Notas iniciais
Pra escrever esse capítulo, eu dei uma pesquisada bem basicona sobre testes de gravidez, química e tal. Eu fiz uma adaptação loka pra época deles, pq já q os caras vivem praticamente numa realidade meio medieval misturada com inicio dos anos 1900, imaginei que os métodos contraceptivos/aborto/testes de gravidez fossem assim bem fuleiros mesmo (e isso tb já é um aviso pro capítulo da semana que vem). Desde já peço desculpas se ficou uma merda, além de eu n entender nada de química, ainda sou meio burra. kkk

De acordo com o dicionário, a palavra “procrastinação” significa o processo de adiar uma atividade que poderia ser feita com tranquilidade hoje, ou ontem, ou na semana passada, quando um certo capitão questionou a comandante da Tropa de Exploração sobre uma gravidez.

Apesar das suspeitas, Hange preferiu ocupar-se com relatórios, experimentos, reuniões e treinos, em vez de matar a dúvida assim que ela foi plantada. Hange estava procrastinando há sete dias, e a noite em que dormiu com Erwin foi há dezesseis semanas. No entanto, vale apontar que a prorrogação não foi cem por cento sua culpa, na verdade, ela não adiava exatamente de propósito. Desde a morte do décimo terceiro comandante, o serviço triplicou de tamanho e houve inúmeros dias em que Hange começou a trabalhar às seis da manhã e só parou quando a lua já estava alta no céu, e ela acabava lembrando do teste de gravidez quando sua cabeça cansada repousava confortavelmente no travesseiro.

Agora já deitei. Amanhã eu faço.

Era o que ela pensava, juntamente com uma insistente esperança de que o inchaço e as dores sumiriam tão rápido quanto apareceram.

Nada disso aconteceu.

Os dias passavam e as roupas ficavam cada vez mais apertadas. Espinhas grandes e vermelhas brotaram por seu rosto e pescoço, obrigando a comandante a passar maquiagem para escondê-las, e nem toda água e sabão do mundo as faziam sumir. Os cabelos castanhos estavam oito vezes mais oleosos do que o normal e a menstruação continuava sem dar sinal de vida. A esse ponto, Hange pensava que se não estivesse grávida, com certeza estaria com alguma doença grave, e não sabia qual opção era a menos pior.

Ela podia ter ido direto ao médico, no entanto – agora por vontade própria, em outras palavras, sem que houvesse interferência do trabalho na sua decisão — resolveu procrastinar a consulta para fazer o teste de gravidez sozinha, em seu próprio laboratório pessoal. Com a vitória mais recente da Tropa de Exploração, o governo passou a oferecer uma verba muito maior para o exército, de forma que Hange podia aplicar mais recursos ao departamento de pesquisa. Agora, ela tinha um laboratório superior em tamanho e equipamentos.

Já estou fodida de qualquer maneira. Se eu estiver grávida mesmo (o que NÃO é o caso, eu tomo remédio certinho) ter ido ao médico semana passada não ia fazer diferença na minha condição.

Um pássaro azul pousou no parapeito da janela para bicar o próprio reflexo no vidro. A mulher dentro do aposento não prestou atenção no animal, já que estava ocupada realizando uma porção de testes diferentes com amostras da sua própria urina e sangue que foram recolhidas naquela manhã. Primeiro, Hange misturou uma quantidade de sangue com substâncias para detectar hormônios femininos, e a urina foi misturada com reagentes para a mesma finalidade. A terceira experiência consistia em ferver o resto do xixi no fogo quente para ver se o liquido ia formar uma espécie de nata na superfície, teste este aplicado por muitas mulheres aflitas que não possuíam um laboratório em casa ou condições de ir ao médico.

O primeiro teste identificou um alto nível de gonadotrofina coriônica, que é o hormônio produzido pela placenta das grávidas. O segundo experimento não teve um resultado diferente. Sendo a gonadotrofina o principal indicativo de uma gravidez, é eufemismo afirmar que Hange ficou sem ar ao contemplar os resultados. O último teste, que não levava química, ferveu até a superfície da urina criar uma pasta assustadoramente branca.

Os três utensílios gritavam em suas vozes inanimadas: parabéns, você vai ser mamãe!

— Não pode ser. Tem alguma coisa errada.

