Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
20 (BÔNUS) Recomendamos dois montadores
Notas iniciais
Hange se agachou para puxar as caixas em baixo da cama, onde guardava os presentes recebidos no mês passado, numa tarde em que todos do quartel apareceram em seu escritório trazendo os mais variados mimos. Aparentemente, seus subordinados haviam combinado de fazer uma espécie de chá de bebê sem o consentimento da grávida. Floch passou adiante o carrinho de passeio do sobrinho, que fora dobrado e guardado em cima do guarda-roupa. Sasha e Connie racharam o cercadinho desmontado ao lado da estante de livros. Eren e Jean compraram o mesmo modelo de cadeirinha para alimentação, ambos agora na cozinha do quartel. Mikasa a presenteou com lençóis para berço e cobertores, e estes foram armazenados na cômoda acoplada ao luxuoso berço branco e dourado enviado pela Capital. Isso sem contar os brinquedos, as roupas e as fraldas. Graças aos militares, Hange pôde guardar a quantia destinada à bebê para a compra da futura casa aonde mãe e filha morariam.
O berço fora colocado rente a parede, próximo da escrivaninha. O quarto estava cheio de móveis, parecia não haver espaço para mais nada. As caixas, oito no total, lotadas de brinquedos, roupinhas, fraldas reutilizáveis e produtos para higiene, foram colocadas na cama. Os higiênicos eram coisa de Levi. O capitão, em suas saídas do quartel, sempre passava na farmácia ou na loja de bebês para comprar algum produto novo. Portanto, esses em especial ocupavam uma caixa inteira.
Mesmo os caixotes não sendo tão pesados, Hange soltou o ar numa bufada ao terminar de coloca-los sobre a cama. Pôs as mãos nas cadeiras e esticou as costas, fazendo careta pelo desconforto e jogando a barriga de oito meses um pouquinho para frente. A garotinha dentro dela dormia tranquilamente. Precisava aproveitar os momentos de quietude antes que a bebê resolvesse chutar, nos últimos dias tornara-se difícil conviver com os golpes.
Sendo assim, foi para as estantes tirar os livros. Removeu-os em grupos de cinco, empilhando-os no chão. Eram duas estantes, nelas havendo as suas obras preferidas. Livros para estudar vegetação, mecânica e técnicas de desenho; só quatro ou seis eram ficção. Precisava levar tanto as obras quanto as estantes para a biblioteca a fim de abrir espaço para o guarda-roupa infantil entregue naquela manhã.
Ao terminar a primeira estante, Hange colocou a mão no queixo e a observou. A caixa de ferramentas estava no laboratório, precisaria ir até lá caso quisesse desmontá-la, e ainda não queria passar pela chatice de montá-la novamente na biblioteca. Decidiu leva-la em pé, assim teria apenas um serviço. Sim, tinha escadas no caminho para o andar da biblioteca; ia pedir ajuda.
Começou a tirar os livros da segunda estante, ignorando as capas para evitar distrações. Se ajoelhou para tirar os da última prateleira, a mais empoeirada por ficar rente ao chão. As obras se encontravam no mesmo estado. Contanto que desse para ler, Hange não se importava.
Alguém bateu na porta. Reconheceu a batida de Levi. Deu permissão enquanto a porta era aberta. O capitão carregava uma caixa fina e comprida no ombro, que foi encostada na parede ao lado da porta. Levi reparou nos caixotes em cima da cama, e depois na mulher ajoelhada em frente às estantes. Seu olhar encontrou o de Hange. Percebendo a ferocidade na cara normalmente neutra de Levi, recuou institivamente.
— Caralho, Hange. Você é surda, além de cega? Eu falei pra você me esperar.
— Não estou fazendo esforço.
Levi trouxe a segunda caixa, tão fina quanto a primeira embora o comprimento fosse menor. Hange piscou quando o capitão descontou o aborrecimento na porta ao fechá-la. Ele foi até os caixotes sobre a cama e levantou justamente o mais pesado. Hange apertou o osso entre as sobrancelhas, balançando a cabeça.
— Além de retardada, é mentirosa. Olha o peso desse troço.
Foi a vez de Hange mostrar irritação.
— Levi, eu estou grávida, não aleijada.
Levi estalou a língua, resmungando qualquer coisa. Depois, o capitão se dirigiu para a porta do quarto, parando na soleira.
— Eu vou buscar as ferramentas pra montar esse guarda-roupa. Não mexa nessas caixas, elas são pesadas.
Hange concordou. Entretanto, assim que o barulho dos passos do subordinado desvaneceu, Hange pegou uma tesoura na gaveta da escrivaninha e a guardou no bolso da roupa. Esfregou as mãos uma na outra, dando risadinhas ardilosas e indo até as caixas trazidas por Levi.
