Notas iniciais
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Hange contou histórias sobre Erwin. Os grandes feitos, não. As favoritas de Leona eram as sobre o dia a dia de seu falecido pai. Leona gostava de ouvir, sobretudo, as besteiras que seu pai fazia de tempos em tempos, como quando, durante uma missão, Erwin, nas palavras de Hange, "estava doido para fazer cocô e na pressa acabou sentando num arbusto de urtiga".

As histórias ninaram a criança adoentada. Leona não dormiu, ela desmaiou. A menina acordou lá pelo meio-dia. Um sono de urso. Descansada, Leona despertou achando que a mata-nobres não passou de um terrível pesadelo. Porém, a dor lancinante lembrou-a da realidade. Hange não estava à vista. Pelo baixo assobio, Leona soube que sua mãe se encontrava na cozinha.

Não demorou para Hange juntar-se à filha. Tendo em vista que a garganta e a mandíbula de Leona foram prejudicadas pela mata-nobres e alimentos sólidos machucavam-na, Hange preparou uma sopa de ervilhas quentinha e cremosa — fácil de comer. Ela sentou na cadeira ao lado da cama e pôs o prato no colo.

— Boa tarde, Bolinha. Está se sentindo melhor?

— Um pouco.

A voz rouca dava um charme na aparência de titã anormal. O estado de Hange, em compensação, combinava com o de Leona. Diferente da filha, Hange teve um sono leve do qual despertava cada vez que Leona se remexia entre seus braços. As olheiras fundas acentuavam o aspecto exausto. No entanto, uma coisa é certa: ambas estavam mais apresentáveis do que ontem.

— Quer que eu dê na sua boca?

Leona assentiu. Hange a alimentou de colherinha em colherinha. Leona engolia de cara feia, porém com uma fome que muito agradou Hange. Nos intervalos entre uma colherada e outra, Hange designava uma porçãozinha para si. Após a refeição compartilhada, a mãe esfregou a boca suja da criança. Enquanto era limpa, Leona murmurou:

— Espelho.

— Você tem certeza?

Leona tinha. Hange suspirou, indecisa. Bom, é errado negar à Leona o direito de reconhecer a própria feiura. Hange vasculhou o armário até encontrar a caixa onde guardava os poucos produtos de cuidado pessoal que possuía; todos vencidos ou perto de expirar. Lá, achou um espelho de mão. Leona, ao deparar-se aquele filhote de cruz-credo no lugar de sua imagem, chorou.

— Que horror. — Leona lamentou-se.

Graças à Santa nenhum de seus amiguinhos a vira com aquela cabeça alienígena. O que Peter diria? Oh, o que DIANA ia pensar? Com essa cara de ogro, dali por diante Leona certamente só poderia brincar de soldado-e-titã. É ótimo ela gostar de ser titã, pois ninguém vai deixa-la ser soldado.

Aproveitando que Leona estava acordada, Hange terminou a faxina começada por Levi. Ela deixou o quarto limpinho e arejado. Mal se percebia o cheiro nauseabundo característico do leito dos doentes. Depois de trabalhar por dois dias e uma noite, Hange cambaleava de cansaço. Serviço doméstico é de fato exaustivo. A comandante viu-se obrigada a tirar um cochilo; um descanso livre e silencioso no quarto de Leona.

Hange acordou antes do anoitecer, e aí o expediente de enfermeira recomeçou. Ao contrário de ontem, hoje Leona se mostrou uma paciente mais cooperativa. Leona não reclamou (tanto) na hora de beber o chá, e quando Hange quis examinar os inchaços, Leona permaneceu paradinha enquanto sua mãe analisava os efeitos tão peculiares daquela doença estrangeira.

A noite foi complicada. Leona teve febre e dores de ouvido. De novo, embora a criança estivesse cansada, o sono demorou para chegar. Em gratificação, ao enfim adormecer, não mais despertou até a manhã do outro dia. Leona acordou de barriga para cima. Hange dormia ao seu lado, de bruços. Devagar, Leona arrastou-se para fora da cama.

— Aonde você vai?

Hange perguntou com a voz nem um tiquinho embargada, e sem se mover ou abrir o olho, como se estivesse falando dormindo. Leona pulou de susto.

