Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)

19 E você, tem algum desejo?


Os convidados começaram a se despedir após o bolo. Hange iniciou a limpeza quando não restavam mais de dez pessoas na festa, entre eles Levi, Armin e Mikasa. Recebeu ajuda dos três subordinados para limpar o campo e a cozinha. Sendo Leona uma criança participativa, a ela ficou designada a tarefa de recolher os guardanapos e balões estourados, os quais deviam ser colocados no lixo. Armin juntou os pratos, copos e talheres, e ajudou Levi a lavá-los. Os utensílios foram secos e guardados por Mikasa. Hange limpou as mesas e varreu a cozinha. Terminadas estas duas tarefas, a comandante foi juntar os presentes recebidos, para tal recebendo a ajuda da filha. Leona trazia os pacotes um a um para serem colocados na pequena carroça emprestada.

Após a limpeza, Mikasa despediu-se da aniversariante com um beijo na bochecha enquanto Armin abraçava Hange. Levi, secando as mãos num pano de prato, observava a cena de longe. O céu escurecia em tons alaranjados logo atrás de Mikasa e Armin, e dava para ver a cidade ao fundo. De onde estava, não era capaz de ouvir a conversa. A visão trouxe uma espécie de paz melancólica, mas não passava de cansaço mental após passar a tarde num evento social, misturada a estranheza de ver o espaço outrora cheio se esvaziar. Aquele campo era bem infeliz quando deserto, Levi pensou. Hange e Leona se aproximaram após os soldados desaparecerem no horizonte.

— Obrigada por me ajudar, Levi.

— Não tem de quê.

A lua dominava o céu quando o trio deixou o espaço aonde a festa foi realizada. Levi trancava a porta da cerca, de costas para Hange e sua filha, ouvindo em alto e bom tom a curta conversa entre elas.

— Posso levar o burrinho?

— Pode, mas se eu mandar você largar, você solta, tudo bem?

— Ele não vai estranhar, eu me dou bem com cavalos.

Leona falou com dignidade, pondo a mão no peito e fechando os olhos numa imitação cômica de um nobre se gabando dos bens materiais. Levi virou-se a tempo de ver Hange entregar as rédeas à menina. Leona estalou os lábios para o jumento, mais jogando beijos do que emitindo o habitual som que atiçava os animais. Mesmo assim, o burrinho seguiu sem protestos aquele serzinho cuja altura não passava da sua.

Os dois adultos foram caminhando ao lado da carroça enquanto Leona ia alguns centímetros a frente. Levi reparou na confiança posta nas rédeas; os dedos não se apertavam no couro, o braço não estava pesado, e as pernas andavam seguras pelo chão de terra. A conduta de alguém que sabe o que está fazendo. A garotinha cantarolava baixinho, dava olhadelas para o jumento de tempos em tempos com um sorriso cheio de bem-querer, como se conferisse se a cantoria agradava o acompanhante.

— Ela ganhou bastante coisa.

Hange referia-se às duas caixas na carroça, entupidas até o topo com pacotes das mais diversas cores e tamanhos. Tinha um tão grande e pesado que precisou ir no chão da carroça. Devia ser uma boneca gigante, daquelas imitando o tamanho real de uma criança. Podia ter respondido “claro, Hange, as pessoas adoram você, logo vão querer agradar a sua filha”, ou então “ela é uma criança amável, é óbvio que ia ganhar muitos presentes”, até mesmo um simples “é verdade” cairia bem, no entanto, Levi respondeu, em seu típico tom entediado:

— Também, você convidou a Santa e o mundo.

A comandante sorriu diante as palavras desdenhosas e o cutucou no braço.

— Como você é indelicado.

Não demorou para abandonarem a parte rural. No vilarejo, as ruas escuras eram iluminadas por tochas penduradas nas paredes que também serviam para afastar mosquitos. Alguns vestígios do inverno ainda se faziam presentes no sopro fresco da noite, como se a estação passada não tivesse terminado o seu trabalho, entretanto, a primavera era mais forte. Famílias se juntavam nas calçadas para conversar, beber ou simplesmente aproveitar a noite. O trio passou por alguns conhecidos com os quais trocaram breves cumprimentos, mas de resto seguiram a viagem imersos nos próprios pensamentos, de vez em quando compartilhando-os através do olhar ou uma breve conversa de cinco frases – três para Hange e duas para Levi.

Ao chegarem na casa da comandante, os dois adultos retiraram as caixas da carroça enquanto a criança tagarelava com o jumento, o animal girava as orelhas cada vez que seu nome era proferido.

— Hora de dar tchau pro burrinho.

— Tchau, burrinho.

Após entregar a chave da casa para Levi, Hange tomou as rédeas do jumento ainda atrelado à carroça e foi devolvê-lo para o dono, um vizinho a poucas casas da residência da comandante. Leona, vendo-se sozinha com Levi, saiu em disparada atrás da mãe, gritando para ela a esperar.

Era estranho pensar que Hange comprara aquela casa há tanto tempo e nunca a tinha visitado. Ao entrar, ficou surpreso de encontrar um ambiente asseado para os padrões da amiga. A casa era aconchegante, tinha o cheiro agradável de jasmim e não havia teias de aranha. Quase desmaiava de orgulho quando lembrou de Minnie. Ah, sim, Minnie. O orgulho murchou. Não demorou para encontrar papéis bagunçados na cozinha, na sala e até no chão, além de caixotes contendo produtos químicos (esses muito bem colocados em lugares altos). Passou o dedo no corrimão da escada e não se surpreendeu ao ver a falange cheia de pó. Pois é, Minnie, é impossível manter as coisas limpas quando Hange está envolvida.

