Eren fita o teto do quarto. Havia acabado de chegar de mais um dia duro de trabalho na ferrovia. O corpo berra por um banho quente. No entanto, não está em condições de levantar da cama onde se esparrama. Eren pensa em nada e em tudo. Tenta se focar no agora. Meu nome é Eren, estou no meu quarto. Encare o presente, fracote imbecil. Esqueça as visões, os caminhos, e os pesadelos com aquela garotinha sem olhos.

As pernas convulsionam. O choque familiar brota na nuca e atravessa a espinha. O quarto se transforma na terra de areia fina. As pálpebras tremem. Vê o céu brilhante. Pisca. A areia some. A mobília retorna. O teto volta a ser apenas o teto. Contudo, Eren não está mais sozinho. Dois homens o observam. Pelo rabo do olho, vê uma versão mais deplorável de si mesmo ao lado de um homem aparentando o triplo da verdadeira idade. Zeke Yeager é o seu nome. Compartilham um laço familiar esses dois... três... quatro homens.

Anos atrás, o Eren do passado viveu esse dia do futuro quando beijou a mão da rainha. Agora, o Eren do presente o revivia em três pontos de vista. O LOUCO em pé na porta. O homem deitado no colchão. O garoto beijando a mulher de sangue real. Três realidades, cada uma observando o mesmo cenário. Passado, presente e futuro misturando-se um ao outro.

Mas, nesse delírio existe esperança. Eren sente isso no fundo da alma. E os outros três sentem também. Zeke Yaeger, não. Ele é só um intruso. Eren permanece imóvel no colchão sem lençol. Seus dois Eus sumirão em breve. O tempo passa. Um segundo no tempo real, um ano no tempo de Eren. A presença do garoto do passado desaparece. O demônio do futuro abre a porta e sai sem olhar para trás.

E então ele era apenas Eren. Portador do titã de ataque. Filho de Grisha Yeager. Esperança da humanidade. Haha, esperança da humanidade, essa é boa. A humanidade que chupasse o seu pau. Só tinha mais dois anos de vida e os usaria a seu bel prazer. Ele, o garoto do passado e o LOUCO do futuro tinham um plano.

Almejavam um mundo perfeito. Sem guerras e sem inimigos. Todo eldiano será livre. Nada de governantes, deuses, exércitos e nações, somente pardisianos. As pessoas de Paradis, que tiveram sua liberdade tomada pela "humanidade" para lá do oceano, eram os únicos merecedores do novo mundo. Ele, o homem deitado, não tem poder para construir o sonhado paraíso, mas o LOUCO tem. Em breve, ele, o garoto do passado e o LOUCO se tornarão um só, e assim será feita vossa vontade.

Foi para isso que matamos a nossa mãe, certo?

Olhou o relógio na parede. Eram seis da tarde, o policial já devia estar no quartel. Eren levantou. Já tinha o discurso preparado. A caminhada foi tranquila. Como de costume, não encontrou quase ninguém. O policial o aguardava na sala de espera. Eren sentou no sofá de frente para o policial. O homem era um gordo ensebado. O uniforme mal servia, os botões da camisa imploravam por socorro. Eren e o policial apertaram as mãos. Eren sentiu a catinga da gordura suada. Pela forma com o policial torceu o nariz, o homem tinha a mesma opinião a seu respeito. Sim, somos dois porcos nojentos, pensou Eren.

O policial tirou o pacote de dentro do uniforme. Era um tablete muito bem embalado em várias tiras de plástico e amarrado com barbante. Dispensava identificação e data de validade. O policial colocou a encomenda na mesinha de centro. Eren o olhou com indiferença.

— Sinto muito, não vou mais aceitar.

O policial ficou sem palavras. Eren balançou a cabeça para reforçar a recusa. Na segunda passada, Hange chamou Eren e Floch na sala do comandante. Eren já sabia o desfecho da reunião — o LOUCO contou. Tinha visto o LOUCO no sábado, quando injetava heroína com Floch e Louise. Diferente do que disse aos amigos, Eren tinha sim escutado a voz de Leona e soube, através dos olhos do LOUCO fantasmagórico no corredor, que a filha da comandante presenciou a festinha. Contudo, fingiu demência e não contou aos companheiros. Fez isso porque o LOUCO queria que Hange soubesse da heroína.

A heroína era a única coisa capaz de fazer Eren se desligar da realidade. Quando sob efeito da droga, Eren voltava a ser um homem normal. Esquecia Zeke, a garotinha sem olhos, os caminhos, as outras versões de si mesmo e o plano do LOUCO. Sim, sabia dos malefícios da droga. Toda aquela história de prejudicar as veias, as infecções, e a tão temida dependência química. Essa última é bem perigosa, senhoras e senhores. Torra o seu dinheiro, sua vida social e sua sanidade. Bem, no caso de Eren, essa última já foi pro saco. E não precisava da heroína para afastar os amigos.

O LOUCO, todavia, não queria que o Eren do presente — o passado do LOUCO — se transformasse num drogado e esquecesse a missão. Ou talvez Eren precisasse continuar enlouquecendo à sua própria maneira intrínseca a fim de alcançar o último estágio. Sim, devia ser isso. Sendo assim, a mando do LOUCO, seguiria atormentado por ser o culpado da morte de sua própria mãe. E a de outras também.