— Você me assustou, mãe. — Disse Leona com mão no peito. — Vou pegar o espelho.

— Leona. — Hange explicou, condescendente: — O seu rosto não vai melhorar de um dia para o outro.

— Mas eu quero ver.

— Você que sabe. — Hange acomodou-se no travesseiro, disposta a dormir mais um pouco.

Leona trouxe o espelho para a cama. A menina contou até dez de olhos fechados. Com expectativa amedrontada, abriu os olhos aos pouquinhos. O reflexo desenrolava-se em sua visão turva. Lá estava ela, a besta tenebrosa, devolvendo o olhar desapontado à Leona.

— Mãe, que dia é hoje?

— Terça.

— Não. Dia de número.

— Vinte e nove.

— Poxa. — Leona aborreceu-se. — Não posso ir na festinha desse jeito.

Leona esperou por essa festa tanto quanto sua mãe esperou pela viagem. Hange riu entredentes e respondeu, agora em voz sonolenta:

— Doente assim, filhotinho, você não pode ir mesmo.

Leona não respondeu. A menina pensava na diversão, na comida e nas brincadeiras, tudo perdido por causa da mata-nobres maldita. E a carta que fez para Diana com tanto carinho... sequer podia pedir para sua mãe entregar porque a avó de Diana afugentaria Hange logo na porta. Morrendo de ódio, Leona forçou-se a dormir. Hange, por outro lado, adorou ver a filha irritada e resmungona. Se Leona tinha forças para reclamar, então o tratamento estava funcionando.

Os próximos dias confirmaram a dedução. Leona não aguentava mais estar deitada, e Hange a deixava brincar na sala e na cozinha. O quintal e a rua, contudo, eram territórios negados. Pelo visto, a proibição estendia-se para a mãe também, pois Hange não saiu de casa em nenhum momento enquanto sua filha esteve doente.

O dois de dezembro foi agitado. Pela manhã, Leona recebeu uma visita especial. Assim como Hange reconhecia a batida de Levi, Leona distinguia com exatidão o toc-toc de Peter. Leona abandonou os brinquedos e correu até a porta. Nem pensou na cabeça deformada, tamanha era a saudade de seu melhor amigo. Entretanto, Hange foi mais rápida. A comandante se teletransportou da cozinha para a sala e barrou o caminho de Leona.

— Leona! Você quer infectar os outros?

A menina negou avidamente. Hange olhou através do olho-mágico. Conquanto não tivesse olho esquerdo, ela tentou apertar a pálpebra vazia — alguns movimentos são automáticos. Não viu ninguém. As batidas retornaram. Hange olhou pelo buraco da fechadura e dessa vez enxergou o visitante.

— Já vai, Peter.

Hange atravessou o pequeno corredor até a sala, onde Leona aguardava. A comandante se aproximou da janela e bateu no vidro. Peter, ainda na porta da frente, girou a cabeça em busca do som, e ao ver Hange na janela, correu até o parapeito.

— A Bolinha está com mata-nobres, Peter. Ela não pode brincar. — A voz chegou em volume reduzido no lado de fora.

— Eu sei, dona comandante Hange. Eu e meus amigos trouxemos um presente para a Bolinha.

Hange reparou na dupla encolhidinha atrás do portão. Rebeca e Otto juravam que a comandante não podia vê-los. Hange mandou Peter largar o presente na porta e sair dos arredores da casa o mais rápido possível.

— Vocês também, Rebeca e Otto.

Na pressa de obedecer, Rebeca e Otto bateram de cabeça feito baratas tontas. Peter pôs uma caixa de sapatos sobre o tapete de boas-vindas. Hange encarou Leona por cima do ombro e a encorajou a vir na janela dar "oi" aos amigos. Proposta recusada. Agora que Leona recordara a cabeça titânica, a vergonha recaíra sobre ela.

— Por que você não quis cumprimentar os seus amigos? — Hange perguntou ao voltar com a caixa trazida por Peter.

— Porque eles vão rir de mim. — Leona apalpou a cabeça monstruosa.

— Ai, pré-adolescência, vai com calma.