Levi trouxe as duas caixas para dentro, deixando-as na sala de estar, o cômodo mais bagunçado. Precisou usar todas as suas forças mentais para não organizar a casa. Apesar de assistemática, Hange era muito metódica em sua própria bagunça, odiava quando alguém interferia em sua desorganização.

Foi sentar na poltrona e quase cometeu o erro de esmagar os brinquedos da filha de Hange. Levi reparou com certa satisfação que o gatinho de borracha, a cornetinha e o quebra-nozes estavam apoiados no encosto um ao lado do outro, em cima de uma pequena pilha de papéis que ele imaginava tratar-se de desenhos. Pelo visto, Leona não herdara a desorganização dos pais.

Ouviu a porta da frente ser aberta. Virou-se para ver Hange, entretanto, foi Leona quem encontrou. O rosto sorridente da menina de repente adotou uma expressão pasma de susto, os olhos quase saltaram das órbitas e o queixo despencou, ela andou para trás sem desviar a face, parecendo amedrontada. Levi ficou desconfortável perante o estranhamento. A comandante apareceu pouco depois, pondo a mão no ombro da filha.

— O que foi? É só o senhor Levi.

A garotinha olhou de boca aberta para a mãe, depois para o capitão, movimentando a cabeça rapidamente entre um e outro, tentava falar e não conseguia formar as palavras. Hange bagunçou o cabelo já bagunçado.

— Ele nunca veio aqui antes, não é? Bom, pra tudo tem uma primeira vez. Vem, vamos ver o que você ganhou.

Leona saltou e rodopiou, esquecida de Levi. Hange derrubou as caixas, deixando os pacotes se espalharem suavemente. As duas sentaram no tapete para abrir os presentes, começando pelos menores. Levi, sem espaço para participar da atividade entre mãe e filha, tomou a liberdade de ir para a cozinha. Ele e Hange mal comeram no aniversário e a caminhada o deixou faminto.

Encontrou ingredientes para fazer purê de batatas com abóbora e arroz, e pegou seis ovos para acompanhar. Não pretendia fazer nada elaborado pois não sabia o quanto da despensa podia usar. De todo modo, só aquilo já era suficiente.

Enquanto o fogão a lenha aquecia, Levi descascava a abóbora e cortava as batatas. As vozes de Hange e Leona atuavam como ruído de fundo, sendo a da mulher adulta contagiante. Hange soava mais animada do que a própria aniversariante. Em determinado momento, Leona deu um grito estridente, e pela animação na voz de ambas, acabaram de descobrir algum brinquedo muito desejado.

Colocava os ovos e os vegetais no fogo quando Hange apareceu na cozinha. Leona veio montada num cavalo de madeira com rodas no lugar das patas. O brinquedo era de primeira qualidade, pintado à mão. Branco para o pelo e marrom para a sela e as rédeas. Aquele brinquedo era, provavelmente, conteúdo daquele caixote grande.

— Olha, senhor Levi, finalmente tenho o meu próprio cavalo.

— Estou vendo. Qual é o nome dele?

— Pé de pano.

Hange revirou o olho. Compartilhava a mesma opinião de Levi.

— É... huh... um nome bem criativo.

— Viu? Eu falei que era um bom nome, mãe.

— Que bom, cavaleira. — Ela apontou para as escadas com o polegar. — Agora, já está na hora do seu banho. E do meu também.

— Ah, mãe!

— Sem reclamar.

A comandante agarrou a menina pelas axilas e a levantou do cavalo. Leona se debateu, sacodindo as pernas e tentando empurrar Hange.

— Mãe! Não posso deixar o meu cavalo solto.

Os lábios de Levi tremeram. Precisou voltar aos vegetais para não acabar rindo. Ouviu Hange colocar a menina no chão.

— Você está certa. Vá amarrar esse cavalo. Rapidinho!

Som de rodas arranhando o piso vieram e sumiram. Levi sentiu a presença de Hange às suas costas. Ela apoiou os braços cruzados em seu ombro e olhou a comida no fogo. Hange fungou perto do seu ouvido, eriçando os pelos da nuca.

— Aww, Levi, você está fazendo comidinha pra gente? Que cheiro bom.

— Sai de perto, sua respiração tá me fazendo cócegas.

A empurrou com o ombro, fazendo Hange se afastar. Os passos da menininha ficaram mais altos, e dessa vez Leona não protestou para subir as escadas.

Levi abriu três duplas de portas até encontrar o armário onde Hange guardava os pratos. Hange possuía três conjuntos, sendo o terceiro um jogo de pratos e copos infantis. Ele pegou dois grandes. Para Leona, escolheu um pratinho de madeira. Tinha um urso realista talhado no meio. Fora feito em pé nas patas traseiras, os olhos negros propositalmente desenhados para encarar a criança comendo. Abaixo dele, lia-se, em letra bastão:

O URSO É UM ANIMAL ONÍVORO

EI! VOCÊ TAMBÉM É!

Levi colocou os pratos no balcão e se pôs a pegar copos. Lembrou de pegar o copo dupla do pratinho. Este também era de madeira, e nele fora talhado apenas o rosto do animal. Ao lado da pia, Levi encontrou talheres na primeira gaveta, incluindo um cujo cabo tinha uma cabeça de urso. O capitão preparou a mesa enquanto o arroz terminava de cozinhar. O resto já estava pronto, descansando no fogão.

Levi serviu apenas a sua porção e a de Hange, pondo uma quantidade generosa para si e razoável para ela. Não serviu Leona porque não sabia o quanto a garotinha comia.

