Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
51 O título da nossa história (FIM DA PARTE 2)
Eren está no hospital psiquiátrico de Liberio. Aqui há incontáveis soldados eldianos mutilados no corpo e na alma, como o personagem que Eren Yeager atua. O trauma manifesta-se das mais diversas maneiras, e não são poucos aqueles que preferem isolar-se em seu próprio mundo vazio. A parte do hospital favorita de Eren é o jardim. Ele passa as tardes tomando sol, aguardando o dia em que o menino Falco vai aparecer.
Enquanto sua previsão não se concretiza, Eren recebe as visitas de Zeke Yeager, o seu irmão mais velho.
— Eren, nós precisamos salvar a todos.
Zeke arremessa uma bola branca a Eren. Em Paradis existem bolas de borracha como aquela. A de Zeke se chama BOLA DE BASEBALL, um jogo semelhante ao taco-e-bola de Paradis. Eren não divide essa informação com o seu presunçoso irmão.
Eren não consegue apanhar a bola. Ela quica no piso de pedra.
— Ops, deixei cair.
Eren pega a bola de baseball. Ao levantar-se, o olhar de Eren encontra o do irmão. Zeke o contempla com a mesma expressão fraterna da primeira vez em que se encontraram em Marley. Eren percebe que está confundindo duas memórias. Uma dor afiada apunhala sua cabeça e ele perde o equilíbrio. O cenário desfoca-se. Zeke se transforma em névoa.
Então, Eren se vê num pesadelo terrível e inquieto. Ele escuta, de repente, o grito de Mikasa e o estrondo de um tiro. Uma forte dor no pescoço o assoma. Ele entra em pânico ao constatar que seus braços e pernas sumiram. Nesse segundo, a garota do deserto, que visitava-o em suas visões mais obscuras, irrompe em seu limitado campo de visão. Ele sente uma dor inescrutável quando a menina apalpa seu pescoço cortado.
Enquanto a garota mantém contato físico consigo, Eren têm acesso às lembranças dela. Ele conhece o homem de nariz aquilino que ocupou o primeiro trono de Eldia, e vê a menina de joelhos, em posição servil, em vez de sentada noutra cadeira real. Ele pergunta, tolamente: Santa? A menina balança a cabeça. Eren aprende o nome dela. Ymir.
A dor para.
Eren não recorda como era vivenciar aquele sofrimento lancinante embora estivesse sob aflição há alguns segundos. Ele abre os olhos esperando encontrar Ymir, mas o que ergue-se a sua frente é indescritível aos ouvidos humanos e indecifrável por seus cérebros restringidos. A mente de Eren traduz o inexplicável como uma árvore feita das estrelas mais brilhantes do universo. A inefável emite um chiado baixinho e tranquilizador que lembra água, feito chuvisco numa tarde quente.
— Vejo que você gostou da árvore da vida, Eren.
A voz de Zeke sobressalta Eren. Seu irmão está sentado na areia, com correntes pesadas amarradas no pescoço. Zeke parece ter envelhecido trinta anos. Sua barba vai até o peito, seu cabelo está quase tão comprido quanto o de Eren e suas unhas estão imensas. Se fossem colocado lado a lado, sugeririam que Zeke era o seu avô.
— Árvore da vida?
— É. Eu a chamo assim. — Responde Zeke com displicência. — Aqui é a casa do titã fundador, onde todos os eldianos se conectam.
À citação desse conhecimento, uma realização temerosa apossa-se de Eren. Ele olha com espanto para o solo onde pisa.
— Esse deserto não é de areia.
— Correto. São cinzas. — Diz Zeke casualmente. — Enfim, estive esperando o seu corpo ser reconstruído. A Gabi mandou sua cabeça pelos ares. Por sorte, consegui fazer o contato antes que você morresse. Foi um sucesso. Nós conseguimos o poder do titã fundador.
— Quantos anos se passaram?
— Muitos.
Um ponto de interrogação enorme estampa-se na cara de Eren.
— Ah, você quis dizer em terra. — Zeke não sorri. — Não se preocupe. Tudo no deserto acontece em um segundo no tempo terrestre.
Zeke ergue um dedo magro. Lá está Ymir, a garota que tantos acreditavam ser uma Santa poderosa, quando na verdade não passava de uma pessoa comum que obteve por acidente uma fonte de poder inigualável.
— Aquela é Ymir, a primeira transformada e a dona do deserto. É ela quem constrói nossos titãs, todas as vezes que os conjuramos, usando as cinzas do solo. Você e ela são únicos que podem se mover livremente. — Zeke segura as correntes. — Eu não posso me mexer por causa do juramento de paz feito pelo rei Karl Fritz, o meu antepassado. — Zeke solicita: — Eren, você é o portador do titã fundador. Mande Ymir remover a fertilidade dos eldianos.
Eren não se move. Ele fita Zeke como se seu irmão fosse um inseto repugnante. Zeke lhe explicara aquela idiotice de "plano da eutanásia" em Marley. O esquema consistia em infertilizar os eldianos. Dessa maneira, seriam a última geração de Eldia. Eren jamais concordaria com tamanha burrice. Não permitiria que seu povo definhasse e tivesse suas terras tomadas por forasteiros após sua extinção.
No fim, o plano de Zeke não era tão diferente do de Eren. A diferença era a raça a ser extinguida.
— Eu não vou fazer isso, irmão. — Eren cuspiu a última palavra. — Esse teu propósito é uma piada. Eu só cooperei contigo pra chegar aqui. Agora, se me permite, eu vou conquistar o que o mundo me deve.
Eren dá as costas ao irmão acorrentado. Ymir caminha em sua direção. Zeke geme num choro lamurioso:
— Eren, a raça eldiana precisa morrer, do contrário esse inferno nunca acabará...
— Que pena. — Desdenha Eren.
— Por que você está fazendo maldade comigo? — Pergunta Zeke infantilmente, em profundo desalento. — Você ainda está sob influência do nosso pai... ele fez a sua cabeça... por favor, entenda... a matança nunca acabará até os eldianos serem exterminados. Esqueça as coisas que o nosso pai te disse...
Eren ignora Zeke e se aproxima de Ymir. Ele estende a mão para a garota. Ymir, contudo, passa reto sem nem ao menos lhe dar um olhar, como se há instantes não tivesse lhe confidenciado suas lembranças e nome. Eren desorienta-se com o súbito desprezo.
O destino de Ymir é o homem acorrentado. Ymir ajoelha-se diante de Zeke. Eren perde o ar.
— Ah, Eren... — Chorava Zeke. — Eu achei que você me entendia... mas, naturalmente, você ainda pensa como nosso pai... — Zeke respira fundo e as lágrimas param. Ele se levanta. As correntes caem, transformadas em cinzas. — Durante o longo tempo que demorou para você voltar a ser você, eu aprendi muito sobre esse lugar. Descobri que a Ymir pode construir qualquer coisa, inclusive correntes, se eu, um descendente do rei, desejar. — Zeke limpou as cinzas em seus ombros. — Como você não tem sangue real, você não teve acesso à recordação da promessa do rei Karl Fritz, isto é, a memória que manteve os portadores do titã fundador inoperantes. Eu cheguei até esse deserto sem estar com a posse do titã fundador, sendo assim, eu também não fui atingido pelo voto do rei.
"A Ymir pode construir qualquer coisa, fazer qualquer coisa, apagar lembranças, modificar memórias, criar titãs, matar titãs... mas ela só pode fazer o que lhe é comandado. Embora ela seja a criatura mais poderosa do planeta, sua forma é a de uma escrava. Ela acredita que os eldianos de sangue real, ou seja, os seus descendentes diretos, são os seus mestres. Em outras palavras, ela obedece a mim. Você foi só uma chave, Eren."
— Eu não...