Leona não entendeu. Qual é a relação entre pré-adolescência e um rosto impossível de se encarar por mais de três segundos? Hange, em vez de esclarecer, riu. A comandante abriu espaço entre os brinquedos e sentou-se no tapete, de frente para Leona. A caixa de sapatos foi colocada entre as duas.

Alguém calculou o espaço mal e escreveu P A R A BOLINha em tinta guache na tampa da caixa retangular. Pelo menos quinze assinaturas decoravam os seis lados, rubricas escritas em coloridas caligrafias pomposas ou em garranchos à lápis. Dentro havia cartas redigidas nas mais diversas folhas e caprichos. Seis ou cinco eram pedaços soltos de folha de caderno, e outras vinham seguras em envelopes lacrados. Almofadinhas de doce de leite amarrotavam-se entre os papéis, além de balas e pirulitos – cortesia do pai de Peter. Como qualquer criança, Leona atacou os doces. Ela ofereceu-os para a mãe. Hange aceitou um pirulito.

— Quanta coisa você ganhou, filhotinho.

— É verdade. Olha, mãe, essa aqui é da Rebeca.

Rebeca mandou uma carta cor-de-rosa dizendo que sentia saudades de brincar com Leona. Kenny enviou um bilhete desejando saúde. As epístolas de Adam e Sandler eram dois fragmentos de folha cujas beiradas mastigadas eram dignas de um corte porco executado por mãos. Ambas diziam a mesma coisa: Bolinha, quando vosê melhorar agente vai te ensinar a subir no telhado. Uma porção de outras crianças enviaram mensagens expressando seu carinho por Leona. A carta de Peter foi assinada não só pelo garoto como pelo pai, pela madrasta e pelo irmão mais velho. Eles diziam que Leona poderia comer quantos doces quisesse quando a doença passasse.

De todas as correspondências, a mais curiosa era a que veio lacrada num envelope volumoso. Através do papel branco podia-se entrever o objeto ali guardado. Era um rosário. O artefato religioso carregava os brasões das três muralhas no cordão. No símbolo pendurado, a Santa protetora dos eldianos abraçava os próprios ombros, imersa num aparente estado de dor profunda. Leona nem precisava ler a assinatura. O brinde já servia como identificação.

"Eu avizei, não avizei? Eu disse que o diabo ia te pegar. Pur vavor, reze cinco Santa Nossa e três Oração da Saúde durante 10 dias. Esse rosário foi abençoado pelo pastor da minha ingreja. A Santa vai curar você e tirar o diabo do seu corpo. Estou mandando a Oração da Saúde porquê tenho certesa que você é uma tonta que não conhece as orações da Santinha."

Encontraram a oração transcrita noutro papel, em letra cursiva e ordenada. Hange imaginou ser a escritura do pastor.

"Tu és a médica divina. Tu dás a vida em plenitude àqueles que Te buscam. Por isso, hoje, Santa, de um modo especial, quero pedir a cura de todo tipo de doença, principalmente daquela que me aflige neste momento. Opera, em mim, uma cura espiritual e, se for da Tua vontade, também uma cura física. Que seja operada diretamente pela ação poderosa de Teu Espírito! Aumenta a minha fé no Teu Poder, Senhora, e no infinito Amor que tens por mim. Aumenta minha fé que às vezes se encontra tão enfraquecida. Eu acredito no Teu poder curador, minha Santa, e já agradeço humildemente por toda obra que estás realizando em meu coração e em meu corpo. Amém."

Leona examinou os adornos do rosário com curiosidade infantil. Ela achou os pingentes bonitos. Só por isso pendurou-o no pescoço. O fato de o objeto ser ABENÇOADO também era interessante. Dava um ar meio místico; mágico. Aliás, se Leona tinha dúvidas da autoria da carta, todas foram sanadas à menção da palavra DIABO.

— O Otto não tira o diabo da boca nem escrevendo.

Leona riu do fanatismo do amigo. Sua família não era nem um pouco religiosa, e a reação risonha de Hange era a principal prova desse estilo de vida laico.

— Bem, é o jeito dele de mostrar que se importa com você.

— Eu não tinha pensado nisso.

