Notas iniciais
Olá, O episódio de hoje é uma releitura do capítulo 123 do mangá. Ele é continuação direta da primeira cena do capítulo anterior. Antes de ler, responda o formulário de leitores: https://forms.gle/1siu5axAFzaJn9LB6. Aos que já responderam: boa leitura

Conforme o navio avançava mar adentro, Paradis tornava-se uma coisinha verde no horizonte. Até os peregrinos mais animados sentiram um aperto no peito quando seu lar desapareceu. A esse ponto, a vista era uma larga e densa paisagem homogênea e sem nivelamento. Nada se via além do azul da água e o branco da espuma das ondas. As gaivotas que acompanhavam o barco sumiram; não haveria terra próxima por boas horas.

A princípio, os viajantes inexperientes deleitaram-se. O balanço das ondas e o cheiro de sal eram uma novidade e tanto, sobretudo para Armin. O soldado assistia ao oceano com ansiedade e curiosidade. O mar, entretanto, era indiferente à bisbilhotice do ser humano expectante, e nem uma graça fazia ou tesouro mostrava. O oceano deixava claro, "se vocês estão esperando ver uma baleia ou o fantasma de um pirata, tirem o cavalo da chuva". Desse modo, os outros sete logo cansaram do mar e de seu resguardo. Com minutos de diferença, os paradisianos entediados recolheram-se para o interior da embarcação. Levi, contudo, retirou-se por um motivo diferente.

— Jean, você viu a Hange?

Levi perguntou a Jean ao encontrá-lo na ala dos dormitórios. Hange havia evaporado. Levi a procurou em todos os cantos do navio, inclusive na cabine do capitão. Hange era a única pessoa no mundo capaz de se perder numa embarcação isolada.

— Eu a vi sim, capitão. — Respondeu Jean. — Ela estava procurando o banheiro.

A busca de Hange dizia muito mais do que Jean imaginava. Tendo a referência, Levi não teve dificuldade em achar a comandante. Ele a encontrou encostada ao lado da porta do banheiro único, com as mãos atrás da cintura. A comandante o cumprimentou com um sorriso abatido.

— Você está bem, Hange? — Perguntou Levi, preocupado. — Cadê a sua gravata?

Hange mostrou o que escondia: uma gravata amassada e suja. O capitão revirou os olhos. Horas atrás, quando Levi viu Hange amarrando a gravata no pescoço, Levi teve o mesmo pressentimento que você certamente teria caso visse o seu melhor amigo prestes a jogar um balde d'água numa panela de óleo em chamas – a certeza de que uma coisa terrível vai acontecer. E assim como você descobre estar certo sobre as iminentes queimaduras de segundo e terceiro grau, Levi comprovou sua premonição.

— Eu avisei que você ia emporcalhar essa merda, doente.

— Pelo menos serviu pra eu limpar a boca. Não tem papel no banheiro.

— Você vomitou muito?

— Vomitei tudo que comi antes de embarcar. — Hange acariciou a barriga. — A Ferinha está revoltada hoje.

Por causa dos enjoos intensos, Hange pegara uma mania insuportável de chamar o bebê de Fera/Ferinha. Quando o bebê resolvia maltratar Hange, ele a atacava com força total. Hange até culpou o pai — "essa criança vai ser rabugenta e brava igual a você". Na opinião de Levi, agourar fetos significava botar um bolo de carma no forno.

— Pare de insinuar que o nosso bebê é um bicho.

— Eu não quis dizer isso.

— Quis, sim.

— Você é chato, hein? Estou avisando, se você quiser mais filhos no futuro, é bom procurar outra mulher, porque eu não v- inferno.

Hange entrou no banheiro correndo. Levi a seguiu. Hange vomitou o restinho da refeição. O capitão perguntou se ela queria se deitar e Hange negou. Comandante e subordinado subiram para o convés, onde os soldados se postavam juntos. Os viajantes fitaram o pedaço de terra despontando no cenário azul.

— Lá está Marley. — Connie anunciou. — Vamos conhecer o país dos nossos inimigos.

— Não fale isso em voz alta. — Alertou jean.

A terra ganhava forma de cidade. Hange entusiasmou-se. O único olho castanho ganhou o mesmo brilho de quando Hange atravessou o portão das muralhas pela primeira vez.

— Voltamos às nossas raízes, pessoal. Que a exploração comece.

O navio atracou. Como combinado, eldianos e hizuruneses dispersaram-se durante o desembarque. Um guarda marleyano conferia os passaportes e os testes de sangue. Os paradisianos foram orientados a agir com naturalidade, e se saíram bem na atuação. O guarda preguiçoso mal prestou atenção nos sete primeiros forasteiros. Na vez de Hange, o oficial fechou a cara graças ao nariz aquilino. Aí ele leu o complemento "hizurunesa" após "eldiana" na nacionalidade descrita no passaporte, e deixou Hange descer sem questionamentos.

Os paradisianos quase desmaiaram ante a grandeza de Marley. Os prédios superavam os castelos da Capital. Na verdade, Marley parecia uma Capital melhorada e democrática aonde nobres e plebeus conviviam juntos. Quer dizer, para ser sincero, ninguém ali se parecia com um plebeu. As pessoas estavam bem vestidas em calças elegantes e blusas bonitas. Até o marleyano mais surrado parecia possuir mais condições financeiras do que os moradores de Trost.

Hange, boquiaberta, tentava não gritar. Os outros concordaram: Marley dava uma surra em Hizuru. A magnificência deu vertigem aos estrangeiros desacostumados. Por instinto, os paradisianos buscaram a presença dos de sua raça, e os oito aglomeraram-se num pequeno bolinho, enquanto seus olhos, confusos pela quantidade de informação, buscavam ver tudo ao mesmo tempo.

