Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
12 Bolinha
Notas iniciais
O nascimento de Leona coincidiu com o repovoamento de Shiganshina. Hange leu a matéria do jornal bebericando uma xícara de chá, com a recém-nascida dormindo profundamente em seu braço livre.
A volta dos moradores era um marco histórico em Paradis. Os residentes estavam felizes em retornar para casa, e os habitantes da muralha Rose suspiravam aliviados por terem mais espaço nas ruas. Na última página do jornal, logo antes da charge, havia uma pequena nota sobre um esqueleto de criança encontrado no poço de Shiganshina. Ninguém sabia a identidade do cadáver.
Na primeira semana, Hange fez do quarto escritório. O berço voltou, entretanto, quase não foi usado. A comandante ficava sentada na cama de casal lendo documentos que dependiam da sua assinatura, tendo a companhia da bebê ao seu lado. Os subordinados pegaram mais responsabilidades para reduzir o trabalho da comandante, já que a criança exigia atenção constante.
Os adolescentes do esquadrão 104 e Floch só foram conhecer a menininha três dias após ela ser aceita pela mãe. Eles vieram juntos e se aglomeraram na lateral aonde a bebê repousava. Jean sentou aos pés do colchão, Sasha colocou-se de joelhos com o rosto apoiado nos braços cruzados, e os demais adolescentes ficaram atrás dela. Armin reclamou da falta de visibilidade da retaguarda, mas logo deduziu que era melhor ir para o lado de Hange, de onde podia olhar sem ninguém atrapalhando. Hange estava ocupada lendo os relatórios de Mayla, tinha algum erro de cálculo no último experimento e a cientista tentava descobrir o esconderijo do danadinho.
— Gente, abriu os olhos. Oi, Leona!
Talvez você não saiba, mas os seres humanos não nascem com a visão desenvolvida. Em sua perspectiva preto-e-branca, Leona não foi capaz de ver os traços faciais do sorridente rapaz, mas uma mancha grande e borrada dona de uma voz desconhecida forçadamente pateta. Em resposta, a bebê atordoada, pestanejando, virou o rostinho para a direita, de onde vinha o cheiro familiar da mãe.
— Haha, você assustou ela com essa sua cara de cavalo.
— Não enche, Eren. Ela nem tá chorando. Você não tem medo do tio Jean, né?
A bebê ignorou a voz fina, quem diabos é esse cara irritante? Ligeiramente desapontado, Jean ergueu-se reto, e Sasha aproveitou para encostar o dedo indicador no nariz da criancinha. Leona reagiu torcendo o lábio superior. Floch, amassado entre Eren e Connie, com cada braço no ombro de um soldado, irradiava paixão – ele era tio de um garotinho só dois anos mais velho.
— Que bebezinha linda!
Os outros adolescentes concordaram, e nisso Hange baixou o relatório emitindo um som audível de papel. No fim, não estava tão alheia assim ao que acontecia no aposento. A comandante fitou os soldados, cética.
— Vocês realmente pensam desse jeito? Eu que sou mãe acho ela feia de doer.
E achava mesmo. Em relação a aparência física, Hange concordava que os filhotes humanos eram os mais horrorosos do reino animal. A beleza que via na bebê era meramente afetiva. A menina deitada perto da sua coxa não entende a ofensa, mas o timbre da mãe a fez sorrir, e isso, é claro, encheu o coração dos adolescentes de amor. Nesse ponto, Mikasa, não mais aguentando o crescente sentimento fraternal e protetor que só recém-nascidos são capazes de proporcionar — aquela coisa meio “eu-vou-fazer-de-tudo-para-te-proteger”, pediu:
— Podemos segurá-la?
— Claro.
A garotinha foi erguida do colchão para o colo da Ackerman. Mikasa abraçou o corpo minúsculo, e as bochechas rosadas encostaram na carinha enrugada. Um largo sorriso se desenhou no rosto já iluminado, e a adolescente deu risinhos ao beijar a bebê. Hange, assistindo a cena de baixo, viu Leona absorver o carinho da soldada quase instantaneamente, talvez por ter ouvido a voz de Mikasa várias vezes antes de nascer.