Ah, sua cabeça começava a esquentar.

— Tem certeza?

O policial tentava vender seu peixe. O gordo recebia um bom salário na polícia e a ganância humana continuava desejando mais.

— Tenho. Nosso negócio acaba aqui.

Hange deu uma belíssima bronca nele e em Floch por "se drogar no quartel". A travessura foi ideia de Eren. Devia ser obra do LOUCO. Louise ouviu um bocado numa reunião separada. Hange achou que a prisão seria uma punição fácil demais para os três drogados. A comandante resolveu fazê-los pagar com trabalho não-remunerado. Duas horas de serviço extra durante a semana e expediente normal nos sábados e domingos, por duas semanas. Em locais separados.

De fato, ir para a prisão seria bem mais interessante... caso Eren fosse o mesmo de cinco anos atrás. Trabalhar no olho do sol não deixa você pensar direito. Não pensar direito era justamente o que Eren buscava. Não sabia como a punição ia para Floch e Louise porque não se encontraram desde então.

O policial tentou dar a volta por cima. Eren cortou a conversa agradecendo pelo serviço prestado. Na volta para o quarto, encontrou Sasha, Connie e Jean. Os três iam passar a noite de sexta na cidade. O trio o convidou, Sasha e Connie insistindo mais que Jean. Eren recusou porque precisava trabalhar no dia seguinte.

— Por que você está trabalhando tanto, Eren?

Perguntou Sasha, fazendo beicinho. Nenhum deles sabia da heroína, tampouco Armin e Mikasa.

— Estou cobrindo um parceiro. Nos vemos depois. Maneirem na bebida e tentem não pegar herpes. Especialmente você, Jean.

Eren agarrou a virilha de Jean, dando risadinhas. Jean o empurrou com violência.

— Se eu quisesse pegar herpes, eu comia a tua mãe.

— A minha já está morta, Jean. Já a sua, aquela vaca gostosa, está bem vivinha.

XXX

Paralelo à tarde de trabalho de Eren, Armin passava o dia de folga com Leona. A menina precisava ir ao dentista. No dia anterior, Hange perguntou ao subordinado se ele poderia leva-la. Armin aceitou de bom grado. O próprio soldado precisava ir ao centro comprar um vaso para decorar sua sala, portanto não era como se fosse sair só por causa de Leona. Além disso, aproveitaria para marcar dentista para si.

Na verdade, mesmo se não tivesse planos de ir ao centro, levaria Leona ao dentista de qualquer forma. Armin gostava bastante da menininha, e como não poderia? Acompanhou a gestação de Hange e conviveu diariamente com Leona em seu primeiro ano de vida. Tinha um carinho especial pela filha da comandante. E quando pensava que ela já estava com seis anos, se surpreendia ao constatar como a lembrança de ela bebezinha permanecia fresca.

Armin levava Leona no bagageiro da bicicleta. Na opinião de Armin, bicicleta é o melhor meio de transporte. É rápido, prático, confiável e saudável. A sua tinha uma cestinha no guidão, onde o vaso recém comprado sacolejava enrolado em folhas de jornal. Armin pedalava numa velocidade amena. Leona agarrava sua cintura. Vez ou outra, a menina apontava para alguma pessoa, animal ou objeto, dizendo "olha aquilo lá, mano". Armin sempre respondia entusiasmado.

O dentista dividia a calçada com outros médicos, incluindo um pediatra que Armin deduziu também ser médico de Leona. No outro lado da calçada havia uma farmácia aberta. Um garoto alto, cabisbaixo e magricela varria a frente do estabelecimento. Foi naquela farmácia que Hange comprou o chá abortivo falso. É surpreendente aquele lugarzinho sujo ainda estar aberto.

Armin encostou a bicicleta na parede do consultório e travou a roda traseira. Pegou a sacola. Poderiam roubá-la caso deixasse na cestinha.

— Quer que eu leve o pacote, mano?

Leona o chamava de mano desde que aprendeu a falar, e o costume veio através de Hange. Segundo a comandante, Armin e Mikasa — a quem Leona chama de mana — agiam feito irmãos mais velhos, embora Armin achasse que ele e a Ackerman não fizessem nada além do básico.

— Não precisa.

O sino na porta do consultório tilintou quando Armin e Leona entraram. A sala de espera era rústica e impecavelmente limpa — você começa a prestar atenção nessas coisas após conviver com o capitão Levi. O secretário deu boa tarde. Armin retribuiu o cumprimento e Leona acenou.

Três pessoas aguardavam. Uma senhora de idade e dois homens. Armin reconheceu o da esquerda como um dos soldados liberianos vindos de Marley. Armin o cumprimentou com um aceno de cabeça. Em resposta, o homem tirou o chapéu.

Leona sentou perto da velha senhora. Ambas sorriam uma para a outra. Armin deixou o vaso com Leona e foi até o secretário. Entregou a carteirinha da criança. Lá constava a data de nascimento da menina, o número da certidão, o tipo sanguíneo e outras informações relevantes. O secretário a olhou por dois segundos e se pôs a caçar a ficha de Leona nas pastas.