As duas garotas apareceram quando o capitão terminava de lavar as facas e a tábua usadas para cortar os vegetais. Ambas tinham o cabelo molhado e vestiam roupas leves ideais para noites de sono. Como sempre, Hange não se deu ao trabalho de pentear o cabelo e o mesmo se aplicava à Leona. Apesar do cabelo desarrumado, Hange não esqueceu de amarrar o tapa-olho ao redor da cabeça. Será que ela usa essa merda até dentro de casa ou o fez porque Levi estava ali?

— Que cheiro bom. Foi o senhor Levi que fez, mãe?

Leona passou pelas cadeiras para ir sentar na cabeça da mesa, feito rainha ou chefe de família. Levi achava que aquele era o lugar de Hange e por isso deixara o prato dela lá. Leona viu seu pratinho na cadeira ao lado e inverteu-os, trazendo os ursos para perto.

— Foi. Você vai comer mesmo? Já não comeu o suficiente no seu aniversário?

— Só um pouquinho, mãe, está cheirando tão bem.

A essa altura, Levi já havia sentado na mesa – a frente de Hange e ao lado de Leona – e comia de boca fechada. Ele virou a cabeça para ver Hange servindo o prato infantil. A comandante conhecia o estômago da filha; colocara apenas duas colheres de sopa de cada vegetal, uma de arroz e metade do ovo cozido.

A pontinha da língua de Leona escapou quando a mãe colocou a refeição a sua frente. Começou a comer em colheradas curtas. Hange foi até a despensa e voltou com uma garrafa d’água, a qual foi servida igualmente nos três copos. O silêncio não durou, Hange o quebrou logo.

— Amanhã preciso resolver aonde vou enfiar os prisioneiros de guerra. Yelena disse que pode me ajudar a achar trabalho para eles aqui.

Não podiam abrigar os marleyanos no quartel para sempre. Para se manterem na ilha, os prisioneiros precisariam de emprego e moradia. Com a expansão do território paradisiano, essas duas coisas existiam aos montes.

— Entendo. Você já tem alguma ideia?

Hange começou a falar de boca cheia. Levi a repreendeu, fazendo a garotinha rir. A mulher só retomou o fio da meada após engolir a comida.

— Vai da vocação de cada um. Os engenheiros já estão amigados com os nossos, então creio que não precisamos mexer aí. Os cientistas vão ter opção entre trabalhar na universidade ou em laboratórios, eu mesma ofereci o meu-

— O laboratório é cheeeeio de coisinhas.

Interrompeu Leona enquanto brincava com a cabeça do urso. Como Hange previu, a garotinha deixara quase metade da pouca janta no prato. A comandante girou a cabeça para a filha entrar em seu campo de visão. Aquele gesto fez Levi perceber que ocupava o lugar de Hange da mesa.

— Leona, dá licença?

O destaque no nome fez Leona se retrair na cadeira e baixar o olhar para a refeição inacabada. Hange voltou-se para Levi.

— Eu ofereci o nosso laboratório para os cientistas trabalharem conosco, mas nenhum deles mostrou interesse. Eu entendo, não querem ajudar o avanço científico dos rivais. Bom, o futuro é sempre mutável.

Hange falava entre uma garfada e outra. Levi continuou precisando lembra-la de mastigar com a boca fechada e falar só depois de engolir. A cada repreensão, Leona apontava para a mãe e ria.

— Quanto aos outros... temos fazendas, restaurantes, bares, hospitais... Paradis está em ascensão, emprego é o que não falta. Só precisamos tomar cuidado com a vigilância, pelo menos nos dois primeiros anos.

— Entendo. — Respondeu Levi, após engolir.

— Por enquanto, pretendo colocá-los numa espécie de regime semiaberto. Eles vão trabalhar durante o dia, mas devem voltar ao quartel pela noite. Vamos deixar assim e ver como as coisas se desenrolam.

Na opinião de Levi, o plano era bom. Os primeiros meses seriam complicados e demoraria para os estrangeiros se misturarem no povo eldiano. Regime semiaberto oferecia certa liberdade aos cativos ao mesmo tempo em que possibilitava aos superiores eldianos acompanharem o exercício dos marleyanos como cidadãos de Paradis, protege-los de ataques noturnos e ter controle sobre a população de prisioneiros.

— Nada mau, Hange.

A comandante sorriu pequeno. A mão atravessou a mesa para pegar a sua, e Levi virou a palma para segurar a dela. Leona reparou na interação dos dois adultos e colocou suas mãozinhas pequenas sob as deles.

— Ganhei!

— Ganhou mesmo, Bolinha.

Hange abandonou o montinho para tocar o cabelo da filha, afastando a franja de seus olhos. O cabelo da garota precisava ser cortado. Pela forma como a comandante arrumava a cabeleira, pensava a mesma coisa.

— Vamos escovar os dentes?

— Vamos!

— Nossa, Hange, agora você toma banho, escova os dentes, come direitinho... essa bebê foi uma benção na sua vida.

— Viu só?

Respondeu Hange ao afastar-se da mesa. Leona já subia as escadas para o banheiro. Levi, também terminando a refeição, começou a tirar a louça para lavá-la. Hange interviu pedindo para ele deixar tudo na pia, pois ela mesma lavava pela manhã. Contudo, o capitão recusou. Odiava deixar serviços pela metade, especialmente os relacionados a limpeza.

— Depois eu venho te ajudar, então.

— Só venha se você for limpar direito.