— Eren, ela é tão quentinha, segura pra você ver.
A Ackerman tentou entregar a bebê ao garoto, mas o soldado ergueu as palmas das mãos numa recusa.
— Eu tenho medo de deixar cair.
— Hah, igual o Levi.
Apontou Hange. Nem no hospital Levi pegou a menina no colo; eles haviam levado a cadeirinha para não precisarem carregar a criança o tempo todo, e o capitão usou o objeto para trazer Leona ao quartel-general. Levi alegou ter ficado com tanto medo da alça desengatar que viera trazendo a cadeirinha rente ao chão, andando tão devagar quanto uma lesma. Ao ouvir a história, a comandante fez piada com a altura de Levi, dizendo-lhe que alguém medindo 1,60 não precisa se abaixar tanto para ficar perto do piso. A presença da bebê não privou Hange de levar um beliscão no antebraço. A região ferida estava roxa até agora.
— Mikasa, posso?
Armin havia dado volta para reunir-se com os outros. Ele estendeu os braços, e assim Leona foi passada para outro adolescente. Hange lembrou de Armin conversando com a barriga grávida sobre o tempo, a lembrança a fez sorrir pequeno. O loiro roçou o nariz na menina, murmurando palavras de carinho.
Olha só pra eles, parecem irmãos mais velhos.
O pensamento fez a comandante rir sozinha. Quando Armin terminou, foi a vez de Floch, e assim por diante até a garotinha se aborrecer com tanta movimentação. Ela voltou para perto de Hange, e os soldados ficaram mais meia hora antes de deixá-las sozinhas.
XXX
Duas semanas após a visita dos subordinados, o coto umbilical de Leona caiu durante o banho. O cordão duro e preto era menor que o dedo mindinho da mulher que a banhava. Hange o girou a altura do único olho, e após uma rápida ponderação resolveu guarda-lo na mesma caixa onde colocou a certidão de nascimento da filha.
Um mês mais tarde, cólicas atacaram Hange. Ela ficou preocupada que pudesse ser algum problema relacionado à recente gravidez, porém, ao acordar na manhã seguinte e encontrar sangue na roupa íntima, entendeu tudo. Incrível, acabara de dar a luz e seu corpo já estava preparado para fazer outro bebê. Suspirando, a comandante sussurrou para o sangue:
— Aí está você, bandida.
Nas casas por aí afora aonde mulheres casadas desejam filhos, mães de primeira viagem levam pelo menos quatro meses para voltar a trabalhar, ou, dependendo do salário do marido, resolvem ficar em casa muito além desse tempo. Hange, no entanto, retornou para o escritório pouco depois do episódio do coto umbilical e antes da menstruação descer. Não, o regresso precoce não foi culpa dos generais da Capital. Hange era uma pessoa ativa. Ela gostava de estudar, sair, trabalhar e conversar, de forma que ficar trancada não era do seu feitio nem agrado.
Leona, é claro, tornou-se seu carrapato. Hange a levava para todos os lugares. No escritório, a menina ficava dormindo no carrinho enquanto a mãe trabalhava na escrivaninha. No laboratório, Hange a deixava bem longe dos produtos químicos e fora do caminho. Nas reuniões, ninguém abria a boca para reclamar do choro da bebê, nem quando a comandante pedia licença para atende-la. O descontentamento se limitava a revirares de olhos impacientes, os quais Hange ignorava.
E, é claro, a comandante também levava Leona para os experimentos em campo. Os presentes ficaram chocados naquela tarde de primavera em que Zöe levantou a menininha na direção de Dahmer e Jeffrey. Apresentar a filha bebê para dois titãs só pode ser coisa de louco. Bom, de louco todo mundo tem um pouco, não é mesmo?