Agora, é Eren quem está aprisionado por algemas. Ele tenta escapar, mas as correntes o prendem ao solo de cinzas. Pela primeira vez em anos, Eren não sabe como prosseguir. O LOUCO não lhe dissera nada sobre esse impasse. O horror deve estar nítido em sua face, pois Zeke compadece-se. O liberiano põe as mãos em seus ombros e diz:
— Eren, como eu pensei, você realmente foi manipulado pelo canalha do nosso pai. Eu e você somos vítimas dele e da ideologia pró-Eldia. Porém, eu tive outro pai, um homem que me salvou. Você precisa de alguém para salvá-lo, e eu vou passar adiante a gentileza que o meu pai adotivo fez. Eu não vou te abandonar. Eu vou limpar a sua cabeça com o poder do titã fundador.
— Puta merda. — Eren revira os olhos. — É inútil.
— Não é inútil. Antes de salvar o mundo, Eren, eu vou salvar você.
Zeke encosta a testa na de Eren. Um choque nauseante transpassa seu cérebro. Após um cegante clarão de luz, Eren se depara em uma sala aconchegante e familiar. Ele demora cinco segundos para entender que está em Shiganshina. Zeke encontra-se ao seu lado, observando a casa com curiosidade.
A poucos metros, um jovem casal brinca com um bebê roliço. Antes de constatar que se tratavam de versões mais novas de seus pais, o primeiro impulso de Eren é se esconder. Entretanto, o casal é alheio à presença dos dois homens.
— São as lembranças do nosso pai. — Percebe Eren. — O que você pretende fazer, Zeke? É inútil, já falei.
— Eu vou te mostrar a sua infância. Você vai ver como foi influenciado pelo nosso pai.
A convicção de Zeke quase gera pena em Eren. O ressentimento de Zeke para com Grisha, bem como a necessidade de aprovação familiar, reflete-se no olhar magoado que Zeke dá à imagem de seu jovem pai aos risos com o Eren pequenininho.
— Bonito, Grisha. — Murmura Zeke, entupido de rancor. — Bom pra você esquecer seu primeiro filho e esposa, e ser feliz aqui.
Eles passam por mais recordações. Veem Grisha ensinando Eren a andar, Grisha e Carla levando Eren à escola, e assistem Eren acompanhando o pai em visitas a pacientes em cidades remotas. Em certo momento, passam por uma visão constrangedora, que Eren preferia não ter recordado, onde Grisha flagra Eren e Armin, aos seis anos, brincando de colocar as cuecas um do outro na cabeça.
— Minha nossa, meu pai era um cuzão do caralho. — Diz Eren, entediado, numa memória em que seu pai visita um nobre da Capital. — Olha ali ele, fazendo amizade com os ricos. Irmão, muito obrigado, minha lavagem cerebral foi desfeita. Partiu?
— O tempo é infinito. Não temos pressa. — Responde Zeke com veemência. Está claro para Eren: no fundo, Zeke quer ver mais recordações do pai que não teve.
Continuam viajando, lembrança após lembrança. Eren boceja na maior parte delas. Zeke, em contrapartida, parece cada vez mais desiludido de que Eren, o seu irmãozinho perdido, recebeu uma criação restritiva e solitária igual a sua. Eren, contudo, não mais tenta convencer Zeke a regressar ao deserto, pois a vozinha em sua consciência sussurra para seguir visitando as recordações.
Chegam numa memória marcante – a tarde em que Eren decidiu, aos doze anos de idade, alistar-se ao exército. Naquela época, só os retardados, os indigentes e os órfãos entravam para a Tropa de Exploração. A cena desenrola-se como Eren recorda: Carla o proíbe, Eren começa a discutir, Mikasa assiste à tudo em silêncio apreensivo, então, Grisha pergunta a Eren o porquê da escolha.
— Eu quero conhecer o mundo lá fora. Não quero morrer trancado nas muralhas. Eu quero ir à luta e ajudar a libertar a humanidade dos titãs. — Responde sua versão criança. Eren não se lembrava de ter uma voz tão aguda. — Além disso, mãe, pai, se ninguém se alistar no exército, a morte de todos os soldados que morreram por nós terá sido em vão!
Quando vivenciou o momento, Eren pensou que a expressão pesada de seu pai significasse desacordo. Agora, Eren percebe, é petrificação. Grisha levanta-se de supetão e, com muita pressa, se dirige à porta.
— O barco vai sair em breve. Preciso ir.
— Grisha, venha até aqui e ponha juízo na cabeça do seu filho! — Decreta Carla.
Grisha finge não ouvir e segue seu caminho. Eren inquieta-se. A lembrança não terminava assim. O final como Eren o recordava é completamente diferente. Contudo, lá está seu pai, com a mala numa mão e a outra na maçaneta da porta, prestes a ir embora sem mencionar o porão secreto onde esconde os livros sobre Marley.
Eren se deu conta do que fez quando já estava fazendo. Seus olhos determinados fitam os de seu amado pai. Grisha prende a respiração e encara, mortificado, o exato lugar onde o Eren adulto espiga-se, como um cão hiperativo respondendo ao comando PARE. Grisha pode enxergá-lo. Eren não é invisível para ele. Eren se vê refletido nos olhos escuros do liberiano, e reconhece a loucura com o qual habituou-se a conviver. Por intermédio do poder onipresente do titã fundador, Eren ordena a seu pai que mencione o porão secreto que atiçará a curiosidade do seu Eu infante.
E assim Grisha diz, numa voz que não lhe pertence:
— Eren, quando eu voltar, eu vou lhe mostrar o meu porão de trabalho.
— Sério, pai!? — O pequeno Eren alegra-se. — Vai me deixar descer, de verdade!?
É isso, Eren compreende. É vez dele de desempenhar o papel de LOUCO. Apesar de nunca ter experimentado esse mecanismo, ele sabe como fazer, como controlar e o que dizer. Isso acontece porque o LOUCO está com ele, e o LOUCO passou por tudo aquilo antes de fundir-se ao Eren do presente. Complexo.
Ele deve se separar de Zeke para conversar com o seu Eu do passado, mas Eren está tranquilo. Ele sente que a oportunidade aparecerá em breve.
Sua chance aparece numa lembrança mórbida onde, de novo, Eren é obrigado a usar seu poder para convencer seu pai a dançar conforme a música e assassinar a família real. Eren, que instantes atrás aprendeu a controlar a invisibilidade dos homens do presente, permite que Grisha reencontre o seu filho mais velho. Grisha reconhece Zeke logo de cara. A doce reunião distrai o pai e o filho afastados.
Ele só pode percorrer as memórias enquanto o Zeke e o Eren do deserto estiverem em contato físico. No entanto, o relógio do mundo de Ymir Fritz possui ponteiros lerdos. Eren retorna ao dia em que o trio de Marley invadiu as muralhas e manda o titã de Dina assassinar Carla, sua própria mãe. Depois, sai em busca do seu Eu-pós-beijo-na-rainha. Sempre sussurrando, plantando sementes, repetindo os mesmos conselhos que uma outra versão de si mesmo, há muito tempo atrás, lhe confidenciou. Ele visita a recordação em que modificou a memória de Hange, e desta vez age no lado atuante. Eren presencia a conversa entre seu Eu do passado e Historia na fazenda e, por fim, revive seu último colóquio com Mikasa, o momento em que guiar o antigo Eren não era mais necessário.
Nesse ponto, outro choque perpassa o cérebro de Eren. Todavia, dessa vez não dói.
Estão no deserto. O choque atordoa Zeke. O liberiano cai sentado. Ymir também está aqui, aguardando o próximo desejo do eldiano de sangue real. Eren precisa chegar até ela, e o sentimento parece mútuo. Eren sacode os pulsos. As correntes continuam lá.
— Acabou, irmão? — Eren dá um sorriso vago. — Você nem me viu devorar o nosso pai.