— Bem-vindos ao continente de Marley. — Disse Onyankopon, aparecendo de repente. Ele tirou o chapéu, cumprimentando-os como se não estivessem juntos há menos de meia hora. — Permitam-me guia-los pela cidade.

Ninguém queria saber do blá-blá-blá de Onyankopon.

— OLHÁ LÁ UM CARRO!

Connie viu um milhão de carros em Hizuru, e ainda maravilhava-se. É surreal, como uma carroça pode funcionar sem cavalos? Hange, que via um carro ao vivo pela primeira vez, acenou para o animal de metal. Sasha juntou-se a ela nos cumprimentos. Jean e Armin, mortos de vergonha, fingiram não conhecê-los.

Levi, o único a dar atenção a Onyankopon, parou de braços cruzados e vestindo sua clássica expressão de poucos amigos. O capitão também estava fingindo que não conhecia os peregrinos emocionados.

— Lá em Hizuru, Connie e Sasha tentaram dar cenouras para esses troços. Você precisava ver a cara das pessoas.

Onyankopon não acreditava em tamanho absurdo.

— Não acredito. — Disse Onyankopon, desacreditado.

— Pode acreditar.

Então, foi só Levi distrair-se que Eren, Mikasa e Armin sumiram de vista. Levi olhou os arredores em busca do trio de soldadinhos. Ele achou-os em segundos. Os três conversavam sobre alguma besteira desinteressante. O capitão tratou de lembrá-los das regras.

— Ei, vocês três, andem com o grupo.

— Já estamos indo. — Disse Armin.

Os forasteiros continuaram a exploração. Estava acontecendo uma espécie de mercado a céu aberto, uma prática comum em Paradis. A maior parte dos comerciantes vendiam frutos-do-mar. Porém, alguns ofereciam alimentos para serem consumidos na hora. Sasha viu um casal consumindo uma bolinha colorida acomodada num cone de biscoito. Sasha, curiosa, afastou-se do grupo, obrigando os amigos a seguirem-na. Connie e Jean juntaram-se a ela e compraram o petisco. Os três arregalaram os olhos ao morderem a bolota. O negócio se tratava de uma bola de neve aromatizada.

— ARGH, MEUS DENTES! ISSO É GELADO! — Surpreendeu-se Connie.

— DE ONDE VEIO ESSA NEVE!? — Perguntou Sasha.

— É a primeira vez que vocês tomam sorvete? — O vendedor arqueou as sobrancelhas.

— Puta merda. — Levi rosnou. — Em Hizuru foi a mesma coisa. Você diz pra esses dementes serem discretos, e os retardados fazem exatamente o contrário do que você mandou.

— Calma, homem. — Hange deu uma risada nasal. — Deixa os garotos se divertirem.

Jean, Connie, Sasha e Armin abriram os bolsos. O comerciante enxergava os eldianos como quatro gigantescos cifrões. Eren, mais interessado na paisagem urbana, distraiu-se observando os transeuntes. Jean pagou um sorvete para Mikasa. A Ackerman foi imediatamente dividi-lo com Eren, deixando para trás um Jean decepcionado (porém não surpreso). Connie veio até Hange com um maravilhoso cone comportando uma bola azul.

— Hange, compramos um sorvete para você. Sério, você precisa experimentar. É gelado.

— Obrigada, Connie. É tão bom assim?

Hange preparou-se para lamber um alimento frio. No entanto, ela não esperava que o "gelado" fosse, na verdade, "congelante". O sorvete quebrou o sistema nervoso de Hange.

— Ai! Congelei o cérebro.

— Bem feito, Penélope. — Disse Levi.

Com calma, Hange lambeu o sorvete de novo. A bolota congelada derreteu na boca. O sabor era cremoso e docinho. Quem dera Leona estivesse aqui, ela ia amar o sorvete. Hange perguntou o sabor à Onyankopon, e o inglês respondeu que chamavam o sorvete azul de PEDACINHO DO CÉU. O nome combinava.

— Essa neve colorida é incrível. — Hange aproximou o sorvete do rosto de Levi. — Rivaille, prove.

O capitão cheirou a bolota antes de lambê-la, e as pupilas dele dilataram quando Levi experimentou.

— Não comam muito. — Onyankopon avisou. — Nós vamos almoçar daqui a pouco.

Hange e Levi assentiram. O capitão prontificou-se em chamar os subordinados. No curto percurso, foi parado por uma voz intrusa atrás de suas costas. A voz era masculina, aguda, irritante e inatural, como se o locutor forçasse as pobres cordas vocais a produzirem o som enjoativo.

— Olá, garotinho. Gostaria de um pirulito?

Às vezes, no escuro, de longe ou de costas, algum jumento o confundia com um menor de idade. Levi, sem dizer nada, virou-se de frente para o marleyano, um homem de rosto pintado. Decerto, um palhaço – em todos os sentidos da palavra. O artista de rua percebeu que o "garotinho" era um homem adulto e desconcertou-se. Para não perder a pose, o marleyano sorridente ofereceu o pirulito a Hange e a Onyankopon.

— Nossa, vocês são tão radicais! As crianças estão brincando de gangster? Esses ternos são o traje da máfia, é?

Só na cabeça de um palhaço fingir confundir os outros adultos com pirralhos remediaria o engano. Entretanto, parando para pensar, o palhaço tinha razão sobre uma coisa. Eles eram os únicos vestindo terno e chapéu em meio a uma multidão de pessoas trajando roupas comuns, ainda que fossem de melhor material. O papo de misturar-se havia ido por água abaixo. Na verdade, jamais teria funcionado. Nem em vinte anos conseguiriam mesclar-se àqueles fulanos que mostravam particularidades singulares até na maneira de andar.