O cabelo preso balançou de um lado para o outro quando ela sacodiu a cabeça, recusando-se a acreditar. Seu primeiro impulso foi questionar a veracidade dos produtos que utilizou como reagente; todo cientista que se preze utiliza pelo menos duas amostras diferentes para testar a margem de erro, por isso, a comandante resolveu que precisava dos exames de outra mulher que não estivesse grávida (que TAMBÉM não estivesse grávida) para comparar. Se os testes dessa segunda moça dessem um resultado semelhante ao seu, Hange ia enviar uma carta bem mal-educada para os fornecedores do laboratório e pedir o dinheiro de volta.

E o que você vai fazer sobre aquele troço no fogo? Processar o fabricante do fogão?

Hange parou na moldura da porta e olhou para a nata nojenta. Ela torceu a cara, virando o rosto para que a panela entrasse no ponto cego do olho ausente, sumindo do seu campo de visão.

— Todo mundo sabe que esse negócio de ferver mijo é uma besteira.

Hange saiu do laboratório com os óculos na cabeça, as sobrancelhas franzidas e o andar rígido, segurando um pote vazio na mão destra e uma seringa na canhota. Mal alcançou outro corredor e encontrou Mikasa, Armin e... Floch? Vindo na direção contrária à sua. Antes de se aproximarem, Hange ergueu a mão com a seringa e começou a falar de longe, quase gritando.

— Mikasa, preciso de um favor seu.

— Mikasa?

A voz da garota nada parecia com a da Ackerman e tinha o sotaque típico de uma área remota das muralhas habitada por caçadores.

— Ai, desculpa, Sasha. Achei que fosse a Mikasa.

— Quer que eu a chame, comandante?

— Não precisa, Floch, a Sasha pode fazer pra mim.

Os soldados riram.

— Não é o Floch, comandante, é o Jean.

Hange fez barulho ao puxar o ar por entre os dentes e bateu na própria testa com a mão que segurava o pote de amostras, o golpe causou dor. Os soldados recuaram, assustados.

— Deixei a porcaria dos óculos no laboratório, não consigo ver absolutamente nada a não ser que esteja bem na minha cara.

Os três adolescentes estáticos olharam para um ponto especifico acima do tapa-olho da comandante e começaram a gargalhar ao mesmo tempo. Hange cruzou os braços e encarou-os com seriedade, irritada demais para achar graça da situação. Não estava de bom humor.

— Do que estão rindo?

— É que os óculos estão na sua cabeça, comandante Hange.

—... ah... hehe- vejam só.

Hange desviou a face para a direita, mostrando o tapa-olho aos soldados e escondendo as bochechas rubras. Ela deu uma risada envergonhada ao colocar os óculos no nariz em um único movimento do dedo indicador. Ao voltar-se para os soldados, sua expressão, voz e postura estavam falsamente normais.

— Sasha, você pode fazer xixi nesse potinho e me entregar o quanto antes? Vou precisar do seu sangue também, me empresta o seu braço.

Sasha estendeu a mão sem pestanejar e não mostrou incômodo quando a comandante inseriu a agulha.

— Claro, por que?

— É para um experimento.

— Que experimento?

Desde que assumiu o posto de comandante, soldados de todas as patentes e divisões paravam para prestar atenção no que Hange tinha a dizer. Isso era uma realidade nova, pois no passado, todo mundo fugia quando ela estava em seu modo pesquisador, ao ponto dela precisar implorar para alguém ouvir uma teoria cientifica. Agora, tinha ouvintes de sobra, e muitas vezes até civis a paravam na rua para perguntar sobre ciência.

No entanto, Hange sabia que a situação atual não era um daqueles casos de genuíno interesse. Ela não era burra.

Eles pensam que eu estou grávida.

Não teve muito tempo para refletir sobre isso pois precisava fingir estar interessada em falar de experimentos científicos, já que sempre respondia com todo o entusiasmo do mundo e os soldados achariam esquisito um comportamento diferente da sua parte. Se suspeitavam de alguma coisa, que seguissem na dúvida.

— Estou recolhendo urina e sangue para avaliar a composição. Pretendo fazer o mesmo com algumas Marleyanas quando as encontrarmos. Quero tentar descobrir o que é cientificamente diferente entre nós e os outras raças de seres humanos.

Ela inventou aquela história ali na hora mesmo. Sinceramente, não era uma ideia tão ruim assim, embora só o sangue fosse suficiente para uma experiência daquela espécie.

— Por que a urina?

