Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
54 Me contaram mentiras sobre você
Notas iniciais
A última lembrança que Levi tinha do garoto que treinou e protegeu era a de uma criatura horrenda forjada pelo ódio. No fim, Eren metamorfoseou-se no monstro impiedoso que o resto do mundo temia encontrar em Paradis. Neutralizar Eren Yeager salvou a humanidade não-paradisiana, no entanto, eliminar um companheiro nunca é prazeroso, mesmo quando o sujeito perdeu o merecimento de quaisquer adjetivos relativos à amizade.
Não obstante, a missão custou a vida de Hange, a mãe de sua bebê e a única pessoa por quem Levi se apaixonou além de Erwin.
Era engraçada a divergência entre os dois comandantes. Erwin precisou do incentivo de Levi para encarar a morte. Em contrapartida, Hange e Levi mal conversaram antes de Hange se doar à humanidade. A correria foi proposital, Levi sabia; Hange não queria ser impedida. Ela aceitou barganhar sua vida pela do povo desconhecido e pelos subordinados.
Apesar do altíssimo risco de não ser bem sucedido em derrubar os titãs colossais antes de o avião decolar, Levi gostaria de ter ido no lugar de Hange. Porém, no fundo de seu coração, ele tinha certeza que Hange não iria permitir. Parecia, afinal, que o seu tipo ideal são pessoas que colocam o dever acima de si próprias.
Antes de separar-se de Hange, Levi pôs o pulso sobre o lado esquerdo do peito dela e entoou o bordão da Tropa de Exploração, "ofereça o seu coração". Ele estava desolado, porém orgulhoso da comandante que Hange se tornou, e ela entendeu sua mensagem. Hange enfrentou sua última batalha com a mesma bravura de Erwin, talvez até mais. Hange lhe ensinou que o amor nem sempre é doloroso, e é gozado como justamente esse tipo de amor é o que mais machuca quando acaba.
Mais tarde, veio Zeke. Às vezes, promessas viram fardos pesados. Por oito anos Levi esteve esperando pelo momento de cumprir a promissão feita a Erwin, a qual o capitão considerava o seu último e maior ato de lealdade. A longevidade da pendência quase o levou ao delírio. Com uma frequência assustadora, Levi fantasiava-se matando Zeke das formas mais mirabolantes e criativas. No entanto, aniquilar o cara peluda não foi uma coisa bonita. Por incrível que pareça, Levi não gostava de matar (só de bater), e decapitar Zeke foi tão perturbador quanto qualquer outro assassinato.
Há muitos anos, Levi jurou jamais fazer outra promessa. Entretanto, ele descumpriu sua própria palavra. Hange, assim como Erwin, deixou a Levi um dever. A Erwin, Levi prometeu abater o titã bestial. A Hange, Levi prometeu tirar Leona de Paradis.
Retornar a Paradis foi um desafio. Foram meses de negociações secretas entre Armin Arlert e a rainha Historia. Armin perdera a conta de quantas vezes escapou por um triz dos yeageristas. Hoje em dia, em Paradis, é complicado encontrar alguém lúcido (lê-se não apoiador de Eren Yeager), e até os mais alienados abominavam os veteranos por causa da traição (e quem pode culpá-los?).
Historia lhes comunicou sobre a mãe de Connie. A reversão da transformação confirmou a teoria de Armin de que os titãs estavam oficialmente extintos. De alguma maneira, o abate de Eren findou a maldição. Levi achava ter algo a ver com o fato de Eren ser o primeiro portador do titã fundador a não possuir o sangue real, mas os outros não concordaram – apesar de ninguém assumir. Hange decerto discordaria também. Pensamento científico não era o forte de Levi.
A mãe de Connie não foi a única a receber sua forma humana permanentemente. Armin, Reiner, Annie, Pieck e Falco perderam os seus titãs. Annie e Reiner, que estavam com o pé na cova graças à condição dos treze anos, continuavam vivos, lindos e maravilhosos.
Entretanto, enquanto os cinco transformados esbanjavam saúde, Levi e Mikasa apresentavam o oposto. A morte de Eren impactou o psicológico Mikasa. Já com Levi, a questão era mais técnica. Ele saiu da batalha direto para um hospital improvisado a torto e a direito onde costuraram a perna ferida na batalha. Levi detestava ficar de cama. Pelo menos, Onyankopon, premiado por um ferimento na cabeça, lhe fez companhia. Ele e Onyankopon se tornaram melhores amigos durante aqueles meses fora de ação, sobretudo porque os subordinados de Levi mal o visitaram. Todos estavam ocupados até os dentes, desde buscando nações sobreviventes até resolvendo questões burocráticas.
Enfim, depois de seis meses desgastantes, era a hora de voltar. Para acobertar a vinda dos exilados, Historia decretou o fechamento do porto e do aeroporto por uma semana devido a uma falha interna fictícia. Eles pousaram de madrugada e pegaram o trem que a rainha separou para levá-los. Levi não reconhecia aquele país. O capitão não conseguia desassociar Paradis das três muralhas. Sem os muros, a semelhança entre Paradis e sua arqui-inimiga marleyana se apropinquava.
Na estação ferroviária de Shiganshina, uma maldita carruagem de madame aguardava Levi no lado de fora. O cocheiro, um jovem tapado, sorria de orelha a orelha, jubiloso por ter recebido dois sacos de moedas somente para transportar um velho cego de bengala. Levi deveria ir direto para a fazenda da rainha, como Mikasa fazia nesse exato segundo com o seu respectivo cabriolé. Entretanto, antes ele queria passar na casa de Hange para resgatar itens pessoais da comandante, a fim de que Leona tivesse lembranças materiais da mãe.
Dada à atual fama de Hange, o capitão não esperava recuperar grandes coisas. Contudo, a maldade humana com que Levi se deparou ultrapassou todas as suas expectativas pessimistas.