— Leona Zöe Smith...

Murmurava o secretário de dedos ágeis. Ele pronunciou o nome completo de Leona outra vez ao encontrar a ficha, dessa vez com ênfase satisfeita. Pôs a folha na mesa, molhou a caneta de tinta e a entregou à Armin.

— É uma consulta de rotina, certo?

Armin assentiu e assinou o próprio nome no canto inferior da página. O homem guardou a ficha de volta na pasta referente à letra L.

— Também quero marcar uma consulta, por favor.

— Você já tem ficha?

— Não.

Nesse ínterim, a porta perto do balcão se abriu e um homem de jaleco branco apareceu. Ele chamou um nome feminino. A senhora levantou. Leona acenou para a desconhecida. O secretário pegou uma ficha em branco.

— Qual é o seu nome?

— Armin Arlet.

O secretário o encarou por cima dos óculos e riu pelo nariz.

— Pensei que você e a garotinha fossem irmãos.

Nossa, como assim? Tudo bem, ele e Leona compartilhavam algumas características físicas. Ambos eram loiros, baixinhos para a própria idade, e tinham olhos grandes. Contudo, é óbvio, não possuíam parentesco algum. As características de Leona foram herdadas de seu falecido pai, Erwin Smith. Armin, por sua vez, nada tinha de parecido com o décimo terceiro comandante. Nem no físico e nem no intelecto.

— Não somos. Ela é filha da minha superior.

— Puxa, eu jamais imaginaria. Idade?

— Vinte anos.

— Profissão?

— Militar.

— Carteira de identidade?

Armin estendeu o documento. O homem transcreveu o número de registo na ficha e perguntou se a consulta poderia ser marcada para quinta às três horas. O soldado consentiu. A senhora foi liberada pouco depois, e minutos mais tarde chegou a vez de Leona. Armin entrou com ela, levando o vaso junto.

O consultório do dentista era tão rústico quanto a sala de espera — equipamentos antigos e de boa qualidade. A cadeira odontológica era de couro marrom. O dentista a ajustou para a altura de Leona. A garotinha abriu a boca antes do dentista pedir. Armin se encostou perto da soleira da porta, segurando a sacola do vaso com uma mão e pondo a outra no bolso da calça.

— Que dentinhos bonitos. Você cuida muito bem deles.

Leona riu com o espelho odontológico dentro da boca. O dentista encostava o objeto de ponta redonda em várias partes da boca aberta. Então, o homem encontrou algo estranho. O dentista cutucou a boca da garotinha com a sonda exploradora. Leona fechou os punhos, mas não mexeu a cabeça.

— O seu dentinho está frouxo. Vai cair em breve.

O rosto de Leona se transformou em dois olhos esbugalhados. O dentista retirou os equipamentos rapidamente. Leona cobriu a boca com as duas mãos.

— Meu dente não vai cair.

— Bolinha, o dente de todo mundo cai, é normal.

Disse Armin numa tentativa de tranquiliza-la. Não funcionou. Leona continuou balançando a cabeça feito louca. O dentista risonho girou a cadeira.

— Garoto, diga para a Hange ficar de olho nesse dente. Vai cair daqui a pouco.

— NÃO VAI!

— Vou falar. Obrigado, doutor.

O dentista separou produtos específicos para higiene bucal e preparou uma escova para lavar a boca de Leona. O homem precisou jurar no dedinho que não ousaria arrancar o dente frouxo.

XXX

A consulta durou meia hora. Armin pagou o secretário com o dinheiro dado por Hange. A comandante disse para Armin ficar com o troco. O garoto, entretanto, lembraria de entregar as vinte pratas quando se encontrassem daqui algumas horas.

Seu compromisso com Leona não terminara. Precisava leva-la para casa e esperar Hange voltar. Encontrou a bicicleta no mesmo lugar onde a deixou. Zero sinais de tentativas de furto. Colocava o pacote na cestinha quando, sem mais nem menos, Leona saiu correndo na direção da estrada.

Armin nunca foi um soldado ágil. Por sorte, criancinhas de seis anos também não são. Conseguiu agarrá-la antes da menina alcançar a estrada, onde carruagens e carroças de carga iam e vinham. O coração de Armin pulava. Graças à Santa seus reflexos de cachorro cego não o traíram. O que diria à Hange caso os cavalos passassem por cima de Leona? Matei o pai da sua filha e agora fiz o favor de matar a sua bebê também. Não. Nenhum Smith morreria sob sua tutela. Agarrava Leona contra o peito. A garotinha se debatia e apontava para o outro lado da rua.

— Mano, me larga, preciso pegá-lo antes que alguém pise nele.

— Do que está falando?

Armin a pegou pela mão; firme. A menina impulsionava o corpo, tentando desvencilhar-se do soldado e atravessar a rua ao mesmo tempo. Após conferir os dois lados da estrada, Armin deixou Leona puxá-lo. Identificou o alvo de Leona assim que pisaram na calçada. Havia um pássaro moribundo no chão de pedra — um pombo. Armin soltou a mão de Leona. A menina pegou o pássaro sem receio de ser bicada.

