Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
52 De onde eu vim não funciona assim
Notas iniciais
As pálpebras de Leona pesavam de modorra. O que começou como uma empreitada entusiasmante logo se transformou numa viagem cansativa. O corpo de Leona doía e seus pés descalços congelavam sobre as espáduas de Buck. O seu maior desejo era aconchegar-se em sua cama, bem longe dos titãs colossais e do tum tum tum da marcha retumbante. Entretanto, Hange lhe incumbiu a grandiosa responsabilidade de levar Buck e Minnie à fazenda da rainha. O voto de confiança da mãe encorajava Leona a seguir em frente.
Graças à memória de Minnie, alcançaram a fazenda sem precisar pedir informação aos transeuntes. Ainda estava escuro quando as duas itinerantes entraram na propriedade real. Leona só viu a rainha uma vez: na inauguração da ferrovia (um encontro vergonhoso). O estômago de Leona borbulhava de ansiedade com o prospecto de reencontrar Historia. Dessa vez, ela agiria com dignidade na presença da monarca.
Leona e Minnie avaliaram as casinhas e se perguntaram qual era a casa principal. Nenhuma se parecia com os palácios da Capital, portanto usá-los com referência era inútil. Minnie chutou que as instalações da rainha se localizavam na única a dispor de um vigilante.
O policial esparramado na cadeira de balanço roncava alto num sono de dar inveja. Um lampião munido de uma pequena rajada de gelo iluminava a varanda bem-cuidada. Besouros desorientados pela luz ofuscante zanzavam ao redor do lampião. O jornal que o policial estivera lendo jazia aberto em sua cara, o protegendo dos insetos alucinados.
Minnie e Leona riram uma para a outra. A babá limpou a garganta e chamou, devagar:
— Com licença, senhor?
O policial fez ruaaaaaac roooon e resmungou algo semelhante a "agora não, amor". Leona conteve as gargalhadas com as mãos – sua mãe bem dizia que os policiais militares são todos uns preguiçosos. Minnie entoou:
— Senhor?
A cadeira de balanço quase despencou com o solavanco do homem. O policial tateou o colo em busca do rifle repousado na parede. O jornal caiu revelando um rosto desorbitado. Minnie espantou-se com o susto do policial. Já Leona, dava boas risadas.
— Hein? Quem são vocês? Como passaram pelo sentinela? Larry? LARRY!? Ah, esse vagabundo deve ter dormido no ponto de no — O policial interrompeu-se e limpou a garganta. — O que traz vocês aqui, garotas?
— Eu vim deixar a menina. Ela é
— Certo. — O policial cortou Minnie. Ele se levantou e, após uma longa espreguiçada, fez um aceno para as viajantes o seguirem. — Vocês precisam conversar com a diretora. Não sei se eles ainda têm vaga. Hm? Ah, pode deixar o cavalo aí, garota. Eu peço pro cavalariço levá-lo ao estábulo.
Minnie e Leona acompanharam o policial para dentro da casa principal. Elas foram instruídas a esperarem no vestíbulo, que era idêntico a sala de estar de qualquer casa comum. Leona sentou-se no sofá. A capa militar dada por Hange cobria o corpo de Leona por completo, como se a cabeça da criança planasse sobre o pano verde.
A rainha iria vê-las agora. Leona, inquieta, ajeitou o cabelo bagunçado e, quando a maçaneta da porta girou, empertigou-se e prendeu a respiração.
No fim, quem apareceu não foi a rainha, mas uma mulher de meia idade trajando pijamas. A pose e os traços severos lembravam os de uma policial inclemente. A mulher não aparentou choque ao defrontar-se com o aparecimento de uma criança àquela hora da madrugada.
— Boa noite, meninas. Eu me chamo Susie. — Cumprimentou a mulher com uma calma que não lhe servia e isenta de sonolência. — Desculpe, no momento não temos vagas, mas ainda podemos ajuda-las. Vocês estão fugindo? Precisam passar a noite aqui?
— Meu nome é Minnie. Eu vim em nome da comandante Hange Zöe. — Disse Minnie, afobada. — Essa é Leona, a filha dela.
— Leona? — O policial fitou Leona com interesse mal disfarçado. — Leona Zöe Smith? A filha perdida do comandante Erwin?
— Eu não estou perdida, senhor. — Retorquiu Leona, honestamente ofendida.
— Nesse caso, — continuou o policial — nós precisamos chamar a rainha.
— Acordar a rainha por causa de uma besteira dessas?! — Exclamou Susie, horrorizada.
— Susie, a própria rainha pediu para ser comunicada imediatamente caso algum filho de militar fosse trazido para cá. Ela até escreveu para a família do falecido comandante Dok oferecendo apoio.
Leona empalideceu. O senhor Nile Dok era o pai de três meninas chatas de galochas que sempre lhe enviavam vestidos horrendos no dia do seu aniversário. Mesmo não morrendo de paixão pela família Dok, seu coração benevolente doeu ao pensar em Micaela, Mirela e Miranda. Como será que as meninas estão?
— Tudo bem. — Rendeu-se Susie. — Mas, vamos levar as duas no quarto da rainha. Onde já se viu, tirar uma mulher grávida da cama no meio da madrugada...
O policial apanhou as malas das intrusas. E então, ele tentou tirar a capa de Leona. Ela desvencilhou-se num pulo.
— Pra onde o senhor vai levar as minhas roupas?