Os três andavam atrás dos soldados do esquadrão 104. Hange tirava suas dúvidas sobre Marley com Onyankopon, e o inglês sanava a todas com paciência. Levi, por outro lado, mantinha seu olhar vigilante sob os soldados mais jovens, em constante estado de alerta a qualquer inconveniente. E não demorou para o inconveniente acontecer.

— Ei. Essa bolsa não é sua.

Levi segurou a mão ligeira do rapazinho danado que surrupiou a sacola de dinheiro de Sasha. No entanto, o que se desenrolou a seguir fez o capitão desejar não ter reagido ao roubo. Os marleyanos pararam tudo para fitar o malfeitor capturado. No fim, o próprio Levi quebrou a regra de não chamar atenção — e o ladrãozinho cometeu o mesmo erro.

— Um ladrão! — Exclamou o comerciante.

— Mais um desses imigrantes. — Ralhou um pedestre. — Essa praga deve ser eldiano.

— Como esse encardido chegou aqui?

— Aposto que veio escondido em um navio. Aqueles guardas vagabundos deixam qualquer um entrar.

Os paradisianos se entreolharam ante esta última fala.

Os marleyanos rodearam o garoto tal qual cães selvagens isolariam uma presa. Dava para ver, claro como o dia, o ódio que aquele bando de marmanjos nutria por uma criança com menos da metade do tamanho deles.

— Vamos jogá-lo no mar.

— Não, vamos arrancar a mão direita dele.

— Eu sugiro que o amarremos em um poste o deixemos lá balançando, para servir de exemplo aos outros da espécie.

— Por que não fazemos as três coisas?

A conversa transformou-se numa votação para determinar o futuro terrível do ladrão. Lá em Paradis, alguns tribunais costumam acontecer nas ruas. Façam suas propostas, pessoal, a mais sanguinária vence. A natureza humana supera certas barreiras raciais. Mesmo assim, os paradisianos se perguntaram, se o ladrão não fosse imigrante, o tratamento seria esse?

Levi decidiu que não veria o desfecho do julgamento. O capitão agarrou o garoto e saiu carregando-o em baixo do braço. O menino se debateu, mas logo concluiu que era melhor apanhar de apenas um homem em vez de mil.

— Ninguém aqui falou em roubo. Eu só disse que não era a bolsa dele. É a bolsa... — Levi falou a primeira coisa que veio na cabeça: — ...da irmã mais velha dele.

Os marleyanos não acreditaram em nem uma palavra. Por sorte, Levi recebeu o apoio de Hange. A comandante intrometeu-se entre o capitão e os justiceiros. Hange tagarelou sobre a família difícil e reclamou das brigas entre Lays Ruffles e seu irmãozinho. Sasha acenava com a cabeça e pedia desculpas pelo transtorno. Levi escapuliu com os outros soldados em seu encalço. Hange e Sasha juntaram-se a eles, botando sebo nas canelas.

Depois de dez minutos de correria, conseguiram livrar-se dos marleyanos furiosos. Gordos como eram, os juízes não insistiram na perseguição. Os paradisianos nem perceberam para aonde iam, e ao pararem, viram-se noutra parte de Marley, uma que tinha mais cara de Paradis – em outras palavras, toda fodida.

A essa altura, Levi já havia deixado o garoto ir. Os militares ofegavam. Hange, cansada e esbaforida, sentou sobre os calcanhares. Levi alarmou-se. Hange ergueu a palma da mão, dizendo em silêncio que só estava retomando o fôlego.

— Preciso voltar a me exercitar todos os dias. Pra ontem. — Arfou ela, sorrindo.

— Você está bem? — Levi perguntou de qualquer maneira. — E o bebê?

— Estou bem, Levi. A nossa ferinha também está bem.

— Pare de chamar o bebê de fera. — Levi relaxou. — Pra onde o pirralho foi?

— Lá longe.

O garoto pulava no fim da rua, distante o bastante para conseguir fugir caso os paradisianos resolvessem persegui-lo. O menino carregava um objeto... familiar. Levi abriu o paletó já esperando não encontrar sua bolsa de dinheiro. O capitão pôs as mãos na cintura e respirou fundo. Enraivecer-se não vai ajudar em nada.

— Quem se importa? Os Azumabito me deram o dinheiro de gorjeta.

Por dentro, Levi pensou seu pirralho mal-agradecido. Bom, tudo bem. Anos atrás, Levi esteve na pele daquele garoto pobre. Hange levantou-se. A comandante ria de lábios cerrados.

— Assaltado por um garotinho? Você está ficando velho, baixinho.

Então, Hange fez uma coisa inusitada: ela pegou a mão do capitão e convidou-o para caminhar de mãos dadas. Levi, inexpressivo, encarou as mãos entrelaçadas como se não fossem a sua e a de Hange.

— Não sou o único velho aqui. Você não tem dezesseis anos, Hange. A gente não tem idade pra andar por aí de mãos dadas. — Mas ele não a largou.

— Deixa de neura. Estamos passeando.

Onyankopon reuniu os paradisianos. Estava na hora do almoço. O inglês pretendia leva-los a outro estabelecimento, mas, já que localizavam-se naquela parte da cidade, os conduziria a um restaurante a algumas quadras dali. Levi e Hange andaram de mãos dadas durante o trajeto, e permitiram-se ficar uns minutos isolados em seu próprio mundo compartilhado. Eles analisavam a cidade e mostravam os pontos interessantes um ao outro – "olha lá, aquela loja vende eletrodomésticos", "veja aquele prédio", "nossa, até agora não vi carroças e nem cães de rua", "por que tem trilhos no chão? Os trens cortam o meio da cidade?"