— Ele deu uma pancada naquela janela. — Leona apontou a janela fechada logo acima. Tinha uma mancha incolor e melequenta no vidro. — Ainda bem que eu vi.

Armin estudou o pássaro no colo da criança. Era um pombo de penas escuras, aspecto maltratado e os olhos vagos. Uma ave velha e doente. Morrer na colisão teria valido mais a pena. Armin pensou em sugerir colocar o pássaro numa área verde e deixa-lo morrer em paz. Porém, não teve coragem.

Leona murmurava palavras de conforto para o pássaro ferido. Armin se encheu de pena. Até onde sabia, a garotinha nunca lidou com a morte diretamente. Sentia dó do pobre pombo, mas sentia bem mais de Leona, que abraçava o animal com tanto zelo.

— Vou cuidar dele. Minha mãe tem coisa de curativo em casa.

— Sua mãe não vai brigar?

Leona sacudiu a cabeça. Armin coçou a nuca, incerto. Existiam chances bem altas de a ave falecer antes de chegarem à casa de Hange. E o que diria à Leona caso isso acontecesse?

Leona começou a andar. Encorajava o pássaro falando aguenta firme, você vai sarar, tudo vai ficar bem, dentre outras coisas. Armin colocou a mão no ombro da menina para ter certeza de que ela não sairia correndo, e atravessaram a rua juntos. Armin olhou a ave de relance. Talvez desse para fazer alguma coisa pelo pássaro, afinal.

XXX

O pombo viajou na cestinha da bicicleta, numa caminha improvisada feita com os papéis usados para proteger o vaso. Armin trouxe o vaso no braço, assim conduzindo a bicicleta com apenas uma mão. Leona perguntava de dez em dez segundos se o pássaro estava bem. Armin, muito paciente, confirmava cada perguntinha.

Armin deixou a bicicleta dentro do quintal de Hange. Leona retirou o pássaro da cestinha, segurando a ave tal como seguraria um bebê. O soldado usou a chave de Hange para abrir a porta. Leona entrou correndo. Armin bateu os pés antes de entrar.

— Licença.

Disse Armin embora não tivesse ninguém na casa para recebe-lo. Armin olhou em volta, se sentindo desconfortável. Era a terceira vez que visitava a casa da comandante. Nas duas anteriores, estava com Jean e Mikasa e, óbvio, com Hange também. Se sentia um intruso.

— MANO, SOBE LOGO.

Armin seguiu Leona pelas escadas, reparando no corrimão empoeirado. Chegou no segundo andar a tempo de ver Leona entrar na porta à esquerda do corredor. Apressou o passo e entrou antes da porta bater.

— Não, Bolinha! Não coloca o pássaro na cama! — Graças à Santa teve tempo de impedi-la. — Vamos colocá-lo no chão. Aqui, pode usar o meu paletó.

O quartinho de Leona cheirava a mingau. Havia uma estante encostada na parede. No lugar do aparador, um objeto familiar dava suporte aos livros infantis da prateleira do centro. Armin logo reconheceu o porta-contêineres dado à Leona na tarde em que Onyankopon apresentou o projeto do porto. O caderno de caligrafia na mesa de cabeceira era um indício do interesse de Leona pela arte da comunicação escrita.

O próprio Armin foi alfabetizado em casa. Seus pais ainda eram vivos naquela época, mas quem o ensinou foi o avô. Passavam horas lendo juntos; Armin sentado numa cadeira, o avô em outra. De tempos em tempos o avô estendia o braço para o potinho de amendoim na mesinha de centro, colocava um punhado na boca e mastigava pausadamente. Armin recordava o cheiro da leguminosa na boca do avô quando ele chegava perto e pedia para o garoto ler as sílabas das palavras. Ah, as memórias olfativas são as piores.

Leona pôs o pássaro no paletó estendido. O pombo girava a cabeça, avaliando o local estranho. A pata esquerda da ave esticava-se numa posição não natural, indicando uma possível fratura.

— A patinha dele tá quebrada. Precisamos dar um jeito.

Leona aproximou a mão do rosto para martelar o dedo no lábio superior. Armin segurou o braço da criança no ar.

— Não coloca a mão no rosto, esse pássaro pode ter doenças. Onde a sua mãe guarda os produtos médicos?

— No banheiro.

— Perfeito. Vamos aproveitar para lavar as mãos.

— E o pássaro?

— Ele não vai fugir.

Armin não deixou Leona sair do banheiro até a menina esfregar os antebraços. No armário, encontrou uma caixa cheia de antibióticos, analgésicos, ataduras e, por sorte, um pacote lacrado de abaixadores de língua. No fundo do armário achou quatro pares de luvas de borracha. Não iam servir em Leona, portanto seria ele o médico do pássaro.

De volta ao quarto, encontraram o pássaro desvanecido na mesma posição. O animal sequer tentou escapar. Armin vestiu as luvas. Leona tremia de ansiedade. Armin, percebendo a agitação, resolveu deixá-la participar. Pediu para Leona abrir o pacote de abaixadores de língua e trazer as ataduras.

