Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
21 O preço da medalha
Minnie era uma pessoa como qualquer outra. Dessa forma, a existência da babá não se resumia ao trabalho na casa da comandante. Quando Minnie precisava se ausentar por um motivo ou outro, Leona tinha o prazer de passar o dia com a mãe no quartel-general aonde viveu a primeira infância.
O tapete quadrado, normalmente decorando o meio do escritório, foi arrastado para longe da porta e fora do caminho. O tapete era o reino de Leona. Quanto ao resto do escritório; território de Hange. Leona podia fazer bagunça desde que a algazarra não ultrapasse os limites da sua terra. Caso cruzasse a área, sua mãe faria O OLHAR. Leona detestava O OLHAR. Significava que sua mãe estava ou ficaria brava — dependendo do contexto. E se Hange se enfurecesse, meus amigos... broncas severas aconteciam, brinquedos eram confiscados e sobremesas, proibidas.
Não havia nada para brincar no escritório, portanto trouxe de casa um saco de brinquedos. Espalhou-os à sua maneira pelo largo tapete, separando-os em dois grupos: animais e humanos. Organizou cada conjunto por ordem de tamanho, colocando as figuras em fila indiana. Deixou os bonecos assim e foi brincar com os rascunhos de relatórios e projetos que Hange lhe dera.
Na escrivaninha, Hange tinha um cartaz disposto à sua frente. Havia um grosso livro aberto ao lado, o qual Hange lia de cenho franzido e lábios comprimidos. De vez em quando, parava de ler e escrevia no cartaz. Leona, observando os hábitos de sua genitora, pegou as próprias páginas e tentou lê-las tal qual a mãe fazia, copiando até a expressão concentrada.
A arte da leitura era uma área nova na vida de Leona. Já conhecia todas as letras, todinhas mesmo, vogais e consoantes. Vê-las individualmente mascarava a dificuldade da atividade — ler parecia muito fácil. Porém, a tarefa de manipular as letras para formar silabas se mostrava muito mais complicada. Conseguia entender algumas como "ba", "ma", "ca" que junto com "sa" vira CA-SA. Os relatórios dados por sua mãe, por exemplo, possuíam sílabas difíceis de decifrar. Leona fez careta ao encontrar um termo imenso e horroroso com, pasmem, duas consoantes juntas. Deitada de barriga para baixo, quase encostava o nariz na folha tentando ler a palavra comprida.
— Esse aqui é o I... aqui o N... A... — Pôs o dedo em baixo de cada letra, apertando os olhos. — I-N-A-D-M-I-S-S-Í-V-E-L. — Tentou juntar uma na outra, fazendo força para descobrir o som correto da sílaba. Que tipo de vocábulo é composto por duas consoantes juntas? Essa monstruosidade deveria ser proibida. — Imademisseveu. — Espera! Conhecia aquela palavra. — Inadmissível!
Sucesso! Comemorou sacudindo as pernas no ar. A próxima palavra, "cobrar", foi fácil após a abominação. A frase completa era é inadmissível cobrar impostos dos voluntários. Leona, é claro, não compreendeu a sentença completamente. Interpretou que é deselegante pedir tal coisa de algumas pessoas. Agora, o que, de quem e porquê, não entendeu.
— Mãe, o que são impostos?
Perguntou Leona. Hange respondeu no automático.
— Imposto é o dinheiro que a gente paga pro governo cuidar da ilha.
A menina aquiesceu, e nisso alguém bateu na porta. Leona olhou por cima do ombro e viu um velho barrigudo carregando uma grande caixa embrulhada para presente. Ficou curiosa, entretanto, não podia se intrometer na conversa dos adultos. Voltou para a leitura, tentando ignorar o intruso.
— Bom dia, general Zackly. Que surpresa! Nem pude arrumar o quartel para a sua visita.
Cumprimentou Hange, bem-humorada e divertida. O general Zackly sorriu e fez menção de colocar a caixa na escrivaninha. Hange precisou tirar o livro para dar espaço.
— Bom dia, comandante Hange. Desculpe vir sem avisar. Esse quartel é uma casa da limpeza perto da sede da polícia. Indo direto ao assunto, estou de passagem pela cidade e resolvi vir pessoalmente pegar as fichas atualizadas dos soldados marleyanos que estão sob a nossa custódia. Já estão prontas?
— Claro, só um segundo.
Hange escancarou as gavetas. Demorou menos de um minuto para encontrar a papelada.
— Aqui estão.
— Puxa, são muitas. Ainda bem que eu trouxe a minha pasta.
Zackly tirou uma pasta-arquivo de dentro do paletó. Após guardar os documentos, deu batidinhas na caixa embrulhada.
— Comprei um presente para a menina do Erwin. Ela está com três anos, certo?
— Quatro. Bolinha, vem dar oi pro senhor Zackly.
Leona ficara em pé ao som da palavra presente acompanhada pelo vocábulo menina. Já se aproximava antes mesmo da mãe chamá-la, a curiosidade era maior que o anseio em obedecer a regra pré-estabelecida de não se intrometer na conversa dos outros.
— Pela Santa! Tem criança aqui? Eu nem reparei.