O quintal de Hange estava um verdadeiro matagal, mas antes fosse só isso. Agora, os vizinhos utilizavam-no como lixão público. Uma dupla de cães sarnentos devorava um saco rasgado de comida podre. Levi afugentou-os com a bengala, e fitou a casa em silêncio chocado. O murinho fora pichado com palavrões tão ofensivos ao sexo feminino que nem Levi se atrevia a dizer em voz alta. As paredes externas esbanjavam o mesmo vocabulário sujo, feito o caderno de um adolescente misógino. Todas as janelas estavam quebradas, e algum brutamontes derrubou a porta da frente na base do chute.
— Esse é o endereço, senhor Rivaille? — Perguntou o cocheiro incrédulo.
— Sim, está correto. Me empresta o lampião. — Levi retirou duas moedas do bolso e entregou-as ao cocheiro. O homem lhe entregou o lampião de bom grado. — Aguarde aqui.
Levi mancou até a porta da frente. Uma corrente de ar zombeteira entrou na casa de Hange junto ao capitão, parecendo convidá-lo. Ele iluminou o aposento escuro. O chão cinzento de poeira era marcado de pegadas de crianças e adultos que se misturavam umas às outras. Os móveis que sobreviveram ao vandalismo foram roubados. O sofá estripado torto e fora do lugar evidenciava que alguém tentou retirá-lo da casa sem se importar com o estado eviscerado. Hange guardava tubos de ensaio em casa, e estes foram quebrados. Pela posição dos cacos, duas ou mais pessoas brincaram de arremessa-los nas paredes. A mesa da cozinha fora cortada ao meio por um machado. Não restou nem um prato para contar história, e os vândalos deram cabo até das garrafas de leite de Leona.
O capitão mirou as escadas. Ele precisava visitar o quarto de Hange e o de Leona para ver se dava de salvar alguma coisa. Como sempre, sua perna ruim protestou no primeiro degrau, mas a partir do terceiro a subida foi menos árdua. O caos reinava já na balaustrada. Papéis e documentos assinados espalhavam-se pelo chão, pisoteados até a morte após serem rasgados por mãos que ambicionavam fazer o mesmo com Hange. Levi entreolhou a porta do quarto de Leona e a de Hange. Resolveu começar pelo pior.
O mero vislumbre do quarto destruído bastou para o capitão fechar o punho e cerrar os olho. Algum desgraçado escreveu "A PUTINHA TRAIDORA DORME AQUI" acima da cabeceira e desenhou uma flecha apontando para a cama quebrada. O colchão não aguentou ser feito de pula-pula e afundou. Montes de merda seca cobertos de larvas de varejeira jaziam sobre o colchão destroçado. A escrivaninha e as gavetas do armário foram roubadas, tal como os produtos químicos que Hange armazenava. O guarda-roupas vazio recebeu Levi de braços abertos. As roupas da comandante esparravam-se rasgadas e imundas, e Levi percebeu com asco que os homens se masturbaram nas calcinhas dela. O capitão procurou o casaco militar que Leona decorou para a mãe aos quatro anos. Não o achou.
Levi entrou nos aposentos de Leona. Ao contrário da do quarto da mãe, a porta do quarto da filha encontrava-se inteira. O capitão aliviou-se. O quarto de Leona não fora escangalhado, apenas saqueado. Os ladrões roubaram tudo; as meias, as calças, o tapete, os livros e os brinquedos. Ao menos, os vândalos tiveram compaixão pela criança e não mancharam as paredes do quarto de Leona com xingamentos que ela não merecia.
Ele mancou para fora da casa. O cocheiro o aguardava, porém não sozinho. Um homem largo e barrigudo conversava com ele. Levi alarmou-se e seu primeiro impulso foi o de se esconder. Entretanto, o estranho já havia percebido a luz do lampião, e se virou. Se tratava do comerciante da rua e pai de Peter, o melhor amigo de Leona. O homem estava tão surpreso em vê-lo quanto o próprio capitão.
— Ca
— Sim, sou eu. — Levi cortou-o a fim de evitar que o pai de Peter denunciasse sua identidade ao cocheiro burro. — O que você quer? Eu estou com pressa.
— N-nada. — O homem respondeu com humildade. — Eu só vi o cabriolé na frente da casa da dona... digo, da ex-comandante Hange, e pensei que pudesse ser a rainha ou coisa parecida. Eu... bom...
O pai de Peter mostrou uma caixa de mogno ornamentada de flores douradas. Levi arregalou o olho. Era o baú que Zackly deu à Leona há quatro anos, de presente de aniversário atrasado.
— Eu consegui salvar isso antes que o pessoal entrasse na casa. O meu garoto me ajudou... — O homem limpou o olho lacrimoso com o braço peludo. — Quando eu li a matéria do Folha de Paradis, eu tinha certeza de que iam vir pessoas de toda a muralha- digo, de toda a ilha, para demolir a casa da dona Hange. Então, eu arrombei a porta e peguei o que pude.
O pai de Peter apoiou a caixa no muro pichado, bem sobre a palavra PIRANHA. Ele abriu o baú e Levi boquiabriu-se ao contemplar o conteúdo. O capitão teve vontade de tascar um beijo na boca do comerciante, tamanha era a sua gratidão. Dentro da caixa achavam-se o barco de brinquedo que Onyankopon deu à Leona, a fotografia de Hange posando no porto e a irmãzinha feia dela (aquela em que Levi aparece), o caderno de desenho de Leona, o bloco de anotações de Hange, uma porção de desenhos soltos feitos pela comandante, a fotografia das duas juntas no aniversário da menina, uma caixa de sapatos com os dizeres P A R A BOLINha, uma camisa de Hange limpa e dobrada, e, jogada sobre tudo isso, uma medalha de ranking feita de papelão colorido.
— Maravilhoso. — Murmurou Levi, sua voz inexpressiva ligeiramente afetada.