Quem respondeu foi Susie:
— Aqui não existe isso de "suas" roupas. As roupas são de todo mundo.
Leona, agarrada à capa, se escondeu atrás de Minnie.
— Eu não vou dar a capa da minha mãe!
— Bolinha, dá a capa pro policial. Ninguém vai jogar fora. — Minnie tentou acalmá-la.
— NÃO VOU DAR!
— Você vai desrespeitar as ordens reais, mocinha? — Perguntou Susie com uma voz de falsa amabilidade.
Embora desagradar a rainha arrepiasse seus cabelos, Leona não entregaria a capa de sua mãe. Susie deu um muxoxo de desaprovação e, com um sorrisinho indefinido, disse:
— Tudo bem. Quero ver você dizer a mesma coisa para a rainha.
Diferente do que Leona e Minnie pensavam, a rainha não dormia na casa principal. As três mulheres atravessaram a extensa fazenda. Leona andava olhando para baixo a fim de não pisar em falso na trilha desconhecida. O lampião de Susie iluminava apenas a estrada de terra. O gado no campo ao longe parecia um conjunto de vultos ameaçadores na luz da lua cheia.
A rainha morava quase nos fundos da fazenda, numa casinha ordinária desprovida de vigilância. Porém, a falta de policiais dava-se apenas no exterior, pois quando Susie bateu na porta, quem atendeu foi uma jovem policial de olhos atentos.
— A rainha está dormindo. — Disse a policial à Susie, sem dar migalhas à Leona e à Minnie.
— Não me diga! — Ironizou Susie. — A rainha pediu para ser informada caso um filho de militar aparecesse aqui. Essa menina é filha da comandante Hange Zöe e do ex-comandante Erwin Smith.
A policial emitiu um "oh!" admirado e fitou a criança até então invisível. De súbito, a policial encheu-se de pena. Susie empurrou-a para fora do caminho.
Leona e Minnie entraram no domicílio nobre mais estranho de Paradis. Apesar de ser, tecnicamente, um castelo real, a única coisa em que a casa se assemelhava a um palácio era a quantidade de policiais presentes. Haviam seis, todas mulheres. Do mais, poderia ser a moradia de qualquer cidadão comum de Trost.
— É um lugar simples, não é? — Sussurrou a ansiosa Minnie.
— Sim. Eu também estava esperando lustres, mordomos, escadas enormes e tudo o mais. — Leona devolveu o sussurro.
— Aguardem aqui. — Na boca de Susie, até a mais cotidiana instrução soava como uma ordem. — Eu vou acordar a rainha.
Susie desapareceu no corredor. A policial que recebeu Leona cochichava com as amigas às costas das intrusas. Leona por quatro ou cinco vezes pescou os termos "coitada" e "menininha". A segunda palavra a enfureceu. Quem essas bundas-moles estão chamando de menininha!? Para o governo delas, Leona acabara de liderar uma expedição na calada da noite montada no lombo de um cavalo da Tropa de Exploração.
— Não sou menininha! Sou uma aventureira valente! — Bradou Leona. As policiais a miraram com espanto — não sabiam que Leona as escutava.
— Leona! — Minnie tampou a boca de Leona. — Desculpem, senhoras, ela está com sono.
— Uhgnãough ughestough ughcomugh ughsonough. — Mentiu Leona.
Nesse instante, Susie retornou.
— Meninas, a rainha está esperando.
Minnie e Leona seguiram Susie até o quarto real. A cama da monarca era, sem dúvidas, o artefato mais "nobre" da fazenda; era larga o bastante para comportar quatro pessoas e possuía um dossel azul-marinho. O quarto da rainha era decorado por pinturas das paisagens de Paradis e, sobre a cômoda, dispunha-se um largo espelho. Leona, contudo, não prestou atenção na ambientação preguiçosamente desenvolvida nesse parágrafo, pois a aparência da rainha lhe roubara o ar. Quando Leona a conheceu, Historia era uma mulher baixa e elegante. Agora, a rainha era... simplesmente uma bola. Historia esperava um neném, como Hange certa vez esteve esperando uma ferinha chamada Jade que morreu antes de ver o mundo. Leona tentou imaginar sua mãe gorda daquele jeito.
— Bolinha, como vai? — A rainha cumprimentou-a pelo apelido. Leona enrubesceu por Historia recordá-lo. — E você deve ser a Minnie. Fizeram uma longa viagem?
— Fizemos, vossa majestade. — O nervosismo de Minnie era perceptível em sua voz cuidadosa. — A comandante Hange me pediu para trazer a Leona aqui.
— A comandante Hange pediu? — Seja lá por que, a informação surpreendeu Historia. — Quando?
— Algumas horas atrás.
Historia adotou uma postura sigilosa semelhante a de sua mãe e a do senhor Levi quando Leona surpreendia-os conversando segredinhos. Ela disse, sorrindo:
— Seja bem-vinda, Bolinha. Você vai ficar aqui até sua mãe voltar?
Leona assentiu.
— Nós estamos sem vagas no momento, mas fundei essa fazenda com o propósito de abrigar e proteger todas as crianças que precisassem de ajuda, e vamos dar um jeito de te alocar.
— Eu agradeço muito, vossa majestade. — Minnie fez uma reverência. Leona a imitou.
— Vou mandar preparem um quarto para você, Minnie. Pela manhã, uma carruagem vai te levar de volta à cidade. — Ao voltar-se para Leona, seu sorriso educado tornou-se compassivo. — Bolinha, não comente com ninguém sobre a sua mãe.