XXX


No fim, Hange realmente viera ajuda-lo. Após terminarem de organizar a cozinha, ambos subiram para o dormitório da dona da casa. Levi ficou decepcionado, porém não surpreso, ao ver a bagunça no quarto de Hange. Os cobertores estavam embolados na cama, o chão precisava ser varrido, uma pilha de roupa limpa jazia esquecida na escrivaninha e ele nem queria ver o estado do guarda-roupa. Como não fazia frio, a comandante pegou três dos dois cobertores e colocou-os na cadeira da escrivaninha. Caso não estivesse ali, Hange teria atirado as cobertas no chão, Levi tinha certeza. A vela que ela vinha trazendo foi colocada na cabeceira. A chama alaranjada iluminava o quarto parcialmente.

Ambos sentaram no colchão, Levi a esquerda. Empurrou os sapatos e puxou a camisa por cima da cabeça, já Hange livrou-se das calças e dos óculos. Deitaram juntos. Hange suspirou quando as costas descansaram no colchão macio. Levi virou a cabeça para vê-la, e o que encontrou foi o tapa-olho preto atrapalhando a sincera plenitude no rosto cansado.

— Ei, quatro-olhos.

— Huh? — Hange virou o rosto distraidamente.

— Tira isso.

Levi arrastou o corpo para chegar mais perto. Suas mãos se estenderam para desprender o acessório, revelando a cicatriz no lugar onde existiu o segundo olho. Encarou a pálpebra machucada. Estranho, não conseguia recordar o rosto de Hange sem a cicatriz, como se o ferimento sempre tivesse existido. Ao buscar a íris da comandante, a descobriu encarando o ponto mais abaixo em sua face. Os dois conversaram através do olhar, e depois com o corpo.

A boca de Hange tinha gosto de pasta de dente. Levi intensificou o beijo, a invadindo com a língua, e guiou Hange para seu colo. A cientista aceitou o convite de imediato, mas antes retirou a calcinha. Ela subiu em seu quadril, pondo um joelho de cada lado. Sentiu o calor da nudez de Hange, e a sensação se intensificou quando a comandante começou a se mover. As mãos do capitão entraram na blusa para encontrar a cintura definida. Empurrou-a para baixo, incentivando Hange a rebolar. Ela pôs mais empenho na tarefa, forçando o quadril nu na pélvis vestida. Um arrepio nasceu em seu baixo-ventre, e Levi mordeu o interior da bochecha ao ter a sensibilidade aflorada. Viu a pele de Hange ficar vermelha ao senti-lo excitado contra a intimidade, e a lubrificação natural da vagina umedeceu a frente das calças, refletindo o desejo da pessoa por cima.

As mãos desceram pelas pernas torneadas, e ela sorriu ao ter as nádegas apertadas. Pela luz da vela, conseguia ver rubor nas bochechas e o olhar baixo, sem encontrar o seu. Hange não tinha dito uma única palavra até então.

Não demorou para as calças se tornarem sufocantes. A comandante percebeu o incômodo e deslizou o corpo para entre suas as pernas. Premeditou o que aconteceria e apoiou-se nos cotovelos, querendo ver. Pela primeira vez na noite, Hange abandonou a paciência. A calça foi puxada para baixo num rápido movimento, revelando o pênis ereto. Hange lambeu a boca ao mirá-lo, sem esconder a perversão. No instante seguinte, foi envolto pela boca quente e molhada. Afagou o cabelo castanho enquanto a comandante fazia o trabalho movendo a língua lasciva, demorando-se ao alcançar a glande. Hange usava uma mão para segurar o membro, e a outra havia desaparecido em algum lugar lá atrás — ela estava se masturbando.

Levi sentiu a boca seca. Queria devolver o prazer à Hange. Ofereceu uma mudança de posição, mas a comandante impaciente negou com a cabeça. Voltou a sentar sob o quadril do capitão. A mão suada o masturbou, espalhando saliva e pré-ejaculatório pela extensão do membro, e depois encaixou os sexos. Levi a segurou pela cintura, ajudando Hange a descer. A comandante fincou as unhas em seu peito ao ser penetrada, e um longo e baixo suspiro feminino preencheu o quarto quando as peles se encontraram. O próprio Levi queimava, tinha noção do vermelhão em seu rosto.

Hange começou a mover a cintura. O interior molhado o comprimiu de cima a baixo. Pulsavam ao mesmo tempo, estimulando um ao outro naquele contato íntimo. A incentivava a colocar mais força na movimentação, querendo a sentir inteira, saber que ela era só sua e lembrá-la do quanto a amava. Tentou encontrar a íris de Hange para transmitir o sentimento através do olhar suave que ambos compartilhavam de vez em quando durante o sexo, mas ela mantinha a visão distante, e a boca entreaberta silenciosa.

A experiência estava incompleta. Esquisita, para ser mais exato, pois a quietude não fazia o feitio de Hange. Quando transavam no quartel-general, a mulher tendia a entregar-se ao deleite, e Levi só tinha a agradecer pelo isolamento acústico das salas ser bom, ou o prédio inteiro ouviria os palavrões. Não conseguia parar de olhar o rosto silencioso. A comandante suava e mordia a boca, o olho castanho quase fechando, os lábios separados sem proferir uma única palavra ou som de prazer.

Agindo daquele jeito, até dava para pensar que Hange não estava gostando, apesar dela ser a pessoa no comando. Porém, quando o capitão a tocou no peito, a mão da cientista se sobrepôs à sua, e os dedos ávidos o fizeram amassar o seio. Brincou com o mamilo por cima da blusa, usando o polegar realizar movimentos circulares. Hange tirou a camisa de uma vez só, e o corpo com o qual já estava acostumado ficou totalmente à sua mercê.