— Dá para saber muita coisa pela urina de alguém, Jean. — Armin respondeu.

Se Hange ainda tivesse os dois olhos, teria usado um para piscar. Como só tinha um, limitou-se a sorrir, concordando com Armin.

— Você não vai fazer com homens?

— Depois. Por enquanto vou trabalhar só com os dados das meninas para não me confundir depois. – Ela encontrou uma brecha para cortar o assunto. — Bom, preciso ir, deixei o fogo ligado. Sasha, venha ao laboratório assim que for possível, por favor.

— Sem problemas, comandante.

Despediu-se do trio e voltou para a direção de onde viera. Os três soldados permaneceram parados no mesmo lugar, trocando olhares desconcertados enquanto a comandante se afastava. Quando a mulher virou a esquina do corredor, Sasha explodiu.

— Vocês viram!? Eu falei! Conheço uma mulher grávida quando vejo uma!

Ela falava rápido e alto como uma pessoa que está guardando um segredo importante há mais tempo do que gostaria.

— Shhh, fala baixo.

— Cara, isso é... Minha nossa.

A face de Jean era uma mistura de surpresa com descrença. Ele já tinha reparado nas espinhas que a maquiagem não foi capaz de esconder e reconheceu que Hange trajava o mesmo sobretudo largo dia após dia, até quando não fazia tanto frio.

— O que a gente faz?

— Nada, isso não é assunto nosso.

Armin tinha a voz firme. Ele continuava encarando o corredor por onde Hange desapareceu com a fisionomia pensativa.

— Sasha, não diga nada quando for entregar o seu exame. Se a Hange ainda não contou para nós, é porque não quer que a gente saiba. Jean, você também.

Jean perguntou se Armin pensava que ele tinha merda na cabeça e Sasha respondeu com indignação que não pretendia questionar a comandante. Ela demorou menos de uma hora para devolver o pote, cheio até a metade.

XXX

A cientista testou o sangue assim que chegou no laboratório. Quando Sasha veio lhe entregar a urina, Hange precisou usar uma máscara de mulher contente para não deixar a soldada reparar no seu desgosto. Ela fez os testes com o xixi já sabendo o resultado, pois a amostra de sangue deu negativo para gonadotrofina coriônica, e é óbvio que o mesmo aconteceria na próxima experiência.

Não se surpreendeu, mas ficou igualmente decepcionada quando o liquido amarelo misturou-se ao reagente com rapidez, formando um suco homogêneo. Ao colocar o resto da amostra de Sasha no fogo, deixou a urina ferver quase até a água evaporar e nenhuma pasta branca apareceu.

Hange se afastou da mesa onde os testes estavam dispostos com a expressão de uma pessoa prestes a cometer uma loucura. Ela andou de um lado para o outro no laboratório com as unhas entre os dentes e o corpo trêmulo. Atravessou o aposento três vezes e foi novamente olhar os resultados dos seus exames, desejando que o sangue recuperasse a cor rubra, que a urina parasse de flutuar no reagente e que aquela coisa branca e nojenta no terceiro teste simplesmente desaparecesse. No entanto, é óbvio, nada aconteceu. As provas estavam ali, bem na sua cara. Não tinha como fugir.

A primeira coisa em que Hange parou para pensar foi numa importante questão: o pai daquela criança. Não foi difícil chegar a uma conclusão, tendo em vista que seu amigo colorido estava morto e seu último amante também. Ao menos que o Espirito Santo tenha descido para o mundo dos humanos para engravidá-la magicamente, a gestação começou através da noite não-tão-divertida com Erwin.

— Mas eu tomei remédio!

Com os dedos sem unha entre os cabelos e as costas apoiadas na parede, Hange começou a recapitular os acontecimentos daquela manhã. Quando você é uma pessoa muito ocupada e cheia de obrigações, como por exemplo, comandante do exército, pode ser complicado lembrar de detalhes que você não julgou importantes na hora em que aconteceram. Por isso, Hange levou longos minutos para recordar o que fez antes de partir das muralhas, e o que conseguiu lembrar era questionável, já que eram mais fragmentos de memória do que uma história completa.

— Muito bem, Hange, o que você fez? Ok, eu acordei e fui direto na farmácia. Naquela aqui pertinho? Não, não, estava fechada. Você precisou pegar uma carruagem porque a outra fica um pouco longe, você estava com preguiça de ir a pé.