Leona parou numa distância respeitável. O senhor Zackly era muito mais velho e peludo visto de perto. Ele devia ser uma PESSOA IMPORTANTE, por causa da medalha vermelha pendurada em seu pescoço — sua mãe usava uma também, só que verde. Esse homem é poderoso, preciso mostrar que sou grande e educada, pensou Leona. Juntou os pézinhos um no outro, endureceu a face e estendeu a mão num único movimento firme.
— Que educação! Vejam só, uma pequena comandante.
Comandante era a forma como as pessoas chamavam sua mãe. Leona sabia que o termo tinha um significado superior; pujante. O quartel inteiro pertencia à sua mãe, os homens e as mulheres a obedeciam, ela viajava para lá e para cá e todos a respeitavam. Enquanto o senhor Zackly sacudia seu braço para cima e para baixo, Leona sorriu de canto e se encheu de alegria por ter sido chamada pelo mesmo termo designado à sua mãe. Já considerava Zackly amigo.
— Sabia que eu conheci o seu pai? Minha Santa, você é parecidíssima com ele! Hange, me perdoe, você só pariu. Essa menina é o Erwin, sem tirar nem pôr. Só a cor do olho é diferente.
Através de histórias, Leona descobriu que seu falecido pai também foi comandante. Não sabia muito sobre a morte além do básico. Hange explicou que a morte é quando uma pessoa, animal ou planta, vira estrelinha. Você vai pro céu e nunca mais desce. Leona sabia que o pai havia "virado estrelinha" antes dela nascer e jamais apareceria — nem para um café rápido.
A falta do pai não a incomodava. Vivia bem sem PAI. Não era ridicularizada por outras crianças porque em seu bairro muitas também não possuíam PAI. Sua mãe tinha um PAI e não gostava dele. Talvez, ter PAI nem fosse tão legal assim.
No entanto, não era como se não tivesse vontade de conhecê-lo — sim, tinha essa curiosidade, como toda criança. No futuro, Leona vivenciaria terríveis sentimentos fantasmas por causa da ausência paterna. Afinal, de tempos em tempos, passamos pelo nocivo sentimento de ser privado de alguma coisa que, em geral, quase todo mundo ou muitos têm — dinheiro, namorada, animal de estimação, emprego, mãe, pai. Entretanto, isso só aconteceria daqui algum tempo. Aos quatro anos, Leona só sentia o encanto infantil de ouvir uma história emocionante sobre o homem que fez parte da sua família.
— As coisas nem sempre foram fáceis como são agora. A gente não tinha tecnologia porque o governo não deixava. Sabe aquelas pedrinhas que deixam a cidade toda iluminada a noite? Não existiam, o governo escondia tudo. Você sabe o que é governo, menininha?
— Minha mãe disse que é o negócio que manda nas muralhas.
— Que menina inteligente! Você está a educando bem, Hange.
O senhor Zackly se abaixou para ficar na sua altura. Os olhos dele brilhavam.
— Você tinha que ver. O seu pai arquitetou um plano para derrubar o governo, eu acompanhei tudo.
Durante vinte minutos Zackly contou a história sobre o golpe militar que expulsou Rod Reiss e colocou a rainha Historia no poder. No meio da narrativa, Zackly cansou de sustentar o peso nos joelhos e acabou sentado no chão. O senhor Zackly relatou o sequestro de Eren, a força militar secreta da polícia e as memórias apagadas. Zackly terminou a história contando sobre a coroação da rainha — Historia recebeu a coroa na plataforma construída para executar Erwin. Leona bateu palmas e girou no mesmo lugar. A vida de seu pai rendeu histórias emocionantes.
— MÃE, VOCÊ OUVIU O QUE O MEU PAI FEZ!?
Hange deu uma risada nasal amorosa para a garotinha alegre. Todavia, ao desviar o olhar para Zackly, o semblante da comandante adotou, de súbito, o toque sombrio outrora oculto atrás do sorriso simpático.
— É sempre divertido lembrar os feitos do Erwin.
Hange deu uma sutil ênfase no nome do falecido. Se Zackly reparou, não transpareceu. O general deu um beijo na bochecha da criança eufórica antes de levantar. Hange, por trás das costas do velho, fez cara de quem acaba de pisar na merda.
— Ah, sim, já ia esquecendo. Trouxe um presente pra você.
— Deixa que eu pego!
— Tem certeza? É pesado.
Leona direcionou o olhar pedinte para Hange. A comandante consentiu. O senhor Zackly ajudou-a a pegar o pacote. Nossa, como era pesado! Leona gemeu e suas costas quase cederam ao peso. Caminhou a passos curtos de volta para o tapete, tomando cuidado para não tropeçar. Após arrancar o papel colorido, Leona descobriu que o presente era um baú de mogno talhado com flores douradas. Alisou os desenhos. A madeira era crespa nas flores — gostosinho de tocar. Girou a chave na fechadura. No interior do baú, encontrou uma boneca de pano e doces caros da Capital — pirulitos, trufas e balas de caramelo.
— Quanta coisa. Obrigada, senhor Zackly!
— De nada, pequena Smith.
Leona ignorou os dois adultos a partir daí, entretida pelo conteúdo da caixa. Hange acompanhou o general Zackly até a saída.