— A grande maioria já estava no baú. Foi o Peter quem lembrou da caixa. Achamos em baixo da cama. Ele disse que a Bolinha guardava tudo de especial nesse baú. O meu garoto e a Bolinha eram muito amigos. Eu sei que a dona Hange traiu a todos nós, mas a Bolinha não tem culpa. — Cuspiu o homem, a modos de desabafo. — Estou feliz em ver o senhor. O senhor também não tem culpa, capi-
— Obrigado. — Levi interrompeu-o com rispidez. — Eu vou levar o baú, sim?
— Certo. — O pai de Peter aquiesceu. Quando Levi já mancava para o cabriolé, o homem pôs a mão em seu ombro e perguntou: — Antes de o senhor ir, pode me dizer se a Bolinha está bem? O meu garoto pergunta sobre ela todos os dias.
— A Leona... — Levi não se sentia confortável em responder a verdade. E se o pai de Peter suspeitasse que Levi pretendia retirar Leona de Paradis e o denunciasse aos yeageristas? — ...foi com a mãe, acredito.
— Hange a levou? — O comerciante se afastou como se tivesse levado um soco. Ele pôs a mão no peito. Agora, lágrimas de verdade derramavam-se em seu bigode. — Você está me dizendo que aquela va
— Não ouse terminar essa palavra. — Sibilou Levi. Ele corrigiu sua impulsividade de pronto: — Não grite comigo, gorducho. Eu só estou repetindo o que escutei por aí.
Levi enfatizou o ponto final em sua fala. Ele subiu no cabriolé com pressa dada à urgência de se afastar do pai de Peter. O capitão se despediu com um breve aceno e fez sinal para o cocheiro partir. O homem choroso retribuiu o gesto de forma automática e meio catatônica.
O cavalo saiu à galope pela rua escura. Levi abriu o baú. Do bolso do paletó, Levi retirou os goggles que Hange costumava utilizar nas batalhas – a retardada lutou usando óculos normais e deixou os goggles no navio — e os largou na caixa. Levi admirou a medalha de papelão que Leona jamais poderia dar à sua mãe. Então, retirou do bolso da calça a medalha verdadeira. Levi beijou o metal e o pôs no baú. Em seguida, ele apanhou a medalha de papelão e guardou-a no bolso interno do paletó, que era acoplado à esquerda.
XXX
Apesar de a criança estar vestindo uma capa da Tropa de Exploração, Levi só foi aceitar que aquela menina escaveirada, maltrapilha, cabisbaixa, careca e de saia era Leona quando a garota o chamou pelo nome. Ele não foi capaz de refrear o ímpeto de abraça-la. Ao mesmo tempo, Levi olhava por cima do ombro de Leona direto para a diretora do orfanato. A inquietação daquela mulher medonha de feia lhe dizia que ela era a culpada pelo estado de Leona. Levi encarou a rainha de rabo de olho e aprovou a palidez da monarca.
— Susie, essa é a Leona? — Apavorou-se Historia. — O que aconteceu?
A tal Susie adotou uma postura forçadamente ereta e escondeu-se atrás de um orgulho prepotente muito vacilante. A diretora abriu a boca. Leona, encontrando coragem na presença do capitão, respondeu pela diretora:
— Ela tentou me transformar em menino porque eu não gosto de usar saias. — Confessou Leona em tom acusador.
— É sério? — Levi deu um olhar cortante à diretora. Susie ria de maneira nervosa e suava frio, seu rosto horroroso era um tomate maduro. O capitão voltou-se para a rainha: — Vossa majestade, se me permite vos dar um conselho, acho que vós deves prestar atenção nos jumentos retardados que empregas em vossa propriedade.
A indelicadeza de Levi acordou a bebê nos braços da babá. A pequena Ymir só parou de chorar quando a rainha, meio a contragosto, pegou-a no colo. A cena fez Levi lembrar-se do humor instável de Hange nos primeiros meses de vida de Leona.
— Me desculpe, capitão. Você também, Bolinha, por favor, me desculpe. — Desculpou-se Historia com sinceridade. — O regulamento diz que as roupas são compartilhadas, mas em lugar algum está escrito que as meninas são obrigadas a usarem saias. — O finzinho da frase veio num tom duro claramente destinado à diretora. — Eu dou liberdade para os empregados da fazenda, sobretudo os do orfanato, interpretarem as diretrizes e criarem as suas próprias conforme a necessidade, porque crianças são umas caixinhas de surpresas. Mas... — Historia franziu as sobrancelhas e estreitou os olhos para Susie. — estou vendo que os meus funcionários também precisam de regras e fiscalização.
— Eu peço o vosso perdão, vossa majestade. Capitão Levi, me perdoe. — Susie fez uma mesura.
— É a Leona quem precisa de um pedido de desculpas, sua incompetente. — Ralhou Levi.
Para Susie, pedir desculpas à Leona e serrar a própria perna estavam em igual grau de dor. Com muito esforço, Susie pediu o perdão dela. A menina, contudo, pouco lhe deu atenção, e nada fez além de balançar a cabeça. Os olhinhos agitados corriam pelo aposento com ansiedade crescente, e ela revezava em qual perna apoiava mais peso do corpo. Levi compreendeu na hora: Leona estava procurando Hange.
— Bem, — Começou Historia — eu sei que vocês já estão de saída, mas eu quero me retratar. Você. — Historia meneou a cabeça para a policial perto do sofá. — Leve a Bolinha para o vestiário e a deixe vestir a roupa que quiser.
— Não precisa, vossa majestade! Eu estou bem assim. — Respondeu Leona pressurosa. — Senhor Levi, cadê a minha mãe?
O policial tossiu, a babá mexeu no cabelo, Historia embalou Ymir com mais energia, Susie mirou o teto e as policiais trocaram um olhar desconcertante. Graças à Santa Levi não tinha um repertório extenso de expressões, e a sua face sensibilizada não diferia tanto da sua cara normal. Ele já havia elaborado o passo a passo da confissão da morte de Hange, e ela não ocorreria em Paradis. Levi levaria Leona para sua nova casa primeiro, e, com toda a calma, empatia, e amor do mundo, contaria.