O tempo passou em câmera lenta enquanto contemplava a nudez da amante. O corpo de Hange nunca mais foi o mesmo depois da gestação. Os mamilos não recuperaram a cor original, mantendo-se num marrom descorado derivado do escuro chamativo adquirido na gravidez. A pele era ligeiramente flácida pouco abaixo do umbigo, e as estrias brancas permaneceram marcadas. A linha nigra, no entanto, desapareceu tão rapidamente quanto surgiu. Marcas não-geradas pela violência; diferentes das outras que ela carregava no corpo, incluindo uma no lado esquerdo da face.

O capitão dedilhou o abdômen macio, fazendo um caminho onde a linha nigra ficava. Hange costumava ter bastante músculo, contudo, os tempos mudaram, eles não precisavam mais lutar o tempo todo e o trabalho de Hange envolvia bem mais questões burocráticas, portanto era inevitável que parte dos treinos acabasse deixada de lado.

As mãos subiram para o busto, e a comandante prontamente inclinou o peito, parecendo grata pelo contato. Os seios eram pequenos, porém redondos e bonitos. Pessoalmente, sempre preferira o formato ao tamanho, e de qualquer forma, suas mãos também não eram grandes. O capitão massageou-os ao mesmo tempo, deixando os mamilos pontudos entre os dedos, e dessa vez quase conseguiu uma reação verbal por parte da mulher. Hange chegou a abrir a boca, mas trancou o gemido e descontou a excitação na pele do capitão, arranhando o abdômen trincado. Ela virou o rosto para o lado, mostrando a pálpebra machucada, fugindo do seu olhar feito uma garotinha envergonhada. O capitão sorriu de canto.

— Hange, como você é linda...

— Huh?

A comandante parou o movimento do quadril, e quando baixou a cabeça para encará-lo, Levi viu-se na presença da velha Hange, de sobrancelha arqueada e olhar atento. Foi a vez dele bancar o garotinho envergonhado.

— Nada não.

Um sorriso sardônico foi, muito devagar, desenhado na face de Hange. Seu olho adquiriu zombaria triunfante. Ela sussurrou, cheia de deboche:

— Que viadinho.

Agora sim, essa era a Hange verdadeira. Levi retribuiu o sarcasmo encaixando o mamilo entre o polegar e o dedo indicador. O cenho franzido desafiou Hange.

— Ah, é? Repete.

— Viadi- ai, dói, não faz.

Hange sussurrou ao contorcer-se, mais achando graça do que sentindo dor. O quadril se moveu e ambos reagiram àquele estímulo, tremendo juntos. Levi forçou a pélvis para cima, penetrando-a de uma só vez, mordendo o lábio ao senti-la quente e molhada em torno de si. Em resposta, Hange raspou as unhas em seu peito e fincou os joelhos no colchão.

— É isso que você mer-

— Shhh! Não fala alto, demônio.

Hange tapou sua boca com a mão e fez sinal de silêncio com a outra. Merda, havia esquecido da existência da menina.

— É por isso que você está tão quieta.

— Óbvio.

A palavra escapou num bufo. Hange deitou sob ele, pondo as mãos em seus ombros. Era dez centímetros mais alta, e Levi aproveitou essa diferença de altura para beijar o colo feminino enquanto a alisava no quadril, incitando Hange a colocar peso na pélvis febril. Ela começou a arfar, descendo conforme a vontade de Levi.

Mais ou menos nesse momento, um baque surdo interrompeu tanto a respiração pesada quanto a dança de Hange. Ambos miraram a porta inconscientemente, e nisso Hange, suspirando, ergueu o corpo, voltando a sentar no capitão.

— A Leona acordou.

Do corredor ouviu-se o som de um vaso sendo derrubado seguido de reclamações infantis ininteligíveis. Hange riu pelo nariz.

— Lá vai ela... destruindo tudo pelo caminho.

Apontou a comandante mirando a porta. Levi ainda estava dentro dela, e Hange sentava de forma que o membro fosse penetrado até a metade. Ele olhou para o sorriso conformado, segurou a cintura acentuada e a puxou. Hange inclinou-se para beijá-lo, as mãos quentes afastando o cabelo preto da testa suada.

— Você acha que ela vai te chamar?

— Vai. Ela não consegue alcançar a pia. A Santa me livre se um dia eu ver a Leona dormindo com as mãos sujas.

— Gostei.

— Eu sabia que você ia falar isso.

Hange levantou. O falo sacodiu no ar gelado. Imediatamente sentiu falta da claustrofobia deliciosa que era estar dentro dela. Hange vestiu a calcinha numa puxada e pegou a camisa mais próxima, que era preta e ficou ligeiramente folgada no corpo feminino. Hange ergueu a cabeça para a porta, murmurando:

— Aí vem ela.

A maçaneta da porta girou inutilmente. Então, batidas frenéticas soaram na madeira, e uma vozinha de criança chamava pela mãe. Levi se cobriu com o cobertor.

— Já vou.

Ao vê-la de costas com a camisa caindo por sobre o quadril avantajado, e principalmente a visão do tecido da calcinha perfeitamente justo na curva definida, Levi sentiu o ímpeto de saltar da cama e trazê-la de volta, entretanto, é claro, não podia fazer isso quando havia uma criança bem do lado de fora.

— O que foi, filhotinho?

De onde estava, pôde ver o cachorrinho de pelúcia carregado como se fosse um de verdade.

— Me ajuda a abrir a torneira?

— Viu? Falei para você ir antes de dormir.