— Obrigada por lembrar da Leona.
— Disponha. Crianças são uma benção, não concorda? Uma pena os meus já estarem grandes. Até logo, comandante.
Hange retornou sem mostrar curiosidade pelo presente da filha. Leona chupava um pirulito delicioso — os doces da Capital eram maravilhosos — e organizava o acervo do baú no tapete em meio círculo. Ergueu a cabeça orgulhosa feito pirata comtemplando o tesouro.
— Olha, mãe, estou rica.
Hange, concentrada no trabalho, não deu a mínima ou não ouviu. Sua mãe costumava ficar irritada com interrupções, então talvez não fosse uma boa ideia chamá-la pela segunda vez. Sendo assim, Leona, com o doce na boca, empilhou suas folhas uma em cima da outra, dessa vez ignorando o conteúdo dos relatórios. Fingiu que cada página era a ficha de um soldado, e que em breve alguém importante viria busca-las.
— Olha, mãe, estou fazendo coisa de comandante!
Hange trabalhava no projeto de forma árdua, o único olho bom encarando o cartaz tal qual fitaria um inimigo mortal. A boca cerrada e as rugas denunciavam ausência de bom humor. Traçava linhas e mais linhas com o braço duro. A folha emitiu um barulho cortante ao ser rasgada em duas. Leona trincou os dentes e pestanejou. Daquele ângulo, a menina só conseguia ver o reflexo dos óculos e o tapa olho negro. Percebendo a carranca da mãe, Leona abandonou seu importante trabalho de comandante para ir cuidar dela.
— Mãe?
Mesmo estando ao lado dela, não obteve resposta. Puxou a camisa amarela. Hange virou o rosto para Leona. Ela sorria; a áurea de frustação desaparecida num passe de mágica.
— Desculpe, não ouvi você. O que foi?
— Por que você está brava?
A mãe piscou duas vezes e a sobrancelha do olho bom se ergueu.
— Eu não estou brava.
— Mesmo?
— Mesmo.
— Mesmo, mesmo?
Hange sorriu sem mostrar os dentes.
— Eu estou bem. Vai pro seu tapetinho.
Leona estudou o comportamento da mãe. O sorriso não lhe era convincente. Parecia falso. Via, por trás da face tranquila, um insondável sentimento que era incapaz de compreender o significado e a fonte.
A boca da garotinha fez um bico torcido, e emitiu um longo huuum gutural. O semblante de Leona era o de uma pessoa procurando a solução para um problema complexo. Sua mãe estava bem até o senhor Zackly aparecer. Suspeitava que o descontentamento da mãe tinha relação com a visita, porém, não entendia o contexto. Após ponderar, chegou a uma conclusão.
— Já sei. Você está triste por que o senhor Zackly não trouxe um presente pra você.
— Leona...
— Não se preocupa, bela donzela, eu resolvo isso.
Saiu às pressas. Pegou a boneca e metade dos doces numa braçada só. De volta à escrivaninha, colocou os doces, um ao lado do outro, na superfície de madeira, bem na frente de Hange.
— Tó!
Ao terminar, Leona deu a volta para ficar ao lado da mãe, trazendo a boneca pelos cabelos. Olhou para o brinquedo de pano. Bem, essa parte seria um problema. Como se divide objetos individuais? O olhar perplexo alternou da mãe para a boneca.
— Como a gente divide isso? Cortamos ao meio? Você quer a cabeça ou as pernas?
Embora Leona estivesse falando de um assunto muito sério, a mãe explodiu em gargalhadas. Hange agarrou o rosto da filha com as duas mãos e lhe deu um beijo molhado no nariz.
— Bolinha, eu não mereço você.
Leona sorriu de olhos fechados, contente por sua mãe ter se animado sem precisarem decapitar a boneca.
— Me empresta um lápis? Quero desenhar armas e estratégias pro meu exército igualzinho você faz, já que eu sou uma pequena comandante.
Disse, toda pomposa. Tentando imitar a continência da Tropa de Exploração, pôs a mão errada no peito. A verdadeira comandante, em meio à risadas, pegou a outra mão da filha e a colocou fechada na caixa torácica, sobre o jovem coração.
— Você dedica o seu coração pela humanidade, pequena comandante?
— Dedico, grande comandante!
Sua mãe não só deu o lápis como também entregou a régua e mais uma coisinha. Hange retirou o medalhão de comandante, e Leona ficou imóvel vendo a corda ser aproximada de sua cabeça. O metal repousou docilmente em seu peito de criança. Os olhinhos brilharam de felicidade. Gritou de alegria, agora estava mais parecida com uma comandante do que nunca. Saiu marchando pelo escritório, deixando Hange derretida.
Sabia que o senhor Zackly estava falando de seu pai quando a chamou de comandante. No entanto, Leona pouco ligava para governos, revoluções, reis, rainhas e execuções. Na sua opinião, o comandante ideal é uma mulher de óculos que faz experiências cientificas e é dona da melhor risada da Terra. Ah, nem todas as histórias do mundo a fariam pensar diferente.