— Por que não? — Perguntou Leona, confusa. Rapidamente, ela completou: — Vossa majestade?
— Porque as outras crianças não têm mãe ou pai. Você vai entristecê-las se comentar que sua mãe a mandou para cá "a passeio" — Historia fez aspas — enquanto eles devem ficar até a maioridade.
Leona não viu sentido na lógica da rainha. Ela não tinha pai, mas o fato de algumas crianças terem nunca a incomodou. Na sua opinião, a rainha estava exagerando. Entretanto, Leona não iria desrespeita-la. Ela curvou-se numa mesura.
— Sim, vossa majestade. — Concordou Leona, com o nariz quase encostando no chão.
— Haha, não precisa de toda essa galanteria, Bolinha.
— Obrigada pela atenção, majestade.
Minnie agradeceu-a e passou o braço pelos ombros de Leona. No entanto, a menina manteve-se imóvel. Ela abraçou os próprios ombros envoltos pela capa do exército. Leona, muito vermelha, reuniu toda a sua coragem para fazer a requisição:
— Vossa majestade, eu posso ficar com a capa? Eu não me importo de dar minhas roupas, mas essa capa é da minha mãe. Ela só me emprestou.
Historia refletiu pelo que pareceram horas. A monarca deu um suspiro longo e, numa expressão condescendente, deu o seu veredicto:
— Leona, — ouvir seu nome na voz da rainha arrepiou a espinha de Leona — eu permito se você não a usar na frente dos outros. Tudo na fazenda é público. Estou desrespeitando minha própria regra em permitir que você tenha algo só seu, entende?
Leona não entendia, mas sacudiu a cabeça mesmo assim.
— Perfeito. — A rainha sorriu. — Tenham uma boa noite, meninas.
Leona saiu tão eufórica que mal prestou atenção em Susie se afastando da porta aos tropeços apressados – ela estivera ouvindo a conversa das três. Leona deu uma giradinha, pavoneando-se para a diretora inconformada.
— A rainha me deixou ficar com a capa! — Contou ela, numa faceirice só.
— Legal, mocinha. — Disse a diretora, desgostosa. — Minnie, as policiais vão lhe mostrar o seu quarto. Leona, você vem comigo.
Leona deu um abraço de despedida em Minnie que, mais tarde, ela lamentaria ter sido tão breve e pouco sentimental. Depois, guiada pela diretora, Leona percorria a fazenda rumo ao dormitório feminino.
— A primeira refeição é servida às sete em ponto. As portas do refeitório ficam abertas até às quinze para as oito; se você não comer nesses quarenta e cinco minutos, vai ficar com fome até o meio-dia. — Susie Explicava no trajeto. — A escola começa às oito. Somos intolerantes com gazeadores. Se você faltar à escola, não pense que vai ficar de bobeira a manhã inteira, mocinha. Você vai passar o horário de aula nos ajudando nas tarefas do dia a dia – e reze para a Santa que você não caia comigo.
O dormitório era lotado de beliches, idêntico aos do quartel-general da Tropa de Exploração aonde os soldados de baixa patente dormiam. Em cada cama havia uma menina adormecida. Não existia nem um armário, estante de livros ou baú de brinquedos, apenas as camas e as cortinas velhas e limpas.
— Ah, outra coisa. — A diretora levantou um dedo pontudo. — Não vá esperando tratamento especial por ser filha de gente importante. Aqui, todas as crianças são iguais.
— Sim, senhora. — Retorquiu Leona, humilde.
Leona não compreendia por que ser filha de Hange e de Erwin lhe garantiria "tratamento especial". Os militares sempre foram legais com ela, mas os professores e os vizinhos nunca a trataram "diferente". Claro, vale lembrar, naquela época, Leona era jovem demais para entender que muitas crianças e adultos evitavam irritá-la por causa do emprego de sua mãe e da fama de seu padrasto. O caso da dona Carminha foi uma exceção à regra.
A diretora fez um sinal para Leona ficar em silêncio. Mesmo de pantufas, os passos de Susie percutiam (tuc-tuc-tuc) no assoalho de madeira. O fogo do lampião iluminava as camas parcialmente. Leona contemplava, de relance, os rostos serenos. Um colchão acabado achava-se encostado na parede. A diretora deitou-o ao lado do último beliche e estendeu, a torto e a direita, uma colcha surrada.
Ao deitar-se, Leona mergulhou de costas no colchão velho. Ela conseguia sentir a dureza do chão no traseiro, a parte onde afundava mais. Ela odiou o odor do cobertor. Cheirava tal qual o sapato molhado de um garoto ridicularizado pelo chulé forte. Leona fitou o vão entre o chão e o beliche ao seu lado. Do outro, havia apenas a parede. Leona só seria capaz de se levantar arrastando-se para frente.
— Senhora, eu não posso ficar com uma cama?
— Te parece que temos alguma disponível, mocinha? — A diretora apertou os olhos. — Pensei ter sido clara quando avisei que você não receberia tratamento especial. Se quer saber, você já recebeu regalias o bastante ficando com essa capa.
— Desculpa, senhora.
A diretora ignorou o pedido de desculpas.
— As outras meninas vão lhe mostrar onde conseguir roupas e como chegar na escola. Boa noite, Leona Zöe Smith.