Gemeu de surpresa. Levi falava a verdade. O caixote comprido era mesmo fatigante. Não daria para leva-lo ao centro do quarto, nem arrastado. Precisou segurar firme com as duas mãos para não deixá-lo cair e danificar as prateleiras lá dentro. Hange deitou a caixa no chão cuidadosamente, e fez o mesmo com a outra. Então, se colocou de joelhos mais uma vez. Usou a tesoura para abrir o papelão. Retirou as peças uma a uma, conferindo as conhecidas e as separando das demais. Encontrou o manual na caixa menor. O modelo do guarda-roupa de três portas exigia que os calços das dobradiças fossem colocados juntos na montagem.
Levi voltou com a caixa de ferramentas. O capitão viu Hange trabalhando e imediatamente começou a encher o saco. Hange mostrou a língua e retomou a leitura do manual. Levi, desistindo, pôs as ferramentas ao lado da comandante.
— Tá, o que você quer fazer?
— Vou colocar os calços das dobradiças. Eles vão nessas três tábuas...
Levi posicionou as tábuas pesadas, e nisso Hange pôde voltar-se para o baú de ferramentas para pegar parafusos e a chave de fenda. As placas — portas do móvel — já vinham furadas nos locais dos calços, e por isso só precisou encaixar os parafusos e apertá-los. Enquanto isso, o capitão se pôs a montar as gavetas. Terminada esta tarefa, Levi as largou perto de Hange e passou a anexar os trilhos das corrediças nas tábuas corretas. Hange terminou os calços e passou para os pés da cômoda, prestando atenção no manual e nas marcações na madeira.
Então, chegou a hora de levantar o guarda-roupa. Levi tirou as estantes do caminho para já deixarem o móvel montado no lugar correto e evitar trabalhos futuros. Hange segurou as tábuas laterais para Levi parafusar os rodapés. O capitão teve dificuldades para firmar as peças uma na outra, e isso arrancou risadas sarcásticas da comandante e ameaças do subordinado. Após terminarem o esqueleto do guarda-roupa, Hange saiu para colocar as corrediças nas gavetas enquanto Levi montou as prateleiras.
Em certo momento, Levi foi até a escrivaninha para pegar a cadeira. Ele a ergueu – Levi detestava arrastar móveis – para leva-la até o móvel quase finalizado. Hange o observou com o canto do olho, rindo. O capitão percebeu e rosnou.
— Vai tomar no meio desse teu rabo fedorento. Esse negócio é alto, você também ia precisar de cadeira.
— Ué, eu não disse nada.
Provocou, fingindo inocência. Levi ameaçou atirar a chave de fenda. A comandante prontamente protegeu a cabeça com as duas mãos e virou a barriga na direção oposta. Não dava para duvidar das ameaças de Levi. O arremesso não veio. Em vez disso, Levi ralhou:
— E aí, não vai me ajudar?
— Já vou. Nossa, que mau humor.
Hange entregou o tampo. Levi o anexou no topo do guarda-roupa enquanto a comandante segurava as laterais do móvel para mantê-lo firme. Depois, ambos colocaram o fundo juntos. Hange ficou para parafusar as portas, a parte mais complicada. Levi desistiu antes mesmo de tentar. Hange era melhor nisso do que ele.
Sendo assim, Levi abriu as caixas procurando pelas roupinhas de bebê. O capitão dobrou-as, colocando as prontas empilhadas no colchão. Hange terminou de montar o móvel antes de Levi acabar a arrumação; então, pegou as roupas já dobradas para arrumá-las no guarda-roupa. Levi chegou a reclamar, alegando que Hange organizaria as prateleiras como a cara dela. A comandante não lhe deu ouvidos.
Tinha bodies aos montes, nos mais diferentes tamanhos. Camisetas também não faltavam. O parto estava previsto para setembro, o mesmo mês de seu aniversário. Como o nascimento seria na primavera, a bebê ganhou bermudas e vestidinhos. Havia roupas de inverno também, essas para criancinhas maiores, pois a garotinha teria mais de sete meses quando começasse a esfriar. Essas últimas foram guardadas no topo do guarda-roupa. Só seriam usadas num futuro, por enquanto, distante.
Hange sorriu ao encontrar os casaquinhos tricotados por Sophie no meio da última pilha de roupa dobrada por Levi. A senhora Smith fez casaquinhos para crianças de mais de um ano. Lembrou-se de quando a conheceu no cemitério. Antes de se despedirem, Sophie disse algo como "eles crescem rápido, as roupas logo param de servir". A menininha em seu ventre ia ser sua primeira filha. Hange não sabia se bebês cresciam tão rápido. Esperava que sim; mal podia esperar para vê-la andando e falando.
Resolveram manter os brinquedos e as fraldas nas caixas, e estas voltaram para de baixo da cama. O colchão chamou Hange numa atrativa voz inanimada. As costas e as pernas doíam, exaustas após a tarde de tarefas. Deitou na cama macia, suspirando de cansaço. A barriga era um calombo imenso no abdômen outrora liso. Para falar a verdade, estava inteira grande. Inchada do rosto até os pés. Precisara renovar o vestuário porque nem os sutiãs cabiam mais. O peso extra nem sempre era problema, porém, em certos dias era difícil carrega-lo, como hoje.