O abaixador de língua era grande mais para a pata do pombo. Armin quebrou o palito. O pássaro tentou bica-lo ao ter a pata quebrada agarrada, porém, o bico velho não passaria pela borracha. Armin sentiu apenas uns beliscãozinhos. Posicionou a pata do pássaro na posição correta e grudou o palito nela. Estendeu a mão para Leona lhe entregar as ataduras. No entanto, a garotinha se recusou.

— Eu quero fazer.

— Não, você está sem luvas.

— Mas eu quero ajudar.

Leona ficava uma gracinha quando brava. Parecia uma versão infantil de seu falecido pai. Armin concordou em deixa-la fazer desde que Leona não colocasse a mão no rosto. O soldado segurou a pata da ave enquanto a criança passava as ataduras.

— Não aperta muito, o sangue precisa circular.

O curativo ficou gordo devido ao excesso de ataduras. Os olhos vermelhos do pombo miraram o curativo. A cabecinha girava, tentando entender o que os humanos tinham feito. Logo depois, se pôs a coçar as próprias costas. O animal não tentou voar. Esse detalhe confirmou as suspeitas de Armin sobre o pássaro estar doente. Armin pegou a caixa de antibiótico. Não sabia qual era a dose exata para o tamanho do pássaro, portanto resolveu dar metade da metade de uma pastilha.

— Deixa eu dar o remédio?

— Não.

Dessa vez, a resposta de Armin foi firme. O pássaro bateu as asas. Contudo, naquele estado físico, não pôde resistir por muito tempo. O comprimido entrou goela abaixo na garganta do pombo. O remédio impediria inflamações na fratura. Armin continuou segurando a ave até o animal sossegar.

— Vou cuidar dele até a patinha sarar.

Disse Leona. A menina agachada abraçava os próprios joelhos, e os olhinhos faiscavam amor pelo pássaro. Sentiu pena dela. Armin retirou as luvas e as deixou estendidas no paletó. Depois, pensativo e ansioso, se pôs a organizar a caixa de remédios. Como Leona reagiria à morte do pássaro? Devia prepara-la ou deixar essa tarefa a cargo de Hange?

Leona afagava a cabeça do pombo. O pássaro, por sua vez, relaxava sob o toque leve, apertando os olhinhos vermelhos.

— O que você vai fazer com esse pássaro, quando ele melhorar?

— Vou soltá-lo, ué.

Armin ficou surpreso. Crianças da idade de Leona tendem a querer tudo para si mesmas. Brinquedos, o maior pedaço do bolo, animais e até pessoas. O puro egoísmo infantil de achar que o mundo deve satisfazer suas vontades. Bolinha, porém, aprendeu cedo que nem tudo é como a gente quer — uma lição que te leva a pensar no lado do outro.

Lá em baixo, alguém abriu a porta da frente. Leona entrou em êxtase. A menina correu. Armin apressou-se para ir atrás. Pararam no primeiro degrau da descida e viram Hange pendurando o casaco no gancho ao lado da porta. Hange trazia duas sacolas de compras. Do alto da escada, Armin conseguiu ver as carne e os vegetais. A comandante percebeu a presença dos dois quando Leona a chamou. A menina entusiasmada fazia gestos convidativos.

— Mãe! Mãe! Vem ver.

— Huh? Ver o quê?

Perguntou Hange, desconfiada. Leona correu para o quarto, e à Hange não restou outra solução se não subir as escadas. Armin a esperou. Hange sorriu para o subordinado.

— O que vocês têm aí?

— A Leona resgatou um pássaro.

Sendo Hange uma pessoa excêntrica, Armin não esperava uma reação negativa, e de fato Hange não se zangou.

— É a cara da Leona fazer uma coisa dessas.

No quarto, encontraram Leona perto do pássaro. A ave viu Hange e tentou fugir, de súbito em pânico. Leona o agarrou.

— Calma, passarinho. — Leona murmurou.

Hange girou a cabeça para dar o olho bom ao soldado. Armin leu na face da comandante a mesma opinião que tivera ao ver o pássaro na calçada — um animal doente perto da morte. Hange coçou a nuca, desconcertada. Em contrapartida, a comandante chegou numa conclusão bem mais rápido que Armin.

— Bolinha, esse pássaro não vai sobreviver.

— Ele vai sim.

Afirmou Leona, convicta. O olhar transbordava tanta determinação que Hange não foi capaz de insistir no assunto.

— Bom, então cuide dele direitinho, sim?

Hange não se importava com o bem-estar do pássaro, até porque já estava com a pata na cova. Porém, via ali a ótima oportunidade de dar uma tarefa séria à Leona — um compromisso demandando esforço e preocupação. Haveria uma recompensa no resultado positivo e uma lição no negativo.

— OBA! — Leona comemorou. — Mãe, pega uma caixa pra gente colocar ele.

— Bolinha, eu ainda nem tirei o meu sutiã. Se acalma.

Leona ria com a boca escancarada, mostrando todos os dentes. Armin lembrou do dentista.

— Sobre o dentista, está tudo certo com a Leona. Mas, o dentinho dela está para cair.

— NÃO!