— Você... — Zeke não reconhece Eren. — Você influenciou o passado. Como isso é possível? Como ninguém descobriu? O voto do rei... deve ser isso... o voto devia impedir que os portadores do titã fundador usassem esse poder...
— Pioneiros não são tão raros. — Eren dá de ombros.
— Eren, o pap- Grisha me disse que o seu desejo vai se tornar realidade. Que desejo é esse?
Eren não consegue evitar o sorrisinho enviesado. Sua utopia era tão brilhante quanto a árvore de estrelas. Paradisianos enfim livres para decidir aonde e como viverem, colonizando outras terras, e envelhecendo sem o medo da guerra com a qual já estavam acostumados.
— Sim, é verdade. Eu vi minhas memórias do futuro. Ah, a paisagem...
Algo em sua frase sonhadora irrita Zeke, ou talvez tenha sido sua cara maníaca – umas vinte pessoas haviam o chamado de doido nos últimos anos. Independentemente, agora Eren encrencara-se com o seu irmão.
— Ymir, — Diz Zeke. — remova a capacidade reprodutiva dos eldianos.
— Não. NÃO! — Eren sobressalta-se. As correntes tinem. — YMIR!
— Eu vi que você sumiu depois do Grisha me reconhecer. Você devia ter ficado e visto tudo. Grisha... o nosso pai... ele disse para eu te parar. Eu não sei que futuro você viu, mas o nosso pai se arrepende de tê-lo ajudado.
Em gritos frustrados, Eren força os pulsos algemados ao limite. Percorreu um longo caminho até aqui. Simples correntes não vão impedi-lo de alcançar o paraíso. A pele cede e o metal rasga suas mãos. O sangue vermelho pinta o deserto de cinzas quando Eren avança até a garota que andava para a árvore da vida.
— Não adianta, Eren. — Diz Zeke, condolente. — Quando alguém de sangue real dá uma ordem à Ymir, ela não descansa até cumpri-la.
Eren não escuta Zeke. Ele alcança Ymir a alguns centímetros da torre de estrelas. A árvore é ainda mais bonita contemplada de perto. Eren agarra o ombro da garota.
Ao contrário do que Zeke afirmou, a menina para.
Olá, eldianos. Meu nome é Eren Yeager. Sou o portador do titã fundador. Acabei de destruir as muralhas da ilha Paradis. Descativei todos os titãs colossais. O meu objetivo é libertar o povo paradisiano, isto é, os eldianos puros de Paradis, do ódio que cerca a nossa raça. O reinado de perseguição das outras nações acabou-se. Os meus titãs farão a terra tremer até que toda a vida não-paradisiana seja lavada desse planeta.
XXX
Um deserto cinzento sobreveio o cenário florestal. Uma variante bestial e fantasmagórica da voz de Eren reverberou um prenúncio dentro da cabeça de Hange. O martelo que ela usava para pregar a roda da carroça parou no ar. Quando a voz sombria se calou e o bosque reapareceu, o canto dos pássaros não amenizou o horror de Hange.
— Será... — O pânico cresceu dentro dela conforme Hange encaixava as peças. Nesse exato segundo, milhares de titãs colossais esmagavam desde a mais minúscula planta até famílias inteiras. — A nivelação... o Eren vai usar a nivelação para aniquilar as pessoas fora da ilha! NÃO! É UM BLEFE! É UM BLEFE!
— Erwin...
A voz masculina a surpreendeu. Hange virou-se e viu Levi erguendo-se nos cotovelos. A boca do capitão se contraia atrás das bandagens numa careta dolorosa. Hange saltou para o lado do capitão e o fez deitar. Não precisou perguntar se ele teve o cérebro invadido pela voz de Eren; a palidez anormal de Levi respondia essa questão. Ele questionou, numa voz grogue porém consciente:
— Cadê aquela merda peluda?
— O Zeke foi para as muralhas com os yeageristas. Isso foi ontem. Ele já entrou em contato com o titã fundador. O que aconteceu entre vocês dois?
— Eu fodi tudo, resumindo. — A fala de Levi era pontuada por gemidos de dor. — Eu o amarrei a um lança-trovões. Não achei que o arrombado de merda iria nos explodir. Eu o deixei fugir de novo.
Levi levantou a mão mutilada e mirou o vazio outrora ocupado por dois dedos. Um sutil arrependimento transpassou o olho cinzento do capitão. Se ele não tivesse subestimado Zeke, qual teria sido o rumo da história?
— Você deve estar cheio de arrependimento, mas por ora...
— Hange, o que foi aquela demência ontem? Você estava chapada, ou os yeageristas roubaram os seus dois neurônios? — Levi repreendeu-a, zangado. Nem aleijado Levi deixava de ser Levi. — Se ficarmos aqui, o que nós conseguiremos?
— Você me ouviu falando sozinha?
Hange corou. O solilóquio era um delírio distante. Nada daquela asneira covarde condizia com sua personalidade. O único olho de Hange desviou-se para a carrocinha quase finalizada. Levi seguiu o olhar dela e apontou para a carroça com a mão ferida.
— O que está construindo? Você vai me levar naquilo?
— É, vou.
— Eu sabia. Conheço você muito bem, Hange. — A garganta de Levi emitiu um ronco; o capitão estava rindo. — Você não consegue ficar fora da ação.
— Você está completamente certo. — Hange deu um sorriso pequeno. Como poderia deixar Eren esmagar pessoas, se ela entregou o coração para a humanidade?
— Tem carroças aqui, sabe? Você não precisava se dar ao trabalho.
— Precisava sim. — Hange sentou-se em posição de lótus com o cóccix encostado no capitão. — Depois de organizar o que sobrou do acampamento, fiquei sem ter com o que ocupar a cabeça.
Durante a vigia e a espera pela recuperação de Levi, o ócio foi o principal inimigo de Hange. E mesmo entupindo-se de trabalho, ela não conseguiu tirar Leona da cabeça. Aonde estaria sua filha agora? Com toda certeza, muito assustada.
Hange sentiu uma mão leve tocar-lhe o rosto e afastar o cabelo sobre o tapa-olho. Ela inclinou-se ao carinho dos dedos nus do capitão – Levi a acariciava com a mão que ainda possuía cinco dedos.
— Você está pensando nela. — Conjecturou Levi.
— Estou. — Admitiu Hange. — Eu vou dar um jeito de ver a minha filha.
— Você pretende trazer a Leona para cá?
A hipótese deixou Hange meditativa. Leona estaria em menos ou em mais perigo perto da mãe?
— Não. — Concluiu. — Talvez... — Voltou atrás. — Não sei. Ainda nem pensei em como vamos parar o Eren. Eu vou ver se a Leona vem comigo ou não.
Um tremor ressonante interrompeu a conversa. Levi tentou, sem sucesso, se levantar. Hange, por outro lado, encostou o ouvido no solo. A vibração atravessou seu canal auditivo e a terra tremeu por baixo das palmas das suas mãos.
— Hange, o que é isso?
— Eu acho... — Hange levantou-se num sobressalto. — Espere aqui. Não se mexa.
Sem o peso extra de um homem nas costas e um rifle nas mãos, Hange correu ainda mais depressa do que quando fugiu dos yeageristas. Os cervos e os coelhos saltavam para longe da rota da humana apressada. Em minutos Hange abandonou a sombra eterna da floresta Titã e alcançou o campo aberto.
A visão afrouxou seus joelhos. Hange apoiou-se numa das árvores da saída do bosque e sua mão livre espalmou-se na cabeça suada. A quilômetros e quilômetros de distância, centenas de titãs colossais marchavam. Gigantescos e robustos, mais pareciam montanhas vermelhas no horizonte. O tremor de seus passos fazia o solo da floresta vibrar. Hange supôs que a ilha inteira tremia.
