girou-a para a direita, olhando a filha por cima do ombro.

— Você vai cair.

— Não vou.

Hange já adquirira a capacidade de dar pragas de mãe. A garotinha apoiou o segundo joelho, e não demorou três segundos para seus braços agitarem-se em busca do equilíbrio. Leona caiu de frente, quase numa cambalhota. Hange tirou os óculos e mordeu a armação, rindo. Usou a outra mão para mergulhar um biscoito de aveia no leite.

A menina sentou no chão, meio desnorteada. A dor física da pancada veio cobrar seu preço, as fungadas vieram gradualmente até ela arreganhar a boca. Hange rapidamente enfiou o biscoito amolecido na boca aberta, cortando o choro. A menina, após um curto momento de surpresa, se pôs a mordiscar o alimento, esquecida do tombo.

— Melhor?

Leona sacudiu a cabeça. Hange sentou em posição de índio e a garotinha foi puxada para o espaço entre as pernas da comandante. Leona acomodou as costas na barriga da mãe, deitando-se nela com as pernas para cima. Emitia barulhos forçados de mastigação, mais brincando do que saboreando o biscoito.

Hange colocou os óculos no nariz da menina, e os olhos castanhos ficaram arregalados, de súbito apavorados com a diferença de tamanho das caixas e dos móveis. Ela pestanejou, aturdida, parando de mastigar embora o biscoito continuasse em sua boca, segurando-o com as duas mãos. A comandante recolocou o acessório em seguida.

— Eu adoro quando ela faz isso.

— Graças a Santa ela não tem a sua visão de toupeira.

— Nem as sobrancelhas do Erwin.

Era verdade. As sobrancelhas amarelas nasceram curtas e mantiveram-se assim. Leona olhava de um adulto para o outro, encostando a cabeça no tronco da mãe para encarar o seu maxilar. Em relação à Erwin, Hange escolheu a saída mais inteligente: honestidade. Leona estava familiarizada com o nome do pai, embora não entendesse muito bem o papel daquele homem em sua existência — tudo bem, quase nenhuma pessoa no quartel tinha os dois pais vivos.

Mal Leona terminou o biscoito, Hange atacou-a. Levi, tipicamente, não sorriu ao ver a comandante deitar de costas trazendo a menina abraçada em seu peito. Elas rolaram, Leona mordendo o rosto da mãe e enchendo-a de pancadas, enquanto Hange fazia papel de vítima.

— Oh, não, o titã me pegou!

Quando você ensina uma criança tão pequena a brincar de luta, você está indiretamente dizendo que ela pode surrá-lo sempre que quiser. Levi pensou em alertar Hange, todavia, acabou escolhendo não se intrometer na brincadeira entre mãe e cria. Leona não era filha dele, afinal.

— Ai! tudo bem, você ganhou, você ganhou!

Leona comemorou a vitória enchendo a bochecha, a testa, o tapa-olho, os óculos e os lábios da mulher de beijos. Hange voltou à posição original com a menina em seu colo. Levi, sentado na cama com os cotovelos apoiados nos joelhos, sorriu através do olhar, e a comandante retribuiu.

— Vou sentir falta de vocês. — Confessou, tímido.

— Que fofo, Levi.

— Cala a boca.

Leona, ao ouvir o xingamento, ergueu os braços para o medalhão no pescoço de Hange e puxou-o para baixo, falando “CALABOCA” uma vez atrás da outra em meio a risadas. A cientista arqueou a sobrancelha para a bebê, e ao olhar para Levi, um olhar provocativo cruzou seu rosto.

— Então foi você.

O capitão, surpreso, negou sacudindo a cabeça rapidamente. Hange, óbvio, sabia que Levi não ensinou Leona diretamente, mas sim por meio de conversas paralelas. Ele mandava tanto os outros calarem a boca que Leona acabou aprendendo através dele.

— Ai, ai, essas péssimas influências.

Levi estalou a língua. A garotinha entre as pernas de Hange brincava com a medalha da mãe, jogando-a de um lado para o outro. Hange estava com o pescoço curvado propositalmente para Leona alcança-la. Por um tempo, o único som no quarto eram os murmurinhos divertidos da menina brincando. E então, Hange abraçou-a, beijando a lateral do rosto rechonchudo de bebê, e começou a balançar o corpo de um lado para o outro, embalando-a. Levi, adivinhando o propósito de Hange, deitou a cabeça em baixo do travesseiro e usou-o para tapar os ouvidos.

— Pedala, pedala, pedala pedalinho...

A música cantada era um dos sucessos recentes compostos após a descoberta do oceano. Leona adorava aquela canção, e Hange, por influência da filha, também. No passado, Levi tinha vontade de morrer cada vez que a então tenente cantava, no entanto, para ser honesto, não desgostava da voz de Hange agora, talvez por causa do amor colocado na letra quando cantarolava para Leona, quem sabe.

— ...me leva pra longe, bem devagarinho.

A voz da garotinha fazia dueto com a da mãe. A comandante embalava o próprio corpo de um lado para outro, levando a menina junto. Cantava com a cabeça apoiada no ombro da filha, o único olho fechado. Leona o fazia balançando a cabeça.

Ele puxou o travesseiro das orelhas, passou o braço por baixo dele e amarrotou metade do rosto na almofada, observando mãe e filha pelo outro olho. Tal como a música pedia, o timbre de Hange era calmo e compassado, diferente do escândalo das suas cantorias normais. Levi achava a letra banal, porém, na voz apaixonada de Hange, soava encantadora. Nada mau. O capitão fechou o olho. A voz mental cantou na mesma sonoridade tranquila de Hange.

O mar tá bonito...

— ...tá cheio de caminhos, pedala, pedala, pedala pedalinho.

Cantaram em uníssono mais cinco vezes, e então a voz da garotinha diminuiu, diminuiu, e diminuiu, até restar somente a da comandante. Hange continuou cantando pelo que pareceu três minutos, recebendo o apoio psíquico do capitão inebriado pela música, o dedo indicador martelando o colchão no ritmo lento da canção. Abriu os olhos quando a voz da mulher parou. Encontrou Leona numa posição diferente, agora de frente com uma perna de cada lado do tronco da mãe, a cabeça adormecida apoiada no ombro de Hange. Daquele ângulo, Levi não podia ver o rosto da menina, mas imaginava que ela tinha uma expressão pacífica, assim como ele próprio.

— Ah, Levi, ela está enorme. O tempo passa tão rápido...