Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
18 Faça um pedido
Festas de aniversário são um marco na vida de qualquer criança. Quando bem-feitas, se tornam lembranças para a vida toda. Basta perguntar a um adulto. A grande maioria da gente grande lembra com exatidão das festas de aniversário memoráveis, desde os preparativos até a hora de soprar as velas.
A própria Hange teve algumas festas de aniversário na infância. A mais marcante foi a em que sua mãe contratou um ilusionista. Hange recordava do encanto incrédulo quando o homem sorridente puxou uma moeda de trás da sua orelha, onde tinha certeza não haver moeda alguma até o rapaz colocar a mão. Hange passara boa parte do aniversário infernizando o pobre ilusionista para ele contar o segredo do truque.
Os presentes, a algazarra, o parabéns, o ilusionista e os balões estourando no ouvido dos amigos ficaram em sua memória, e Hange não desejava nada mais do que o mesmo para sua filha. Portanto, em vez de passarem a data com a avó, Hange decidiu que os quatro anos de Leona, e os próximos, seriam comemorados com festas de aniversário.
Começou pela lista de convidados. Em dez minutos, a folha de ofício ficou lotada de nomes de soldados da sua própria divisão, e ainda precisava colocar o pessoal da Tropa Estacionária, a Polícia Militar, a Capital (por educação), a rainha, a mãe de Erwin, os amigos de Leona, a família de Minnie, seu pai e os meios-irmãos (tomara que não venham), os marleyanos, os engenheiros, os voluntários... minha nossa. Sua humilde casinha jamais comportaria tamanha quantidade de pessoas. Sendo assim, Hange decidiu alugar um espaço maior para tal.
Optou por uma área ao ar livre não muito longe do bairro aonde morava. Uma festinha na rua abria muitas possibilidades. Poderia contratar um animador para entreter as crianças e até colocar algumas brincadeiras, talvez o “rabo do burro” e “argola na garrafa”.
A questão da alimentação era muito simples. Com exceção de Sasha, bastava dar vinho aos adultos para contentá-los. Quanto às crianças, estariam ocupadas demais brincando para lembrarem de comer. Não precisava de muita coisa. Na parte dos doces, comprou balinhas enroladas em papel colorido, pirulitos e doces de batata-doce. Na salgada, encomendou pães e ingredientes para fazer cachorros-quentes. A preparação dos lanches ficaria a cargo do cozinheiro do quartel; o senhor não cobrou nada para trabalhar na festa.
Sendo o bolo a parte principal dos aniversários, Hange não controlou o bolso. Escolheu uma torta de massa branca recheada com creme de avelã, sabor favorito de Leona, combinado com doce-de-leite. A decoração era glacê cor-de-rosa e amarelo, ambos em tons suaves. Quando a boleira perguntou o tamanho da torta, Hange pediu duas vezes o maior, e ainda comprou outra de reserva.
Hange se divertiu planejando a festinha, e Leona ficou igualmente empolgada quando foi avisada do que aconteceria na semana que vem. Por sete dias, rodopiou pela casa cada vez que Minnie ou Hange falavam em aniversário, ansiosa para que o vinte de setembro chegasse logo.
XXX
Quando o esperado dia chegou, Darius Zackly e o resto da Capital não compareceram (ainda bem) e seu pai apareceu sem a esposa e os filhos (obaaa!). Hange lamentou a falta da rainha e de Sophie, mas entendeu os motivos da ausência. A rainha tinha compromissos com a Capital. No caso de Sophie, a idade enfraquecera suas pernas nos últimos dois anos, ela mal saía de casa, quanto mais para viajar. Hange sentiu uma pontinha de arrependimento por não terem passado a data com Sophie como fizeram nos aniversários anteriores. Portanto, prometeu levar Leona para vê-la no próximo fim de semana. Não podia esquecer de escrever uma carta avisando a senhora da visita.