Os monstros não olhavam para os lados e tampouco para o chão. Pisoteavam tudo pelo caminho, desconhecendo sua própria força. Logo adiante, erguia-se uma comprida e corcunda besta de ossos. Aquele esqueleto ambulante era o titã fundador de Eren. Ofegando, Hange pôs a mão no peito. Estava amedrontada e furiosa, mas, sem dúvidas, fascinada.
Hange apressou-se ao acampamento e terminou de martelar os pregos na carroça. Levi a aguardava deitado.
— O que aconteceu, Hange?
— Eren acionou a nivelação. Eu vi os titãs. Nós estamos saindo.
A comandante moveu os lençóis para a carroça. Ela arrumou uma cama temporária para o capitão e amarrou-o a ela. Não era o meio de transporte mais confortável do mundo, nisso ambos concordavam.
— Estou me sentindo num carrinho de bebê.
— Você certamente cabe em um.
— Imbecil. — Muxoxou Levi. — Você tem um plano?
— Não. — Hange deu um sorriso indefinido. — Eu só sei que nós vamos sair daqui e encontrar uma maneira de parar aqueles titãs. Com certeza não somos os únicos desejando a interrupção da nivelação.
— Parece algo que o Erwin diria.
Hange enrubesceu.
— A Lucy. — Levi piscou ao recordar-se da égua. — Pegue a Lucy. Eu a deixei amarrada por aqui, estou lembrando agora.
— Eu sei. — Hange deu uma risada sem graça. — Ontem eu a magoei, sabe, porque ela quis comer o seu remédio.
Hange pôs duas falanges na boca e deu um assobio tão agudo que oscilou no ar. Os cavalos da Tropa de Exploração eram treinados para atender a este chamado. A égua surgiu galopando, e não veio sozinha. Logo atrás vinha Buck, sacolejando a cabeça, incomodado pelos arreios há tempo demais em seu focinho e costas.
— Caramba! — Emocionou-se Hange. — Você achou o Buck, Lucy! Garoto, você fugiu dos yeageristas, não foi?
Como recompensa pelo bom trabalho, Hange removeu a sela de Buck. O cabresto, no entanto, só retiraria mais tarde. Lucy foi até Levi e farejou as bandagens em seu rosto. Levi afagou o nariz da égua. Depois, Hange atrelou Lucy à carroça.
— Eu vou viajar rápido. Me avise se você sentir dor, tudo bem?
— Hange, espere.
— Huh?
— Quando encontrarmos alguém, se nós não precisarmos mais da Lucy, você me faria o favor de soltá-la?
Hange estranhou o pedido. Uma vontade dessas significava que Levi considerava a possibilidade de nunca mais ver Lucy.
— Não diga essas coisas.
— Não, você não entendeu. — Retorquiu Levi, meio aborrecido. — Eu quero que a Lucy seja livre.
— Ah. Uh... Tudo bem, eu vou soltá-la.
Tendo feito sua promessa, Hange vestiu a capa da Tropa de Exploração, escondeu o rosto com o capuz, montou em Buck e partiu. Lucy seguiu-os. Levi não reclamou do ritmo da viagem, e por conseguinte Hange tomou a liberdade de aumentar a velocidade. De tempos em tempos, Hange olhava por cima do ombro para conferir se Levi continuava em seu leito, e não pôde deixar de achar engraçado imaginá-lo rolando estrada afora.
A paisagem de fundo era a infindável linha de monstros errantes. Hange matutava soluções para deter a nivelação. Indubitavelmente, Zeke era a chave para o enigma do titã fundador. Se matassem Zeke, a nivelação acabaria. Havia um hidroavião no porto, poderiam usá-lo... Claro, teriam que matar os titãs colossais depois, se as criaturas não desaparecessem. No entanto, Hange deixaria para resolver essa questão mais tarde. Por ora, precisava pensar num jeito de chegar até Zeke. Ou Eren. Por alguma razão, Hange sentia mais confiança em tentar parar Zeke do que Eren.
Entretanto, apenas ela e o quebrado Levi não iriam longe. Necessitavam de reforços. Como fariam para conseguir armas e soldados? A essa altura, os yeageristas já haviam desmontado a Tropa de Exploração. A medalha que Hange carregava não tinha valor, embora o metal ainda gelasse sua garganta e a capa pesasse em suas costas.
Após uma hora de viagem, os candidatos perfeitos apareceram.
O titã carroça achava-se agachado a alguns metros. Em cima dele havia um homem e uma mulher. A mulher estava com os braços anexados ao titã, como se o monstro fosse uma extensão de seu corpo. Aquela era Pieck, a portadora do titã carroça – Yelena falou bastante sobre Pieck. Hange não conhecia o homem. Pelo uniforme militar, era um soldado do alto escalão.
Hange puxou as rédeas de Buck. Lucy imitou o companheiro e parou de chofre. Meio escondidos nas árvores, Hange cutucou Levi até ele acordar aos resmungos.
— Levi, achei duas pessoas de Marley.
— Eles são confiáveis? — Como todo bom soldado, Levi entrava em alerta segundos após despertar.
— Não sei. — Hange mordeu o lábio. As chances da dupla de forasteiros mata-los antes de ouvir sua proposta eram imensas. — Eles têm um titã.
— Qual? O mandíbula?
— O carroça.
Levi deu uma risadinha.
— Eu sei que é o pior titã, mas é melhor do que nada. E eles podem ter companheiros. Nós não vamos conseguir sozinhos, e não podemos contar com os paradisianos. A maior parte do nosso povo é a favor da nivelação.
— Eu sei. — Respondeu Levi com desgosto. — Como vamos entrar em contato com eles?
Como esperado, a tática de Hange não era das mais seguras. Desarmada, com o cabresto de Lucy numa mão e o de Buck em outra, Hange andou até os estrangeiros. Levi murmurava "isso não vai funcionar" e Hange sibilava para ele se fingir de desmaiado. Na dianteira, a portadora do titã carroça e o marleyano conversavam em voz baixa. Ao se aproximar o bastante, Hange largou os cavalos e seguiu sozinha. De mãos levantadas, ela disse, em tom casual:
— Com licença?
O titã carroça girou numa velocidade absurdamente rápida e deu o bote. Hange esganiçou-se:
— CALMA CALMA CALMA NÃO ME MATE! EU ESTOU DESARMADA! — Hange balançava as mãos.
O marleyano apontava uma submetralhadora carregadíssima para a paradisiana indefesa. Os forasteiros entreolharam Hange e a carroça. A comandante deu uma risada trêmula e indicou Levi com o polegar.
— Aquele lá? Ele é só um pobre coitado. Está ferido.
— Você tem armas? — Interrogou o marleyano desconfiado.
— Estão na carroça.
O marleyano desceu do titã e fez Hange virar-se. A comandante obedeceu rapidinho. Em instantes Hange estremecia ante o cano gelado da submetralhadora no centro das suas costas.
— Tire as armas da carroça e coloque-as no chão.
Hange espalhou os dois rifles, as espadas e o DMT. Não convencido, o marleyano revistou Hange. Ele tateou os locais onde ela poderia guardar uma faca e fuxicou em seus bolsos. Hange torceu a cara desconfortavelmente nas vezes em que o marleyano encostou em suas partes. A comandante endureceu e tentou não pensar naquela condição de vulnerabilidade. Ela deu uma rápida olhadela à transformada liberiana. A inflexível Pieck Finger estava pronta para fazer panqueca de Hange caso ela tentasse ferir seu amigo. Hange engoliu em seco. Por ora, mostrar a barriguinha era a melhor opção.
— Agora, desamarre esse homem e tire os lençóis dele.
— Quê? — Isso já era sacanagem. — Ele está desacordado.
Os insensíveis olhos marleyanos estudaram Hange.
— Então vire-o de forma que eu possa vê-lo direito.
Hange puxou Lucy de maneira a pôr Levi de frente para os forasteiros. O marleyano, sempre com a submetralhadora empunhada, recuou até parar ao lado de Pieck. Ele questionou em ar inquisitivo:
— Quem é você?