Um exercício que ajudava Hange a pensar com mais clareza era imitar duas ou mais vozes diferentes enquanto raciocinava, Moblit costumava usar a mesma técnica. Levi achava assustador.

— Como foi lá? Fui atendida por um adolescente que ficou me encarando quando eu entrei...

Assim como a arquitetura da farmácia, a aparência do garoto era um rascunho na memória da comandante, mas ela lembrava de ter achado que algo estava errado com o adolescente, pois ele suava muito e olhava para o homem no salão – que devia ser seu chefe, pai, ou ambos – sem parar.

— ...ele me deu o remédio e eu tirei do saco para ver a data de validade. E aí, estava vencido?

A segunda voz não respondeu. Como não tinha mais unhas para roer, Hange colocou as costas dos dedos entre os dentes e mordiscou a própria pele enquanto seu cérebro trabalhava a toda sem conseguir lembrar se o remédio estava dentro da validade. Recordar certos detalhes parece uma tarefa impossível quando você precisa, no entanto, ironicamente, pontos banais voltam com uma facilidade impressionante a nossa mente quando não precisamos deles.

O que Hange relembrou foi a embalagem do remédio que lhe foi entregue. Até então, todos os chás abortivos que havia ingerido vinham num vidro redondo, pequeno em altura e grande em largura, mas o que o garoto lhe deu tinha o formato de uma pequena garrafa. Lembrava disso pois tinha achado o recipiente bonitinho e mais fácil de beber. Esse detalhe desimportante ficou indo e voltando enquanto a comandante tentava pensar na data de validade do remédio. Ela tinha começado a recapitulação em pé, e agora estava sentada no chão do laboratório com as mãos na testa, os cotovelos no joelho e os cabelos caídos cobrindo-lhe o rosto assombrado. O céu outrora azul adquirira uma coloração alaranjada, indicando o pôr do sol. Hange havia gasto o dia inteiro dentro do laboratório fazendo testes de gravidez, a papelada no escritório devia estar maior do que nunca.

— Por que você continua pensando no formato daquela garrafa?

Bastou falar em voz alta para entender o significado daquele símbolo. O desespero escapou em forma de um único arquejo e nenhuma lágrima rolou por seu olho quando ela finalmente chegou a uma conclusão. O atendente estava nervoso porque tinha alguma coisa errada com o remédio e o vendeu por medo de enfrentar a ira do chefe, era a única explicação plausível. Chegava a ser engraçado que a mais prejudicada daquela situação fosse ela, a única pessoa que não tinha nada a ver com o que quer que tenha acontecido dentro daquela farmácia.

A comandante bateu no chão com as duas mãos e amaldiçoou o rapaz e o homem que lhe venderam o chá adulterado. Ela refez os eventos daquela manhã um após o outro substituindo a parte em que foi embora por alternativas seguras. Ela podia ter esperado a farmácia perto do quartel-general ficar aberta, mas não, ela estava com muita pressa no rabo e queria acabar logo com aquilo. Droga, só ter mais cuidado já ia ser suficiente para não entrar numa enrascada. Ela reparou que a embalagem do chá estava diferente, por que diabos você não perguntou para aquele velho nojento se era o remédio correto, Hange, sua retardada?

No fim, aquele descuido fez com que uma semente germinasse em seu ventre e estivesse desenvolvida o bastante para não poder mais ser chamada de embrião. Quando terminou de xingar os homens da farmácia, Hange pragou Erwin por tê-la fodido três vezes: uma vez nomeando-a sua sucessora, outra no escritório, e por último por morrer em Shiganshina e deixá-la sozinha com o peso da Tropa de Exploração nas costas e um bebê crescendo na barriga.

— Jogar a sua farda em cima de mim não era o bastante, Erwin? Você tinha que me dar mais um problema?

Em seu tormento, a cientista buscou conforto no ser humano mais próximo. O feto ignorou o sofrimento da mulher que o carregava, indiferente até mesmo quando Hange tocou a barriga com as duas mãos e perguntou o que devia fazer a partir de agora. A noção de que estava com um problema complexo desprovido de soluções benéficas caiu como uma rocha e ela soube que independente do que escolhesse, aquele acontecimento já havia marcado sua vida para sempre, e as próximas decisões definiriam se a mancha se revelaria um câncer perigoso ou uma cicatriz feia demais para se olhar por muito tempo. Não foi a primeira vez, nem a última, que Hange não soube o que fazer.