O generoso espaço alugado era delimitado por cercas brancas. A grama fora cortada no dia anterior pelo dono do lugar, e a pequena cozinha tinia de limpa. A cozinha era um quadrado no meio do campo, e do teto alpendres puxavam uma cobertura, abaixo tendo cadeiras e mesas já ocupadas. Os cachorros-quentes e o vinho eram servidos através do balcão aberto na varanda, sendo a entrada da cozinha pelos fundos. A cozinha era a única construção na área, o resto era grama. O animador já havia chego e divertia algumas crianças, enquanto outras brincavam entre si, Leona inclusa.
Fora a Capital, a rainha e Sophie, quase ninguém faltou. De vez em quando, Hange corria o olho entre os convidados para fazer nota mental. Os mais desejados estavam lá. Levi, o esquadrão 104, Mayla, Onyankopon... seus melhores amigos compareceram para comemorar o aniversário de sua filha. Era importante para Hange estar cercada de gente querida, seu coração ficava aquecido vendo tantos rostos conhecidos reunidos.
Naquele momento, Hange se encontrava fazendo sala para subordinados do quartel-general, entre eles estando Floch e Louise. Eles parabenizaram Hange por ter escolhido um lugar espaçoso, e a comandante deu de ombros falando que era o mínimo pela lista de convidados longa. Louise contemplou os arredores, concordando que havia mesmo milhares de pessoas na festa.
— Puxa, que criançada. A Leona é bem popular, olha quantos amiguinhos ela tem.
Hange riu de boca fechada. Leona estava de mãos dadas com quatro crianças, as cinco brincavam de roda perto da bandinha que contratara para fazer música na festa.
— Na verdade, ela só brinca com aqueles quatro.
— Ué? E de onde saíram todas as outras?
Hange bebericou um pouco do seu suco antes de responder.
— Fiquei com pena de convidar umas e não chamar as outras, sabe, festas de aniversário se espalham rápido entre crianças, então resolvi convidar todas de uma vez.
De fato, havia crianças na festa que Hange sequer conhecia, e algumas foram trazidas por seus convidados, ou seja, estavam lá sem terem sido chamadas pela organizadora do aniversário ou pela aniversariante. Louise e Floch arregalaram os olhos, e entre risadas educadas chamaram Hange de louca – em tom de brincadeira, claro. Hange não se importava, tinha comida e bebida aos montes, seria um desperdício jogar tudo fora.
A comandante passou as próximas horas recepcionando convidados – Pixis passou pela cerca lhe dando um tapão nas costas e perguntando aonde estava o vinho — conversando com os presentes e conferindo se todos já haviam recebido seus cachorros-quentes. No meio tempo entre uma atividade e outra, Hange procurava por Leona para conferir se ela estava bem, e a encontrava brincando ou conversando com os soldados do quartel.
Leona corria atrás de um garoto muito mais velho. O menino virou de súbito, a atacou e os dois rolaram na grama num jogo de briga. Hange reparou que o rapazinho perdia de propósito. Aquele garoto não era do bairro, devia ser um penetra de outro vilarejo. Leona nunca o vira na vida e já fizera amizade com ele.
Leona foi um feto agitado, a maltratava o tempo todo com chutes, Hange gostava de pensar que esses golpes eram tentativas de sair daquele lugarzinho apertado e sem-graça. Agora, lá estava esse feto, pulando nos outros e rindo sem parar. Quando estava grávida, devaneava sobre a personalidade de sua futura filha imaginando que ela fosse ser extrovertida como os pais. Acertara tanto no gênero do bebê quanto no traço de personalidade.
É, o chá abortivo que eu tomei naquela manhã está fazendo quatro anos.
A tragédia do pensamento teve um timbre divertido. Por vezes, Hange se perguntava se o que vivia era real. Leona não foi desejada, tampouco feita por duas pessoas comprometidas. Erwin nem era seu namorado, foi coisa de uma noite, sequer amavam um ao outro romanticamente. Hange sofreu para aceitar a gravidez, teve problemas para manter o emprego e o parto foi difícil. Porém, todas essas coisas haviam ficado no passado junto do seu antigo Eu — a Hange que vivia apenas pela ciência e pela honestidade.