A porta se fechou, abafando a voz de Hange. Levi contemplou os arredores, abandonado. Começou a masturbar o membro negligenciado com a cabeça voltada para o teto sem exatamente vê-lo, sua mente divagava para longe, mais especificamente, para o meio das pernas de Hange.

Hange retornou em cinco minutos, a demora dava a entender que colocou a filha na cama. Levi apoiou o corpo nos cotovelos para erguer-se, fazendo negativas quando a comandante começou a tirar a peça íntima.

— Eu mesmo quero tirar.

— Se você diz.

Assim que Hange colocou os joelhos no colchão, Levi foi para cima dela, a fazendo deitar de bruços. Não se deu ao trabalho de pegar a camisa de volta. Hange inclinou o quadril involuntariamente quando o capitão preencheu as mãos com o volume do traseiro, e agarrou os travesseiros ao mísero roçar dos dentes. Levi mordiscou a pele por cima do leve tecido da calcinha; segurou o elástico e a puxou para baixo, usando a boca para marcar a carne generosa conforme a libertava.

— Qual o motivo dessa súbita fixação com a minha bunda?

Hange ofegou ao capitão, assistindo-o por cima do ombro. Levi amassava as nádegas redondas, afundando as unhas na pele aveludada. Uma das poucas regiões livre de cicatrizes, agora ganhava algumas da sua arcada dentária. Levi arrastava os dentes ao forçar a mandíbula, tendo plena noção do exagero por causa do gemido ambíguo sussurrado por Hange. Se afastou da pele com um chupão audível.

— Não tenho culpa se a natureza foi gentil com você aqui.

Hange abafou o riso enterrando o rosto no travesseiro.

— Heh, não posso negar. Eu tenho mesmo um bundão.

O capitão recomeçou, e quando a boca habilidosa alcançou a parte interna das coxas, Hange usou os joelhos para levantar o quadril, oferecendo a vulva. Levi deu amor àquela região necessitada. As mãos alisaram as coxas enquanto a língua fazia o trabalho na vagina molhada. Conseguia ouvir, muito baixinho, Hange gemer de forma contida nos travesseiros. Ele virou a cabeça para lambê-la naquele pontinho especial, e nisso Hange descontou o deleite torcendo as fronhas.

A comandante contorcia o corpo no colchão, rebolava o quadril na boca de Levi e roçava os seios pesarosamente na roupa de cama, friccionando os mamilos sensibilizados no tecido da camisa. Hange se entregava de corpo e alma ao prazer oferecido. Levi amava sua honestidade, a forma como não tinha medo de se doar. Era divertido assistir as reações de seu corpo, desde a voz melodiosa até a lubrificação vaginal cada vez mais abundante. Levi esfregou as falanges na entrada encharcada, realizando movimentos circulares antes de penetrá-la. A voz baixa de Hange tentou chamar seu nome entre os travesseiros, mas só conseguiu pronunciar a primeira sílaba.

— MÃAAAE!

A comandante se ergueu num solavanco, como se a menina estivesse dentro do quarto e não gritando do lado de fora. Levi levou uma bundada fatal na fuça. Colocou o dedo no nariz, conferindo se estava quebrado. Hange bufava e tremia, frustrada por ter sido arrancada do transe.

— Extra, extra. — A voz soou baixa, perigosa. — Criança é encontrada morta no meio da rua. A causa da morte foi estrangulamento. A mãe está foragida. Qualquer informação, contate a polícia militar.

As sobrancelhas castanhas estavam franzidas quando a mulher pôs os óculos, pegou a vela e foi para a porta, tropeçando enquanto vestia a calcinha pelo caminho usando apenas uma mão.

— Poxa, de novo?

— Estou com sede.

— E o copo d’água que deixei pra você?

— Já bebi.

— Tomara que ainda tenha na garrafa, se não vou ter que ferver.

A comandante desapareceu no corredor e Levi ficou sozinho outra vez, implorando para que a garrafa estivesse cheia até o gargalo. Seu rosto estava sujo dos fluídos de Hange. Passou o dedo na bochecha, sentindo a pele melada, e depois o lambeu.

Hange demorou menos para voltar; claramente desapontada. Ela colocou os óculos na mesa da cabeceira e deitou com a barriga para cima, carrancuda. Quando Levi tentou investir, foi empurrado.

— Ela vai aparecer querendo mijar de novo, Levi, melhor deixa para outro dia.

— E você vai me deixar assim?

Hange estreitou o olho bom na direção do falo. Deu de ombros.

— Bate uma.

Levi a ignorou e tornou a avançar. Dessa vez Hange não o impediu. Puxou a calcinha pelas coxas, dando um beijinho no monte de vênus coberto de pelos, descendo a língua para encontrar o clitóris e mimá-lo um pouquinho, fazendo a comandante trincar os dentes. Encaixou o nariz na vulva e absorveu o aroma penetrante. A intimidade de Hange tinha cheiro de uma boa boceta molhada. Sem perfumes, sem sabonetinho, sem essa baboseira de flores, sem aquela porcaria poética mentirosa. Meus amigos, cheiro de boceta uma coisa pra lá de maravilhosa. E como o de Hange o deixava louco. Ah, deixava sim.

— Levi, se a gente começar e a Leona aparecer de novo, quem vai levar ela no banheiro vai ser você.

O capitão segurou o membro, acomodou-se entre as pernas dela e a penetrou, arrancando um gemido rouco da garganta da mulher emburrada agarrada aos seus ombros.

— Eu não me importaria.

— Que bom, já pode ser pai.

— Até parece que eu quero filhos.

— Eu também pensava desse jeito.