XXX
Leona dividiu os brinquedos em dois times. Virou um relatório para escrever no verso em branco. Pôs a mão entre o nariz e a boca, e começou a matutar uma estratégia de guerra para o exército paradisiano combater as tropas marleyanas.
O tapete tomou a forma de um extenso campo, e seus bichinhos ganharam uniformes. O senhor Cachorro teve os dentes aumentados, músculos humanos nasceram em seu corpo outrora recheado de fibra, dedos apareceram nas patas arredondadas e todos os pelos caíram para dar lugar a pele lisa e vermelha — aquele era o titã colossal do seu exército. A estratégia veio em instantes. Deitada de bruços, delineou o plano para enfrentar a frota inimiga. De tempos em tempos, parava de desenhar e espreitava em busca de espiões.
— Venham aqui!
Leona trouxe os brinquedos para perto. Uma bonequinha ficou para trás. A soldada tremia de medo.
— Barbie, se você não lutar, vou te prender por deserção, e você será castigada com pena de morte.
A bonequinha se pôs de joelhos ante a inclemente comandante, implorando por favor misericórdia, tenho filhos para criar. Leona apontou o espaço vazio entre os brinquedos alinhados. A boneca veio correndo enfiar-se entre eles, limpando o suor com a mão de plástico. Leona estendeu o desenho no chão de terra. A folha era um amontoado de linhas, garranchos desconexos imitando letras, rostos angelicais e outros diabólicos. De alguma forma, o plano ali representado fez sentido para o exército de bonequinhos.
— Nós vamos esperar os marleyanos chegarem nas muralhas. Você, titã colossal, vai devorar o titã encouraçado.
Olharam de soslaio o segundo time de brinquedos, que os encaravam pelo rabo do olho igualmente e discutiam a própria estratégia. O titã colossal concordou, ansioso para derrotar o inimigo. Do outro lado, o titã encouraçado – a boneca de pano dada por Zackly – mostrou o dedo do meio. A cabeça da comandante ferveu e os brinquedos eldianos berraram ofensas.
— Não vamos perder a paciência. Sejamos ajuizados como bons militares. Vejam o que tenho a dizer...
Nesse momento, três batidas soaram na porta do escritório. Entraram Jean, Floch e Eren. Leona parou de brincar, reparando nos visitantes. Jean foi até a escrivaninha onde Hange sentava, enquanto os dois acompanhantes permaneceram próximos a porta.
Leona voltou para a brincadeira, e logo o tapete retomou a forma do terreno de batalha. Porém, a imaginação não durou muito. Sentia-se estranha, importunada. Girou a cabeça e descobriu o homem de cabelo comprido a fitando. Floch fazia o mesmo. Ambos sorriam, e não com bondade. A presença dos dois a deixou inquieta.
Engoliu em seco e buscou refúgio em seu exército, entretanto, os bravos soldados voltaram a ser figuras inanimadas. O time de marleyanos se encontrava na mesma situação. A boneca mal-educada jazia deitada perto do baú; a boca vermelha sorria para Leona, os olhos vazios, contudo, nada expressavam.
Mexeu-se desconfortavelmente no tapete. O olhar da dupla de soldados era pesado feito bigornas. Tentou focar-se no desenho, em vão. Virou a cabeça devagar, e percebeu que Eren e Floch tinham se aproximado. O sorriso de ambos os rapazes carregava uma perversidade com a qual Leona não estava acostumada. Sentiu-se vulnerável no meio daquele tapete, sem nenhum móvel ou parede próxima para se esconder. Mordeu o lábio, agarrou o desenho e levantou-se dali, resolvendo ir para perto de Hange.
Entretanto, foi só fazer menção de sair que os dois homens avançaram de vez. Floch puxou o desenho de suas mãos enquanto Eren a segurou pelos ombros. Leona, incrédula, mirou Floch com ar questionador. Não entendia o porquê dele ficar cruel na presença de Eren.
— Oi, Bolinha, vamos brincar?
Odiava brincar com Eren; ele era bruto e sempre dava um jeito de direcionar a brincadeira de um jeito que os outros ficassem na desvantagem. Sacudiu o corpo para se desvencilhar das mãos do rapaz. Seus punhos se fecharam, adotou uma pose defensiva.
— Me deixa.
Eren e Floch conversaram através do olhar, e então ambos deram risada em uníssono. Dando risada dela. Ora, não tinha contado piada nenhuma para eles estarem rindo. Posicionou o corpo de forma a não dar as costas para nenhum dos homens. Vendo de longe, parecia uma roda de conversa, embora não fosse.
— O que é isso?
Floch olhava para o desenho com interesse fingido, fazendo um beiço debochado.
— É uma estratégia pro meu exército.
O soldado escancarou a boca risonha. Não era uma risada divertida — pelo contrário, esbanjava malignidade. Leona pestanejou, confusa e meio atordoada. Era a primeira vez que alguém ria de seus desenhos, e esse acontecimento desagradável a marcará pelo resto da vida, tal qual aquela situação desconcertante que você passou quando criança te afetou igualmente, e até hoje você a carrega em forma de hábito, conduta, opinião ou modos.
— Esse monte de linhas sem sentido é uma estratégia? Nossa, coitado do seu exército. Vai morrer todo mundo.
— Que horror, Floch. — Riu Eren.