— Meu nome é Hange Zöe.
Pieck e o marleyano trocaram olhares surpresos. Hange percebeu que, do mesmo jeito como Hange sabia de Pieck, eles a conheciam. Com certeza, Reiner, o portador do titã encouraçado, contou aos amigos sobre Hange e Levi.
— Hange Zöe, líder de esquadrão? — Um quê de curiosidade acompanhou a pergunta do marleyano.
— Até ontem eu era comandante.
— Você planejou a quebra da muralha?
— Acabei de dizer que eu era comandante ATÉ ONTEM. Não sou mais. Eren e Zeke deram um golpe na nossa divisão e tentaram nos matar. Veja o estado do meu subordinado.
— Sei. — Desdenhou Magath. — Aquele é o capitão Levi Ackerman, suponho?
— Sim.
— Acorde-o.
— Vocês ainda não me disseram quem são. — Rebateu Hange.
— Eu sou o comandante Theo Magath. Aquela é Pieck Finger.
— Muito prazer, Magath e Finger.
Hange acordou Levi. O capitão fez uma boa imitação de paciente despertando. Hange explicou a situação a Levi para os estrangeiros não acharem que Levi esteve fingindo dormir – Magath parecia ser do tipo que implicaria com um detalhe tão banal.
— Nossa missão, — Hange assegurou aos forasteiros — é parar a nivelação.
— E aniquilar Zeke. — Acrescentou Levi.
Theo Magath surpreendeu-se com os objetivos ambiciosos da dupla de paradisianos.
— Então vocês sabem aonde o traidor do Zeke está?
— Bem, ele está com o Eren, o portador do titã fundador. Afinal, o fundador só pode ser usado quando em contato com um transformado de sangue real...
— Você sabe bastante sobre a biologia dos titãs, doutora Hange Zöe. — Disse Pieck Finger, genuinamente impressionada. Hange achou que "doutora" era um título sofisticado demais. Pieck continuou: — Você chegou a ver o titã fundador?
— Aquele bicho ossudo? — Hange deu uma risada fraca. — Vi. Eu sei que ele é grande e etc, mas nós vamos tentar chegar até ele e parar a nivelação. — E apesar do nervosismo, Hange fechou o punho com firmeza. — Bem, vocês de Marley lutaram contra o Eren desde o começo, correto? Querem se unir a nós?
Magath e Pieck fitaram Hange por um longo minuto. O silêncio opressivo era quebrado pela trepidação dos titãs colossais. Quando Hange se convenceu de que Magath os fuzilaria, o comandante marleyano tirou o dedo do gatilho e guardou a arma na cintura.
XXX
Por meio de Magath e Pieck, Hange e Levi souberam da luta em Shiganshina entre Paradis e Marley. Era engraçado como todos os acontecimentos marcantes pareciam levar ao mesmo distrito. Segundo os forasteiros, os marleyanos sobreviventes bateram retirada em dirigíveis. Eles não sabiam dizer se Reiner e Porco, os portadores dos titãs encouraçado e mandíbula, sobreviveram. Portanto, apesar de terem um titã, continuavam num desfavorável número de pessoas.
Hange, pensando em seus estimados quatro subordinados, ofereceu-se para ir à cidade em busca de mais aliados. Magath pediu à Hange para verificar se Yelena estava viva e, se sim, para ela "dar um jeito" de resgatar a espiã com vida. Magath parecia estar cheio de más intenções para Yelena.
Agora, cinco horas após a excêntrica aliança entre Marley e Paradis, Hange dirigia-se para a cidade. Montada em Lucy, Hange puxava Buck pelo cabresto, pois necessitava de dois cavalos. Como ela pressupôs, Shiganshina estava abandonada se não pelos cadáveres marleyanos. A cidade estava estranha, muito estranha mesmo, e não era por causa do cenário desolador. Hange, porém, logo esqueceu-se da sensação de esquisitice. Trost estaria tumultuada. Hange começou a martelar um método para passar pelos guardas.
Ao aproximar-se de Trost, Hange entendeu por que ela estava desconhecendo Shiganshina: era a falta das muralhas. O paredão cinzento de cinquenta metros não existia mais. Trost desenrolava-se a frente de Hange, rodeada pelos escombros das construções atingidas na queda de Rose. Hange entrou em Trost por uma rota longe do local onde outrora se localizavam os portões.
O escuro era seu amigo. Hange não teve dificuldade em costurar as ruas. Os bares estavam lotados de cidadãos e militares bêbados comemorando a vitória de Eren Yeager. Circular no distrito foi mais fácil do que Hange imaginara, apesar da familiar sensação de estar sendo seguida.
Entrar em contato com seus subordinados ia ser complicado, pois lhe desceriam a porrada assim que pusesse os pés no quartel-general. Teria que recorrer a um mensageiro. Mas aonde encontraria um a essa hora da noite? Bem, não precisava ser um informante propriamente dito, correto? Podia ser um cocheiro. Hange deixou os cavalos amarrados e caminhou até o centro, onde a concentração de bares e restaurantes era maior. Ela soltou o cabelo, guardou os óculos e vestiu o capuz – um disfarce pouco eficaz. Não tardou para avistar uma carruagem. Hange fez sinal. O coche parou.
— Boa noite, amigo.
Hange saudou-o, sorridente. O cocheiro, um jovem esguio cujo o bigode espesso não lhe cabia bem, galantemente retirou o chapéu.
— Boa noite, soldada! Parabéns pelo belíssimo combate. — O cocheiro fez um gesto para a silhueta dos titãs colossais. — Eu gosto dos carinhas, acho-os bem simpáticos.
— Agora esses forasteiros paus no cu vão conhecer a força eldiana. — Entoou Hange, orgulhosa. — Me diga, você entrega mensagens?
— Entrego, sim senhora.
— Ótimo. Você tem papel e lápis?
— Sempre.
O cocheiro apanhou um lápis pontiagudo e arrancou uma folha de sua caderneta de endereços e horários. Hange usou a carruagem como encosto. Se a carta acabasse em mãos erradas, a missão iria pelos ares. A mensagem teria que ser escrita num código que apenas Hange e seus quatro soldados do esquadrão 104 captassem.
A solução apareceu clara como água em sua mente engenhosa. Hange redigiu:
Cara Mikasa,
Nossa vitória merece uma celebração. Rivaille e eu vamos nos reunir com alguns amigos no bar Dois Irmãos. Meu colega se ofereceu para te dar uma carona. Se você quiser se juntar a nós, ele mora três ruas depois do quartel-general. Apareça antes das 23h.
Se você quiser trazer mais gente, eles serão bem-vindos.
Penélope.
Hange dobrou o papel, escreveu "Mikasa Ackerman" e entregou ao cocheiro. Ela lembrou que esquecera a carteira no restaurante de Niccolo. Por sorte, seu raciocínio rápido não lhe abandonou:
— A carta é para a soldada Mikasa Ackerman. Ela vai pagar a viagem.
O cocheiro fez um descontraído aceno de deixa-pra-lá.
— Sem problemas, querida. Para os heróis de Paradis, hoje todas as viagens são por conta da casa.
— Obrigada, amigo.
Hange voltou à Lucy e Buck e dali rumou para o endereço escrito na carta. Ela desejava que Mikasa entendesse o seu código. Graças a Santa, Mikasa apareceu vinte minutos após sua chegada.
A comandante perdeu a fala ao ver Mikasa acompanhada apenas por Jean. Ela esperava encontrar Armin e Connie também. Os três entraram numa casa à venda. Assim que Jean fechou a porta, Hange aliviou-se:
— Você entendeu a minha mensagem.
— Entendi. — Suspirou Mikasa. — Estou tão feliz em vê-la, comandante. Floch disse que Zeke tinha matado você e o capitão Levi.