A menininha levantou as mãos querendo cobrir a boca. Por sorte, Hange a agarrou pelos pulsos antes. A comandante se agachou, curiosa e sorridente. Leona comprimiu os lábios e baixou a cabeça.

— Deixa eu ver, filhotinho.

Leona sacudiu a cabeça e fez NUUUUMMMRG.

— Ahh, deixa.

O beiço de Hange tremeu, e o único olho ficou comicamente marejado. Leona fitou a face implorante da mãe, e cedeu. Hange meneou a cabeça e largou os pulsos da filha para mexer nos dentinhos de leite, não tardando a encontrar o incisivo inferior frouxo.

— Achei.

Leona gemeu com os dedos da mãe na boca. Ela tentou se afastar, porém, Hange a segurava firme. A comandante pôs a língua para fora enquanto puxava o dente da filha. Os cantos dos lábios de Hange se levantaram num sorriso divertido. O dente de Leona saiu sem grandes dificuldades.

— Prontinho, tirei pra você.

A garotinha se enfureceu, mais por ter sido enganada do que pela extração do dente.

— MÃAAAAEE!

Leona batia o pé no chão, gritando e reclamando. Sangue acumulava-se na boca pequena. Hange ignorou a raiva infantil e mostrou o incisivo à Armin.

— O primeiro dentinho que ela perdeu.

Hange limpou o olho marejado e fungou. Armin também segurava a emoção.

— Ela está crescendo tão rápido.

A comandante entregou o dente ao soldado. Armin ficou com o pequeno incisivo na palma da mão, observando o formato arredondado e o sanguezinho no centro. Em seguida, Hange ajoelhava-se na frente da garotinha possessa, e enchia o rostinho furioso de beijos.

XXX

Leona abriu os olhos quando os primeiros raios solares da manhã transpassaram o vidro da janela. Por estar em estado de alerta mesmo durante o sono, a iluminação do sol nascente bastou para acordá-la. Leona estava tão ansiosa que não conseguiu dormir cem por cento. Nem o barulho da chuva da noite passada foi capaz de embala-la. Sem racionalizar, passou a língua no vazio até ontem ocupado pelo incisivo inferior. Nossa, ia demorar para se acostumar com a falta do dente. Levantou num pulo e foi conferir o pássaro, o qual tinha chamado de senhor Louro.

No dia anterior, sua mãe pôs o senhor Louro numa caixinha de sapatos. Leona passou o tempo todo na volta do pássaro. O alimentou duas vezes na seringa e trocou a serragem logo após o pássaro fazer as necessidades. Leona queria abraçar o senhor Louro e dizer que ele ficaria bem. No entanto, não fez isso. Sua mãe explicou que pássaros são criaturas nervosas e sensíveis, e é melhor deixá-los em paz. Leona resolveu fechar a caixa a fim de dar privacidade ao senhor Louro. Claro, sem esquecer de fazer furinhos na tampa.

Leona checou a caixa antes de jantar, antes de tomar banho, antes de dormir, e acordou uma vez de madrugada para conferir o animal. Em todas as vezes, o pombo ergueu a cabecinha fraca e piscou para sua salvadora. Leona achava que a piscadela significava um agradecimento, portanto dizia "de nada, senhor Louro".

Agora, acordava e ia direto para a caixinha de sapatos. Abriu a tampa e disse, animada:

— Bom dia, senhor Louro.

O senhor Louro não levantou a cabeça como fez das outras vezes. O animal jazia no centro da serragem, deitado com as patas para cima. Os olhos abertos encaravam o vazio. Leona estendeu a mão para afagar o pássaro, aí lembrou que não vestia luvas e recuou gemendo.

Pegou um lápis e voltou à caixa. Cutucou o pombo. O corpo duro balançou de um lado para o outro. Os olhos do pássaro continuaram estáticos, e nenhum som saiu do bico aberto. Leona largou o lápis. Tremia da cabeça aos pés. O choro subiu. Leona tentou engolir. As lágrimas vieram mesmo assim. Saiu correndo, indo direto ao quarto de Hange.

Leona escancarou a porta sem se preocupar em acordar sua mãe, pois Hange despertava cedo até nos fins de semana. A comandante estava deitada de bruços no tapete. Trajava pijama e não usava tapa-olho. Do lado dela descansava uma xícara de chá. Hange desenhava alguma coisa numa folha larga, e parou de riscar ao ver a filha.

— Huh? O que foi, filhotinho? Acordou cedo.

Quando Leona chegou perto, viu na folha o desenho de três pessoas em diferentes ângulos vestindo o mesmo traje preto. Hange tinha contado sobre os novos uniformes da Tropa de Exploração que vinha projetando, objetivando deixar a vestimenta mais confortável e maleável para combate corpo a corpo. Aquele devia ser o projeto. Apesar do interesse, Leona não tinha cabeça para desenhos agora. A menina olhou Hange de cima. Os olhinhos brilhavam por causa das lágrimas.

— Mãe, o senhor Louro virou estrelinha. — Disse Leona em voz embargada.

— É mesmo? Poxa, que pena. Vem aqui, Bolinha.

Hange abandonou o projeto e sentou no tapete. Leona avançou nos braços dela. A menina se encolheu no colo da mãe, puxando o pijama e aninhando o rostinho no peito da comandante. Leona chorou um pranto magoado e frustrado. Desejou tanto ver o pássaro de volta na natureza, e cuidou dele tão direitinho, a troco de nada. Lamentava a morte do animal e sua própria incompetência como médica. Entre os soluços, Leona choramingava lamúrias.

Hange, por outro lado, sorria pequeno enquanto consolava a criança que enfrentava sua primeira experiência com a morte. Enquanto Leona reclamava, Hange a abraçava e sussurrava palavras de conforto perto do rosto dela. A filha chorava com a boca entreaberta, e Hange não conseguiu segurar o riso ao ver a janelinha no lugar do incisivo.

Conforme o pranto passava, Hange abaixava a cabeça para beijá-la. Beijou ambos os olhinhos molhados. Leona aquietou os soluços. Hange usou a manga do pijama para limpar o rosto inchado, e pediu para Leona assoar o nariz ali mesmo. Não tinha nojo da filha.

— Pronto, filhotinho.

Leona permaneceu no colo da mãe, com a bochecha apoiada no peito dela. Encarava um ponto distante do quarto. Contudo, o estado passava longe de catatonia. Os olhos não estavam vazios. Leona refletia sobre a morte do senhor Louro. Hange a deixou tomar seu tempo. Por fim, Leona disse:

— É triste quando as coisas viram estrelinha, mãe. Muito triste.

Como comandante da Tropa de Exploração, Hange sabia dessa verdade mais do que ninguém. Entretanto, não ia diminuir a tristeza de Leona, nem transformar o assunto em algo sobre si mesma.

— Eu sei. Faz parte da vida. Todo mundo vai virar estrelinha.

— Mas eu cuidei tanto dele...

— A gente não pode ter controle sobre tudo. Às vezes damos o nosso melhor, e as coisas terminam de outro jeito.

— A vida é tão injusta, mãe. Viver é horrível. Não vale a pena viver.

Hange precisou de muita força para não gargalhar na cara de Leona. De vez em quando, Leona tinha uns surtos dramáticos bem engraçados. Em vez de gracejar, Hange riu de lábios cerrados. Leona saiu do colo da mãe nesse momento, e parou na frente dela. Ficaram da mesma altura.

— Precisamos enterrar o senhor Louro, mãe.

A comandante levantou as sobrancelhas. Hange pretendia jogar o pássaro no lixo.

— Enterrar onde?

— Nos fundos.

Hange fitou o desenho inacabado. Passou a semana inteira ansiosa para trabalhar no rascunho e agora Leona vinha com essa ideia desnecessária de enterrar um animal aleatório. Hange suspirou e passou a mão pelo cabelo solto, morrendo de má vontade. Nesse ínterim, Leona foi até o amontoado de roupa na escrivaninha pegar o casaco velho que Hange usava dentro de casa.

— Toma, mãe.

Leona pôs o casaco aberto sobre os ombros de Hange.

— Vou pegar o meu pra gente sair.

Leona era calorenta. A menina não gostava de usar muitas roupas e só sentia frio em casos extremos do tipo "estão caindo relâmpagos de gelo lá fora". Pôr o casaco sem ninguém mandar era um artificio para agradar Hange. A comandante se levantou bufando. Vestiu o casaco por cima do pijama sem se preocupar em abotoá-lo e calçou as pantufas. Leona apareceu pouco depois trazendo a caixa de sapatos e vestindo casaco amarelo. Hange olhou de imediato para os pés da filha e torceu a cara.

— Descalça você não vai.

Leona calçou os sapatos em silêncio. A menina sabia que, caso reclamasse, Hange poderia desistir do funeral. Desceram as escadas juntas, com Leona carregando a caixa de sapato fechada. Hange abriu o armário dentro da escada, onde normalmente guardava produtos do laboratório que foram entregues na sua casa, e de lá tirou uma pá.

O sol da manhã tentava abrir espaço entre as nuvens cinzentas. O quintal da casa era um quadrado de tamanho médio. Hange olhou para a grama molhada e suspirou. Pensou em voltar e vestir botas, então ficou com preguiça e desistiu.

— Aqui, mãe.

— No meio do quintal, Leona? — Impacientou-se Hange.

— Bem...

— No canto é melhor.

Hange cravou a pá perto do muro do vizinho. Leona concordou, modesta. Hange, ainda contrariada, começou a cavar uma cova horizontal. Enfiava a pá fundo na grama e jogava a terra úmida ao lado, formando um montinho.

— Vou pegar flores no quintal da vizinha.

— Seja rápida para ela não te ver.

Leona saltou a pequena cerca que dividia o quintal de Hange com o da vizinha da direita. A dona da casa era uma mulher velha e chata que já tinha furado vinte bolas, incluindo a de Leona. A velha tinha um jardinzinho nos fundos. Se a anciã cuidasse da própria vida como cuida do jardim, talvez fosse menos rançosa.

No fim, o movimento repetitivo de cavar acalmou os ânimos de Hange. Se pegou apreciando o cheiro da terra molhada. Hange cavou um buraco fundo para nenhum acidente desagradável acontecer quando recomeçasse a chover. Leona voltou em menos de dois minutos trazendo um buquê de dentes-de-leão. As flores vinham embarradas e com as raízes penduradas. Leona deve ter as encontrado assim, pois não teria voltado tão depressa caso tivesse resolvido arrancar as plantas inteiras do solo. A dedução de Hange se mostrou correta.

— Achei essas flores largadas no carrinho de mão. São bonitas, não são, mãe?

Apesar das propriedades nutritivas, dentes-de-leão são considerados pragas por alguns jardineiros, uma vez que as plantas dessa espécie nascem em qualquer lugar e sem ninguém plantar. Hange não sabia se a vizinha as colheu para fazer um chá ou para jogá-las fora.

— Maravilhosas.

Leona pôs a caixinha de sapatos na cova. A caixa fez um baque surdo ao cair na terra fofa. Depois, a menina jogou os dentes-de-leão sobre o caixão improvisado até restar apenas um, este destinado para o túmulo. Hange começou a encher o buraco de terra, e nisso Leona se afastou. A garotinha voltou pouco depois trazendo uma pedra. Leona pôs a pedra na cabeça da cova, feito uma lápide. Hange teve vontade de rir. Se ela me pedir para acender uma vela, não vou conseguir me segurar, pensou Hange. Porém, Leona sugeriu uma coisa muito pior.

— Pronto, mãe, agora precisamos fazer uma oração.

Leona se ajoelhou na grama úmida, fechou os olhos e pôs as mãos unidas na frente do rostinho. Hange fez o mesmo. A comandante encostou os punhos unidos na boca, assim Leona não ia ver seus lábios trêmulos. Fizeram silêncio. Leona, absorta e concentrada na oração, pedia proteção e paz para a alma do senhor Louro.

— Senhora minha Santa, criadora e redentora de todos os eldianos, concedei à alma do senhor Louro a remissão de todos os seus pecados. Ouça, piedosa Santinha, a prece que humildemente te dirijo. Alcance... não... alcancei... — Leona apertou as sobrancelhas. — Al-can-çai — Disse pausadamente — para a alma do senhor Louro o perdão, a fim de que ele possa cantar e dançar no céu. Oh, Santinha eterna e misericordiosa.

As bochechas de Hange inflaram. As risadas vieram com força. Hange gemeu solavancando o pescoço. Leona espiou Hange por um olho, e depois abriu o outro. A menina franziu as sobrancelhas e mostrou a janelinha do incisivo ao repreender a mãe, rosnando:

— Mãe, pelo amor da Santa, o senhor Louro morreu. Para de rir.

Agora sim. Hange caiu na gargalhada. A comandante tentou tapar a boca, no entanto, as risadas eram imparáveis. Leona cruzou os braços, olhando Hange com desaprovação. A comandante limpou as lágrimas no canto do olho por baixo dos óculos.

— Sinto muito, Bolinha.

Hange não sentia muito. Como poderia não rir? Minha nossa, mal podia esperar para contar essa história a Levi e os outros. Leona, contudo, levava a situação a sério, e ficou irritada por Hange não ter o mínimo de respeito no funeral do senhor Louro. Percebendo isso, Hange limpou a garganta e disse, solene:

— Desculpe.

— Tudo bem.

Leona limpou a terra dos joelhos. Depois, pegou o último dente-de-leão e cravou o caule no montinho de terra do túmulo recém feito. Hange permaneceu atrás, mirando as costas e a nuca da filha cabisbaixa. Então, Leona ergueu a cabeça e se virou.

— Sabe, mesmo assim, não me arrependo de ter resgatado o senhor Louro. Teria sido bem pior se ele morresse na calçada onde eu o peguei.

— Verdade. Você foi boa pra ele, Bolinha.

Hange pôs a mão no ombro da filha, sorrindo. Leona sorriu também.

— Vou pegar mais animaizinhos doentes e cuidar tão bem deles quanto cuidei do senhor Louro, mãe, e quando eles melhorarem, vou soltá-los na natureza, que é o lugar deles. Vou ser a melhor médica de bichos da ilha.

Declarou Leona, de cabeça erguida e voz determinada. Hange sorriu de canto. A comandante lembrou da promessa que fez a si mesma no dia em que Zackly visitou o quartel. Jurou deixar Leona livre para decidir sobre o próprio futuro. Prometeu apoiá-la independente dos sonhos da filha irem ou não de acordo com a sua forma de pensar. Se o sonho de Leona for ser uma "médica de bichos", então Leona ia se tornar médica de bichos. E ai do velho intrometido que tentasse fazê-la mudar de ideia.

— Médicos de bicho não podem trabalhar de estômago vazio.

Leona entendeu o tom insinuante na voz divertida de Hange. A menina sorriu de orelha a orelha e bateu palmas.

— Você vai fazer mingau?

— Vou. E no almoço vou fazer a torta de batata que você gosta.

Leona comemorou com gritos e pulinhos entusiasmados. Nesse momento, pingos finos de água começaram a cair. O vento soprou mais forte, sacolejando o dente-de-leão plantado no túmulo do pássaro. A chuva apertou. Mãe e filha apostaram corrida até a cozinha, e Hange deixou Leona ganhar.