O rostinho infantil encheu-se de fúria. Floch ergueu a palma da mão para Eren, fizeram toca aqui. O cumprimentou causou um barulho estalado. Leona saltou sobre Floch, cometendo o erro de dar as costas a Eren.
— Me devolve.
Leona ficou na ponta dos pés e puxou o uniforme de Floch, tentando chegar ao desenho. Floch, muito sério, colocou os pulsos na cintura, balançou o quadril para a esquerda e para a direita e sacudiu a cabeça na direção oposta cada vez que jogava o quadril para um lado. O soldado ceceou numa voz absurdamente fina:
— Nã-na-ni-na-não.
— Me dá!
— Pede direito.
— Devolve!
— Não vai pedir com educação?
— Não.
Floch enrolou o papel em formato de tubo. O usou para bater na cabeça de Leona.
— Peteleco.
Leona pôs as mãos na região atingida. O golpe não causou a dor física, só psicológicas. Rangeu os dentes e avançou novamente, tentando bater nele. Floch não fez nada além de rir. Nesse instante, seu erro de dar as costas a Eren veio cobrar as consequências. O outro homem lhe deu um tapa na nuca.
— Peteleco.
O coraçãozinho batia acelerado. O pranto em forma de bola subiu pela garganta. O engoliu. Desceu rasgando. Não ia chorar na frente deles. Atacou Eren, e Floch lhe deu outro golpe com o tubo de papel.
— Peteleco.
— Para!
A voz infantil saiu embargada e o lábio inferior tremeu. Estava a beira das lágrimas. O divertimento dos soldados, contudo, a fez controlar o choro. Em vez de chorar, resolveu surtar. Sacudiu os punhos e bateu o pé no chão repetidas vezes, gemendo de raiva. Mordia o interior da bochecha com força, uma afta surgiria naquele local.
— Huh, o que é isso no seu pescoço?
Floch reparou de repente no medalhão. Leona olhou para baixo involuntariamente, e depois ergueu a cabeça para Floch. O homem se pôs de cócoras e pegou a medalha. Leona a puxou e a abrigou entre os braços. Aquilo era da sua mãe, Floch não tinha direito de tocar.
— A minha mãe me deu.
Ouviu Eren agachar-se logo atrás. Virou o corpo. Encarava os dois soldados alternadamente, protegendo a medalha no peito. Ali, entre eles, Leona sentiu um presságio de perigo. O que será que a galinha sente quando encurralada pela raposa? Deve ser a mesma sensação.
— Sua mãe te deu a medalha de ranking, Bolinha? Então você é nossa comandante agora?
Mais cedo, a ideia de ser comandante trouxe deleite ao coraçãozinho infantil, mas ouvi-la da boca de Eren, não. O mesmo acontecia com o seu apelido. Na boca da mãe e dos outros soldados, Bolinha soava carinhoso, no entanto, Eren pronunciava o apelido com malícia maldosa. Não gostou. Deixava a palavra feia, muito feia. Passou por sua cabeça que talvez fosse melhor não ser Bolinha.
Eren investigou Hange. A comandante falava sem parar e Jean escutava atentamente. Então, Eren direcionou a cabeça para Leona tão de repente que o cabelo longo se agitou. Não sorria mais.
— Bom, estou vendo que você não completou o ritual para ser comandante.
— Como assim?
— Para ser comandante, você vai ter que fazer um sacrifício. — Explicou Eren, sério. Deu uma olhadela para Floch. — Não é mesmo, Floch?
O soldado levou menos de três segundos para captar a mensagem.
— É, como sua mãe e seu pai fizeram.
A voz mansa de Floch combinava com o sorriso vulpino. Leona apertou a medalha. A conversa de Eren a instigava. Sua mãe nunca falou de sacrifício algum, sequer sabia direito o significado da palavra sacrifício. Pela cara de Eren, não era uma coisa boa.
— Me explica.
— Bem, para ser comandante, você vai ter que entregar uma parte do seu corpo.
Leona franziu o cenho, recuando institivamente. Entregar uma parte do corpo? O que aquilo queria dizer? Sua mãe nunca tinha dito nada parecido, nem em conversas com os outros adultos.
— O que vocês querem dizer?
Quem respondeu foi Floch.
— Ora, veja a sua mãe. Por que você acha que ela não tem olho?
Leona já tinha a questionado sobre isso. Hange respondeu que o perdera numa batalha antes da filha nascer. No mesmo dia, perguntou se sua mãe já era comandante quando ficou cega do lado esquerdo. Hange disse que foi nomeada após a mesma luta. Sendo assim, o ponto de Floch e Eren tinha fundamento.
— Minha mãe deu o olho para virar comandante?
Ouviu a própria voz dez vezes mais fina. Apertou a medalha inconscientemente. O preço de sua mãe para tê-la foi um olho. Sua pobre mãezinha precisava girar a cabeça para ver certos ângulos e usar algodão pra sair no sol quente por causa daquela coisa redonda. O metal aqueceu devido a força com que o apertava.
— Sim. E seu pai deu o braço.
— O braço?