— Jeffrey, Dahmer, vejam!
Hange ergueu a menina pelas axilas. A bebê, incomodada por ter sido levantada de repente, piscou inúmeras vezes sacudindo os braços no vento gelado. Os titãs estavam acorrentados por três cordas amarradas no pescoço e nos tornozelos, as mãos algemadas atrás das costas. Presos daquela forma, os monstros podiam andar a uma curta distância, e eles não mediram esforços para ultrapassar o limite.
Os titãs avançaram. As cordas tremeram, esticadas e rígidas. A força da corrida causou a queda do titã obeso. Hange nem piscou. Leona, por outro lado, se assustou com o escândalo dos monstros e explodiu o berreiro. Jeffrey salivava, o largo sorriso aberto gemendo de ansiedade, suava pelas dobras de gordura e caia uma vez após a outra tentando colocar-se de pé. Dahmer, por outro lado, abria e fechava a boca tão violentamente que acabou quebrando os próprios dentes – tudo bem, regenera mais tarde.
— Gostaram, meninos? Eu que fiz.
Percebendo que não conseguiria ir além da corda, Dahmer começou a saltar de um lado para o outro até onde as amarras permitiam, passando por cima de Jeffrey duas, três, quatro vezes. O titã maior respondeu no quinto pulo, abocanhando a coxa do monstro de dois metros. Dahmer uivou de dor, o sangue da ferida evaporando antes de pingar. Em resposta, arrancou metade do rosto gordo de Jeffrey numa única dentada.
— Ei, ei! Dahmer, larga ele!
Hange jogou Leona para o primeiro soldado que viu pela frente e foi apartar a briga dos titãs. O militar, confuso, ficou sem saber o que fazer com a criança chorona enquanto a comandante usava a si mesma como isca a fim de afastar Dahmer da cabeça de Jeffrey.
Leona também participava dos estudos com o Titã de Ataque e o Titã Colossal. Ela ficava no carrinho enquanto a mãe voava de um lado para o outro nos ombros dos monstros, e as vezes Hange se entrertia tanto que esquecia da bebê. Por sorte, sempre tinha alguém perto para ouvir o choro da menina, e quando essa pessoa era Mikasa, a Ackerman não hesitava em resolver o problema.
Uma novidade pode manter a casa agitada por dias a fio. Seja um jogo de última geração, uma roupa nova, o curso técnico que você começou, o primeiro emprego, ou o enfim pedido de namoro daquele garoto que você tanto demorou para conquistar. Entretanto, o vocábulo “novidade” significa “condição do que se apresenta novo”, e infelizmente, as coisas não são novas para sempre. O jogo deixa de fazer sucesso, a roupa envelhece, o curso técnico se torna maçante, o emprego não lhe satisfaz mais, e você descobre que a companhia constante daquele garoto não é tão boa assim.
O caso é que, quando as novidades se fundem à nossa vida, elas se tornam parte da nossa rotina monótona, e isso aconteceu com Leona em relação à Hange.
Os primeiros dias foram animados, porém, conforme Leona deixou de ser novidade, a motivação de Hange evaporou junto com o peso ganho na gravidez. A comandante rangia os dentes quando precisava largar a papelada para trocar a fralda da menina, revirava o olho na hora do banho, reclamava quando Leona tinha cólicas, a xingava quando ela pedia seu colo, e durante a madrugada, quando a garotinha a chamava, Hange despertava socando o travesseiro.
“Pensamento intrusivo” é o nome dos absurdos desejos intensos que nos acometem sem a mínima razão, e nos mais variados lugares – como quando passamos pela vitrine de uma loja e temos vontade de jogar um tijolo no vidro. Esses anseios são controlados pelo nosso bom senso e também pela noção de que nossas ações têm consequências. Sendo tão humana quanto eu e você, Hange, às vezes, era tomada por pensamentos intrusivos vinculados à menina.