— Leona, obedeça a rainha.
— Eu já vou. — Rebateu Leona com impaciência. A insegurança que ela apresentou ao entrar na casa dissipara-se. Ela exigiu: — Só me diga aonde a minha mãe está.
— Sua mãe não pôde vir.
— Por quê?
— Smith. — Levi alteou a voz. — Vá com a policial e pare de encher o saco.
De má vontade, Leona seguiu a policial pela porta dos fundos, resmungando palavras desconexas que Levi teve a impressão de serem maldições.
— A Mikasa já chegou? — Inquiriu Levi quando Leona se foi.
— Ainda não. — Retorquiu Historia. — Pensávamos que ela estava com vocês.
Se Mikasa não aparecera na casa da rainha, então só podia haver um lugar aonde ela estava: em Shiganshina, sua terra natal, enterrando o que sobrou dos ossos de Eren. Se Levi estivesse certo, não julgaria Mikasa. Ele faria a mesma coisa no lugar dela. Ele fez, na verdade.
— Vocês pirralhos, parece que nunca aprendem. — Disse ele sem soar como reprimenda.
A policial e Leona voltaram nesse instante. Leona veio correndo na frente, guiando a policial ofegante. De calças e camisa, a menina sem cabelo se assemelhava mais com a garota que Levi recordava. Em contrapartida, dava para ver com nitidez a magreza da criança. Leona era só pele e osso. E ainda assim, Levi se sentia grato por Leona ter parado naquela fazenda, em vez de nas mãos dos yeageristas.
— Podemos ir agora, senhor Levi?
— Tá com pressa, hein? — Levi repreendeu-a. — Não vai dar tchau para a rainha?
Leona deu um pequeno sobressalto. Ruborizada, Leona se aproximou de Historia. A capa da Tropa de Exploração, que Leona ainda trazia nos ombros, arrastava-se no chão feito um manto. Em Hange, a capa já ficava enorme. Leona fez uma reverência exagerada, quase encostando o nariz no chão.
— Até logo, vossa majestade.
— Eu já disse que não precisa dessa galanteria, Bolinha.
Falou Historia, rindo. A bebezinha curiosa e atenta nos braços da rainha observou Leona, de dedinho na boca. Ymir era a cara da mãe. Leona deu um sorriso envergonhado e chispou para a porta. Ela pôs a mão pesada na maçaneta e direcionou à Levi um olhar inquisitivo – "vamos embora ou não?"
— Obrigado por proteger a Leona, Historia. — Levi agradeceu. Leona se horrorizou ao ouvir Levi se referir à rainha sem o "vossa majestade".
— Eu gostaria de ter feito melhor, capitão. Façam uma boa viagem.
— Obrigado. Adeus.
Leona, interpretando a despedida do capitão como aval para sair da casa, escancarou a porta e disparou correndo. A carruagem aguardava por eles a alguns metros. Um largo sorriso iluminou o rosto da menina. Ela começou a chamar pela mãe, e seu rostinho feliz murchou para desapontamento puro ao se aproximar do cabriolé e não encontrar nada além do cocheiro e do cavalo malhado.
Levi deu duas batidinhas na cabeça de Leona.
— Sobe, Smith.
O capitão subiu em seguida, sentando na outra extremidade do banco. Lá atrás, o cocheiro deu um comando de voz ao cavalo, e o animal treinado iniciou trote. A caixa de mogno separava os dois passageiros. Leona, entretanto, ainda não percebera-a. Ela fitava os próprios pés, decepcionada.
— Poxa, a minha mãe não veio de verdade...
O capitão ignorou a fala da garota e apontou para a caixa de mogno. Leona deu uma olhadela desinteressada, e ao reconhecer seu tesouro precioso, entrou em êxtase.
— O meu baú!
Leona abriu a caixa e encontrou os goggles e a medalha de Hange no topo da camisa dobrada. Leona os pegou com curiosidade, porém com muito cuidado, como se fossem joias. Ela ergueu os goggles à altura do rosto. As lentes refletiram o brilho do olhar da garota.
— Os goggles da minha mãe? E a medalha também? Ué, como vieram parar aqui?
O próximo alvo foi a camisa amarela. Leona respirou o cheiro da mãe como se estivesse apreciando o perfume da flor mais cheirosa do mundo. Ela dobrou a roupa e guardou-a de volta na caixa. Depois, Leona removeu a capa dos ombros, enrolou os goggles e a medalha nela, e guardou-a no baú, de maneira que os objetos ficaram protegidos em meio ao tecido grosso.
— Obrigada por trazer o meu baú, senhor Levi, mas eu não entendi por que você o trouxe. Aliás, o que aconteceu com o olho do senhor? E essa cicatriz... uhhh... é bem feia.
— Eu me machuquei na missão. — Explicou Levi, breve.
— Na missão!? — Leona alarmou-se. — E a minha mãe? Ela se machucou? Por isso ela não pôde vir? É grave?
O olhar de Leona deixava claro que ela aguardava uma resposta satisfatória. Os olhos da menina tinham a cor castanha dos de Hange, mas eram grandes e frios como os de Erwin. Levi teve a sombria sensação de que os comandantes mortos observavam-no através de Leona, e foi incapaz de sustentar aquele olhar tão direto. Infelizmente, Leona reparou nesse curto momento de fraqueza.
— Não é grave. — Levi arrependeu-se de dar essa resposta. — Nós vamos conversar sobre isso quando chegarmos em casa.
— Que bom. — Animou-se Leona. — Estou morrendo de saudade da minha casinha e dos meus amigos.
— Não, não. Você vai morar em outro lugar.