O restaurante era o tipo de local que parece claustrofóbico por causa da posição móveis. A decoração era baseada nas cores vermelho e dourado. Quadros de homens em uniforme militar decoravam o salão. Os paradisianos acharam impressionante o fato de os assentos serem poltronas acolchoadas em vez de cadeiras simples, e ficaram de boca aberta com a posição estranha dos bancos. Em vez de dispostas ao redor da mesa, as poltronas ficavam lado a lado numa espécie de semicírculo. As mesas, por conseguinte, localizavam-se rente às paredes, em vez de espalhadas pelo restaurante. Óbvio, todos quiseram sentar nas "mesas chiques".

Como as mesas comportavam quatro pessoas, os forasteiros dividiram-se em dois grupos. Onyankopon pediu uma cadeira para sentar-se na com Hange, Connie, Levi e Jean. O garçom entregou um cardápio para cada. Os paradisianos admiraram-se:

— Gente, tem a fotografia da comida no cardápio.

Sasha gritou lá da outra mesa. Os clientes marleyanos encaram-na, incomodados. Jean pôs o dedo nos lábios e fez shhh. Em Paradis, você só sabe a aparência da sua refeição quando o prato chega na mesa, e muitas vezes ela não é do jeito como você a imaginou.

— Esmóte! — Exclamou Connie. — Eu vou querer o Esmóte. Onyankopon, estou falando certo? Como se pronuncia?

Connie pôs o dedo sobre a palavra estranha. Hange, Levi e Jean inclinaram-se sobre o cardápio a fim de descobrir o que era Esmóte. Depararam-se com uma bebida cor-de-rosa num copo de vidro decorado por morangos.

— Se diz smoothie. — Respondeu Onyankopon.

— Esmufi.

— Não. Faça o som que a cobra faz, assim, sssss, e aí ponha um T soprado no final. Smoothie. — Onyankopon gesticulou perto do queixo. — Smoothie. — Ele repetiu, devagar.

— Sssssmuti. — Connie imitou a gesticulação. — Smuti.

— É, por aí. — Onyankopon deu de ombros. — E vocês?

— Eu vou pedir sushi. Comi em Hizuru e achei uma delícia. — Respondeu Jean.

Levi disse que não sentia fome; o capitão parecia mais interessado no menu de chás. Hange mostrou o cardápio a Onyankopon e questionou, animada:

— O que é um avestruz?

— Avestruz é uma ave grande e pescoçuda.

— Grande como um pardal, ou grande como um pato?

— Maior do que um ser humano.

— Uau. Humm... — Hange ponderou. — Certo. Vou querer experimentar o picadinho de avestruz.

— Você vai mesmo comer um bicho que você não conhece, Hange? — Levi fez cara de nojo.

— Poxa, estou aqui para experimentar coisas novas. — Hange passou para a parte das bebidas. — Nossa, olha só todo esse álcool dando sopa. — Lamentou-se Hange. — Onyankopon, esse tal de refrigerante pode fazer mal pro meu bebê?

— Olha, na minha minha opinião, vocês não podem ir embora sem provar refrigerante. Mas, para ser honesto, não sei se faz mal. Acho que não.

Ou seja, Onyankopon não ajudou em nada. Hange fez beicinho para a foto das latinhas suadas. O refrigerante da latinha vermelha parecia apetitoso. Levi sentiu dó. O capitão suspirou e fechou o menu de chás.

— Pede um pra nós dois. A gente divide.

— Você vai abrir mão do seu chazinho por mim, Levi? — Hange arregalou o olho. — Obrigada.

Os pedidos chegaram em instantes. Jean gostou do Sushi, mas o de Hizuru é melhor. Hange deliciou-se com o seu avestruz – era como carne de boi, só que mais macia e meio adocicada. Ela tentou obrigar Levi a provar. O capitão teimoso se negou a experimentar um bicho desconhecido.

O refrigerante foi o ponto alto da refeição. De início, Hange bebeu um curto golinho, apenas o bastante para molhar os lábios. Ela estranhou o gosto exageradamente doce daquela bebida gaseificada, preta e borbulhante. O segundo gole foi mais agradável. Hange divertiu-se deixando a bebida pairar sobre a língua, onde as bolinhas de gás estouraram. Levi, como era de se esperar, concluiu que o refrigerante não era para o seu paladar.

Connie foi o mais infeliz em suas escolhas. A bebida cor-de-rosa chegou num copo como o da fotografia. Veio um canudo listrado que, segundo Onyankopon, servia para ajudar a beber. Os paradisianos acharam desnecessário, pois se pode beber qualquer liquido apenas virando o copo. Connie bebeu o smoothie, e seu largo sorriso desmanchou na primeira golada.

— Cara, eu não estou acreditando que smuti é uma vitamina de morango e banana.

Em sua ignorância linguística, o soldado acabou pedindo uma bebida comum em Paradis. Os espectadores caíram na gargalhada. As risadas ecoaram pelo restaurante. Levi teve dificuldade em fazê-los parar. Hange, porém, teve sucesso. A comandante interrompeu o acesso de riso coletivo quando suas risadas se transformaram num engasgo. As bochechas de Hange inflaram e ela cobriu a boca. A comandante se levantou com violência e saiu em disparada. Levi foi atrás. Connie entreolhou Jean e Onyankopon e perguntou se foi alguma coisa que ele disse.

Levi escutou a respiração arfante e os barulhos esganiçados do vômito vindo de dentro do banheiro. O capitão ignorou a mensagem "SAIA DAQUI, SEU PERVETIDO" implícita no símbolo feminino pendurado na porta e avançou ao socorro de Hange. Ele a encontrou na primeira cabine. Hange, de joelhos e agarrada à louça do vaso, arquejava sobre o sanitário. As mechas castanhas caiam aos lados da cabeça dela. Levi as afastou para não correr o risco de Hange sujar o cabelo. O avestruz e o refrigerante foram-se na descarga.

— Ei, você está bem?