Ocasionalmente, no banho, Hange pensava em como seria engraçado afundar a cabeça da filha na água e a manter lá até a barriguinha ficar inchada. Durante a noite, Hange achava adorável a ideia de sufocar a bebê com o travesseiro. Quando a embalava perto da janela, imaginava o corpo pequeno transpassando o vidro, visualizando até o baque da queda.
Porém, assim como você passa aturdido pela loja pensando na tragédia iminente caso você destruísse a vitrine, os impulsos terríveis de Hange a deixavam tão repugnada que ela chacoalhava a cabeça, abraçava a filha e repetia, quase em desespero:
— Bolinha, eu nunca vou te fazer mal, nunca, nunca.
As semanas passavam e as íris de Leona escureciam em compasso com o humor de Hange. Ela ora tratava a filha como uma pedra preciosa, ora feito um bicho de estimação peculiar, e as vezes tal qual um adulto plenamente capaz de entender o mundo e suas regras. Caso você passasse no corredor do laboratório, presenciaria o seguinte diálogo:
— Espera só um pouquinho, estou quase terminando.
O choro da criança inicia abafado, e você escuta o barulho de algo metálico batendo em outra coisa; de madeira, talvez. Então, gritos infantis se sobrepõe ao som das ferramentas, e se você estiver muito perto da porta, pode ser que você se assuste. A voz ressoante de Hange vem em seguida, ecoando quartel-general a dentro.
— EU DISSE PARA ESPERAR!
A criança chora alto, e Hange urra mais ainda. Os objetos metálicos reverberaram, e pelo nível da barulheira, você entende que eles foram arremessados na parede.
— CARA, EU VOU MATAR, JURO QUE VOU MATAR! LEONA, VOCÊ NÃO SABE O QUE É “ESPERAR”?
A resposta da bebê indica ignorância para com a língua eldiana.
A garotinha exigente, chata e burra enlouquecia Hange. Porém, mesmo a contragosto, a comandante a amparava da melhor forma possível dentro dos seus limites, e pode-se afirmar que Leona era um bebê limpo, bem-alimentado e feliz.
Hange continuava achando Leona a criança mais feia do mundo. Todavia, com o passar do tempo, as roupinhas menores pararam de servir e ela abandonou a aparência alienígena para se parecer mais com os outros da sua espécie.
A bebê deitada no colchão sacudia as pernas e os braços para dificultar o trabalho da mãe. Foi quando a cabecinha passou pela gola da camiseta azul que Hange percebeu as sobrancelhas amarelas crescendo logo acima dos olhos acastanhados. A presença da penugem rala, com certeza, dava uma aparência muito melhor ao rostinho rechonchudo – desde, é claro, que se mantivessem finas.
— Bolinha, tomara que você não seja sobrancelhuda igual o seu pai.
Ela pegou a menina no colo e estirou as costas na cama, acomodando a nuca no travesseiro. A garotinha riu ao ser erguida no alto, e seus braços tentaram alcançar, em vão, o rosto distante da mãe.
— Seu pai tinha duas sobrancelhas gigantes e horríveis, já pensou? Nossa, as outras crianças iam rir de você, e eu também.
Disse ela, sorrindo de canto para a criança brincalhona. Erwin, quando vivo, chamava atenção com aqueles tufos de pelo enormes. Hange não ficou surpresa ao descobrir que a alcunha de infância do amigo era “sobrancelha” – por favor, Leona, receba qualquer apelido, menos esse. Ela desceu a menina, colocando-a perto do pescoço. Leona tentou pegar os óculos da mãe imediatamente, e Hange puxou os dois bracinhos para baixo. Os lábios da comandante a beijaram na sobrancelha, a garganta ronronando a canção que acalmava a filha. O gesto carinhoso aquietou a bebê abraçada ao pescoço da comandante. Ficaram assim por bastante tempo, e Hange estava quase adormecendo quando o cheiro terrível surgiu.
— Poxa, eu acabei de te dar banho, sua cagona.