As palavras "você vai morar em outro lugar" apunhalaram Leona. O sorriso evaporou e ela levantou-se num sobressalto.
— HEIN!? — Gritou Leona. — Aonde o senhor vai me levar?
— Nós vamos pegar um avião e ir embora de Paradis.
— VAMOS EMBORA DE PARADIS!?
— É.
— Aonde vamos?
— Belavista.
Leona não fazia ideia do que diabos Levi estava falando, mas isso não a impediu de continuar o seu interrogatório:
— Aonde isso fica?
— Newcrest.
Os olhos esbugalhados encaravam Levi como se o capitão estivesse falando grego. Levi ignorou-a, deixando Leona processar a informação arrebatadora. A menina abismada voltou a se sentar e ficou em silêncio. Então, de súbito, ela levantou a cabeça e questionou:
— A minha mãe vai estar lá?
O capitão trincou os dentes e virou-se com uma ferocidade que fez Leona se encolher no banco.
— Se você perguntar sobre a Hange mais uma vez, eu vou jogar esse teu baú na rua.
— Não, por favor!
Leona agarrou a caixa e girou para o lado oposto, usando o próprio corpo para proteger o baú. Depois disso, menina e capitão isolaram-se em seus mundos individuais. Levi mirou Leona de soslaio, vendo-a infeliz e taciturna em seus pensamentos, e abraçada ao baú de maneira possessiva. Ele desejou que a viagem durasse para sempre.
Por fim chegaram em Shiganshina. Levi instruiu o cocheiro a deixá-los perto da biblioteca, o ponto de encontro. Ele deu o resto do pagamento e dispensou-o. Sua perna ruim logo cansou da vertical, e o capitão se sentou no murinho da biblioteca e deitou a bengala atravessada sobre as coxas, como outrora costumava fazer com as espadas.
— E agora, senhor Levi?
— Agora a gente espera o Jean e o Connie.
— Eles estão na ilha!? — A notícia revigorou Leona.
— Não, estão na casa do caralho. — Ironizou Levi. — É claro que estão na ilha.
Os soldados se atrasaram vinte minutos. Foi o bastante para preocupar o capitão enervado. Levi preparou-se para xingar os ex-subordinados quando eles surgiram em carruagens de vagão fechado, e só engoliu os palavrões porque Jean e Connie estavam acompanhados de suas respectivas mães.
— JEAN! CONNIE! SENTI TANTA SAUDADE!
Leona correu e pulou ao redor dos militares. Jean e Connie assustaram-se com o estado de Leona. Boquiabertos, desorbitados e lívidos, demoraram cinco segundos para darem-se de conta de disfarçar.
— Oi, Bolinha! Que saudades! — Jean beijou-a na testa.
— Adorei o seu corte de cabelo. — Elogiou Connie tentando agradá-la.
Jean e Connie envolveram a garotinha num abraço triplo. Leona, sorrindo, apertou o pescoço dos soldados. Enquanto isso, a mãe de Connie, desinformada do mundo, cochichava à mãe de Jean, bem baixinho para Leona não escutar, quem era aquela criança, e arregalava os olhos ao ouvir que se tratava da filha dos comandantes Erwin Smith e Hange Zöe. O olhar que a mãe de Connie passou a dar à Leona foi o de mais pura pena. A mãe de Jean fitava a menina com igual dó, e acariciava a imagem da Santa no rosário em seu pescoço.
— Corte de cabelo? Eu nem tenho cabelo. — Riu Leona. — Estou tão feliz! Eu sabia que vocês iam voltar! — Declarou Leona, satisfeita e saltitante. — Nunca acreditei no Folha de Paradis! Eu tinha certeza que vocês não traíram Paradis.
As faces sorridentes dos militares vacilaram e seus sorrisos começaram a tremer. A mãe de Jean se intrometeu. Ela deu um abraço não-solicitado em Leona. Apesar de ser a mãe de seu amigo, Leona não gostou nem um pouquinho de ser agarrada por uma pessoa a quem conhecia apenas de vista. Ela tolerou o abraço e deu batidinhas nas costas da senhora somente para não chatear Jean.
— Bolinha, eu sinto muito, de verdade. — Emocionou-se a mãe de Jean, chorosa. — Deve ser tão difícil, na sua idade...
— Sente muito? — Leona arqueou a sobrancelha. — Por quê?
— Mãe! Não aborreça a Bolinha!
Jean segurou os ombros da mãe e a guiou para longe de Leona. Entretanto, a semente já fora plantada. Leona pôs as mãos na cintura e entreolhou os adultos desconcertados. Na opinião de Levi, Jean merecia um chute nas bolas por não ter avisado à sua mãe que Leona não sabia da morte de Hange.
— Não entendi. Por que a senhora sente muito?
— É só... isso tudo... essa situação. — A mãe de Jean caiu no choro.
— É... é... — Connie tentou ajudar, mas sua gesticulação e seu gaguejo não ajudavam.
— Nós sentimos muito que você tenha ficado tanto tempo na fazenda, Bolinha. — Respondeu Jean. — Queríamos ter vindo antes.
— Não foi tão ruim. Foi até legal. — Mentiu Leona. — Não precisa chorar, senhora Kirstein. — E então, Leona se voltava para a mulher do lado de Connie. Ela correu o olhar rapidinho entre os dois, comparou as semelhanças e... — A senhora é a mãe do Connie!
— Ah, sim! Mamãe, conheça a Bolinha.
— Muito prazer. — A mãe de Connie se comportava melhor do que a de Jean.
— O prazer é todo meu, senhora Springer. Ei, como é voltar a ser humana?
O problema foi contornado. Levi respirou aliviado. Connie e sua mãe faziam um bom trabalho distraindo Leona. A menina nem piscava ante a história da mulher que, num belo dia, acordou sozinha numa Paradis sem muralhas. A mãe de Jean entrou na rodinha como espectadora da ex-titã da vila Ragako.