Hange assentiu, puxando o ar com dificuldade. Ela levantou o braço para esfregar a boca com a roupa, aí deu-se de conta do lugar aonde estava e rapidamente abaixou-o. Levi a limpou com um punhado de papel higiênico. Após dar um jeito nela, o capitão beijou o rosto de Hange e a abraçou pelos ombros.

— Vomitei o meu avestruz. — Lamuriou-se Hange em palavras entrecortadas.

— Hoje está foda.

— Você ainda não quer que eu chame ela de Ferinha. — Hange deu um sorriso lânguido. — Embora agora eu ache "monstro" mais apropriado. Eu quase não cheguei a tempo. Por pouco não vomitei na mesa. Essa criança decide que não quer comer e me faz pôr tudo pra fora. Eu não enjoei assim na gravidez da Leona. Agora, com essa aqui, não consigo comer nada sem passar mal. Deve ser maldição dos seus genes de Ackerman.

Levi deixou Hange se queixar o quanto desejasse. Enquanto reclamava do bebê, Hange se pôs de pé e, com a ajuda de Levi, caminhou até a pia. A comandante lavou o rosto e aproveitou para beber um longo gole d'água direto da torneira.

— Pronto?

— Sim. Podemos ir.

Os subordinados os esperavam para pagar a conta. Onyankopon instruiu-os a permanecer na mesa e solicitar o valor ao garçom, pois em Marley não é comum pagar no balcão. No lado de fora, a cidade continuava a todo vapor. Os marleyanos não descansavam nem por um minuto. Já os paradisianos estavam exaustos de tanto andar. Por sorte, Onyankopon avisou-os de que não precisavam seguir o resto do percurso a pé.

— Ok, aonde estão as carruagens?

— Carruagens custam uma fortuna em Marley. — Respondeu Onyankopon. — Nós vamos naquilo lá.

O inglês indicou a máquina retangular que vinha rodando pelos trilhos outrora apontados por Hange. Lembrava um trem, mas não era. Parecia um vagão de passageiros aberto e espaçoso que funcionava independentemente de uma locomotiva. Onyankopon correu até o veículo bizarro, acenando para os paradisianos acompanharem-no.

— A próxima parada está longe. Vamos pegar o bonde andando.

Esse era o nome do trenzinho — BONDE. Em meio a risadas e empurrões amigáveis, os forasteiros agarraram-se às barras verticais e embarcaram. Os passageiros estranharam a algazarra daquele bando de adultos que mais pareciam crianças matando aula.

— Caramba, que carruagem legal! — Armin segurava o chapéu; quase o perdera na corrida.

— Shhh, Armin. — Fez Mikasa.

Apesar de ter bastante assentos disponíveis, nenhum dos paradisianos quis sentar. Eles viajaram em pé, inclusive Hange, que distraiu-se do enjoo graças a oportunidade de passear de bonde. Os soldados penduraram-se nas barras. Eles assistiram a cidade desenrolar-se a sua frente, e de camarote observaram os habitantes, a arquitetura, os costumes e os aparelhos daquela terra extraordinária.

XXX

Além de o bonde suportar mais pessoas do que as carruagens, ser mais barato e também mais divertido, era também mais veloz. Em menos de meia hora os forasteiros pegavam a curta estrada para o bairro rico onde a mansão dos hizuruneses se localizava. Os paradisianos nem tinham referências para comparar o vilarejo. Jean disse que se algum nobre da Capital decidisse transformar os bairros comuns da muralha Rose em pequenas colônias da nobreza, os povoados se assemelhariam a vizinhança de Kiyomi.

A casa dos Azumabito era rodeada por uma cerca de arbustos quadrados recém-aparados. A calçada para a entrada da casa brilhava de limpa. A mansão dividia o terreno com outras moradias menores pertencentes aos membros mais fracos da embaixada. Para o delírio dos paradisianos, seriam hospedados na casa grandona.

Kiyomi estava à espera. A sala de estar os aguardava com chá e bolinhos. Porém, apenas Hange tinha fome. Kiyomi perguntou quais eram as primeiras impressões de Marley. Após relatarem as maravilhas vistas e como elas diferiam ou se assemelhavam com as de Paradis, Armin narrou o episódio com o ladrãozinho.

— As pessoas chamaram o menino de eldiano. — Armin sacudiu a cabeça. — Como se todo ladrão fosse eldiano e vice-versa.

— É essa a fama dos eldianos fora de Paradis, Armin. É engraçado como a história muda. — Divagou Kiyomi. — No passado, ter um eldiano na família era status. Hoje em dia... bom, creio que vocês saibam melhor do que eu.

A hizurunesa não sorria, tampouco os paradisianos. Mesmo Kiyomi, sua aliada, armara a própria casa com seguranças. Os militares duvidavam que os guardas estivessem presentes para proteger os hóspedes de ataques marleyanos. Percebiam a desconfiança pela forma como os seguranças os encaravam, vigilantes a qualquer indicio de ataque terrorista por parte daquele povinho a quem jamais deve-se dar as costas. Isso fazia Hange pensar, formar alianças ia ser dureza. Porém, a comandante estava determinada a tentar. E Hange não era a única:

— Apesar de todos nos odiarem, precisamos tentar os acordos de paz. — Insistiu Armin. — Não é seguro, eu sei. Mas também não há cem por cento de segurança no plano de Zeke. Nós nem ao menos sabemos o que ele está tramando.

— Eu concordo. — Disse Hange. — Vamos comparecer na reunião internacional aberta que vai acontecer esse mês. A Associação de Proteção aos Descendentes de Ymir vai estar lá. Vamos ver quais são as propostas deles.

— Eu não sei quais são os princípios dessa associação, comandante. — Kiyomi lavou as mãos.

— E nem nós. A gente vai ficar de olho por enquanto. Se acharmos que podemos cooperar com eles, nós vamos declarar que Paradis deseja paz e- droga.