Bebês tendem a virar a rotina das mães de cabeça para baixo, no caso de Hange, digamos que a rotina foi girada do avesso, e isso a deixou... bem, de cabeça para cima. Antigamente, não era raro a comandante trabalhar dias e noites ao ponto de esquecer de comer. No dia seguinte era encontrada dormindo no escritório ou caindo de cansaço no laboratório. As refeições eram curtas e fartas — comia igual condenada para passar horas sem se alimentar.
Leona, aos três meses, passou a chamar a mãe pontualmente às onze da noite. Hange deitava com a bebê e acabava dormindo por ali mesmo. Continuava sem usar o berço, até construiu uma cerquinha do comprimento da cama para evitar o perigo da menina despencar do colchão. Leona despertava lá pelas cinco da manhã, e a comandante aproveitava o embalo para ir trabalhar. Hange passou a ter horários para treinar, pesquisar, receber visitas e trabalhar no laboratório. Lembrava de comer nos espaços entre essas atividades, sempre nas quantidades corretas.
No entanto, esse era um ponto positivo entre vários negativos. Houve vezes em que a comandante não pôde brincar com Dahmer e Jeffrey porque Leona simplesmente não queria deixa-la sair. Quando os toquinhos dentários apareceram nas gengivas, causando uma dor incômoda que só o consolo de Hange amenizava, a comandante precisou deixar experimentos para Mayla terminar, faltar a treinamentos e adiar reuniões com a Capital.
E, é claro, as primeiras expedições fora das muralhas precisavam ser rápidas por causa da criança desgraçada. Esse detalhe não fez muita diferença, pois o objetivo das campanhas era mapear território, de forma que a presença de Hange sequer era estritamente necessária, porém, isso a frustrou mesmo assim, num nível inimaginável.
E sempre que ela voltava de uma dessas curtas missões e a ama de leite lhe entregava a menina no quartel-general, Hange olhava para Leona com menoscabo, e desdenhava:
— Como o tempo demora pra passar. Não vejo a hora que você cresça e pare de encher o meu saco.
E foi assim que os primeiros meses passaram. Conviver com um bebê é complicado, e quando a jornada para o oceano finalmente foi marcada, Hange mal podia esperar para ver-se livre de Leona.
XXX
Isso que vou dizer é uma verdade teórica bastante óbvia. No entanto, na prática, as pessoas tendem a esquecê-la quando se veem numa situação onde tal raciocínio se aplica. Como você aprendeu, a realidade do outro nunca é igual à nossa. Esse conceito é gritante quando comparamos, por exemplo, milionários e desnutridos. No entanto, existem ocasiões onde tal pensamento aparece de forma imperceptível, e é nesses episódios aonde os seres humanos tendem a menosprezar a alegria, a dor ou a percepção do outro.
Por exemplo, vamos supor que você more no interior, e o único psicólogo disponível fica a mais de duzentos quilômetros. Como a ajuda profissional é inviável, você procura métodos alternativos para seus problemas. Você passa a fazer exercícios físicos, comer saudável, praticar artesanato e meditar. Através dessas atividades, você aprende a conviver consigo mesmo. Então, certo dia, você conhece uma pessoa totalmente dependente de terapia para se sentir bem. Pode ser que vocês briguem pelas opiniões diferentes – mesmo ambas estando corretas — e não compreendam a vivência do outro.
A realidade de Eren mudou quando ele descobriu sobre a humanidade fora das muralhas. O garoto já havia visto o mar através das memórias de seu pai e os homens antes dele, portanto, seu entusiasmo ao ver o gigante lago salgado não chegou nem perto da alegria sentida pelos demais membros da Tropa de Exploração, tal qual o nativo de uma cidade praiana desvaloriza a animação dos forasteiros ao verem o mar. Além disso, para o soldado, o oceano significava, simplesmente, a imensidão azul entre Paradis e seus inimigos, e ele fez questão de quebrar o clima descontraído ao apontar suas considerações sombrias sobre a realidade.