Jean sentou-se ao lado de Levi.
— Então a Mikasa pretende ficar, huh?
O timbre desapegado de Jean não convencia ninguém.
— Não a vi desde que saímos de Newcrest. Mikasa não estava na fazenda. A rainha disse que ela nem apareceu.
— Sério!? — A displicência falsa de Jean fora-se pelos ares. Ele travestiu sua preocupação amorosa de irritação e desprezo. — Depois de tudo que o Armin fez por ela, a Mikasa simplesmente some?
Mikasa foi a única paradisiana contra a ideia de morar em Newcrest. Ela escolheu regressar à ilha, a sua verdadeira casa. Embora tenha sido a lâmina de Mikasa que pôs fim à vida de Eren, Armin Arlert assumiu a responsabilidade do assassinato para poupar Mikasa da fama e dos problemas que o executor de Eren Yeager receberá pelo resto da vida.
Para Mikasa morar em paz em Paradis era preciso criar uma fantasia de "agente-duplo". Nessa brincadeirinha, Mikasa atuaria como uma aliada de Eren que se infiltrou na aliança entre MARLEY X VETERANOS para matá-los pelas costas (entretanto, fora descoberta e impedida pelo traidor Armin). De acordo com o resto do plano, Mikasa conseguiu escapar das garras dos malfeitores e resgatou o corpo (cabeça) de Eren. Desse modo, ela traria o cadáver para a rainha, Historia apresentaria Mikasa como amiga de Paradis e faria do enterro de Eren um evento público. Era um esquema engenhoso. Sem dúvidas, Armin teria de fato se tornado o próximo comandante da Tropa de Exploração, como Hange bem o nomeou antes de morrer.
— Quem disse que eu sumi?
A voz neutra de Mikasa surpreendeu Jean. Ele se virou cheio de expectativas, e ao defrontar-se com a expressão infeliz da colega, voltou a se sentar. Leona também ouviu a aproximação de Mikasa, e de pronto correu até ela. A soturnidade de Mikasa foi substituída por um sorriso terno. A soldada abraçou a menina com tanta força que Leona perdeu o ar.
— Bolinha, como você cresceu.
— Cresci?! Você acha? — Falou Leona, toda contente. — Você também cresceu, mana, só que no cabelo.
— Mikasa!? — Connie emitiu uma exclamação espaventa. — Você não deveria estar na fazenda?
Mikasa deu suspiro longo e se aproximou da luz do lampião para os amigos verem sua roupa. A camisa, a saia e as botas da soldada estavam sujas de terra. Levi, afinal, deduzira corretamente aonde Mikasa se metera.
— Eu enterrei o Eren. Não façam essas caras. Agradeço o que o Armin fez por mim, mas eu não poderia permitir que o Eren fosse enterrado na Capital, e que transformassem o túmulo dele num ponto turístico de nobres. Eu o enterrei bem aqui, em Shiganshina, nas raízes da nossa árvore favorita.
A reação de Leona ofuscou a indignação dos adultos. Sua vozinha marcada pelo choque saiu fina feito um gemido:
— O Eren virou estrelinha?
— Sim. — Respondeu Mikasa, suave. — Ele se foi, Bolinha.
— O Eren virou estrelinha...
Repetiu Leona. Ela fungou e seus olhos lacrimejaram. Não era um choro propriamente dito, era mais aquele sentimento meio atônito, meio abalado, de descobrir que um conhecido faleceu. Leona não emocionou-se ao ponto de chorar de verdade, Levi percebeu, mas ela forçava as lágrimas, pois sentia que "devia" chorar. Mikasa tomou a liberdade de abraçar Leona. A garotinha não precisava de consolo, mas aceitou o conforto.
— E agora, Mikasa? — Questionou Jean em tom de crítica.
— Eu vou dar um jeito. — Rebateu Mikasa, dando de ombros. — Eu trouxe o Eren de volta, não trouxe? Isso vai bastar, sei disso. Além do mais, eu não quero voltar ao exército, como a Historia pensa. Meus dias de luta acabaram. Eu vou comprar uma casa aqui em Shiganshina, perto do Eren, e seguir minha vida.
— Você não vem mesmo com a gente? — Connie fitou Mikasa com olhos implorantes. Jean aguardou a resposta de Mikasa com mais ânsia do que Connie.
— Não. O meu lugar é em Paradis, e sempre vai ser.
O galope de quatro cavalos quebrou o silêncio da cidade. Os exilados olharam na direção de onde o barulho vinha, incluindo Leona, que afastou o rosto um pouquinho do colo da Ackerman para ver as carruagens adiante. Mikasa separou-se da menina e lhe um beijo longo e carinhoso na testa.
— Bolinha, você foi muito corajosa esperando a gente. Continue com essa coragem, tá?
— Mana, não vamos nos ver mais? — Perguntou Leona, agora de fato à beira das lágrimas.
— Não. — Assumiu Mikasa, direta apesar de maviosa. Nem por Leona, a criança que ela viu nascer e crescer, Mikasa abdicaria sua decisão. — Mas você poderá vir me visitar quando você for mais velha.
Leona relutou em se afastar de Mikasa. "Quando você for mais velha" tem um significado amplo e indeterminado. Mais velha é o quê? Leona seria mais velha amanhã, e também o seria daqui trinta anos. A qual dos "mais velhas" Mikasa se referia?
Levi não deu tempo para Leona refletir – ela poderia meditar o quanto desejasse no avião, e seria realmente maravilhoso que a permanência de Mikasa em Paradis e a morte de Eren distraíssem Leona do paradeiro de Hange. Ele deu um puxãozinho na camisa da menina. Leona suspirou, apanhou o baú de mogno e seguiu Levi.
No entanto, na hora de subir na carruagem, Leona prendeu os pés no chão e se recusou a entrar. O capitão deu uma olhada ameaçadora à menina, e Leona, inflada de valentia, clamou:
— Eu não vou, senhor Levi. — Decidiu-se Leona. E numa imitação dramática da declaração de Mikasa, Leona afirmou: — Meu lugar é em Paradis, e sempre será.