Hange comprimiu os lábios, segurou o estômago com uma mão e apertou o osso entre as sobrancelhas com a outra. A ferinha marcava presença de novo. Levi se teletransportou para o lado de Hange, perguntando se ela estava bem, se ela queria ir ao banheiro, se ela queria água, se algo podia ser feito. Mikasa também veio ajudar. A soldada veio pondo as mãos nos ombros de Hange e perguntando se Hange estava bem, se ela queria ir ao banheiro, se ela queria água, se algo podia ser feito. Armin juntou-se a eles. O militar abaixou-se a frente de Hange e perguntou se Hange estava bem, se ela queria ir ao banheiro, se ela queria água, se algo podia ser feito. Eu quero espaço, caralho. Hange os empurrou como se houvesse uma alavanca dentro dela de súbito acionada para o modo mal-humorado.

— É o seu bebê, comandante? — Perguntou Kiyomi, amável.

— É. Ela enlouqueceu no navio e não me deixou em paz desde então. Porra. — Hange não se desculpou pelo palavrão. — Nem chá ela quer aceitar.

— É menina? — Perguntou Kiyomi. Hange começou a responder que não tinha certeza, mas a asiática a cortou: — Eu também passei perrengue na gravidez do meu segundo. Ah, a dinastia. É muito importante darmos continuidade à nossa família. — Kiyomi sorriu com nostalgia. — Eu tenho remédios para enjoo, você quer?

— Não, obrigada, eu trouxe. Acho que eu vou tomar um e me deitar. Quem sabe o bebê sossega. Eu também estou meio cansada.

À menção da palavra "deitar", Levi, solicito e cuidadoso com a mãe do seu bebê, levantou-se e perguntou aos guardas em qual quarto colocaram as malas, se o quarto já estava pronto e se tinha banheiro. Kiyomi fitou o capitão de soslaio, e depois, com zero discrição, mirou a mão de Hange. A comandante deduziu a dúvida de Kiyomi. Hange já estava cansada de ouvir o questionamento, e resolveu responder antes de ouvi-lo da boca de Kiyomi.

— Não. Nós não somos casados. — O tom de voz de Hange era o de uma pessoa que fez uma escolha convicta e não se arrependia. — Eu não quero perder o meu sobrenome.

A única coisa que poderia fazê-la casar com Levi era a lei. Se algo mortal acontecesse à Hange, Leona só teria direito aos bens materiais quando alcançasse a maioridade civil. Até lá, a casa estaria nas mãos do familiar mais próximo. Hange tinha absoluta certeza de que seu pai e a mulherzinha com quem ele se casou fariam de suas duas filhas meras inquilinas. Caso fosse casada, a casa também seria de Levi, e assim Hange teria certeza de que a moradia seria para sempre de suas filhas. Porém, ela optou por adiantar o testamento e resolver o problema definitivamente.

Levi também não queria se casar. Quando conversaram sobre essa alternativa, o capitão deixou a sentença a cargo de Hange. Para ele, casamentos não passam de pedaços de papel que dão dor de cabeça para corações partidos.

A resposta de Kiyomi veio acompanhada de uma risada sutil.

— Eu também não me casei, Hange, pelo mesmo motivo. O meu sobrenome é a minha marca.

Hange deveria estar surpresa, no entanto, não. A comandante respondeu que já esperava isso de uma mulher como Kiyomi. A hizurunesa gargalhou. Hange pediu desculpas por sair tão cedo e subiu as escadas com Levi logo atrás. Eren aproveitou a distração para escapulir de mansinho; ninguém viu.

O quarto era grande como os dos hotéis chiques da Capital. Hange tomou o remédio, um medicamento natural feito a base de limão. Depois, a comandante vestiu um pijama leve e atirou-se de costas no colchão, exausta. Levi juntou-se a ela.

— A Leona entrou na sua cabeça, huh? Você também acha que é menina.

Levi fez carinho na barriga da comandante. Hange sorriu sem mostrar os dentes; Leona de fato a convencera com o papo de irmãzinhas. Hange entrelaçou os dedos naqueles que acariciavam seu ventre.

— Você quer um menino?

— Tanto faz. — Levi alisou a mão de Hange.

— Quer decidir o nome? — Ela propôs, entusiasmada. — Se for menino, você escolhe. Se for menina, eu escolho.

— Achei que você ia esperar o nascimento.

— Não. Dessa vez eu vou fazer diferente.

Hange largou a mão de Levi. A comandante rolou de barriga para cima, fitou o teto e afagou o ventre. A primeira gravidez foi conturbada desde a descoberta até o parto. Algumas coisas ocorreram porque fugiam do controle de Hange, como Zackly. Outras, contudo, foram resultado das péssimas decisões tomadas por Hange. Às vezes, eventos ruins acontecem porque nós escolhemos as opções erradas. Só que, é claro, ninguém a não ser aqueles que querem prejudicar outra pessoa ou a si mesmos escolhem o caminho errôneo de propósito. Hange fez as escolhas que mais lhe faziam sentido na época, e só descobriu que a estrada dava para um poço quando já estava dentro dele – por sorte, percebeu antes de chegar ao fundo. Por exemplo, Hange não sabia que ter o bebê no hospital seria uma péssima decisão. Hange selecionou a alternativa desagradável uma vez, e não pretendia repetir o erro. Pode ser que ter o bebê no hospital não seja uma péssima decisão AGORA, mas na época foi. Enfim, não dá para prever o futuro, mas é possível planejar o próximo passo com base nas experiências passadas.

Óbvio, há a possibilidade de as decisões tomadas agora levarem para outro poço. No entanto, Hange não sabe disso.

— Quero fazer tudo diferente. Para começar, quero ter o bebê em casa, no conforto do meu lar. Estou pensando em contratar as parteiras da igreja. Mas, a gente vai investigar antes. Não quero um bando de megeras mexendo comigo e com o nosso bebê, como foi no parto da Bolinha.