Contudo, os outros soldados estavam eufóricos demais para dar atenção ao terrorismo de Eren, e logo se distraíram chutando a água, brincando na areia branca e coletando as pedrinhas brilhantes de formato peculiar. Afinal, há momentos onde você deve deixar o futuro para o futuro. Do ponto de vista dos militares que nunca haviam visto o oceano, o gosto salgado do presente nunca foi tão doce.
Tirando o garoto-titã sentado na base do morro com a cara entediada adquirida nos últimos meses, Levi era o único aparentando impaciência, embora ele não estivesse de todo descontente. O capitão era condicionado a desconfiar do desconhecido, e por isso relutava em se aproximar da água.
— Porra, Hange, é o teu sonho morrer envenenada?
A comandante coletava as pedras coloridas – mais tarde descobririam se chamar “conchas” – só que, em vez de imitar Armin e pegar as da areia, Hange recolhia as da água, molhando o antebraço inteiro para apanhá-las. Ela parou ao escutar a voz de Levi. Virou-se com a sacola aberta, mostrando as pecinhas disformes.
— É que as mais bonitas estão na água, olha. — Chacoalhou a sacola aberta. — Vou levar pra Leona.
O capitão arqueou a sobrancelha. Ele respondeu no tom delicado de alguém tentando convencer um louco clinico a largar o revólver.
— Hange, pra quê? A sua filha é um bebê.
— Pelo amor da Santa, como você reclama.
Hange replicou dando um nó apertado no saco. Eles estavam há três noites fora das muralhas. A primeira tarde sem Leona foi uma folga e tanto, porém, as coisas ficaram complicadas de madrugada. A noite foi difícil sem a bebê, Hange demorou para adormecer e acordou desorientada às três da manhã, coincidentemente, no mesmo horário em que a menina despertou há quilômetros de distância da mãe. No segundo dia, pensou na filha o tempo todo. E agora, no terceiro, a saudade a consumia. Desejou tanto uma pausa, e agora não tinha nada que ela quisesse mais do que voltar para a rotina desgastante.
A cientista segurou a sacola por baixo, avaliando o peso. Devia ter umas duzentas gramas de pedrinhas. Levi estava certo, Leona era só um bebê, porém, quando fosse mais velha, Hange lhe contaria que estava pensando nela quando conheceu o oceano, e por isso trouxe presentes do mar. Bem, pelo menos, essa era a lógica apaixonada da comandante.
Hange enfiou o dedo no nó e começou a girar a sacola. Levi, do outro lado, fitava um animal gozado com garras no lugar das patas. O bichinho saiu da areia e correu na direção do mar, e o capitão imóvel acompanhou seu trajeto feito um gato desconfiado. A comandante teve o primeiro pensamento intrusivo em meses, dessa vez incontrolável.
Hange mirou o peito do capitão, mas a sacola atingiu Levi no rosto. O subordinado pulou numa altura até então humanamente impossível e no próximo segundo já adotava a clássica postura do "estou-pronto-para-a-guerra" que só soldados da Tropa de Exploração desenvolviam. Ele logo entendeu o que havia acontecido, e então Hange foi atacada por uma enxurrada de bolas de barro.
— NÃO! PARA, PARA!
Hange guinchou cheia de drama, erguendo os cotovelos na altura do peito, tentando desviar as bombas. A próxima a atingiu em cheio nos óculos, e eles só não despencaram por serem goggles. O oceano resolveu participar da brincadeira, e Levi, que havia se aproximado da água para diminuir a margem de erro dos arremessos, teve as botas encharcadas pela onda forte.
— Merda.
Ele jogou o barro destinado a Hange para baixo, a bola caiu no mar e salpicou água nas calças brancas. O capitão estalou a língua, irritado. A comandante, por outro lado, sorria enquanto limpava a areia da roupa.
— Agora que você molhou as botas, por que não tira e sente a água na pele? É diferente dos rios.