Hange ficou cansada lá pelas quatro. Os outros adultos bebiam vinho, mas ela não pretendia beber. Pediu mais suco ao cozinheiro. Após recebe-lo, atravessou a festa para chegar na cerca do outro lado do campo. Hange foi parada por cinco pessoas até consegui alcançar o ponto vazio, e ao fazê-lo, encostou-se na cerca com o cotovelo livre apoiado nas tábuas. Ela jogou a cabeça para trás, suspirando. Estava cansada. O tipo de cansaço bom, semelhante a exaustão gostosa após duas horas de dança com os seus melhores amigos; ou então, o cansaço compensador de passar a madrugada escrevendo o próximo capítulo do seu livro.
— Não vai beber, quatro-olhos?
Hange abriu o olho, encontrando Levi. Tinha falado com ele no começo da festa quando o capitão chegou com seu esquadrão, e depois não o viu mais. Riu ao constatar o liquido amarelo no copo do subordinado.
— Olha quem fala.
— Não gosto de beber.
Levi sentou na cerca, ficando mais alto que a comandante encostada ao seu lado, e os dois observaram a festa. O animador divertia as crianças mais novas com a clássica brincadeira do morto-vivo, e as mais velhas se revezavam no jogo da argola na garrafa.
Quanto à Leona, estava montada nos ombros de Connie, gargalhando agarrada à cabeça raspada enquanto o soldado rodopiava. Sasha estava perto deles, mastigando o seu quarto cachorro-quente e dançando ao redor de Connie, o molho do pão escorria para o vestido devido a movimentação exagerada. A irmã adotiva de Sasha, Kaya, aguardava entusiasmada por sua vez de subir nos ombros de Connie.
— Você não tem medo que eles deixem a sua bebê cair?
— Tenho.
Levi se surpreendeu. A comandante, sorrindo suave, relaxada na cerca, bebendo um copo de suco em goles vagarosos, não demonstrava o mínimo de preocupação.
— Sério? Não parece.
A mulher que a trouxe o mundo foi uma mãe estressada. Levaria três dias para contar todas as surras, e três meses para relatar as fugas, mentiras e desobediências. Infelizmente, a mãe de Hange levou anos para aprender que proibir uma criança de fazer merda não adianta nada, principalmente se o seu filho for hiperativo como a garotinha que Hange foi. Pelo menos, não aprendeu tarde demais. A comandante, por sua vez, resolveu tirar algo bom dessa parte da sua infância para a criação de Leona.
— Eu não vou impedir a Leona de se divertir. Criança se machuca. Se eu for me preocupar com cada perigo que tem por aí, vou morrer de estresse e ela também.
Um Eren sorrateiro se aproximou da mesa do bolo e surrupiou três balas para o bolso da calça. O soldado olhou para a esquerda e para a direita, e então, muito rapidinho, passou o dedo no glacê da torta e o pôs na boca. Pela expressão, aprovara o sabor. O rapaz tomou cuidado para agir discretamente, entretanto, Hange e Levi viram de longe e compartilharam uma discreta risada nasal. O rapaz andou como quem não quer nada na direção de Mikasa e Armin e dividiu os doces roubados com eles de costas para os demais convidados, feito um traficante de drogas.
— Sabe, Hange, isso que você falou... — Levi se interrompeu e farejou o ar, sem desmanchar a clássica expressão inexpressiva. — func func... tem cheiro de experiência própria.
A comandante sorriu de canto, limitando-se a terminar de beber o suco. Revirou o olho e fez beicinho, fingindo inocência.
— Não sei do que você está falando.
— Fala sério. Aposto que você foi um diabo.
— Eu fui uma criança quieta e educada.
Levi deu um tapa em seu ombro. Hange explodiu em risadas, entregando a mentira de vez. Quieta e educada, essa foi boa.
— Mentirosa. Fala logo, você era tão encrenqueira quanto penso?
Hange lembrou do lençol novinho reduzido a cinzas em menos de um mês de uso. Olhou para o copo de suco, e depois estreitou a íris para o capitão a sua direita. Temperou o sorriso com maldade.