Hange determinava suas condições. Levi limitou-se a ouvi-la, apenas balançando a cabeça nos momentos corretos. Hange continuava fitando o teto, ela girava o pé da perna cruzada e gesticulava no ar como se escrevesse em um quadro-negro.

— E então, Levi, vou tirar licença do quartel e cuidar do meu bebê.

Levi deu uma risadinha.

— Tá, talvez eu trabalhe em casa com documentação... e talvez eu vá dois ou três dias no laboratório. — Hange corrigiu-se. — Mas eu vou estar quase o tempo inteiro em casa. Não vou contratar nenhuma ama-de-leite, e nem vou ficar longe por dias.

— E eu entro onde nessa história, mamãe?

Hange deu uma travesseirada na cara de Levi.

— Você vai trocar as fraldas, cantar para ela dormir, cuidar da casa...

— Cantar? — Levi mortificou-se.

— Talvez não seja uma boa ideia. — Hange pôs a mão no queixo. — Bom, você vai dar os seus pulos para fazê-la dormir.

Agora era a vez de Levi rolar. Ele deitou de barriga para cima e fitou o teto. Hange perguntou se havia dito algo errado. Levi sacudiu a cabeça.

— Eu queria ser um pouco mais como você, Hange. — Ele confessou. — Você é uma mãe tão compreensiva e paciente. Eu queria ser assim.

— Engraçado. — Hange aninhou-se no ombro de Levi. — Eu te invejo em alguns aspectos. Você tem o pulso firme que eu sempre desejei ter... — Ela corou, resignada, e complementou: — Como mãe e como comandante. — Hange deu de ombros. — Além disso, você é sensível.

— Eu? Sensível?

— Sim. Digo, você sempre sabe o que dizer, e quando não sabe, você fica do nosso lado. Sei lá, parece que você sempre sabe como a gente está se sentindo.

— Não seja ridícula.

— Não estou sendo ridícula. — Hange deu um tapinha no peito do capitão. — Eu estou falando sério. Você vai ser um ótimo pai.

— Uma certa pessoa discorda.

Levi não precisava falar o nome da certa pessoa. Hange deu um suspiro cansado e tamborilou os dedos no peito do capitão, refletindo sobre os conflitos entre Levi e a certa pessoa. Ao contrário do que Levi prometera a essa certa pessoa, ele contou para Hange sobre a briga que ele e a certa pessoa tiveram no dia da faxina. Foi um acontecimento grave demais para ser omitido, e Hange, apesar de decepcionada, ficara grata por ter sido informada, embora ela nada pudesse fazer sem abalar a frágil relação entre Levi e a certa pessoa. Como poderia exigir que a certa pessoa amasse Levi, quando ela própria odiava a madrasta?

— Eu falei, você tem o pulso firme que eu não tenho. A Leona não está acostumada com rotinas e limites, e nem com alguém em cima dela dando ordens.

Apesar de as palavras serem duras, Hange não falava em tom de sermão. Ela estava apenas analisando como a criação de Leona refletia na personalidade da criança. Conviver com um adulto mais rigoroso e menos permissivo ia fazer bem para sua filha. Levi tinha suas próprias declarações:

— Hange, eu tento ser paciente com a Leona, mas ela perturba a gente com as ideias dela e insiste, insiste, insiste, insiste... — Levi se irritava só de falar. Ele fechou o punho, preparado para descê-lo em alguém. — Aquela bolinha mimada e mentirosa. Ela é mesmo uma Smith.

Os lábios do capitão deram uma pequena repuxadinha, e as sobrancelhas duras suavizaram. Hange viu tudo; Levi estava com saudades da bolinha mimada e mentirosa. A comandante sorriu e o beijou no canto dos lábios. Depois, Hange sentou-se em posição de lótus. Não sorria mais.

— Por falar na Bolinha, Levi. Eu acho que ela é... — Hange coçou a nuca. — Diferente?

— Seja mais específica. — Levi sentou ao lado dela.

— Eu acho que ela é homossexual. — Falar em voz alta aliviou-a.

— O que te fez chegar nessa conclusão? — Levi preferiu não falar que ele também suspeitava.

Boa pergunta. Quando foi a primeira vez que Hange questionou a sexualidade de sua filha? Foi quando Leona expressou seu desejo em conhecer mulheres negras? Não, não foi aí. O episódio das mulheres negras, Hange recordava, soou como uma confirmação de algo já sabido. Agora, o momento em que o ponto de exclamação grande e vermelho se acendeu foi bem antes desse dia, tão antes que Hange não lembrava. Desse modo, Hange escolheu dar a resposta mais esfarrapada da extensa lista de réplicas prontas. Hange surpreendeu-se ao descobrir honestidade nas palavras vagas.

— Acho que eu sempre soube.

— Como você se sente?

— Com medo. — Respondeu Hange, na lata. — A Leona não vai morar em Paradis pelo resto da vida, eu conheço a minha filha. Já é ruim o bastante ela ser uma mulher eldiana, entende? Se ela for mesmo homossexual, vai ser mais um motivo para odiarem-na. — Hange fitou as próprias pernas, cabisbaixa. — Ela é uma criança extrovertida e carinhosa. A Leona gosta de estar com os amigos, gosta de conhecer gente nova, e de enviar cartas para as pessoas que ela ama. Como você olha para alguém assim e diz "você não pode ser quem você é se não vão te fazer mal?" — Hange girou a cabeça para dar o olho bom a Levi. Pela cara do capitão, ele também não sabia a maneira mais amigável de dar esse conselho à uma pessoa como Leona. — Eu não quero que a minha filha se reprima. Eu quero que possa amar alguém sem ter medo do que pode acontecer. — E, em seguida, Hange questionava: — Como foi para você? Essa coisa de se envolver com o Erwin. Sabe, dormir com outro homem.