Ninguém jamais contara essa história. Até então, Leona achava que seu pai foi um homem com dois braços, como todo ser humano. Não conheceu o rosto do pai, nem a altura, a textura da sua pele ou seu sorriso, e por isso não conseguia imaginar essas coisas – o rosto de seu pai era um borrão – mas sempre que pensava nele, imaginava uma pessoa completa. Sacudiu a cabeça repetindo negativas, mortificada. Os dedos suaram contra o metal quente.
— Você sabe como é o ritual, Bolinha?
Eren colocou as duas mãos e os joelhos no chão, ficando de quatro. Os olhos verdes eram duas bolas gigantes e trêmulas a encarando sem piscar. Leona não recuou. Queria saber a história toda.
— N-não.
— Quando uma pessoa é nomeada comandante, ela tem uma parte do corpo devorada por um titã. É um ritual para que a pessoa no comando entenda a dor que os soldados sentem ao perecerem em campo, e assim planeje suas estratégias com sabedoria.
— Eu estava lá no dia que a sua mãe perdeu o olho.
Floch também se colocara de quatro. Os dois adultos avançavam vagarosamente. Leona andou para trás sem desgrudar os olhos dos semblantes sombrios. Um baixo gemido de susto escapou quando suas costas bateram na estante. Um livro de capa dura oscilou para frente e para trás, por pouco não despencando. Floch começou a narração em voz contida, tentando esconder a ansiedade (e o prazer).
— Sua mãe apareceu com a cara sangrando, Bolinha, igual quando a gente corta o dedo, só que muito mais sangue. O olho dela estava destruído, não deu para salvar nada.
— Eu assisti o ritual do seu pai. Um titã anômalo veio correndo e o arrancou do cavalo pelo braço. Sacudiu o seu pai igual um chocalho. Tiveram que cortar aqui — Eren bateu no bíceps — para tirá-lo da boca do titã.
Daqui algumas horas, após o expediente, Hange irá desmentir essas histórias. Eren estava muito ocupado sendo sequestrado quando Erwin perdeu o braço, e Hange já havia dado um jeito no olho antes de encontrar Floch. Nenhum deles viu nada. No entanto, aos quatro anos, a gente tende a acreditar em tudo que nos contam.
Leona tentou imaginar um homem loiro de olhos azuis – a melhor referência sobre seu pai – com um vazio no lugar do braço. Não conseguiu. Tentou fazer o mesmo com sua mãe. A pálpebra esquerda de Hange era riscada de vergões vermelhos. Hange não conseguia fechá-la completamente, nem abri-la por movimentos faciais. Em baixo havia uma polpa rosada de carne. Uma vez, a mãe puxou a pálpebra para mostrar a massa no buraco onde o olho existiu. A visão foi perturbadora. Leona pensou na mãe sangrando, o olho balançando para fora da órbita feito um pêndulo, Hange desesperada tentando colocar o olho no lugar. Será que tiveram que cortar?
— Isso é horrível.
— Bolinha, o ritual do comandante é um pesadelo.
Os dois suspiraram, comovidos pelo sacrifício de seus líderes. Em seguida, Eren arreganhou boca num largo sorriso, mostrando todos os dentes amarelos. Floch deu uma risadinha. Leona, por outro lado, estava atordoada.
— E então, Bolinha, o que vai ser? Olho ou braço?
As mãos tremeram em volta do medalhão. Gaguejou até elaborar a frase completa.
— Eu não quero mais ser comandante.
— Então devolve a medalha. — Disse Eren, estendendo a mão.
— Mas foi a minha mãe que me deu.
— Aceitar a medalha significa aceitar o posto. — Explicou Floch.
Leona ficou aturdida e sem ter o que responder. O cérebro infantil planejava uma resposta complexa envolvendo informações guardadas no subconsciente. Existe um detalhe na história que pode salvar seu corpo, aconselhava a voz inaudível da subconsciência. Eren e Floch disseram que o comandante precisa entregar parte do corpo para um titã. Sua mãe contou diversas narrativas sobre os monstros terríveis que assolaram Paradis, e sempre terminava as histórias lamentando não ter feito mais experiências científicas com os titãs puros — atualmente extintos. Sim, EXTINTOS. Ao fazer a conexão, ergueu a cabeça triunfante. O peso do medalhão tornou-se menor.
— Vocês estão errados. Não preciso entregar nada porque não tem mais titãs em Paradis.
Os soldados pararam de rir. Eren e Floch se entreolharam, admirados à moda da gente grande quando crianças dizem frases evoluídas demais para sua idade, cruéis ou engraçadíssimas. Gloriosa, deixou a medalha cair sobre, as asas da liberdade impressas no metal brilhante cintilaram ao bater pouco abaixo do peito — a corda era longa demais para seu pescoço de criança. No entanto, o sorriso desvaneceu conforme os dos soldados ressurgia. Floch retomara seu riso ardiloso, enquanto Eren ria de boca fechada.
— Ora, você esqueceu que o Eren é um titã?