Nesse instante, novas batidas soaram na porta. Nem Leona e nem Hange reconheceram o toc-toc. Hange foi direto na janela e se surpreendeu ao constatar quem veio visita-las.

— São Onyankopon e Yelena.

À pronúncia dos nomes, Leona evaporou. Se num segundo a menina lia cartas, no outro Leona corria escadaria a cima rumo ao quarto, onde ninguém veria sua cara horrível. Hange balançou a cabeça ante a frescura da filha, como se ela própria não tivesse achado Leona bizarra antes de se acostumar com a visão.

Hange bateu no vidro. Onyankopon e Yelena perceberam a presença de Hange e vieram até a janela. Olhe só, Onyankopon também trouxe presentes para a criança doente.

— Não cheguem perto. — Hange fez negativas com a cabeça e as duas mãos. — A Leona está doente.

— Nós sabemos, comandante. — Rebateu Yelena. — Não precisa se preocupar, eu e o Onyankopon pegamos caxumba na infância. Não tem perigo.

— Vocês têm certeza?

— Claro. Pode abrir.

Onyankopon e Yelena limparam os pés antes de entrar. Os presentes de Onyankopon eram livros. As obras tinham a lombar marcada pelo carimbo da biblioteca do distrito.

— Nós passamos na frente da biblioteca e lembramos da Bolinha. — Onyankopon entregou os livros à Hange. — Como a Bolinha não pode sair, imaginei que ela fosse querer se ocupar dentro de casa. Ela gosta de ler?

— A Leona não é uma devoradora de livros, mas ela gosta. Obrigada por lembrar dela.

Hange caminhou até a sala com os forasteiros em seu encalço. Os visitantes perceberam os brinquedos espalhados. Onyankopon olhava para os lados, em busca da criança. Hange pôs os livros na mesinha de centro e, em seguida, chamou:

— Bolinha, você tem visita.

A comandante berrou com a cara virada para o teto do primeiro andar e piso do segundo. No entanto, não houve nenhuma voz, tampouco passos de criança. Hange suspirou.

— Ela está com vergonha da cabeça.

— Hah, pobrezinha. — Disse Onyankopon.

— Eu vou buscá-la. — Decidiu Hange. — Esperem aqui.

Yelena segurou o ombro da comandante e balançou a cabeça, dando uma piscadinha marota — "eu cuido disso". A espiã parou no primeiro degrau da escada, pôs as mãos na cintura e enunciou ao vento:

— Nossa, eu tenho tantos chicletes... — Yelena forjava desalento. — Oh, e agora, com quem vou dividir todos esses chicletes de tutti-frutti? Ah, se eu tivesse uma amiguinha para comer comigo...

Silêncio. Yelena fitava a escada. Ao contrário dos expectantes Hange e Onyankopon, a espiã marleyana (cabe aqui pontuar que ninguém sabia sua verdadeira nacionalidade) aguardava com a paciência de um caçador experiente. Quando Onyankopon perdeu as esperanças e Hange estava prestes a abandonar as suas, Leona apareceu.

Um lençol envolvia a cabeça da menina tal qual um capuz árabe. O resto do tecido extenso se desenrolava atrás dela feito um véu. Apenas os olhinhos e o nariz estavam à vista. Yelena começou a impulsionar as caixinhas de chiclete para cima somente para vê-las cair na palma da mão. Os olhos hipnotizados de Leona acompanharam o sobe-e-cai. A menina desceu as escadas, e quando Leona estendeu a mão, Yelena fechou a sua.

— É falta de educação comer enrolada num lençol, Bolinha. — Determinou Yelena.

— Não posso tirar o capuz. — Leona retrucou.

— Por quê?

— Porque estou brincando de exploração no Egito. O sol aqui é muito forte e eu posso morrer de insolação sem proteção adequada.

Yelena emudeceu e Onyankopon parou de sorrir. Hange revirou o olho. Os três sabiam que Leona não estava brincando de coisa nenhuma. O que chocou Yelena e Onyankopon foi a naturalidade. Leona mentiu na cara dura, sem piscar, e encarando Yelena direto nos olhos. A espiã riu com a boca escancarada. Leona a mirava de baixo, séria. Então, percebendo uma brecha, a menina avançou, esticou as mãos abertas e pediu à Yelena:

— Por favor, dê-me o meu sustento para eu seguir viagem sem sentir fome.