— Eu definitivamente não sou um fantasma. — Hange se aproximou da janela e observou os cavalos pastarem, indiferentes aos problemas humanos. — Como estão as coisas?
— Péssimas. — Jean cruzou os braços. Ele não parecia à vontade. — Zeke transformou os contaminados pelo vinho. Pixis, Nile e Kayle estão mortos. Floch está comandando tudo. Ele executou alguns voluntários hoje, e planeja exterminar o resto amanhã.
— Onyankopon e Yelena... ? — Hange desorbitou-se. Lamentava o destino de seus três colegas e a morte de Yelena seria um problema para Magath, mas Hange alarmou-se muito mais com a possibilidade de Onyankopon estar morto.
— Ainda não. Os dois estão bem.
— Ótimo. — Hange soltou o ar pela boca num suspiro audível. — E os hizuruneses?
— Estão no porto, sob custódia dos yeageristas. Floch tem planos de executá-los caso não se submetam a nós. — Replicou Mikasa.
O cérebro de Hange matutava as informações. Era ótimo Kiyomi e seus familiares estarem no porto. Dessa forma, poderiam resgatá-los das mãos da facção. E havia a questão dos navios asiáticos. Até onde Hange sabia, o hidroavião estava amarrado à um dos barcos. Além disso, os hizuruneses eram os únicos que sabiam como preparar um avião. A presença deles era crucial para o andamento do plano.
— Certo. — Concluiu Hange. — O Levi não pode lutar. Bem... digamos que o Floch quase acertou sobre o Levi estar morto. — Hange riu entredentes. Os subordinados arregalaram os olhos. Hange ergueu as mãos. — Calma, ele está bem... na medida do possível. Não se preocupem com o Levi agora. Continuando, eu consegui o apoio de um comandante marleyano e do titã carroça. Nós quatro planejamos deter a nivelação.
Jean e Mikasa emudeceram. Hange fitava-os sem piscar, deixando claro que suas intenções envolviam atacar Eren e o monstruoso animal de ossos.
— Como pretendem pará-lo? — Mikasa perguntou em aparente preocupação. Ela amava Eren.
— Primeiro vamos reunir todo mundo. Armin e Connie não quiseram vir?
— Armin e Connie não estão aqui. Connie... — Mikasa abria e fechava a boca. Jean virou o rosto para o outro lado como se fugisse do assunto. — Connie perdeu a cabeça. Armin está tentando trazê-lo de volta.
— Entendo o Connie... Olha, somos fracos sem a ajuda de vocês. — Hange percebeu o assombro relutante na face dos dois soldados. Entretanto, com ou sem o apoio deles, Hange iria até o fim para interromper a nivelação. — Eu sei que não sou mais comandante. Vocês não precisam se unir a mim. Eu estou pedindo como ami
— Eu vou ajudar. — Interpôs Mikasa. — Sou contra esse ataque indiscriminado, mesmo que seja para proteger a mim e a ilha.
Jean e Hange admiraram-se. Nenhum deles esperava que Mikasa fosse a primeira a se opor a Eren. Jean aparentava um estado de nervosismo contido. Hange o fitou com interesse. Jean começou a falar e não parou mais:
— E depois que pararmos a nivelação? O ódio dos forasteiros não vai sumir da noite pro dia. Nós seremos obrigados a continuar lutando e lutando por décadas. Na minha opinião, parar o Eren é a mesma coisa que destruir Paradis.
— Bem, Jean, de acordo com Magath e Pieck, os marleyanos não sabem à fundo como o poder do titã fundador funciona, então daqui para frente eles vão temer a ativação da nivelação. Não consigo vê-los invadindo a ilha por uns bons anos.
— Eles pensarão que o mundo pode acabar a qualquer momento a não ser que apaguem Paradis do mapa.
— Mesmo na sua situação hipotética, Paradis ainda tem tempo de
— Na última vez que tentamos ganhar tempo, não conseguimos nada! O mundo continua nos odiando! — Agora Jean elevava a voz. — O Eren decidiu destruir o mundo porque eles querem nos matar e
Jean continuava procurando mais e mais desculpas para permitir o massacre de pessoas inocentes, o apagamento de culturas e a destruição da flora e da fauna fora de Paradis. A fúria que se apossou de Hange foi irremediável. Hange deu um golpe tão violento no parapeito da janela que fez Jean calar a boca e Mikasa empertigar-se. Ela bradou as exatas palavras que berrou à Eren num episódio que lhe foi roubado da memória:
— PARE DE TENTAR ME CONVENCER DE QUE GENOCÍDIO É JUSTIFICÁVEL! EU NÃO VOU ACEITAR ESSA SELVAJERIA!
Lá fora, Buck e Lucy, de orelhas em pé, miraram a janela de onde os gritos vieram. Buck foi o primeiro a voltar ao pasto. Um silêncio desconfortável se fez entre os três soldados. Hange esperou seu punho parar de doer – a pancada lhe causou mais dor do que à janela.
— Desculpe, Jean. — Disse Hange, abalada. — Eu não devia ter gritado. Eu sou a última nesse direito, não é? Esse inferno só aconteceu por causa do meu otimismo cego. — Hange abaixou a cabeça. Ela teve noção do quão frágil e derrotada se mostrava. Entretanto, não tentou mascarar sua fraqueza. — Não vou mentir, eu pensei em dar significado às palavras de Floch e me fingir de morta. Fugir, entendem? Mas, eu ainda carrego isso no pescoço. — Ela apertou a medalha. O metal estava frio como sempre. — Antes de descobrir ser eldiana, eu jurei proteger a humanidade e fazer a minha parte para trazer liberdade às pessoas. É o mesmo juramento que o Erwin, o Moblit, e tantos outros amigos meus, fizeram. Eu sinto os fantasmas deles aqui, assistindo o que a "humanidade" pela qual lutamos se tornou. Eles morreram sem saber sobre Marley e as outras nações. Mesmo assim, eu tenho certeza que nenhum deles seria tão mente fechada ao ponto de achar que a única humanidade que merece a liberdade é o povo dessa ilha. — Hange ergueu a cabeça. — O objetivo da Tropa de Exploração é proteger as pessoas dos titãs, e não usar titãs para atacar pessoas. Eu vou seguir o meu dever e proteger a humanidade que jurei defender.
O silêncio a seguir foi mais ensurdecedor do que a recente vociferação de Hange. Jean era um par de olhos esbugalhados, enquanto Mikasa apresentava o inexpressivo semblante dos Ackermans com a ligeira diferença de um brilho decidido no olhar.
Jean quebrou o silêncio.
— Comandante, eu também fiz esse juramento. — Decretou ele, por fim.
XXX
Após elaborar com Mikasa e Jean o golpe marcado para o dia seguinte, Hange cavalgou para o seu último destino. Seu bairro não era intranquilo. A rua estava sossegada como Hange esperava. Ao chegar em sua casa, ela desmontou e observou a frente desleixada iluminada pela rajada de gelo que Minnie pusera no lampião. O quarto de Leona localizava-se no segundo andar. Hange fitou a janela da filha, e sorriu de canto ao avistar um pequeno vulto esgueirar-se atrás no vidro.
Leona abriu a porta abruptamente. Apesar do horário tardio, Leona estava cheia de energia, e foi com grande alegria que ela saltou nos braços da mãe. Grata por ter Hange em casa, Leona poupou-a das perguntas sobre aonde ela estivera nesses três dias.
— Você não devia estar dormindo, filhotinho? — Hange repreendeu-a com falsa severidade.
— Eu disse à Minnie que eu não dormiria até você chegar. — Leona solenemente meneou a cabeça na direção da babá que aguardava no batente. Ela apertava o pescoço da mãe sem pretensão de soltá-la. — Mãe, você ouviu?
Leona referia-se ao recado telepático de Eren.
— Sim. — Hange sorriu. — Foi assustador.