Hange precisou insistir mais três vezes para o capitão aceitar. Por fim, ele deixou as botas na grama, para que a areia fofa da praia não deixasse o couro imundo em contato com a água. Levi arregaçou as calças até acima dos joelhos, e então avançou. De fato, foi uma experiência incrível. O mar era espesso e as ondas eram mais agressivas que a água dos rios, sem falar da espuma estranha. O capitão não sorriu, mas dava para ver o brilho nos olhos normalmente descorados.
— Legal, não?
— Sim.
Alguma coisa no fundo chamou a atenção de Levi. O subordinado mergulhou as mãos e puxou um punhado de areia. No meio, havia uma pedrinha branca com detalhes em azul. Hange viu o capitão devanear fitando os desenhos da peça e resolveu deixa-lo em paz. Ela desviou a visão para os adolescentes a metros de distância. Sasha perseguia Floch usando uma planta grande e viscosa como arma.
De repente, Levi pensou alto:
— Ele ia amar o oceano.
O capitão atirou a pedrinha de volta nas ondas, e ambos a viram sumir na espuma. A comandante compreendia muito bem quem era “ele”. Levi falava do ex-namorado, antecessor de Hange e pai de Leona. O sorriso da comandante não desapareceu, mas diminuiu. Hange olhou o mesmo horizonte para o qual Eren apontara dez minutos atrás, e concordou com Levi, Erwin teria adorado ver o mar e todos os mundos além dele. Ela mesma mal podia esperar para conhecer as múltiplas culturas para lá do oceano, preferencialmente na companhia da criança que a aguardava no quartel.
Hange, contemplando a linha azul distante, não reparou em Levi deixando os próprios pensamentos intrusivos ditarem suas próximas ações. A comandante abriu a boca num grito mudo ao ser empurrada. Ela despencou – splash — nas ondas. Levi apressou-se para fugir, no entanto, não esperava que a água salgada fosse atrapalhar tanto os seus reflexos, e por isso Hange teve tempo de agarrá-lo pelo tornozelo e puxá-lo para baixo.
— Porra, Hange. Eu não trouxe roupa pra me trocar, agora vou ficar com as bolas assadas até o acampamento por sua causa.
O capitão emergiu cuspindo areia – havia caído de cara. Hange ergueu-se com o cabelo castanho molhado cobrindo os goggles. O ventre doía de tanto rir. Levi, sorrindo de canto, empurrou-a pelo rosto. Hange caiu de costas, sem chances de defesa.
XXX
As janelas do escritório eram largas para o comandante aproveitar a luz do sol. A escrivaninha no aposento foi trocada há quatro anos, de forma que apenas os dois últimos líderes da Tropa de Exploração a usaram. A papelada jazia esquecida sob o canto da mesa, e no centro, próximo a uma xícara de chá vazia, repousavam rascunhos de armas. A pessoa que os desenhou também é dona da sala, e ela deveria estar terminando o projeto ou preenchendo a papelada que lhe foi entregue naquela manhã, ou quem sabe realizando experiências no laboratório, ouvindo dicas de estratégia, talvez, ah, também precisava se exercitar um pouco – havia pulado o treino físico inúmeras vezes nos últimos meses. Entretanto, essas obrigações passavam longe da cabeça da pessoa em questão, e se alguém entrasse no escritório naquele exato momento, a encontraria sentada no largo parapeito da janela.
O antigo comandante costumava descansar naquele mesmo lugar, pois era a janela que mais recebia raios solares; o homem gostava de ficar com as costas apoiadas no vidro quente, absorvendo o calor reconfortante. A nova comandante, no entanto, havia sentado de lado, de forma que as costas se apoiavam na moldura e o ombro relaxava no vidro resistente. A perna esquerda estava dobrada, e a outra balançava preguiçosamente no ar, o bico da bota quase alcançando o chão. Os botões da camisa estavam abertos até o meio, e o filhotinho em seus braços apreciava o calor tanto quanto o homem que um dia trabalhou naquela mesma sala.