Isso foi demais para os três. Hange chegou a dobrar a barriga de tanto rir. Yelena, recompondo-se, esvaziou os bolsos.

— Eu só ia dar se você tirasse o lençol, mas, depois dessa, você pode ficar com todos os meus chicletes.

— Não é lençol, é capuz. — Leona corrigiu-a.

— Está bem, grande exploradora, venha ver os livros que o Onyankopon trouxe. — Hange perguntou aos visitantes: — Vocês aceitam chá? Leite?

— Chá cairia bem.

Enquanto Hange cuidava do chá, os espiões se divertiam com Leona. Onyankopon mostrava os livros e Yelena a amolava com questionamentos sobre a "exploração", só para ver Leona mentir. Hange voltou trazendo uma bandeja com chá, leite, biscoitos salgados e bolachas doces. Onyankopon e Yelena sentaram nas poltronas, e Hange dividiu o sofá com Leona.

— E você, Bolinha, está na hora dos remédios.

Hange entregou o leite e os remédios à Leona. Como habituara-se a fazer, aproveitou o momento para verificar a temperatura da filha, para tal pondo a mão na testa da criança por baixo do lençol. Nada de febre. Leona puxou o "capuz" só um pouquinho para baixo, apenas o bastante para conseguir comer.

— E então, alguma novidade? — Hange perguntou.

— Sim. Temos boas notícias. — Disse Yelena, animada. Ela esperou Onyankopon contar.

— Estamos estudando uma maneira de levar vocês à Marley no mês que vem, quando os outros voltarem de Hizuru.

— Huh? — Hange não acreditou. — Nós vamos para Marley? Isso é sério?

— Claro. Com os passaportes vai ser fácil passar pelo sistema de segurança. Nós já encomendamos atestados falsos de sangue.

Para entrar em Marley era necessário apresentar um teste de sangue comprovando o DNA eldiano ou a falta dele. De acordo com a legislação, o procedimento correto é os próprios guardas aplicarem o exame nos desembarques em portos e aeroportos, sem exceções. Porém, mesmo em Marley a lei não funciona cem por cento, ainda mais quando os paradisianos – o verdadeiro perigo do mundo no que tange descendência eldiana – estão isolados numa ilha.

— Puxa, isso é maravilhoso. Dá um medinho, mas é empolgante! — Disse Hange, surpresa.

— Então você vai para Marley, mãe?

— Pelo visto vou.

O sorriso de Hange aumentava. Então, a voz da comandante transformou-se num berro afogueado. Seu sonho não foi adiado por tanto tempo. Em breve, iria realiza-lo. A comandante comemorou e Leona celebrou junto.

XXX

As semanas passaram e com elas foi-se a caxumba de Leona e a de tantos outros paradisianos. Graças à Hizuru e seus médicos, a filha de Hange e mais inúmeras pessoas escaparam das garras mortais do vírus. Quando as glândulas de Leona começaram a desinchar, o doutor as visitou pela última vez. O médico garantiu que a febre não iria voltar. Depois dessa notícia, Leona voltou para o seu quarto. Ela estava contente em dormir em seu cantinho.

Com a recuperação de Leona, Hange se sentia segura o bastante para exercer seus experimentos científicos no laboratório do quartel. Apesar de as experiências com Eren se mostrarem infrutíferas, Hange não perdera as esperanças. Sendo assim, Hange deixava o leite de Leona preparado e ia trabalhar, sempre retornando antes do almoço. Após a cura definitiva, Hange recontratou Minnie e reassumiu o posto de comandante. Isso foi lá por dezoito de dezembro. No dia vinte, a vida de Leona mudou.

A essa altura, Leona já podia receber paradisianos em casa. Como não poderia ser de outro modo, o primeiro a vir foi o seu melhor amigo – Peter. As crianças se cumprimentaram com um abraço quentinho como o sol daquela manhã de verão.

— Graças à Santa você não morreu, Bolinha.