— Porra nenhuma, pirralha! — Levi transtornou-se com aquele absurdo. Ao redor, os outros riram entredentes. Até Mikasa riu. O capitão deu um tapinha no cocuruto de Leona. — O seu lugar é onde sua mãe e eu queremos que seja. "Meu lugar é em Paradis". Ah, vai cagar.
XXX
Embora andar de avião fosse um sonho antigo de Leona, a única parte que ela aproveitou foi a decolagem. Leona adorou o friozinho na barriga que causava náuseas no capitão ranzinza. Depois de meia hora de viagem, Leona se cansou de assistir o breu da madrugada – ela jurava que era possível ver as estrelas de pertinho, e a triste realidade a chateou – e recolheu-se no assento, abraçada à caixa de mogno.
O voo durou seis horas as quais, graças à Santa, Leona passou boa parte dormindo. Por volta da uma da tarde, eles pousaram na cidade que Levi ainda estava aprendendo a reconhecer como sua pátria. A América do Norte foi uma das únicas que escapou ilesa da Revolta dos Titãs, o vulgo da nivelação. O genocídio de Eren Yeager não poupou nem Hizuru. Newcrest, um país da América do Norte, abriu as portas de Belavista, uma cidade portuária, para os refugiados, incluindo os heróis paradisianos. Levi voou para Belavista assim que sua perna esteve apta a aguentar longas horas na mesma posição. Armin cuidou dos novos documentos do capitão. Ele ficou grato por continuar com o nome "Levi", apesar de agora o seu sobrenome ser o terrível "Rivaille". Segundo sua nova identidade, Levi Rivaille é um eldiano mestiço fugido de Liberio.
A nova identidade era necessária para protege-lo dos belavitenses que reparassem em seu forte sotaque eldiano e porventura suspeitassem de sua terra natal. O governo de Newcrest foi benevolente, Levi admitia. Como retribuição ao seu esforço na Revolta, Levi recebeu a proteção das autoridades americanas. Felizmente, a honra era transmissível. Leona também era elegível aos benefícios. Entretanto, é claro, quando a história esfriasse e odiar eldianos voltasse a estar na moda, uma pilha de papéis não ia salvá-los de todos os perrengues.
Tão logo aterrissaram em Belavista, uma carruagem aguardava-os. Newcrest, por ser inimiga de Marley, não gozava da tecnologia avançada do país rival e seus aliados. Levi contava nos dedos quantos carros avistou em Belavista.
Connie foi o primeiro a descer, seguido por sua mãe. A mãe de Jean precisou da ajuda do filho. Depois de ampará-la, Jean ajudou o capitão Levi. Leona desceu do avião carregando a caixa de mogno. Ela girou a cabeça em todas as direções, contemplando o extenso campo vazio aonde aterrissaram – não existia aeroporto em Belavista – com uma cara perplexa que tendia à desaprovação.
— Isso é Belavista? — Leona arqueou a sobrancelha. — Não tem nada.
— É porque não estamos na cidade, demente.
— A cidade é bem maior, Bolinha. — Jean animou-a. — Você vai gostar.
Jean acariciou a cabeça de Leona. Ele estava com o outro braço entrelaçado no da senhora Kirstein. Enquanto isso, Connie e sua mãe embarcavam na outra carruagem. A dona Springer elogiava o filho e sua maturidade adquirida em oito anos, e dizia que gostaria de ter participado da vida dele nesse ínterim. Leona assistia as interações com uma certa inveja.
— Vem, Smith. — Levi passou o braço ao redor dos ombros de Leona. — Temos um caminho longo até a cidade.
Levaram uma hora para chegar à civilização. Pela pequena janelinha da carruagem, Leona observava as paisagens urbanas de Belavista, cuja arquitetura de torres e prédios geométricos era novidade. Ela alegou que os palácios de Paradis superam Belavista em beleza, e que até os casebres humildes dos bairros paradisianos pobres têm mais charme.
Por fim, eles chegaram na casa na qual Leona viveria até o início da vida adulta. O governo deu à Levi uma casa de dois andares em um bairro próximo ao centro comercial. A casa foi construída para uso misto, sendo o andar inferior planejado para um futuro empreendimento. No andar superior localizava-se a residência. E ainda tinha uma sacada na frente, onde Levi amava sentar-se e julgar os passantes. Sua parte favorita era os fundos, onde existia um pequeno pátio que Levi transformou em um viveiro de pássaros.
— Huh? A gente entra pelo ladinho? — Perguntou Leona quando passaram reto pela cerca de grade que trancava o andar inferior e pararam em frente à portinha lateral. — O que tem nesse quadradão, senhor Levi?
— Eu vou abrir uma loja de chás.
— É!? — Leona deu uma risadinha. — Hehe, não combina com o senhor.
— Então você acha que eu não fui feito para vender chás? — Perguntou o capitão ao girar a chave na fechadura. — Se quer saber, eu também acho o seu sonho de ser veterinária uma completa besteira. Eu só não falo isso na sua cara.
— O senhor acabou de falar. — Leona fez beiço.
— Olho por olho, Smith. — Disse Levi, apontando o tapa-olho. Ele respirou fundo e começou a subir as escadas, apoiando-se na bengala. Às vezes, arrependia-se de ter aceitado aquela casa. — Enfim, bem-vinda ao seu humilde lar.