Leona se calou, a pupila virou um pontinho. Tentou andar para trás. Bateu na estante e dessa vez o livro de capa dura despencou com a capa virada para baixo. O baque a assustou. Leona disparou pela esquerda, mas os soldados estavam perto demais. Floch nem precisou esticar o braço para agarrá-la. Leona se debateu em vão. O soldado sentou com ela entre as pernas, mantendo as costas da garotinha bem presas ao próprio peito, e os bracinhos amassados aos lados do corpo pequeno. Podia chutar o quanto quisesse, não ia atingi-lo. Já Eren foi até o tapete. O rapaz pegou o lápis e o colocou no apontador. Olhos verdes e divertidos a encaravam de cima. Girou o apontador em movimentos compassados e vagarosos, as cascas revoaram suavemente até o tapete. O grafite ficou com uma aparência ameaçadoramente pontuda.
Leona parou de chutar e contemplou a aparência fina do lápis. Parecia um punhal em miniatura. Então, convulsionou o corpo com força total, cuspindo saliva ao berrar a plenos pulmões:
— MÃEEEEEMÃEMÃEMÃEMÃE!
A curta palavra foi proferida de maneira atropelada e constante. Eren se ajoelhou. O berro de Leona se transformou num guincho. Eren sorria ao agarrar o queixo infantil, amassando ambas as bochechas. Floch ria sem parar, Leona não só ouvia a risada como a sentia através da espinha. Hange permaneceu conversando com Jean, alheia ao que acontecia a poucos metros de distância.
— Eu vou furar o seu olho, Bolinha.
— PARA! MÃEEEE MÃE MÃE FALA PRA PARAREM.
Seu campo de visão esquerdo foi tomado pelo grafite cinza, inicialmente nítido e então nublado pela extrema aproximação. Fechou ambos os olhos e tentou virar a cabeça, entretanto Eren impossibilitava a tarefa. Floch, notando o olho fechado, o abriu, machucando a pálpebra de Leona ao força-la para cima. Leona sentiu o cheiro do grafite, e nisso veio a dor extrema.
ELE TÁ FURANDO O MEU OLHO ELE TÁ FURANDO O MEU OLHO
A visão tornou-se dolorosamente fosca. Usou as pernas para chutar o rapaz da frente e o braço para socar a coxa de Floch, e nem isso foi o bastante para fazê-los parar. As risadas dos adultos misturavam-se aos berros da menina. A forma como a agarravam, impossibilitando fugas, trazia o horror crescente de que jamais conseguiria se libertar. Leona chamou pela mãe sem parar, mas só foi salva quando seus gritos enfurecidos se transformaram em soluços, e "mãe" se transformou num "manhê" agoniado, esbravejado numa voz grave quase bestial.
— Ei! Dá pra vocês brincarem sem fazer tanto barulho?
Hange soou impaciente. Eren recuou e Floch largou Leona. Tentou fugir engatinhando, no entanto Eren a segurou pela perna. Leona fincou as unhas no chão, e as mesmas rasparam no piso quando Eren a arrastou. O rapaz abraçou e esfregou o rosto no de Leona. Aquela barba malfeita deixou sua bochecha ardendo, e parte do cabelo comprido entrou em sua boca.
— É só brincadeira, Bolinha, não precisa chorar. Aqui, me dá um beijo de desculpas.
A última coisa que Leona queria era beijar aquele adulto feio e nojento. Cravou as unhas na boca de Eren, desvencilhando-se de uma vez por todas. O golpe machucou o soldado, e agora uma pequena quantidade de fumaça escapava do corte no lábio. Pediria desculpas? Claro que não. Atravessou a sala rapidamente com a mão cobrindo o olho furado, passando por Jean e indo enfiar-se entre as pernas da mãe.
— Você não tem jeito com crianças, Eren.
De braços cruzados, Jean encarava Eren por cima do ombro, parecendo satisfeito ao vê-lo ferido. Eren não achava mais graça. Enquanto isso, Leona buscava conforto no colo da mãe e era rejeitada.
— Leona, depois. Eu estou trabalhando.
— Mas eles
A mãe fez O OLHAR. Leona recuou, gemendo de tristeza, a mãozinha tampava o olho úmido de sangue. A comandante ergueu a cabeça para Jean, a dureza ameaçadora sumida.
— Então, Jean, o que você estava falando sobre o porto?
Hange apoiou o queixo nas mãos, se mostrando interessada pela conversa de Jean. Leona não insistiu, mas tomou a liberdade de continuar perto de sua protetora. Se enfiou no espaço quadrado em baixo da escrivaninha, onde só havia espaço para seu corpo pequeno e para as pernas de Hange. Ficou lá sentada, pressionando o olho ferido. Tinha medo de tirar a mão a esclera tombar no piso.
A conversa com Jean durou mais dez minutos. A dupla maligna ficou na sala durante todo aquele tempo que pareceu uma eternidade. Leona havia desistido do móvel e encostou o lado do corpo nas pernas de Hange, com a bochecha apoiada próxima dos joelhos da comandante. Seu corpo doía por causa da forma como Floch a agarrara, e o olho esquerdo ardia. A dor mais forte, porém, se localizava em seu peito — por dentro. Sem perceber, acabou cochilando com a mão na cara. Entrava no mundo dos sonhos quando o barulho arrastado da caneta de tinta a acordou.
— Aqui está a permissão.
— Obrigado, comandante.