— Foi. — Leona concordou. — Nós não tivemos aula hoje por causa da queda da muralha. Mãe, esses titãs vão ir embora, não vão? Não aguento mais esse tum tum tum. Todos os meus amigos estão apavorados. Quer dizer, eu não estou tanto, já me acostumei um pouquinho, mas não gosto de olhar para eles, e eles levantam muita poeira... sério, mãe, tinha tanta areia que parecia um nevoeiro. — Leona olhou o ar. — Agora está menos.
— Não se preocupe, Bolinha. Na velocidade em que esses titãs se movem, estarão longe daqui pela manhã. — Hange tranquilizou-a. — Você fez as lições da escola direitinho?
— Fiz! E fiz tudo sozinha! — Exclamou Leona, orgulhosa. — Quer ver?
— Quero.
Leona voou porta adentro, tão eufórica que nem reparou na presença de Lucy e Buck. Minnie, distante da interação entre mãe e filha, entendeu que a lição era um pretexto para Leona sair de cena.
— Minnie, obrigada por cuidar da Bolinha. Eu devo muito a você.
— Tudo bem, comandante. Estou aliviada que você voltou. Eu já estava começando a pensar
— Me desculpa por te interromper. Você poderia separar algumas roupas da Leona para mim, por favor? E arrume suas coisas, também. — Hange passava as orientações sem exibir apreensão. — Vocês não podem ficar aqui. Essa casa não é segura.
— Como assim? — Preocupou-se Minnie.
Nesse ponto, Leona retornou com o caderno da escola. Hange deu um olhar firme à Minnie. A babá não insistiu no questionamento e entrou na casa.
— Olha, mãe. A gente está aprendendo problemas. Não é difícil. É só prestar atenção se a criança está ganhando balas ou dando.
Hange fingiu conferir os exercícios. Na verdade, ela se atentava à caligrafia de sua filha. As letras cursivas de Leona eram limpas e esbanjavam confiança. Os "Ds" minúsculos possuíam rabinhos, como os de Hange. Ela se abaixou e apoiou a mão no joelho dobrado. O caderno foi colocado no chão. Leona percebeu a seriedade na postura da mãe.
— Tem alguma conta errada?
— Não. — Hange riu pelo nariz. Em seguida, tornou-se circunspecta. — Bolinha, nós ficaremos separadas por um tempo.
— Você vai embora de novo!? — Leona cerrou os punhos. O cenho franzido combinava com a voz indignada.
— Você sabe como o meu trabalho é. Sinto muito.
— Por quanto tempo? Para onde você vai? É por causa do Eren? — Leona questionava com exigência.
— Não sei. Vou sair da ilha. Sim, tem a ver com o Eren.
— Sair da ilha!? — Leona alteou a voz inconformada. Na última vez em que sua mãe saiu da ilha, elas não se viram por um mês. — Mas você acabou de chegar!
— Bolinha, por favor...
Hange era capaz de controlar Leona pelo olhar. No entanto, foi a voz afetada que fez Leona parar de teimar. A garotinha abaixou os cílios e seu punho tremeu. Leona enfrentava uma árdua batalha interna entre o desejo de estar com a mãe e a flexibilidade tolerante.
Então, Leona rogou:
— Me leva com você!
Um turbilhão de informações atordoou a cabeça de Hange. Ela, Levi, e agora o restante do esquadrão 104, estavam prestes a serem criminosos de guerra. Se fossem bem-sucedidos, a recompensa por suas cabeças ia extrapolar a casa dos milhões. Dessa maneira, jamais poderiam regressar a ilha. Se Hange não se separasse de Leona, o perigoso reencontro seria evitado.
Entretanto, uma frase específica da ponderação apareceu grifada: jamais poderiam regressar. As chances de todos morrerem nas próximas horas eram altíssimas. Se Leona fosse a única sobrevivente, acabaria nas mãos dos yeageristas. Ou, se fossem abatidos fora de Paradis, Leona morreria de fome e sozinha. Eram hipóteses assustadoras e prováveis. Deixá-la para trás era tão nefasto quanto, mas Hange tinha um plano para manter Leona o mais segura possível, e por mais que lhe doesse se separar de seu filhotinho, Hange preferia arriscar a própria vida quantas vezes fosse preciso voltando à Paradis para buscá-la, à pôr em apuros aquele pedacinho de si mesma.
— Não posso levar você.
Leona abriu a boca. Hange não a deixou insistir:
— Você não vai ficar aqui em casa. Você vai pra fazenda da rainha hoje...
— Hoje?!
— ...lá tem outras crianças, é tipo um... — Hange se interrompeu antes de pronunciar a palavra orfanato. A comandante limpou a garganta. — ...é tipo uma escola onde a gente dorme.
— Um internato?
— Sim, um internato! A Minnie vai te levar. Você vai morar lá até eu voltar da missão.
— Por que não posso ficar aqui?
Hange teria explicado de bom grado caso dispusesse de mais tempo. Hange nunca escondeu nada da Leona, nem de onde vêm os bebês.
— Desculpe, é uma história longa. — Ela odiou-se por não dar uma réplica à altura da pergunta.
A iminência da indagação transpassou o rosto consternado de Leona. A menina se conteve a contragosto.
— Certo. — Leona lutava para se mostrar inabalável. — Quando você vai me pegar, mãe?
— O mais rápido que eu puder, filhotinho.
Os olhos de Leona, grandes e determinados com os do pai, miraram Hange. A comandante viu o reflexo da frieza característica de Erwin nos olhinhos de sua filha. Mas, é claro, aquilo era uma ilusão proveniente da iluminação da rua e da cabeça perturbada de Hange. A frieza paterna habitava os genes de Leona, mas o calor caia melhor a sua personalidade.
— Vou estar esperando você. — Prometeu Leona em valentia forçada. — Volta mesmo, tá?
— "Volta mesmo"? É claro que eu vou voltar. — Respondeu Hange com energia. — Como pode insinuar que eu abandonaria você? Vem cá, sua boba.
Leona enfiou-se no colo da mãe. Hange sentiu-a tremer. Leona, decerto, enfrentava a vontade de chorar. Hange acariciou o cabelo dourado. Houve uma época em que aquela criança foi um bebê de colo, e Hange a carregou para lá e para cá por todos os cantos, até no banheiro. Hange costumava almejar tanto umas horinhas de folga de Leona, e agora queria estar perto dela sempre.
Hange removeu os óculos e o tapa-olho e beijou a filha nas bochechas, no maxilar, no nariz, nos olhos, nas sobrancelhas finas — graças a Santa você não tem as sobrancelhas do seu pai, filhotinho — e terminou nas orelhas, a área mais suscetível à cócegas. Leona, consolada pelo amor materno, gargalhou e tentou desvencilhar-se dos beijos da mãe.
— Seja corajosa na fazenda.
— Entendido, comandante!
Encontrando bravura na confiança de Hange, a menina levantou a cabeça destemida. Se Leona soubesse que aquela era a última vez que ela veria a sua mãe, teria aproveitado o momento muito mais. Leona encheria Hange de beijos e de abraços, e diria a ela inúmeras coisas que desejava ter contado. Entretanto, Leona não fazia ideia de que Hange ia morrer daqui dois dias, e por isso a ressentida sensação de não ter se despedido como deveria a acompanhará pelo resto da vida.
O barulho da porta sendo fechada indicou a presença de Minnie. A babá havia vestido o casaco, contudo esquecera de trazer o da criança. Leona vestia uma camisa velha, bermuda e nada nos pés, exatamente do jeitinho como Hange a imaginava quando pensava nela.
— Você nunca sente frio?
— Frio? — Leona apertou as sobrancelhas, confusa. — Está até bem quente hoje.
— Você é impossível. — Embora as palavras soassem como reprimenda, Hange sorria com ternura. Ela desamarrou a capa e enrolou-a em Leona com as asas da liberdade para baixo.