— Não é tão ruim quanto parece.

— Mas vocês nunca disseram nada. Não contaram nem para o Mike e nem para mim. E nós dois éramos os mais próximos de vocês.

— A gente não contou porque o Erwin não queria. — Rebateu Levi, defensivo.

— Tem certeza?

O olhar de Hange demonstrava curiosidade. Ela não tinha noção de que estava pressionando Levi, até porque a pressão estava na cabeça dele. O relacionamento de Levi com Erwin foi peculiar, para dizer o mínimo. A dinâmica era diferente da que ele tinha com Hange, e Levi duvidava que fosse possível ter uma igual estando numa relação com uma mulher. Afinal, se Erwin fosse mulher, teria Levi se submetido às condições misteriosas, prudentes e circunspectas de Erwin? Na época, ele repetia a si mesmo que romances entre oficiais era proibido. "Vai dar problema, não podem descobrir, nós vamos perder o cargo, a Tropa de Exploração vai perder patrocinadores, vão jogar ovo podre na nossa cabeça." Entretanto, com Hange, essas preocupações não existiam. Desde o começo, Levi e Hange mantiveram discrição por privacidade, mas nunca houve preocupações em relação à consequências externas. Por quê? Porque seu relacionamento com Erwin era uma coisa, e o com Hange é outra.

— Não, Hange. Não tenho certeza. — Levi suspirou. — Mas, se eu puder te dar um conselho, não force a barra. Deixa a Leona se descobrir sozinha. A vida é dela. A Leona vai saber o que fazer quando a hora chegar, e ela vai te procurar se precisar de ajuda. — Aqui Levi atrapalhou-se. Ele não sabia como verbalizar o pensamento. — Você não precisa enfiar um manual da vida na cara da Leona, Hange. Apenas continue sendo a mãe que você é.

Para Hange, uma pessoa que tende a invadir o espaço dos outros sem perceber, é difícil não forçar. No dia em que Leona mostrou a carta para Diana, Hange só não palestrou sobre os perigos de enviar cartinhas a meninas porque a mensagem não tinha nada revelador – e doía pensar estaria tudo bem caso Diana fosse um menino. O que aconteceria a Leona se ela dissesse a coisa errada para a menina errada? Todavia, no fim, o argumento de Levi tinha fundamento. Leona fazia parte de uma realidade que Hange jamais entenderia por completo, apesar de tê-la carregado na barriga. Leona saberia como proceder quando os problemas chegassem, e Hange estaria lá para ampará-la caso sua filha precisasse de ajuda. A comandante ficou grata por dividir suas preocupações com Levi, e o agradeceu com um beijo.

— Eu não disse, Levi? Você sempre sabe a coisa certa se dizer. — Então, Hange mudou de assunto: — E aí?

— E aí o quê?

— Se for menino, qual vai ser o nome da ferinha?

Hange voltou a deitar-se, dessa vez trazendo o capitão consigo. Eles deitaram entrelaçados, com Hange abraçando-o pelo pescoço. Como é comumente de acontecer quando nos vemos diante de questionamentos repentinos, Levi deu uma resposta imprecisa — ele nem gostava tanto daquele nome.

— Que tal Udo?

— Udo? — Hange torceu o nariz. — Não gostei. Eu não quero ter um filho chamado Udo.

— Sebastian?

— É nome de velho.

— Luke?

— Uma amiga minha já tem um filho com esse nome.

— Ei, não era pra eu decidir?

— Você só escolhe nome ruim.

— Depois eu penso melhor. — Levi revirou os olhos. — E se for menina?

Hange matutou. Os nomes brotavam sem dificuldade. Hange murmurava-os conforme pensava neles. A comandante alisava a barriga a cada prenome, como se perguntasse a opinião da ferinha sobre o nome que ela carregaria a vida inteira. Morgana, Anastásia, Lilian... nada encaixava com Zöe ou Ackerman. Por fim, a melhor sugestão veio de Levi:

— Você gosta de Jade? — Levi acordou Hange do devaneio. — Eu acho esse nome lindo.

— Jade...

Jade, a ferinha. Hange imaginou-se lendo as quatro letrinhas desengonçadas em caligrafia infantil. Fantasiou Levi gritando "JADE" quando estivesse bravo. Era um nome bonito, Jade. Curtinho, bonito e fácil. Também soava forte, como os sobrenomes dos pais e o nome da irmã.

A comandante se contorceu entre os braços do subordinado de modo que Levi pudesse tocá-la com mais facilidade. O capitão deu o amor que ela pedia. Levi a beijou e a acariciou no rosto, no tronco e no cabelo. Hange ronronou sob os mimos, e esfregou-se em Levi feito um animalzinho manhoso. Ela sussurrou:

— Jade Zöe Ackerman. Eu adorei.

Levi afagou a barriga de Hange por baixo do pijama. O calor do corpo dela era aconchegante. O capitão encostou a bochecha no ventre e ameigou o abrigo quentinho onde sua ferinha se escondia.

— Sua mãe e eu chegamos a um consenso, Jade. — Ele beijou a barriga em vários lugares diferentes, a fim de não deixar nenhum pedacinho do bebê de fora. — Jade, minha ferinha.

— Ora, vejam só, você está chamando ela de Ferinha.

Os beijos e a voz sussurrada de Levi traziam uma paz sobre-humana à Hange, um sentimento de proteção onde a protegida era ela. Os hormônios não eram os únicos culpados daquela sensibilidade manhosa. Dentro dela havia outro serzinho que, a sua própria maneira, já conseguia sentir um bocadinho do mundo que em breve descobriria, e Hange tinha certeza, Jade já amava a voz do pai.