A menina ficou em pé para olhar, pelo o olho direito, a mãe entregar a permissão ao soldado. Não era muito mais alta que a escrivaninha, de forma que o móvel cobria seu corpo até o pescoço. Jean guardou a tal permissão numa pasta azul muito bonitinha e a colocou em baixo do braço. O rapaz acenou. Leona não retribuiu, retraída. Os três soldados foram embora depois, papeando sobre coisas chatas.
— Por que você está chateada?
A comandante meneou a cabeça para mirar o rosto cabisbaixo da filha. Leona enfiou-se entre suas pernas no mesmo minuto, agarrando-se à camisa num abraço desolado.
— Eles furaram o meu olho.
Hange, numa rápida leitura, identificou mais birra do que mágoa no comportamento da filha. Uma necessidade inconsciente por conforto, assim por dizer. Hange suspirou, não se dando ao trabalho de esconder o tédio.
— Se os rapazes tivessem furado o seu olho, você ia estar rolando de dor.
Mas estava, de fato, sentindo dor. Era uma dor horrível, penetrante, extremamente sofrida, e sua mãe não acreditava. Leona baixou o rosto, preferindo mirar as botas em vez de suportar a expressão condescendente. Notou com certa tristeza que os sapatos da comandante tinham o dobro do tamanho de seus pés. Hange segurou o queixo da filha delicadamente e a fez levantar a face — tentava ensiná-la a conversar olhando nos olhos do interlocutor.
— Deixa eu ver.
— Não, meu olho vai cair.
— Bolinha, tira a mão.
A maneira doce e calma como o apelido foi pronunciado fez a tensão em seus ombros diminuir. De fato, era muito melhor ouvir a palavra na voz da mãe do que na de Eren. Gostava de ser Bolinha para ela. Encarou a face comiserada de Hange, e então obedeceu. Começou devagar e hesitante, mantendo a mão perto para caso o olho caísse. No fim, permanecia no lugar. Piscou, feliz por ainda enxergar apesar do ferimento. Agora precisavam dar um jeito no sangue.
— Viu só?
— Mas está sangrando.
— Não está. Você chorou, por isso está molhado.
— Tem certeza?
— Ah, Leona...
Hange cobriu a testa com a mão, balançando a cabeça negativamente. Leona mordeu o interior do lábio, baixando o olhar para o chão outra vez. Viu o medalhão de sua mãe descansando serenamente no peito. Lembrar da medalha a fez sentir seu peso de repente. O metal era gelado mesmo por cima da roupa.
— Mãe, o meu pai não tinha braço?
Hange removeu a mão do rosto e deixou-a no ar. Arqueou a sobrancelha e sua face tornou-se séria.
— Eren e Floch te disseram isso?
— Sim.
Hange ficou desconcertada por um momento. No outro, recuperava a postura.
— Bem, não era pra você saber desse jeito. Sim, o seu pai perdeu o braço numa batalha. Em casa eu conto pra você a história toda direitinho.
— Não precisa. Eren e Floch já me falaram que o meu pai deu o braço para virar comandante.
Hange ergueu as sobrancelhas. Leona viu a interrogação na face de sua mãe e ficou desconfiada.
— Como assim?
— Eren e Floch me disseram que é preciso dar uma parte do corpo pra ser comandante. Falaram que você deu o olho e meu pai o braço.
Hange encarou a filha por um longo momento, e então a expressão séria deu lugar a sorrisos sardônicos. A comandante começou a rir. Leona balançou os braços, pois de súbito não havia lugar para coloca-los. A risada de Hange era debochada, do tipo que você dá quando vê alguém errando uma questão de matemática básica. Leona detestava esse tipo de riso que a fazia se sentir burra.
— Você acreditou nesse absurdo?
Leona limitou-se a olhar a mãe por baixo dos cílios. Hange parou de rir e limpou a garganta. O riso sarcástico continuou atrás de sua boca, dava para ver a sombra dele. Sua mãe era expressiva demais. Hange voltou a ficar neutra, e a voz retomava o timbre gentil.
— Os rapazes só estavam brincando com você, Bolinha.
Enquanto Hange falava, Leona tirou a medalha por cima do pescoço. Não era mais capaz de suportar o peso do metal. Aquele objeto não tinha mais o mesmo significado de antes. Toda a parte legal se fora por água a baixo, levando a diversão junto. Não queria mais brincar com ele, sequer sentia que podia — até porque não era brinquedo, pra começo de conversa.
— Toma, mãe.
— Huh? Você não quer mais?
— Não, vou brincar com outra coisa.
— Você que sabe, filhotinho.
Leona deu as costas para a verdadeira comandante. Hange recolocou a corda no pescoço, a ajustando para a medalha ficar na altura correta. Leona voltou para o tapete e sentou com as pernas abertas. Olhou os desenhos imitando as cópias descartadas da mulher sentada logo atrás. E não é que Floch estava certo? Nada do que desenhou prestava. Fez careta e empurrou os desenhos com desdém. Virou-se para olhar Hange. Como sempre, Zöe trabalhava nos relatórios. A medalha pendurada brilhava. Valendo um olho ou não, pensou Leona, esse medalhão fica bem nela. Teria ficado bom em seu pai também? Provavelmente. Em si mesma, nem tanto.
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