As três saíram do quintal da casa para a qual nenhuma retornaria. O rostinho de Leona iluminou-se ao ver Lucy e Buck. Minnie, em contrapartida, preocupou-se.
— Não vamos de carruagem? Eu não sei cavalgar.
— A Leona sabe.
Hange colocou Buck perto do murinho. Leona entrou em êxtase — Hange nunca a deixara comandar Buck pela cidade. Leona sentou no garrote e deixou a sela para Minnie. Hange arrumou os estribos para a altura dos pés da babá, pois ela era menos experiente.
— Bolinha, cuide do Buck. Agora, ele é seu.
— Meu!? — Leona sorriu de orelha a orelha. — O Buck vai ser o cavalo mais feliz do mundo! Vou cuidar dele direitinho! Vamos chegar na fazenda são e salvos!
Leona, esquecida da separação entre ela e a mãe, ria de alegria. Hange, embalada pelo brilho da filha, entusiasmou-se um pouquinho.
— É isso aí, filhotinho! — Ao voltar-se para Minnie, seu rosto adquiriu uma expressão sincera de gratidão. — Desculpe por te meter nessa, Minnie.
A babá tentou dar de ombros, mas estava aflita demais para tal. Hange citou as coordenadas da fazenda para Minnie e instruiu Leona a obedecer a babá. Hange acrescentou, em tom soluto:
— A fazenda fica no leste — o lado onde o sol nasce. Se vocês se perderem, peçam informações aos civis. Evitem qualquer militar, não importa o desenho na capa.
Leona arqueou as sobrancelhas, porém não questionou a ordem. A garotinha agitou as rédeas. Hange assistiu a silhueta equina desaparecer na rua. Ela recordou com ansiedade materna que Leona estava descalça e de bermuda na madrugada fria. Acalmou-se pensando na capa militar. As capas da Tropa de Exploração são fabricadas para resistir ao frio e à chuva. Leona ficaria aquecida até o fim de sua aventura.
XXX
Depois de sair do distrito, Hange não precisava mais de Lucy. Mikasa e Jean trariam cavalos amanhã. Em outras palavras, Lucy era dispensável a partir de agora. Hange tirou os arreios da égua. Uma vez sem o freio na língua, Lucy mastigou o ar e lambeu os beiços.
— O seu dono quer libertar você, Lucy. Aproveite o campo, menina.
Hange afugentou Lucy com uma palmada no traseiro. Ela abandonou os adornos de montaria e regressou ao acampamento a pé. Eram três da manhã. Dava tempo de dormir algumas horinhas. Hange chegou fazendo barulho para alertar o sentinela. Quando estava a poucos metros da clareira aonde ela, Levi e os aliados de Marley acampavam, Hange declarou, em alto e bom tom:
— Temos a mesma missão, você e eu.
Essa era a senha de identificação — para não tomar tiro por acidente. Magath vigiava as instalações com a sua submetralhadora de prontidão. Adiante, Pieck dormia enrolada num dos lençóis de Levi.
— Boa noite. — Hange cumprimentou.
Hange detectou a resistência de Magath em retribuir a saudação na face mista de constrangimento e aborrecimento do comandante de Marley. O embaraço venceu, e Magath deu-lhe um aceno de cabeça breve e duro.
— Yelena está viva. — Anunciou Hange. Os olhos de Theo Magath brilharam perigosamente. — A execução dela está marcada para amanhã, junto com a de outro voluntário chamado Onyankopon. O meu soldado, Jean, vai acompanhar o procedimento. Ele vai ganhar tempo para o titã carroça atacar. Ele e Mikasa, minha outra soldada, garantiram o apoio do portador do titã colossal.
Magath assentiu. Hange deixou-o e mirou Pieck. Ela se perguntou se não seria ousado demais acordar Pieck e pedir para dar uma voltinha em seu titã. Ao concluir que não se deve abusar da boa-vontade de aliados imprevisíveis, Hange caminhou até o capitão adormecido.
Hange retirou as botas e deitou-se em baixo do lençol, largando os óculos ao seu lado. Através da espinha, Hange sentiu a inofensiva vibração resultante da marcha de titãs colossais. O ruído surdo e constante a terrificava.
A comandante fitou as estrelas pelos espaços entre os galhos das árvores. Os galhos eram figuras embaçadas em sua visão fraca, e as estrelas não passavam de manchas borradas no céu azul-escuro. Hange viu parte da lua-cheia que já se recolhia para o oeste. Em algum lugar, vigiada por aquela lua, sua filha cavalgava rumo à fazenda da rainha.
Hange sentiu o peso do olhar de alguém — a impressão sobrenatural vivenciada pela primeira vez no funeral de Sasha e que desde então a acompanhava. A sensação vinha da esquerda, o ponto cego de Hange. A comandante pensou, delirando, que a pálpebra vazia enxergaria os fantasmas do cemitério. Hange não teve coragem de levantar o tapa-olho.
— Hange.
A comandante emitiu uma exclamação de susto. Ela levou alguns segundos para reconhecer a voz de Levi. Hange deu o olho bom ao capitão e, acariciando o rosto envolto em bandagens, respondeu:
— Eu não sabia que você estava acordado. Está sentindo dor?
— Eu estou ótimo. — A mão inteira de Levi entrelaçou-se na de Hange por baixo do lençol. — Você conseguiu falar com os soldados?
— Consegui. Eles estão dentro. Vamos começar amanhã.
— E a Smith?
— Ah... — A voz de Hange tornou-se chateada. — Eu a mandei para a fazenda da rainha. É o lugar mais seguro da ilha.
Quando começassem o ataque, a família de todos estaria com um alvo nas costas. É provável que, a essa altura, Jean estivesse escondendo sua mãe. Nas últimas vinte e quatro horas, Paradis tornou-se tão sanguinária e tirana quanto sua arqui-inimiga marleyana. Ela percebeu, com uma dor profunda, que aquela ilha não era mais seu lar, nem o de Leona, nem o de Levi. Quando esse inferno acabasse, Hange faria de tudo para buscar Leona. Custe o que custar, Leona conheceria o mundo que sua mãe protegeu/tentou proteger.
Hange aninhou a cabeça perto do ombro do capitão. Seus dedos apertaram os dele, e ela sussurrou:
— Levi, se eu não sobreviver...
— Não tenho tanta sorte. — Levi respondeu prontamente. Aquele era o jeito meigo do capitão de dizer "você não vai morrer".
— ...você volta pra pegar a Leona? Essa ilha não é mais o nosso lugar. — Completou Hange.
Hange encarou o olho remanente do capitão. Levi fitava as estrelas sem piscar. O capitão demorou longos segundos para falar alguma coisa. Por fim, à guisa de consentimento, Levi disse:
— Hange, feliz aniversário.
— Huh? — Hange piscou, aturdida. Ela lembrou que era início de setembro. Parece ter acontecido há vinte anos, mas há poucos dias Hange estava escolhendo os doces para a festinha de Leona. — Ainda não é meu aniversário. É só depois de amanhã.
— Feliz aniversário adiantado, Hange. — Rebateu Levi, enfatizando em sua voz sem emoções.
— Bem, heh, obrigada.
De alguma forma, aquela besteira foi um bom consolo. Com muita gentileza, Hange beijou os lábios de Levi por sobre as bandagens e aconchegou-se nele, ainda de mãos dadas. Hange estivera tão atrapalhada que esqueceu do próprio aniversário, embora não o de Leona.
A assimilação que clareou a mente de Hange veio acompanhada de uma dorzinha agridoce no coração. Era isso que você estava tramando, filhotinho? Eu estava planejando a sua festa de aniversário, e você uma surpresa para o meu. Hange pensou com docilidade, e deu uma risadinha ao lembrar-se do autocontrole vacilante de Leona sobre o segredo que tentava guardar.
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