— Eu era pior.
Apesar de não se orgulhar (tanto) das travessuras, a comandante não pôde evitar erguer a face sonhadora para o céu de primavera. Sua infância foi marcada de situações perigosas, desde descer escadas plantando bananeira até apanhar ratazanas furiosas para jogar na cabeça dos policiais. Se ser criança significa aproveitar a impunidade jurídica, Hange poderia ganhar um prêmio.
— Qual foi a coisa mais louca que você já fez?
Hange olhava as nuvens, a percepção visual identificando formas bestiais no vapor condensado. Pensou em contar sobre quando dormiu no telhado da escola enquanto caçava pássaros, e acordou meia-noite ouvindo um grupo de resgate procurando por ela. Ou então da vez que escalou a caixa d’água pública do distrito e nadou lá a tarde toda com mais cinco crianças. Essas duas histórias e muitas outras serviam como uma resposta, mas Hange tinha uma muito melhor.
— Teve uma vez que eu estava voltando para casa na hora do almoço e encontrei um bando de bêbados. Eles me pararam e perguntaram se eu tinha dinheiro ou algo para eles comerem.
— O que você fez? — Levi arqueou a sobrancelha.
— Convidei eles para almoçarem na minha casa.
— Não acredito.
— Minha mãe também não acreditou.
Levi sacudiu a cabeça, o capitão terminara o suco e agora atirava o copo de uma mão para a outra. Na festa, Connie girava feito louco, dava para ver a tontura no rosto camponês. Kaya ria nos ombros do soldado. Leona não estava por perto. Hange correu o olhar aflito pelos convidados até encontrar a filha no colo de Mikasa. Mesmo distante, Hange conseguia perceber, só pelo movimento dos bracinhos, que a menina renegava os beijos e abraços da garota. Mikasa ignorava esse detalhe e continuava a apertando, como se Leona fosse um bichinho de pelúcia.
— Do que você está rindo?
— Da Leona.
— Ela não gosta de colo?
— Só do meu. Dos outros, depende do momento.
A conversa terminou aí. Ficaram lado a lado na cerca, Hange encostada e Levi sentado na tábua superior, descansando os cotovelos nos joelhos. Ambos apreciavam o som leve da música que a banda tocava. Hange amava conversar, e também amava estar em silêncio na companhia de Levi, era um dos poucos com quem se sentia confortável no silêncio. Olhou para o Ackerman de soslaio. Era tão bom estar perto dele.
— Ei, Levi.
Hange puxou a camisa do capitão de leve. Levi olhou para ela, e no próximo segundo inclinava-se para beijá-la. Estavam longe da multidão, sozinhos naquela cerca, ambos tranquilos, não fazia mal namorar um pouquinho de nada. Beijaram-se superficialmente, apenas provando a boca um do outro sem aprofundar o contato. Hange abriu o olho, roçando o nariz no de Levi antes dele se afastar.
— Quer ficar na minha casa essa noite?
— Por quê?
— Como assim por quê? Porque sim, ué.
Hange deu de ombros. Não existia uma razão concreta para convidá-lo, mas achava ter relação com o fato de estar gostando da companhia dele naquele momento, e assim sentir vontade de estendê-la. Além disso, Levi nunca tinha visitado sua casa, e achava aquela uma ótima oportunidade para recebe-lo.
— Pode ser.
Eles ficaram ali por bastante tempo, olhando o aniversário de longe. No fundo do campo, Onyankopon, Yelena e marleyanos se organizavam numa formação desconhecida que Hange logo reparou pertencer a algum esporte. O grupo divida-se em dois times de cinco e se colocavam de quatro uns na frente dos outros. No meio, o décimo primeiro jogador pusera uma bola estranha — oval, pontuda, colorida de marrom e branco. O jogo começou ao apito do participante sem time. Os dois eldianos recuaram na cerca ao verem os times atacando uns aos outros feito animais selvagens. De repente, Niccolo fugiu do amontoado. Atravessaram o campo em disparada. Niccolo carregava a bola estranha, vez ou outra olhava por cima do ombro, e ao constatar os outros chegando perto, voltava-se para frente e corria mais rápido. Hange entendeu que ele fugia para os outros não tomarem sua bola. Onyankopon gritava para o marleyano jogar a bola para ele, entretanto, o alvo de Niccolo parecia ser a outra extremidade da cerca. Yelena saltou sobre ele, derrubando o garoto no chão, e os demais rapidamente pularam também.
Ah, santinha, sabia o nome desse jogo. Onyankopon lhe falara dele. Qual era mesmo?
— Credo.
— Ah, sim! Lembrei. O nome desse jogo é futebol americano.
— Ah, isso é um jogo? Puta joguinho saudável, hein.
Desdenhou Levi. Os jogadores saíram de cima de Niccolo. O rapaz fez careta ao levantar, foi mancando atrás dos outros, nenhum dos times parecia preocupado. Hange, encostada na cerca, deu um tapinha na canela de Levi, sorrindo.
— Ah, Levi, a gente acha estranho porque fomos criados aqui. Se a gente tivesse nascido em outro lugar, talvez gostássemos.
O capitão torceu a boca e sacudiu a cabeça repetidas vezes.
— Eu jamais gostaria de um troço tão sem graça.
Ele ficou pensativo por um momento. Então, acrescentou:
— Na verdade, eu sequer seria amigo de quem gosta disso. Nossa, nem se eu tivesse nascido num universo alternativo.
Mais ou menos pelas cinco da tarde, quando o sol se despedia para dar lugar a lua, Hange decidiu chamar os convidados para cantar parabéns. Escureceria em breve. Apesar de querer levar o aniversário até às quatro da madrugada, o dia seguinte iniciava mais uma semana de trabalho e, sendo comandante, não podia se dar ao luxo de chegar cansada.
Hange infiltrou-se no meio das pessoas. Sua voz aguda anunciou a hora do parabéns, indicando a mesa do bolo com um braço e usando o outro para chamar as pessoas. Olhou para os lados, gritando o nome da filha. A garotinha surgiu em menos de um minuto. Leona tinha o cabelo e a roupa sujos de terra.
— Nossa, você se divertiu, huh?
Hange se pôs de joelhos e a limpou como pode, batendo na roupa para tirar a terra e passando os dedos no cabelo curto para remover os filetes de grama. Leona vestia camisa e bermuda preta, nos pés não usava nada.
— Cadê os seus sapatos?
— Tirei pra brincar.
Leona tinha um ódio mortal por sapatos. Hange não podia culpa-la. Quando criança, ela mesma os detestava, e até hoje preferia ficar descalça. Sempre gostou de sentir a grama molhada na sola dos pés, além disso, era mais fácil para escalar árvores e ganhar velocidade no chão de terra – perfeito para pique-pega ou para fugir dos cachorros. O problema eram os parasitas. Pelo menos, Leona não reclamava na hora de tirá-los, enquanto a criança que sua mãe foi esperneava, chutava e cuspia para fugir do procedimento.
— Espero que você lembre onde os deixou. Vem, vamos cantar parabéns.
A mesa do bolo ficava perto da cerca no outro lado, propositalmente longe do animador e das brincadeiras infantis a fim de evitar possíveis acidentes. A mesa era longa o bastante para comportar o bolo imenso ocupando a largura da superfície. Dois pratos com balas, pirulitos e doces de batata decoravam a mesa, ambos quase vazios. O bolo era decorado de abundante glacê rosa e amarelo e no topo tinha uma velinha moldada na forma do número quatro. A torta quase roubava o protagonismo de Leona. O arco de balões, também rosas e amarelos, circundava a área logo atrás da mesa. Alguns haviam sido arrancados, outros voaram para longe.
Leona foi para o centro na mesa, subindo numa cadeira já deixada ali para esse propósito. As outras crianças aglomeraram-se perto dela. Hange pediu para os filhos dos vizinhos ficarem próximo da aniversariante, já que eram seus amigos. Havia tantas crianças que quase precisaram remover o arco de balões para comportar todas, e algumas tiveram de ficar nas extremidades da mesa, muitos aproveitando para roubar balas.
Os adultos se juntavam atrás de Hange, a maioria levemente alterada pela bebida. Levi e os outros soldados do quartel-general se posicionaram ao seu lado, enquanto os marleyanos, respeitosamente, tomavam seus lugares mais ao fundo. O único estrangeiro que se aproximou da mesa foi Onyankopon. Dias antes do aniversário, Hange perguntou ao inglês se ele poderia tirar fotos do parabéns. Onyankopon concordou, parecendo feliz em contribuir para a festinha.
— Ei, crianças, deem um espacinho!
— Hmmm, docinho de batata.
Connie e Sasha arrancaram gargalhadas ao irem para trás das crianças. Sasha surrupiou um doces de batata e já o comia. Como ambos eram altos, não precisaram se enfiar entre os pequenos. Eles ficaram bem atrás de Leona. Sasha bagunçou o cabelo da aniversariante, a fazendo rir. Uma menininha pomposa apontou para os dois adultos e gritou que eles não podiam participar da mesa, pois só eram permitidas crianças. Leona virou-se para ela e a mandou calar a boca. Isso causou uma onda de riso nos convidados. Leona encarou as pessoas alternadamente, sem entender o porquê das risadas.
Hange puxou uma caixinha de fósforos do bolso da calça. Mirou o bolo da primeira festa de aniversário da sua filha, e depois a garotinha logo acima. Leona sorria de orelha a orelha. Ah, ela estava tão feliz. Hange riscou o fósforo e teve vontade de chorar ao ver a chama se fixar no quatro amarrotado no glacê. Em breve, seria o cinco, o seis, o sete... até a própria Leona substituir as festas infantis por reuniões adolescentes.
Vai devagar, tempo.
Hange voltou para seu lugar no meio dos adultos, e então todos começaram a bater palma em uníssono, incluindo a aniversariante.
— PARABÉNS PRA VOCÊ, NESTA DATA QUERIDA, MUITAS FELICIDADES, MUITOS ANOS DE VIDA!
A cantoria era uma algazarra sem fim, pessoas gritavam, pulavam e batiam palma gritando o nome de Leona em meio a clássica canção. Pixis, podre de bêbado, dançava descoordenadamente abraçado a dois pobres subordinados. Floch pôs dois dedos entre os lábios e deu um assovio estridente, fazendo Levi curvar o corpo e torcer a boca ante os tímpanos estourados. Os marleyanos se entreolhavam, batendo palmas de maneira claramente desconfortável, achando a comemoração eldiana assustadora. Bem, em Paradis era assim. Aniversários marcavam a volta da terra para a posição em que ela se encontrava no seu nascimento. É um ótimo motivo para caos.
— Faz um pedido, Bolinha!
Exclamou Connie no fim da cantoria, e nisso um coro da mesma frase foi puxado. Leona colocou o dedo entre o lábio e o nariz na sua forma de ponderação. De repente, saltou na cadeira, clamando já saber seu pedido – já sei, já sei. Assoprou a vela.
Porém, o fogo não se apagou.
— De novo, Bolinha! De novo!
Leona assoprou outra vez, fechando os olhinhos. Voou dez litros de saliva. O sopro falhou.
— Parece que o seu pedido não quer se realizar. — Disse um garotinho.
— Vai sim!
Leona arregalou ambos os olhos ao encher os pulmões de ar, inflando as bochechas comicamente. Ela jogou o corpo para frente, assoprando a vela com toda sua estupenda força. A chama não foi apagada, em contrapartida, a vela desabou sobre o bolo, e em dois segundos o fogo devorava o glacê bicolor. Sim, aniversários eldianos são caóticos.
— SANTINHA! O BOLO TÁ PEGANDO FOGO!
As crianças correram aos berros. Em contrapartida, Leona permaneceu no mesmo lugar, pulando e batendo palmas, adorando o espetáculo incandescente. Hange chegou a correr, no entanto Levi foi mais rápido. O Ackerman avançou no bolo sem medo do fogo, apagando-o com um pano de prato, amassando o topo da torta no processo e sujando os braços e as mãos de glacê queimado.
— O senhor Levi apagou o fogo.
Leona comemorou girando na cadeira, sem medo de cair. Hange parou ao lado de Levi. Leona dava risada da desgraça. Sua filha era uma criança engraçada, tinha medo de corredores mas ria na cara do fogo. Baixou o olhar, viu o glacê magoado na parte onde o fogo queimou, bem pretinho e molenga. Desatou a rir. Levi encarou-a de canto, sorrindo discreto.
— Não precisa agradecer, quatro-olhos.
Levi limpou as mãos no rosto de Hange, passando glacê até nos óculos. Hange segurou os pulsos do capitão para fazê-lo parar, todavia ele não parou até estar com as falanges limpas. Enquanto isso, Leona passava o dedinho na parte torrada do glacê, o afundando até o recheio.
— Mãe, ainda dá pra comer. Hmmm, avelã!
A garotinha sujou a boca lambendo o dedo. Hange deu a volta na mesa e Leona prontamente foi para o seu colo, encaixando as pernas no tronco da mãe e a abraçando pelo pescoço.
— Feliz aniversário, minha Bolinha piromaníaca.
— Mãe, sua cara tá toda suja.
Leona alisou as bochechas melecadas da mãe e transferiu o glacê para sua própria cara. Hange olhou para o sorriso de dentes de leite, e depois para a multidão de eldianos e estrangeiros vestindo roupas comuns, rindo e conversando numa mistura homogênea. Não tem como saber o que estaria fazendo nesse vinte de setembro caso tivesse escolhido outro caminho quatro anos atrás. No entanto, nessa realidade, Leona existia; e ali estava Hange, vivendo um dos dias mais puros de sua vida.
— Meu filhotinho está ficando velho, daqui a pouco vai ser um filhotão.
Hange encheu o rosto melado de selinhos curtos. Passou para as orelhas, ponto fraco de Leona para cócegas. A garotinha se debateu, colocando as mãos no rosto da mãe para tentar empurrá-la.
— Não sou velha, você que é!
Nesse ponto, Levi, o esquadrão 104 e Onyankopon se juntaram ao redor de Hange. A comandante girou o corpo para ficar de frente, agradecia a presença deles através do olhar. Segurava Leona firmemente, pois a menininha atirava o corpo para longe, esticava os braços, fazendo um círculo com a coluna — sabia que podia se jogar o quanto desejasse, sua mãe não a deixaria cair.
— Ei, Bolinha, olha pra cá.
Jean estalou os dedos bem lá no alto. Leona parou de súbito, virando a cabeça erguida e o rosto atento na direção do som, parando de sorrir perante o barulho chamativo. Onyankopon bateu duas fotos. Mãe e filha saíram viradas para a câmera, mas os olhos de Leona ficaram fora de foco por estarem procurando a causa dos estalos.
— Bolinha, o que você pediu para a Santa?
Perguntou Armin, referindo-se ao pedido de Leona ao assoprar a vela. A garotinha ergueu os braços para o céu, fechou os olhos, sorrindo alegremente, e gritou:
— UMA IRMÃZINHA!
— QUÊ!?
Foi impossível para Hange evitar a exclamação. Recuou o rosto de olho arregalado e boca aberta. Que porcaria de pedido era aquele? Não, de jeito nenhum. Gostava de ser mãe – na maior parte do tempo – mas mãe de duas já era demais para a sua cabeça. Hange só foi perceber a paralisia quando a mão pesada de Onyankopon bateu em seu ombro.
— E aí, senhorita Hange, Deus- digo, a Santa vai realizar o pedido?
Onyankopon ria, os outros também gargalhavam. A menininha em seus braços voltara a ficar agitada, pendurando-se em seu pescoço e jogando a cabeça longe. Caramba, até Levi estava rindo. No fim, juntou-se a eles.
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