Leona se deparou com o que devia ser a casa mais limpa do planeta. Você podia escolher se queria comer na mesa da cozinha ou no chão da sala, os dois estavam limpíssimos. A sala possuía uma lareira que ainda não fora estreada, e os sofás brilhavam como novos apesar de serem doados. Leona, contudo, não se atentou ao chão brilhoso, à louça de porcelana, dentre outros detalhes que evidenciavam o capricho de Levi, e tampouco pediu para conhecer o seu quarto. Ela simplesmente largou o baú de mogno no chão, pôs as mãos em forma de concha ao redor dos lábios e começou a gritar com animação:
— MÃE, ESTOU AQUI! VAMOS MORAR NESSA CIDADE MESMO, MÃE!? EU NÃO GOSTEI MUITO! NÃO PODEMOS VOLTAR PARA PARADIS? EI, POR QUE NÃO RE
— Smith. — Levi pôs a mão no ombro da criança. Leona parou de gritar e encarou Levi, sorrindo. O otimismo dela o comoveu. Porém, não dava para fugir da verdade. — A sua mãe não está aqui.
O sorriso de Leona desapareceu. Ela se desvencilhou da mão do capitão.
— Aonde ela está? O senhor disse que não era grave! — Interrogava Leona, preocupada e ansiosa. — Ela está no hospital?
— Leona, eu...
Ele havia montado esse diálogo inúmeras vezes, e agora não conseguia seguir o roteiro. O falecimento de Hange não era novidade para Levi, e ele já passara da fase de tremer quando recordava da perda. Todavia, alguns traumas só estão superados enquanto mantidos debaixo do tapete, e Levi acabara de descobrir que a morte de Hange é um deles.
— A sua mãe morreu. — Ele disse, por fim. Sem rodeios, e sem estrelinhas.
Leona piscou, aturdida. Então, ela riu de canto, sacudiu a cabeça e fez uma careta engraçada. Levi pôs a mão na testa e suspirou. Adiante, Leona saltitava pela sala na direção da cozinha.
— Mãe, pode parar. Eu já entendi o seu joguinho e o do senhor Levi. Eu sei que você está aqui.
— Leona, ninguém está fazendo joguinhos. A sua mãe morreu.
Nesse entretempo Leona abriu a porta da cozinha e agora fitava o aposento, de costas para Levi. De onde estava, Levi pôde ver os dedos da criança pressionando a moldura da porta. Leona se virou de supetão, eriçada feito um gato e com os dentes à mostra por sob os lábios trêmulos.
— PARA DE MENTIR! EU NÃO TENHO CINCO ANOS! NÃO CAIO MAIS NESSAS BRINCADEIRAS! — Ela berrou em voz embargada. — MÃE! MÃE! EU SEI QUE VOCÊ ESTÁ AQUI! APAREÇA!
Leona entrou na cozinha mandando Hange aparecer, e em menos de cinco segundos zarpou de volta para a sala. Leona entrou no banheiro, no quarto que Levi separou para ela, no quarto dele, e quando não havia mais portas para escancarar, Leona empoleirou-se nas janelas e esganiçou-se gritando "MÃE, VEM AQUI". A cada "mãe", a nota afogada de lágrimas aumentava, e logo a voz de Leona era mais pranto do que linguagem verbal. Ela revisitou os quartos, e agora Levi a escutava abrir os armários, olhar atrás das portas e verificar em baixo das camas, chamando, sem nunca parar, pela sua mãe.
Leona voltou à sala. O rosto da menina era uma confusão de lágrimas e ranho. Ela avançou em Levi feito um touro, prestes a cometer um ato de violência para cima do capitão. Leona investiu com as duas mãos estendidas como se fosse empurrá-lo, mas ela não o impeliu — ou desistiu no último segundo — e apenas puxou o paletó de Levi.
— Ela está lá em baixo... Senhor Levi, abre o quadradão, por favor, ela está lá...
— Eu posso abrir se você quiser. — Respondeu Levi, compreensivo. — Mas a sua mãe não está lá. — Ao ouvir isso, a criança arreganhou a boca e recomeçou o berreiro e as acusações de mentira. Levi aumentou a voz para se fazer ouvir e explicou, com toda a delicadeza do mundo: — A sua mãe era militar, Smith. Ela morreu em trabalho, como o seu pai e como a Sasha.
— MENTIROSO! — Leona cuspiu uma chuva de saliva ranhosa ao vociferar. Ela começou a pular com os punhos cerrados. Decerto, dava para ouvir os gritos enfurecidos na vizinhança inteira. — O SENHOR ESTÁ MENTINDO! É MENTIRA! MINHA MÃE NÃO MORREU!
— Eu sei que dói, eu sei.
A vozinha de Levi era um tico de nada perto do surto de Leona. Ela nem parecia ouvi-lo ou vê-lo, ensandecida em sua própria negação. O que Levi devia fazer, afinal? Ele nunca teve sucesso em controlar Leona por outras técnicas salvo caras feias e cascudos. O que Hange faria?
— Smith, venha cá. Pare de gritar.
Levi estendeu a mão torcendo para Leona aceitar o seu afeto como aprovou o de Mikasa em Paradis. Leona, porém, lhe acertou um tapa no pulso. Ela deu as costas à Levi e voou para o quarto com brinquedos e caminha de solteiro, batendo a porta com tanta força que o batente tremeu.
Parado na sala, Levi encarou a porta por onde Leona desapareceu. A casa tornou-se silenciosa sem o pranto inconformado de Leona. Todo o seu planejamento dera errado, e ao mesmo tempo, Levi compreendia que jamais poderia ser de outra maneira.
Ele fitou a caixa de mogno. Leona esquecera-se dela. Levi levou-a até a porta do quarto onde a criança se enclausurara. Levi pôde ouvir o chorinho abafado, e vocábulos soltos que ele entendeu como "mãe" e "mentindo".
Levi pôs a caixa no pé da porta. O capitão pensou em bater e avisá-la sobre o baú. Entretanto, desistiu. Mais do que ninguém, Levi entende as pessoas que preferem a solidão em momentos difíceis. Leona não era desse jeito, porém. Ela sempre corria para a mãe. Todavia, apenas Levi estava aqui, e ele era a última pessoa que Leona desejava agora.
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