Apesar da oposição, o corpo de Hange não agia como o de uma pessoa que não quer. Ela o abraçou, e quando os quadris suados ficaram unidos, as pernas também o envolveram, mantendo-o preso.

— Não me joga praga, quatro-olhos de merda.

Levi começou a empurrar num ritmo leve que logo tornou-se constante. A pele enrubesceu conforme a possuía. Pulsavam juntos, ambos fervendo. Percebendo Hange mordendo o lábio para segurar o prazer, inclinou o rosto para ajudá-la a afogar a voz. O beijo foi aprofundado quando os dedos da mulher se enfiaram entre os cabelos negros.

Hange se fez ouvida ao derramar-se, mas pôs a mão na boca bem a tempo. Levi continuou o vaivém até o próprio orgasmo o fazer ver estrelas. Penetrou fundo ao aliviar-se dentro dela. Hange gemeu ao seu ouvido, machucando seus ombros ao cravar as unhas.

— Viu só?

A voz estava trêmula devido ao orgasmo. Hange buscou sua boca, Levi aceitou o beijo. Encostou a testa na dela e ficaram assim por alguns segundos. Podia sentir a respiração irregular batendo em sua pele molhada. A beijou no canto dos lábios, e um meio-sorriso apareceu na face torpe de Hange, inclinado para o lado onde foi beijada.

Quando se separaram, no entanto, a embriaguez da comandante não estava mais lá. Hange parecia incomodada com alguma coisa, quase nervosa.

— Levi, sobre isso de você ser pai...

— Eu já disse para não me jogar praga.

O olhar de Hange tornou-se triste, mas não uma tristeza ruim, parecia aceitação. Ao encontrar os olhos cinzas de Levi, um pequeno e doce sorriso a iluminou. Seu estômago ficou gelado de repente, temendo as palavras não ditas. E quando a mão de Hange colocou a sua na barriga por baixo da camisa preta, o coração parou de bater.

— Levi, não se assusta.

— Hange...

— Sobre o pedido de aniversário da Leona, bom, eu acho que pode se realizar, se você quiser.

Levi começou a gaguejar, pálido feito fantasma, os olhos mais arregalados do que nunca. Não podia ser verdade, não mesmo. Seu peito acelerou. Ele tentou sair de cima de Hange, no entanto, o corpo não obedecia.

— H-Hange, não me d-diga que...

A comandante assentiu, mantendo aquele merda de olhar de peixe morto. Os braços dela o envolveram carinhosamente e os lábios beijaram sua boca fria.

— M-Mas-

Hange continuou o encarando. Ele, em silêncio, completamente pasmo, a mirou também. Como diabos devia reagir? Caralho. Então, a expressão melancólica de Hange transmutou para deboche, o ar escapou numa bufada. A comandante virou rosto, gargalhando.

— Sua... sua... sua cadela.

Aí sim, Hange não parou nunca mais de rir. Ela rolava e lacrimejava. Levi deixou o próprio corpo cair para a esquerda. Seu coração havia parado e agora retomava as batidas freneticamente. Colocou a mão no peito agitado e respirou fundo.

— Isso lá é coisa que se brinque? Vadia, piranha, desgraçada, doente, malcomida, sua mãe é uma bela puta...

— Ai, minha barriga, eu não consigo!

Hange esquecera bem rapidinho da regra do silêncio. Ria feito uma demente. Só psicopatas riam com tanta vontade. Hange pareceu lembrar de Leona, pois cobriu a boca, abafando as risadas incontroláveis.

— A sua cara! Como eu queria ter uma daquelas máquinas fotográficas! Minha nossa, nunca vou esquecer.

Levi, superando o desespero e a raiva momentânea, suspirou aliviado. Afagou o peito, encarando o teto. A voz saiu no timbre inexpressivo.

— Você arrepiou todos os cabelos do meu cu.

— Não me faz rir, tá doendo.

— Não é pra rir.

Levantou e vestiu somente a calça, sem se importar com a cueca. Não pôde colocar a camisa porque Hange a usava.

— Aonde você vai?

— Vou cagar, você embrulhou o meu estômago.

— Também vou ao banheiro, preciso me limpar.

— A propósito, você tem uma bermuda para me emprestar? Não quero dormir com essa calça suja.

— Claro, pego para você.

Hange levantou para ir ao amontoado de roupa na escrivaninha e Levi foi a passos rápidos para o banheiro; o jantar batia na porta do cu. Cagou a merda toda numa única expulsão, gemendo de satisfação. Hange apareceu pouco depois, balançando a mão perto do nariz torcido. Levi mostrou o dedo do meio.

Enquanto Hange urinava, Levi lavou a boca e o rosto. A comandante havia trago roupas limpas para ambos, todavia permaneceu usando a camisa de Levi. O capitão vestiu a bermuda emprestada, enquanto Hange trocou a calcinha após limpar-se. Ela foi lavar a boca na pia sem vestir a calça. Levi viu as marcas de seus dentes na pele cor de creme, algumas brotando pelos lados da calcinha como se tentassem escapar do pano sufocante. Há meses nutria o desejo intenso de marcar aquela pele, e agora podia fazer isso sempre que quisesse.

Enquanto Hange escovava os dentes, Levi a atacou por trás, invadindo a camisa preta para apanhar os seios. A mulher se contorceu ao ser beijada no pescoço, prensando o rosto do predador entre o ombro e a cabeça, rindo.

— Ei, você não cansa?

— Nem a pau.

Levi a mordeu na nuca antes de se afastar, e Hange lhe deu um tapa no traseiro. Parou, pôs as mãos nas nádegas e se virou para encará-la, mas não foi capaz de fingir cara de poucos amigos. Hange riu com a escova de dentes dentro da boca.