A diretora pronunciou o sobrenome de Leona com o mesmo desdém com que mirava a capa militar. Ela não esperou o boa-noite de Leona. Susie foi-se com o tuc-tuc-tuc de suas pantufas e a luz de seu lampião, deixando o quarto em completo breu.
Leona chutou o cobertor repugnante e enrolou-se na capa de sua mãe, que além de ser quentinha, tinha o cheiro de Hange e de Buck. Ela não estava acostumada com camas desconfortáveis e quartos abarrotados de meninas, mas era temporário. Em breve, sua mãe viria busca-la.
— Olá, novata.
Leona abriu os olhos e topou com a garota do beliche ao lado. Na penumbra, Leona não conseguia ver nada além do brilho do olhar da menina.
— Olá. — O sorriso de Leona foi impedido por um bocejo.
— Aquela diretora é uma vaca, não é?
— Vaca? — Leona franziu as sobrancelhas e riu.
— É. Vaca quer dizer "vadia". Ela era policial militar, acredita? Por isso é tão austera conosco. Austera quer dizer "rígida", aliás. — Ela explicou em tom professoral. — Meu nome é Alice. Quantos anos você tem?
— A senhora Susie é policial? Isso explica muita coisa. — Rosnou Leona. — Eu vou fazer oito esse mês.
— Eu tenho onze. Ah, eu já sei o seu nome, ouvi a diretora dizer. Estive acordada a noite inteira, mas precisei disfarçar quando ela chegou. A diretora não deixa nenhuma de nós ficar acordada até tarde. Como te falei, ela é uma vaca. Ei, você pode pegar a minha vela? Está em baixo da cama.
Leona esticou a mão e investigou a escuridão em baixo da cama de Alice. Logo, esbarrou num toquinho de vela e num pires rachado. Ela entregou os objetos à Alice. A garota acendeu a vela. Com o apoio da luz, Leona viu Alice, uma menina macilenta de lábios finos e dentes grandes, retirar um livro grosso do cobertor. Adiante, algumas garotas saíram da cama e juntaram-se às amigas em conversas noturnas. Era possível entreouvir os papos cochichados.
— Você vai gostar daqui. A professora é meio escrupulosa, que significa "exigente", mas de resto a escola é incomplexa, que é o antônimo de "complexa". Ah, não se preocupe sobre esse colchão velho, daqui a pouco vão arrumar outro beliche. Você não vai dormir aí a vida inteira.
— Não vou mesmo. — Leona bocejou e, ignorando a advertência irracional da rainha, que aqui significa "aviso besta", informou: — Minha mãe vai vir me pegar quando ela terminar de trabalhar.
— Você tem mãe? — Alice largou o livro. — Por que você está aqui, se você tem mãe?
— Já falei, porque a minha mãe está trabalhando.
— Ela trabalha com o quê?
— Ela é a comandante da Tropa de Exploração.
Leona ouviu Alice dar uma irônica risada nasal.
— Estou falando a verdade. — Reforçou Leona, aborrecida. E, na urgência de mostrar à Alice que estava sendo sincera: — Veja, estou com uma capa da Tropa de Exploração. Minha mãe me deu.
— Carambolas! Então é verdade!?
— Estou dizendo.
— Nossa, se eu fosse descendente de militar, eu ia viver na biblioteca do quartel. Quer dizer, tem biblioteca no quartel-general da Tropa de Exploração, não tem? Há muitos manuscritos lá?
Leona adoraria responder todas as dúvidas de Alice e questioná-la sobre o internato para crianças sem pais, mas o cansaço da viagem se apossava dela. Leona aninhou-se na capa de Hange e fechou os olhos...
XXX
O cacarejo desafinado do galo da fazenda anunciou o novo dia. Leona esquecera-se totalmente que não estava em casa, de maneira que acordar naquele quarto cheio de meninas a sobressaltou. Suas costas doíam graças ao colchão horroroso. Ao espreguiçar-se e olhar o céu limpo pela janela, Leona percebeu que sua mãe acertou sobre não haver titãs em Paradis pela manhã. As criaturas não estavam à vista, e a vibração da marcha monstruosa não mais retumbava em seus ouvidos.
As meninas saiam do dormitório aos bandos. Leona enturmou-se no grupo de Alice. Coitada! Ela era ainda mais feia à luz do dia.
— Olá. — Leona cumprimentou-as, sonolenta. — Para onde vamos?
— Agora a gente está indo substituir nossas vestimentas, que significa "trocar de roupa".
— Por que vocês não têm armário no quarto?
— Porque aqui na fazenda têm uma abundante quantidade de trajes e não cabe tudo num armário só.
Leona acompanhou as garotas até uma casa de banho que era uma versão em miniatura dos banheiros compartilhados do quartel-general da Tropa de Exploração. Leona, entusiasmada e aberta à novas experiências como era, achou divertido tomar banho em companhia de outras garotas.
Depois de se banhar, Leona, com uma toalha enrolada no corpo, foi levada a um quarto que mais parecia um guarda-roupas enorme. As paredes dispunham de prateleiras altas como um adolescente, e em cada tábua havia roupas dobradas. As calcinhas e as meias ficavam numa estante à parte, e os sapatos eram organizados nas prateleiras mais baixas.