Leona flexionou os braços e inflou o peito tal qual uma fisiculturista exibindo a força. Os dois apostaram corrida até o segundo andar. Minnie avisou-os para não correr e ambos a ignoraram. Já no quarto de Leona, dividiram os brinquedos em dois times e brincaram de guerra. Depois, brincaram de comidinha – com comida de verdade, lógico. Sem delongas, trocaram para caça ao tesouro. Quando cansaram dos jogos enérgicos, brincaram de casinha num faz-de-conta onde Leona era a patroa e Peter o jardineiro. Entretanto, Peter não era lá uma criança muito fantasiosa, e ele logo cansou-se da brincadeira. Desse modo, resolveram se enfrentar numa partida de damas. E foi aí que a primeira reviravolta aconteceu.

— Como foi a festa da escola, Peter? Você foi?

Leona estava de bruços. Peter, sentado em posição de lótus, portava um semblante de concentração inquebrável. Peter moveu a moedinha branca até a linha à esquerda, numa casa pouco favorável. Leona avaliava uma maneira de devorá-la.

— Foi divertido, Bolinha. A diretora e o vice-diretor dançaram juntos. Eu ri demais.

— Puxa, tá aí uma cena que eu queria ver. — Disse Leona, avançando uma dama vermelha. — Para quem você escreveu sua cartinha?

— Para a merendeira. O arroz doce dela é a única coisa que me dá ânimo para ir à escola. É até melhor que o da tia Filomena.

Assim como Leona, Peter também não fã de carteirinha da escola. Era capaz de o garoto ter largado o ano letivo sem o incentivo da merenda. De qualquer maneira, Leona achou engraçado ele entregar sua cartinha para um funcionário, em vez de para outra criança.

— Eu escrevi a minha para a

— Ah. — Peter interrompeu-a. — Eu recebi uma. E você nem imagina de quem.

Leona empertigou-se, curiosa. O rosto de Peter corou. O garoto cobriu as risadas nervosas com o pulso. Ele se aproximou de Leona e confessou no ouvido da amiga:

— Da Diana. Ela disse... — Aqui Peter abraçou a si mesmo, sorrindo tal qual um imbecil. — Ela disse que quer que eu seja o namorado dela quando a gente for grande.

Leona, boquiaberta, encarava o amigo sem vê-lo. Peter falava e falava, mas Leona não escutava palavrinha, como se o garoto fosse mudo e sua boca apenas gesticulasse. Os segundos passaram em câmera lenta. Era como se o espaço-tempo não existisse. Leona estarreceu, e seus braços perderam a força. Segundos atrás, Leona balançava as perninhas e ria à toa, e agora, vejam só.

— Alô? Bolinha? Terra para Bolinha. É a sua vez de jogar.

Então, Leona voltou a si. A menina sacudiu a cabeça na esperança de afastar aquele desconcertante sentimento que tanto se assemelhava à sensação de ser esquecida. Cabisbaixa, recusava-se a encarar Peter. Ela mirou o tabuleiro e mexeu uma peça vermelha sem prestar atenção. Desnorteada pela mágoa, Leona sequer escutou o blá-blá-blá de Peter. Por sorte, o garoto já perdera o interesse no assunto. Peter engoliu as damas de Leona até a retaguarda e transformou a peça gulosa em rainha.

— Rá, ganhei!

Comemorou Peter, glorioso. Leona franziu o cenho, empurrou o tabuleiro e sentou-se de braços cruzados.

— Não quero mais jogar.

— Má perdedora. — Peter mostrou a língua. — Do que vamos brincar agora?

— De nada. Cansei de brincar com você.

Retrucou Leona direta e rude, dando um olhar tão torto que encolheu Peter. O garoto desviou os olhos e desmanchou o sorriso. Peter se perguntava o que fizera de errado para Leona tratá-lo com grosseria tão de repente. A carinha consternada do amigo amoleceu o coração de Leona.

— Huh... Peter. — Leona coçou a nuca e disse, mansa e envergonhada: — Quer ver os desenhos que minha mãe e eu fizemos enquanto eu estive doente?

— Quero.

E assim fizeram as pazes. Peter esqueceu de Diana em segundos. A felicidade do garoto em receber a carta relacionava-se ao fato de uma menina gostar dele, e não a identidade da tal garota. Na verdade, