O papel da intuição é alertar o ser humano sobre possíveis situações inesperadas. Após sair da farmácia, Hange sentiu uma leve pressão na cabeça e a sensação de que algum evento de aspecto negativo estava prestes a acontecer. Se a intuição fosse uma pessoa, teria colocado a mão no ombro da líder de esquadrão e dito para ela voltar a pé para o quartel-general, pois algo desagradável aconteceria caso ela pegasse uma carruagem. Entretanto, a intuição é apenas uma leve sensação quase paranormal que não funciona em terceira pessoa.

Uma carruagem disponível dobrou a esquina e Hange afastou o estranho pressentimento com a mesma facilidade com que espantaria um inseto sem asas, ignorando os alertas e colocando-se à disposição do que a aguardava quando colocasse os pés para fora do vagão da carruagem.

A carroça saiu em alta velocidade minutos antes do chefe da farmácia aparecer suado e ofegante, procurando por uma mulher com o emblema das asas da liberdade bordado nas costas.

No quartel-general, as conversas entre Hange e Erwin envolveram apenas assuntos profissionais. Nenhum deles comentou sobre a noite anterior, o que foi um alivio para o loiro e indiferente para a cientista. Ela encontrou Moblit pouco depois e foi abatida por uma culpa gigantesca mesmo que não estivessem em um relacionamento oficial e não devesse satisfações ao assistente, nem ele a ela.

— Você desapareceu ontem, Moblit.

— Eu fui dormir cedo, por quê?

— Por nada.

Durante a cavalgada para o portão das muralhas, Hange olhava para o amigo e perguntava a si mesma se deveria contar sobre o que fez com Erwin. Sua intuição apareceu outra vez para avisar que era melhor deixar para depois, quando estivessem livres da missão e em segurança dentro das muralhas. Dessa vez, ela ouviu.

Horas mais tarde, o medicamento para sarampo passava direto pelo seu corpo sem surtir efeitos. Não muito depois de urinar o remédio, Hange sobrevoava prédios, era arremessada em poços, ameaçava um garoto-titã, consolava uma guerreira enfurecida, assumia o posto de comandante e descobria verdade sobre a humanidade fora das muralhas, tudo isso enquanto um óvulo fecundado rolava em seu ventre.

Após a batalha, Hange tinha tanto para estudar e pensar que não teve tempo para perceber a menstruação atrasada; ela, que tinha um ciclo menstrual irregular por causa da atividade física excessiva, estava acostumada a ficar de um a dois meses sem sangrar, e esse foi mais um dos motivos que a levaram a não reparar na ausência das cólicas.

O útero foi dar sinal de vida na cerimônia para os soldados mortos, que aconteceu quando o ferimento em seu olho ainda precisava de bandagens. Enquanto Eren beijava a mão da rainha Historia e tinha uma visão sobre seu próprio Eu do futuro, Hange sentia náuseas. Ela precisou reunir todas as suas forças físicas e mentais para não vomitar no palácio real, e ficou aliviada quando finalmente pôde ir ao banheiro.

Se alguém a tivesse visto pondo o vinho, os salgados e mais um pouco para fora, e resolvesse perguntar se a nova comandante estava grávida, Hange iria gargalhar e dar tapinhas no ombro de quem fez a pergunta. A ideia de estar passando por uma gravidez sequer passou por sua cabeça durante semanas. Na verdade, ela só foi considerar a ideia quando as cãibras apareceram junto com uma leve, porém definida, curvatura em seu abdômen.

Hange olhava para o seu reflexo no espelho do quarto, que estava vestido da cintura para baixo e não usava óculos nem tapa-olho. Circundava a barriga ligeiramente inchada com as duas mãos, avaliando o tamanho e o formato daquela anomalia estranha. As mudanças não se limitavam ao abdômen, outras partes do seu corpo também estavam diferentes, como o busto. Ela agarrou os próprios seios, que estavam sensíveis até à fricção das roupas, e sentiu desconforto ao pressioná-los.

Levi estava do lado de fora do quarto, batendo na porta sem parar. Hange, distraída, permitiu no quinto toque sem desviar-se do espelho.

— Hange, aqui está o documento que você p- ah, desculpe, eu não sabia que você estava pelada, depois eu volto.

— Pode ficar, você já me viu assim um monte de vezes.

Ela se afastou do espelho e pegou os relatórios que Levi trouxe. O capitão percebeu imediatamente o inchaço na barriga de Hange, que até então fora escondido pelo sobretudo longo e pesado que ela usava no dia a dia.

— Parece uma cobra que acabou de comer.

— Eu não pedi a sua opinião.

Hange deu uma rápida lida na documentação enquanto ia para a cômoda. Ela abriu as gavetas procurando por um sutiã limpo enquanto Levi cruzava os braços e a encarava com uma preocupação muito bem escondida atrás do típico olhar entediado.

— Então, o que é isso aí? O que significa esse inchaço?

— Pode significar várias coisas.

A comandante puxou um top de exercícios lá do quinto dos infernos e enfiou-o no nariz. Ok, não está fedendo, vai ser esse mesmo.

— Pode ser tensão pré-menstrual, gases-

— Vermes...

A interrupção de Levi fez a comandante rir. A mulher voltou a falar enquanto vasculhava outra gaveta de roupas desarrumada, com metade do corpo para dentro da cômoda e as pernas para fora.

— Eu ando sentindo dores e os meus peitos estão estranhos, acho que pode ser menopausa.

— Você já tem idade para isso?

— A minha mãe entrou cedo, não é impossível que o mesmo aconteça comigo.

Hange não acreditava totalmente que pudesse ser menopausa, porém agarrou-se na ideia naquele momento, uma mentira para tranquilizar a mente, em outras palavras. Afastou-se da cômoda quando finalmente encontrou uma camisa limpa no meio daquela bagunça. Hange gemeu quando o tecido firme do top pressionou seu busto, e quando seu rosto reapareceu pela gola da camisa, encontrou uma expressão inquieta no rosto do capitão.

— Você... huh... fez sexo nos últimos dias?

— Bem, o que é “últimos dias” pra você?

— O suficiente para isso aí ser uma gravidez.

A comandante ficou em silêncio com o queixo caído e olhar fixo na figura a sua frente. Então, explodiu em gargalhadas. Os risos da cientista ecoaram no quarto e ela chegou a bater na própria perna de tanto rir.

— HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!

Ela continuou rindo mesmo depois de Levi apertar os olhos e mostrar-se irritado com as gargalhadas. Hange não deu importância e riu até pequenas lágrimas escaparem pelo canto de seu olho.

— Que piada engraçada, Levi. É impossível eu estar grávida.

— Fico aliviado por você ter tanta certeza.

Entretanto, a dúvida já se fixava como um parasita no mesmo lado do seu cérebro que não acreditava na ideia da menopausa. Quando Levi foi embora, Hange voltou para o espelho e levantou a blusa para olhar a barriga novamente. Dessa vez, não teve vontade de rir.