Embora ontem Leona estivesse disposta a dar suas roupas, hoje ela descobria que a ideia de vestir as roupas de outrem(s) a desagradava. Leona fez careta ao sentir o odor de sabão de banha. Em casa, Minnie lavava a sua roupa com perfumes cheirosos. Ignorando as queixas das colegas, Leona virou o vestiário do avesso em busca de suas roupas, mas não encontrou nem as partes de cima e nem as de baixo. Leona entrou em pânico ao constatar que não existia nenhuma bermuda ou calça, apenas saias, e que os sapatos eram aqueles nojentos que deixam as costas dos pés à mostra — se é para estar com uma parte do pé de fora, Leona preferia andar descalça.
— Eu não gosto de saias e desses sapatos feios! — Bradou Leona, revoltada. — Não vou usar nada disso!
— Você não gosta? — Questionou uma garota gordinha. Ela encarou sua própria saia e sapatos, tentando ver o que tinha de errado com eles.
— Me admira que alguém goste. — Replicou Leona, profundamente aborrecida. — Não dá pra brincar direito usando isso. Tenho uma amiga, o nome dela é Diana, ela só usa saia e vive tropeçando quando corre.
— Oh! Puxa, eu acho saias tão bonitas... Olha, tem uns vestidos, você gosta?
— Odeio vestidos. — Retorquiu Leona com desdém. — Você sabe onde posso conseguir bermudas?
— Você vai precisar pedir para a diretora.
— Obrigada. — Leona já ia saindo quando se lembrou de perguntar: — A propósito, qual o seu nome?
— Rosie.
— Muito prazer, Rosie. Eu sou Leona, mas pode me chamar de Bolinha. — Leona começou a se afastar. — Vou voltar no banheiro e pegar minhas roupas de ontem. Não visto saias. Não não não e não.
Leona retornou ao banheiro e fuxicou a pilha de roupa suja. Ela demorou bons dois minutos para encontrar sua bermuda e sua camisa. Sua própria catinga lhe era mais agradável do que o cheiro de sabão de banha das roupas da fazenda.
Após se vestir, Leona seguiu as garotas para o refeitório. Lá, Leona viu os meninos pela primeira vez. A maioria deles tinham cabelos ralos ou a cabeça raspada por completo. Os poucos cabeludos eram os que aparentavam ter mais de quatorze anos. Leona se virou para perguntar o motivo à Alice, mas a colega estava tão absorta na leitura de um livro — Leona notou ser um dicionário – que achou melhor não a incomodar.
A refeição era uma caneca de leite morno e bolachas sem-graças de água e sal. Leona pediu mais leite, e se desapontou quando a merendeira respondeu que repetições só eram permitidas no almoço. Em casa, Leona podia beber uma garrafa de leite inteira se assim desejasse.
— Leona Smith, venha aqui.
A voz grave de Susie aguçou a audição da criançada. Alice quase caiu do banco na pressa de esconder o dicionário que possuía sem o conhecimento dos dirigentes, e até as meninas que não se chamavam Leona fitaram a figura imponente da diretora.
Susie a esperava na porta do refeitório com um caderno em mãos. Leona se aproximou dela. A diretora lançou um olhar de censura aos pés descalços de Leona, e sua expressão tornou-se negativamente surpresa ao constatar que a criança não trocara de roupa.
— Eu queria mesmo falar com a senhora. — Disse Leona, simpática. — Onde estão as minhas bermudas? Só tem saias no vestiário.
— Mocinha, eu falei mais de duas vezes que as roupas são compartilhadas.
Susie aparentava uma inflexibilidade que Leona estava determinada a testar.
— Certo, mas por que as minhas roupas não estão no vestiário?
— Se você tivesse trazido roupas de menina, estariam lá.
— Huh? Roupas de menina? — Leona franziu o cenho. — As minhas roupas são de menina.
— Não, mocinha. Tirando as calcinhas, nada daquilo é roupa de menina, então mandei para o vestiário masculino.
— AS MINHAS ROUPAS SÃO SIM DE MENINA!
Susie deu um tapa na boca de Leona. A menina recuou com as mãos sobre os lábios. O burburinho no refeitório não chegava aos ouvidos de Leona, tamanho era o seu choque. A ausência de hostilidade na expressão da diretora era o que mais pasmava Leona.
— Eu não tolero gritos, estamos entendidas?
Leona logo compreendeu que não era uma pergunta retórica.
— S-sim, senhora. — Leona respondeu em voz baixa.
Susie entregou o caderno à Leona e disse casualmente:
— Esse é o seu caderno escolar. Os livros são oferecidos no começo da aula e devolvidos no fim. Tenha um bom dia, mocinha.
Susie se afastou com seus sapatos fazendo tuc tuc tuc no assoalho. Estupidificada, Leona regressou para o seu lugar na mesa. Alice perguntou à Leona por que Susie bateu nela. Rosie veio lhe fazer a mesma pergunta. Em poucos segundos, pelo menos quatro crianças tomadas de uma curiosidade cruel aglomeraram-se ao redor de Leona.
— Ela me bateu porque eu pedi as minhas bermudas. — Confessou, abalada. — Eu não gosto de saias.
— Por que você não gosta de saias? — Questionou Alice, confusa.
— Porque não.
— Bem, você vai ter que usar.
— Eu não. Vou pensar numa maneira de conseguir bermudas. — Decidiu Leona. Sua boca doía, mas sua determinação era mais forte. — A minha mãe diz que todo mundo pode vestir o que quiser. Essa diretora vai ver só. Quando minha mãe voltar, eu vou contar tudinho pra ela.
O uso da palavra "mãe" causou um alvoroço.
— Você tem mãe?
— Como assim?
— Eu pensei que crianças com mãe não pudessem entrar aqui.
— E pai, você tem?
Alice respondeu por Leona:
— A Leona é filha da comandante Hange Zöe, turma! Ela tem uma capa do exército e tudo!
Essa informação causou outro tumulto:
— Sério!?
— Puta merda! Digo, caramba!
— Você já viu um titã?
— O Eren Yeager é bonito pessoalmente?
— A sua mãe manda em todinha aquela gente!?
E assim sucedeu-se uma enxurrada de perguntas sobre a Tropa de Exploração e sobre Hange. Leona, que adorava falar do quartel, ficou contente em contar a todos suas aventuras com os soldados, sua primeira experiência com um titã (aqui acrescentando sutis detalhes que favoreciam sua coragem e nobreza) e explicar como funciona a hierarquia militar.
A garotada ouviu com brilhos nos olhos. A plateia de quatro virou um público de onze. Tanto Leona quanto as crianças estavam vidradas na narração. Nenhum deles prestou atenção no sino avisando a hora da aula, de maneira que as merendeiras tiveram que expulsa-los do refeitório.
As crianças encaminharam-se para a casa onde realizavam as aulas. Leona ia no centro, dando continuidade a sua emocionante história de quando sua mãe a levou para visitar a Capital, uma cidade que as outras crianças conheciam apenas pelo nome.
— Puxa, a sua mãe parece ser muito legal, Bolinha. — A essa altura, todos já sabiam o apelido de Leona.
— E quando a sua mãe vai vir? Eu quero conhece-la!
— Eu também quero!
Leona sorria ao abrir a boca para replicar, mas então seu sorriso desapareceu e seus ombros murcharam. Leona, afinal, não fazia ideia de quando sua mãe viria pegá-la. Leona se recuperou rapidamente e afirmou, animada:
— Ela vai vir antes do meu aniversário.
— E quando é a sua data natalícia? — Perguntou Alice.
— Hein? Ah, é em vinte de setembro.
— Falta pouco, não? — Ponderou Rosie. — Que dia é hoje?
— Estamos no dia cinco. — Respondeu um menino.
Leona emudeceu. Alice e Rosie perguntaram o porquê daquele olhão arregalado e receberam apenas vago um balanço de cabeça como resposta. Hoje é o aniversário de Hange. Leona esteve com sua mãe em todos os cincos de setembro. O fato de não poder desejar feliz aniversário a sua mãe lhe deu um mal estar na boca do estômago, e um pesado sentimento de culpa caiu em seu peito ao recordar que esquecera o presente de Hange em casa.
Pensando no importante metal que sua mãe carregava no pescoço para lá e para cá, Leona fez sua própria versão da medalha de ranking – uma de papelão pintado de verde e amarrado por um cordão dourado, com o dizer GRANDE COMANDANTE escrito em tinta preta (não coube HANGE ZÖE A COMANDANTE MAIS MELHOR E MAIS BONITA). Será que Hange ia voltar hoje? Leona esperava que sua mãe a perdoasse por ter esquecido o presente.
XXX
As aulas da escola da fazenda se mostraram tão chatas quanto as do colégio da cidade. A falta de Peter, Rebeca, Otto e Diana tornou a aula ainda menos divertida. Os colegas eram legais, mas Leona sentia falta de seus amigos. Por conseguinte, Leona isolou-se em seu mundo e passou a aula martelando o buço a procura de uma estratégia para se livrar das saias e dos vestidos do vestiário feminino. A meditação incansável, contudo, não gerou resultados. Ela saiu da escola com dor de cabeça e sem a mínima noção do que foi ensinado em aula.
Após fartar-se de carne de porco no almoço, Leona se sentia motivada a entrar no vestiário masculino e surrupiar algumas roupas. Entretanto, essa ideia inconsequente foi afugentada quando ela se lembrou de dona Carminha e do urso de Diana. Pedir a Historia para lhe dar roupas também estava fora de questão — não se deve incomodar a rainha com frivolidades.
Leona cansou de pensar nesse assunto infeliz. Querendo se divertir, Leona decidiu visitar Buck. Agora, o cavalo era seu. Leona não tinha muita experiência com manejo equino, portanto ela se esforçaria em aprender o máximo possível para dar a Buck a melhor vida do mundo.
Leona rezava para o cavalariço ser gentil como o do quartel-general. O cavalariço de lá era seu amigo. Ele deixava Leona fazer carinho nos animais, ensinou-a a espalhar feno e a escovar os cavalos. Leona também aprendeu um pouquinho da manutenção de um estábulo assistindo o homem limpar as baias. Não parecia ser tão complicado.
Todavia, para Leona praticar cuidados com equinos, era preciso que o cavalariço da fazenda permitisse sua participação. Foi cruzando os dedos que Leona entrou no estábulo. A estrebaria era um curral de brinquedo perto do estábulo da Tropa de Exploração. Uma vaca, indiferente à presença de Leona, mastigava um montinho de feno. Ao lado, seu terneiro veio cheirar a criança, curioso com a nova humana. Um gato de aspecto maltratado dormia no topo de uma torre de sacos de milho. Um galo espigado patrulhava o perímetro, jurando ser um cão de guarda. Dois cavalos velhos descansavam em suas baias; não se tratavam de montarias militares como Buck e Lucy, mas animais de trabalho rural.
No portão da terceira baia, Buck levantou a cabeça atenta e piscou seus grandes olhos escuros para Leona.