Respirou fundo, levantando o suéter e afagando a pança redonda. A bebê chutou de imediato, e em segundos alguma coisa empurrava a pele de dentro para fora em direções diferentes, feito um gato correndo em baixo do tapete.
A menininha já se mostrava agitada antes de nascer. O que antes não passava de aflição, tornara-se dor verdadeira. Os golpes maltratavam Hange, e às vezes ela empurrava tão violentamente que a comandante chegava a pensar que a bebê rasgaria sua barriga. Mesmo assim, não deixava de achar engraçado. Gostava de pensar que sua filha queria vir ao mundo tanto quanto as pessoas aqui fora a desejavam.
— Levi, olha.
O capitão se virou. Levi contraiu a boca ao ver os movimentos caóticos na pele de Hange, pareciam pequenas bombas explodindo em baixo do solo. Hange riu da careta do amigo. Levi colocou a última caixa para baixo da cama. Depois, deitou-se ao lado de Hange, indo imediatamente para a protuberância.
Levi pôs o ouvido em sua pele. Ele nunca tinha feito isso antes; a única vez que a tocara foi na noite após a reunião com a Capital, e o fez por obrigação. Agora, a mão do subordinado se espalmava deliberadamente no ventre. Hange ficou sem palavras, estupefata demais até mesmo para rir. Levi atacou no mesmo timbre usado para xingar os soldados de seu esquadrão.
— Ei, bebê, se aquieta. Sua mãe está cansada e seus chutes machucam.
Hange achou graça do cenho franzido e da voz autoritária. A bebê se encolheu em sua casinha úmida, desistindo da violência. Hange continuou rindo, sua barriga mexendo-se em baixo do rosto de Levi. Deu tapinhas na cabeça do capitão.
— Ela detesta a sua voz.
— Vai ter que aprender a conviver. — Levi suavizou o olhar para Hange. Então, fechou a cara outra vez e falou com a barriga em voz ríspida — ouviu, pirralha?
— Você não presta, baixinho.
Hange não soava irritada, pelo contrário. Entendia o humor de Levi. Era bastante semelhante ao seu, apesar de comandante e capitão serem tão diferentes um do outro. A cabeça de Levi deslizou da barriga para o epigástrico da mulher deitada, com o ouvido inclinado para escutar a bebê escondida a pouco centímetros dali. A mão de Hange continuava perto de Levi, e nisso começou a acariciar o cabelo do capitão. Levi vinha sendo de grande ajuda... do seu jeito meio ogro, claro. Mas ainda assim, um grande apoio.
— Já decidiu o nome dela?
Perguntou Levi ao se afastar, deitando sob o braço. Hange virou o rosto para vê-lo, sorrindo de canto. Nomes não faltavam. Ela mesma tinha dezenas em mente, e as pessoas de fora apresentavam muito mais. Connie sugeriu o nome da própria mãe. Sasha recomendou o da sua falecida cachorra de caça. Floch achava Julie lindo, Jean e Eren tinham a mesma opinião sobre Jade. Mikasa, por sua vez, insistia para Hange chamar a garotinha de Érica. Armin timidamente sugeriu Alice. E, por fim, a longa carta enviada por Sophie junto com os casaquinhos propunha Marie, nome favorito de Erwin.
Hange anotou todos numa longa lista. Contudo, quando a lia e parava para pensar num definitivo, não conseguia. Queria ver o rostinho da filha antes de decidir, e era exatamente isso que faria.
— Ainda não. Vou esperar a carinha me dizer.
— Então ela vai se chamar Joelho. Todo bebê nasce com cara de joelho.
— Credo, Levi, como você é estraga-prazeres.
Levi sorriu em resposta, um sorriso pequeno e discreto. Hange, olhando para ele, pensou em como o subordinado ficava bonito quando sorria daquela maneira, e boa parte da beleza estava no fato de ele não sorrir para qualquer um. Levi só ria na presença de seus amigos íntimos, e saber ser um deles aquecia o coração de Hange. Hoje, acalentou um pouco demais, e ela afastou a quentura rapidamente.
— Levi...
Chamou numa voz manhosa, fazendo beicinho. O capitão fechou a cara, odiava quando Hange falava desse jeito irritante. O mais engraçado é que a mulher tinha plena consciência e mesmo assim fazia.
— Quê?
— Nós estamos com fome. — Referia-se a si mesma e a bebê.
— Eu lá sou teu empregado?
Hange gemeu e fez cara de pobrezinha. Por incrível que pareça, o coitadismo venceu. Levi, bufando e reclamando, perguntou o que Hange queria. A comandante respondeu estar com desejo de pão com ovo. Chá para acompanhar, por favor. Antes do capitão sair, Hange o chamou pedindo um cobertor. Levi a xingou de folgada, e Hange apenas riu em resposta.
Após a saída de Levi, Hange virou-se para ficar de lado. Naquele estágio da gravidez, não era bom deitar de barriga para cima por muito tempo. Em baixo do cobertor, afagou o ventre nu, olhando-o por baixo dos cílios. A garotinha havia se acalmado, mas não estava dormindo. Sabia disso mesmo sem vê-la.
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