Leona tinha feito oito meses dois dias atrás. Bebês daquela idade já podiam comer papinhas, alguns sólidos e outros tipos de líquidos, e a própria Leona mostrava interesse por esses alimentos. Hange começava a entender porque as mulheres romantizavam amamentação. Ela não precisava mais amamentar, no entanto, agora que não tinha essa obrigatoriedade importuna que tanto desejou poder se livrar, descobriu que não estava pronta para dar esse passo, e a bebê aparentemente também não. Ela decidiu amamentar até o primeiro ano, e depois... bom, trataria disso quando chegasse a hora.
O braço da comandante sustentava a filha por baixo enquanto a mão livre brincava com o cabelo dourado. A cientista olhava distraidamente para o pátio, assistindo o instrutor gritar ordens para os novos recrutas. Na última fileira, uma garota baixinha pisou em falso e caiu de bunda durante a sessão de polichinelos. Foi um tombo engraçado pra caramba. Ninguém lá riu, mas Hange sim.
Ao som da risada, a bebê parou a sucção, e Hange soube que olhos grandes e castanhos a encaravam. Era louco pensar que há pouco tempo aqueles olhinhos ficavam fechados quase cem por cento do tempo. Leona estava cada vez mais e mais atenta ao mundo. Ela ficava em constante estado de alerta para qualquer som, pessoa, objeto novo ou ambiente, e o sono outrora pesado tornara-se leve como plumas — sono de militar.
A bebê continuava com o mamilo na boca e o lábio inferior abria e fechava ao redor dele. Hange percebeu o que acontecia imediatamente, e o lampejo de amor que a atingiu veio em forma de flecha.
— Você está fingindo pra eu não te colocar no carrinho, é? Espertinha.
A criança absorveu o timbre delicado e apaixonado da sua voz, dava para ver no jeito como os olhos arregalados ficaram menores e na maneira como Leona virou o corpo em seu colo.
— Não vou te largar. A gente pode ficar mais um pouquinho aqui...
Antes que pudesse alcançar a camisa, a garotinha abocanhou o peito de uma vez só e agarrou-se ao corpo da mãe com toda a sua força de bebê de oito meses. Os quatro dentes rasparam numa mordida acidental. A mulher fechou o punho erguido, sufocando a dor.
— De quem você herdou esse gênio? Será que eu era assim?
A boquinha fez um pequeno sorriso em resposta à comicidade. Hange abraçou-a, segurando a vontade de matar a criança na base do beijo. Há treze meses, sua vida mudou quando decidiu seguir com uma gravidez indesejada, e há oito colhia os frutos da escolha. Era incrível como um serzinho tão pequeno era capaz de causar tantas emoções, muitas das quais nunca achou que ia sentir. Não tinha como saber como seria a vida sem Leona, mas com ela, era uma aventura.
— Como é que você pode, huh? Você chora, você me morde, você me acorda, você exige, e mesmo assim, eu sinto tanto a sua falta quando estou longe. Me responde, filhotinho, qual é o seu segredo?
A bebê a olhava com atenção, e devia ter algo engraçado na sua expressão ou no jeito de falar, porque Leona começou a rir. Entretanto, ela queria rir e mamar ao mesmo tempo, e isso, é óbvio, não terminou bem. Ela se afastou de súbito, tossindo para desengasgar o leite na via respiratória. Hange não ficou assustada, muito pelo contrário. Suas bochechas ficaram quentes e as risadas escaparam pelo nariz. A comandante simplesmente deu-lhe tapinhas nas costas.
— Bem feito, quem manda você ser esganada?
Hange tirou os óculos e levantou o tapa-olho, logo depois Leona era trazida para cima, na direção do seu rosto nu. A bebê agitada apanhou os cabelos escuros e começou a puxá-los. A comandante riu outra vez, e a única palavra escapou numa voz baixa cheia de amor.
— Diabinho.
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