— Buck! Você está aí! — Leona esticou o braço e Buck encostou o focinho na palma de sua mão. — Como passou a noite? Sentiu minha falta?
— Ei, o que cê tá fazendo!? Saia de perto desse cavalo!
Leona se virou. Atrás dela, um garoto alto feito um rapaz de dezesseis anos porém com as feições infantilizadas de um menino de doze, batia o pé. Sua cabeça careca era protegida por uma boina. O suspensório desgastado lhe dava um certo charme.
— Sair de perto por quê? Esse cavalo é meu.
— Seu? — O garoto levantou a sobrancelha castanha. — Ora, não me faça rir.
— Estou falando a verdade! — Por que esses caipiras nunca acreditam nela de bom grado?
— Quero ver cê provar.
— Buck! Buck! Garoto, venha cá!
O cavalo girou as orelhas ao ouvir seu nome. Leona permitiu que Buck mordiscasse seu cabelo à moda da socialização equina. O garoto, outro sabichão do mundo animal, balançou a cabeça como quem diz "nada mau" e bateu palmas.
— Tudo bem. Esse cavalo gosta de cê. Eu estava mesmo me perguntando de onde ele tinha vindo.
— Eu falei. — Disse Leona, satisfeita. — Você é o cavalariço?
— Sou o assistente. O seu Julio está no horário de almoço agora. Cê tá procurando ele?
— Não, só vim ver o meu cavalo. Você gazeou aula?
— Cê é nova por aqui, não? — O garoto passou por Leona, afugentou o gato dos sacos de milho e jogou um sobre o ombro. — Eu trabalho aqui de verdade. Todos os maiores de doze anos da fazenda trabalham.
— Você gosta?
Leona entrelaçou as mãos atrás da cintura e assistiu o garoto abrir o saco com um estilete. O galo veio correndo e saltou dentro do saco, pondo-se a bicar o alimento. Enquanto isso, o garoto pegou uma bacia e encheu-a de milho. O galo não se incomodou com a mão humana interpondo-se em sua refeição, mostrando que já estava acostumado com a presença dela.
— Gosto. É cansativo, mas é legal. Estou indo alimentar as galinhas agora.
— Como você se chama?
— Flick. E cê?
— Bolinha. Posso ajudar?
Flick fitou Leona como se ela fosse uma criatura estranha, pois todas as crianças fugiam do trabalho como o soldado foge do titã. Por fim, Flick sorriu e despejou um pouco de milho noutra bacia, esta entregue à Leona. Ele a levou até o galinheiro. O galo os seguia de perto, ciscando.
Uma manada de galinhas gordas e pintinhos amarelos veio ao encontro deles. As galinhas cacarejavam ao redor dos garotos que lhe atiravam comida. Com gentileza, Leona estendeu a mão cheia de milho às galinhas, e deu gritinhos de felicidade quando elas comeram na palma da sua mão.
— Cê tem jeito com os animais, Bolinha. Se você fosse mais velha, eu te convidava pra trabalhar comigo.
Típico das resoluções magníficas para problemas aparentemente irresolvíveis, a saída perfeita para o inconveniente das roupas saltou na frente de Leona. Num acesso de euforia, ela pulou de felicidade, sem querer derramando o milho na cabeça das galinhas. Flick se assustou ante a excitação da criança menor. Leona ofereceu, feliz:
— Flick, que tal fazermos um acordo?
— Acordo?
— Eu venho ajudar você depois do almoço todos os dias, e em troca você me traz bermudas.
— Por que cê precisa de bermudas?
— Porque... — Julgando "porque não gosto de saias" uma resposta ineficaz apesar de honesta, Leona justificou-se: — ...trabalhar de bermuda é mais confortável.
— Imagino que seja. — Replicou Flick, displicente. — Combinado, Bolinha. Tenho certeza que o seu Julio não vai se importar.
E assim Leona e Flick retornaram à estrebaria. Enquanto as crianças alimentavam as galinhas, o senhor Julio havia terminado o horário de almoço. Dessa forma, ele estava no estábulo quando as crianças chegaram lá.
Leona se deparou com o que ela julgou ser o homem mais idoso de Paradis. O rosto manchado pela exposição excessiva ao sol era cheio de rugas. No entanto, o olhar sagaz emprestava à aparência envelhecida um ar de jovialidade, e quando o velho abriu a boca e sua voz amigável cumprimentou Leona, ele não parecia tão idoso.
— Arrumou uma amiguinha, Flick?
Flick deu uma boa olhada em Leona.
— É. — Concluiu ele. — A Bolinha quer trabalhar conosco.
— Bolinha, é? — O senhor Julio arqueou uma sobrancelha e riu. — As pessoas conhecidas pelo apelido tendem a ser as mais inesquecíveis. Muito prazer, Bolinha.
— O prazer é todo meu, senhor.
Leona estendeu-lhe a mão. O velho, ainda rindo, apertou-a.
— Você gosta de animais, Bolinha?
— Bastante! — Ela respondeu de pronto. Apontou para Buck. — Esse cavalo é meu. O nome dele é Buck.
— Ah, é? — O velho se surpreendeu. — Então você é a menina que chegou nessa madrugada?