Desceu para a cozinha. Lá, bebeu um grande copo d’água, e em seguida encheu o mesmo recipiente para caso sentissem sede durante a noite. No fundo, seu coração ainda pulava por causa da brincadeira infeliz. Desde quando fingir gravidez é engraçado? Entretanto, pensar sobre isso o fez rir afinal, um riso nervoso dado no último degrau da escada. Hange tinha razão. É hilário.

No quarto, ficou surpreso ao encontrar uma segunda pessoa na cama. Leona estava deitada no braço direito da mãe. Os olhos castanhos retribuíram o espanto, e Levi identificou exaspero na expressão infantil. Leona não sabia da sua permanência na casa e aquela descoberta não a alegrava.

— Vamos ter companhia, Levi.

Hange roçou o nariz no cabelo da filha. Leona fechou os olhos e levantou a cabeça para beijar o maxilar da mãe. Sentindo uma pontinha de inveja, que não era nem cinco por cento do ciúme por parte de Leona, Levi, após colocar o copo d’água na mesa da cabeceira, foi buscar o amor da comandante. Deitou a cabeça no outro braço, acomodando-se no seio esquerdo da mulher no centro da cama.

— Era só o que faltava. Agora eu sou o travesseiro de vocês?

Hange soava falsamente irritada. Levi conseguia ver os olhos grandes e ameaçadores da menininha insistindo em encará-lo. Também pôde ver o balanço ritmado da respiração vagarosa e profunda.

— Mãe, por que o senhor Levi está aqui?

As sobrancelhas loiras se franziram, a cara irritada era idêntica a do seu falecido pai. As palavras tinham um tom indagador meio autoritário que fez Hange rir, e até o próprio Levi encontrou dificuldade para conter o sorriso.

— Ele veio passar a noite com a gente, ué, o que você tem contra?

Desde bebê, Leona o respeitava feito os jovens recrutas. Pelo menos, não lembrava dela lhe pedir colo ou atenção, tampouco de tê-lo tratado mal. No entanto, seja pelo sono, o ciúme ou ambos, a garotinha parecia ter ganho coragem de repente. A mãozinha pequena apareceu por cima do colo de Hange e se espalmou em sua testa.

— Sai daqui. A mãe é minha, vai procurar uma pro senhor.

— Leona!

Rindo, Hange fez a menina deitar outra vez. Levi não se importou com a súbita manifestação de possessividade, pelo contrário, achou engraçado. Permaneceu no mesmo lugar, quase sorrindo.

— Cadê os seus modos, Bebê?

A comandante tirou o braço de baixo da cabeça de Levi para abraçar a menina, beijando o rostinho enfurecido. O carinho suavizou a obstinação, e ela parou de encarar o homem para entregar-se aos mimos da mãe. A garotinha se acalmou depois de receber o amor de Hange, por fim entendendo que o malvado senhor Levi não estava ali para roubar a sua mãe.

Hange acariciava o cabelo dourado, a respiração batia quente e aconchegante no rostinho de criança. Leona, hipnotizada pelo afeto, não reagiu ao ver a mãe tornar a envolver o capitão com o braço esquerdo, nem quando o moreno acomodou a cabeça no peito dela. Em pouco tempo, as unhas da comandante passaram a subir e descer nas costas torneadas, arrepiando a pele e trazendo conforto.

Leona adormeceu com a cabeça descansando perto do pescoço da mãe e o braço pequeno atravessando-a numa espécie de abraço, por pouco não encostando a ponta dos dedos no cabelo do homem deitado a poucos centímetros dali.

— Bom trabalho, mamãe.

— Cala a boca, Levi.

Inclinou o rosto. Hange correspondeu de imediato. O beijo foi rápido e silencioso, e um sorriu para o outro quando os lábios se separaram. A mão esquerda subiu das costas para os cabelos, e não demorou para o capitão aninhado no seio ficar sonolento. Passou o braço ao redor de Hange, e a ouviu suspirar ao ser abraçada com tanta força. Hange era tão macia. Se pudesse, ficava ali para sempre recebendo o calor dela.

— Sabe, Levi, para ser honesta, eu não me importaria de ter um filho seu... outra garotinha, quem sabe.

— Quem diria.

Mesmo sem ver o olho castanho, soube que ela refletia sobre a própria proposta. Permitiu-se fantasiar esse futuro. Uma mistura dele e Hange... o que poderia vir? Ele não sabia como a genética dos Ackermans funcionava, se era gene dominante ou recessivo, então não tinha como ter certeza se teriam uma filha para lá de forte. Para falar a verdade, caso viessem a ter um bebê, não se importaria com esses detalhes fúteis.

— Talvez, quando assinarmos um tratado de paz com Marley, e se a minha fábrica ainda estiver aberta, possamos pensar nessa possibilidade.

Levi teve tempo de reparar em como Hange considerou a paz com Marley um futuro certeiro. Esperava que ela estivesse certa. Sobre o fim da frase... bem, você não deve fazer promessas ou tomar decisões em momentos de felicidade, em contrapartida, se o destino aguardando por eles fosse promissor, Levi não se importaria de construir uma família nele.

— Heh... não precisa responder, já li na sua cara.

Levi ergueu o olhar suave para ela, sem precisar dizer nada. Hange havia pendido o rosto para a direita a fim de encostar a bochecha na cabeça da filha. A última coisa vista por Levi antes de adormecer foi a cicatriz na pálpebra esquerda, mas o que se fez presente no sonho – o primeiro em anos, diga-se de passagem – foi o doce sorriso logo abaixo.