Leona assentiu. O senhor Julio fitou Buck e balançou a cabeça devagar como se chegasse a uma conclusão provável. Ele deu três batidinhas na cabeça de Leona. A mão dele era pesada e fez Leona perder o equilíbrio. Ao estilo dos velhos com mania de sábios entendedores da vida, o senhor Julio dissertou, quase como recitaria uma poesia:
— Você sabia que só os potros mais valentes são enviados para a Tropa de Exploração, pequena? Uma montaria forte requer um cavaleiro forte. Não é qualquer um que consegue dominar cavalos como o seu Buck.
— O Buck me obedece direitinho! — Exclamou Leona.
— Hein? O Buck é um cavalo da Tropa de Exploração!? Sério? — Flick encarava Buck com outros olhos. — Como você conseguiu um cavalo desses?
Pela milésima vez, Leona contou sobre sua mãe e a Tropa de Exploração. O senhor Julio, que soubera de Leona pelo policial que a recebeu na madrugada, mostrou um educado interesse pela história já conhecida. Flick, em contrapartida, estava completamente abismado. O garoto deu uma risadinha encabulada, e corou ao pedir:
— Bolinha, depois você me deixa dar uma voltinha no Buck?
— Claro.
— Sério? — A reação perplexa de Flick revelava que ele não esperava pelo consentimento prestativo de Leona. — Muito obrigado, Bolinha!
A conversa do trio foi interrompida por um policial obeso que chegou esbaforido na estrebaria. A cara do policial estava vermelha pelo esforço físico. Leona e Flick entreolharam-se. Leona insinuou um sorriso de zombaria, convidando o garoto a debochar do policial consigo. Flick, entretanto, não captou sua mensagem.
O policial sorria de orelha a orelha com a mão no peito arquejante. Ele anunciou em palavras entrecortadas:
— Julio...o neném...da...rainha...nasceu...é uma...menina.
— HEIN!? — Disseram os três em uníssono. E Leona continuou: — EU QUERO VER A PRINCESINHA! EU QUERO VER!
— Desculpe, querida, a rainha não pode receber visitas. Ela está se recuperando.
"Não" era uma palavra inexistente no vocabulário de Leona. A menina, ignorando o policial e os gritos de Flick e Julio, partiu em disparada para as instalações da monarca, pelo caminho declarando a quem quisesse ouvir que a princesinha acabara de nascer. Algumas crianças a observaram como se Leona fosse pirada, mas muitos acreditaram e seguiram-na. Leona e a trupe de curiosos saltaram até a entrada da casa, a qual era barrada por duas policias. As mulheres se puseram entre as crianças e a porta.
— A rainha está exausta, garotada. Ela não pode receber visitas.
— Mas a gente quer ver! — Uma porção de reclamações iguais ecoaram a de Leona.
— Eu já disse que não é possível. — Respondeu a policial num forçado tom paciente. — Quando ela estiver melhor, vocês vão conhecer a pequena Ymir.
Irritada com tantas proibições, Leona, no calor do momento, mostrou uma língua molhada às policiais. Leona não lhes deu tempo para processar a malcriação e correu para dar a volta na casa. A meninada bisbilhoteira a acompanhou. Os garotos cochichavam entre si enquanto assistiam Leona pendurar-se no parapeito de todas as janelas que via pela frente.
Em certo momento, Leona alcançou uma janela barrada por uma grossa cortina ocultando o aposento. Aquele só podia ser o quarto da rainha. Leona experimentou a tranca e emitiu uma exclamação satisfeita ao encontra-la aberta.
— Conseguiu abrir? — Perguntou uma matraca.
— Dá pra ver alguma coisa? — Questionou outro enxerido.
— Calem a boca. Vocês vão nos denunciar. — Bronqueou Leona.
— Denunciar? O que é denunciar?
— Nesse contexto, denunciar quer dizer "nos entregar". — Respondeu a voz de Alice.
— SHHHHHHHHH! — Leona emitiu um chiado enfurecido.
Enfim, Leona conseguiu levantar a janela sem fazer grandes ruídos. Com todo o cuidado do mundo, ela meteu a mão por baixo do vão e empurrou a cortina. Desenrolou-se o cenário de uma mulher deitada numa cama recentemente arrumada...
Algum asqueroso agarrou Leona pelas costas da camisa e a retirou da janela por meio de um puxão. As crianças atropelaram-na e se agruparam na janela que LEONA ABRIU! Ela protestou sussurros irritados. Os garotos, contudo, não lhe deram importância.
— Olha, como é pequenininha.
— Ela é a cara da mamãe.
— Que coisinha mais adorável.
— Ah, estou estonteada!
Ardendo de raiva, Leona abriu espaço enfiando-se na meninada. Ela saltou nas costas do garoto mais alto da primeira fila. O menino se contorceu e tentou expulsá-la. Leona lhe deu uma pancada na cabeça.
— Fica parado. Eu quero ver.
A voz de Leona não soou tão irritada, pois o espetáculo no quarto a "estonteou", ou seja lá o que Alice dissera. A rainha Historia, deitada numa cama limpíssima, ninava uma bebezinha enrolada num felpudo cobertor. Um homem achava-se sentado ao lado da rainha, de cabeça inclinada por sobre a criancinha que mimava. Ao contrário de seu companheiro, a rainha Historia era o próprio retrato da fadiga, mas ela sorria para a menininha, não tendo olhos para mais nada além da bebê.
O peito de Leona se aqueceu da mais terna adoração pela rainha e pela princesa. Ymir era tão fofa... Leona achou uma maravilhosa coincidência a princesinha ter nascido no mesmo dia em que sua mãe, e mal podia esperar Hange voltar para lhe contar essa maravilhosa notícia.
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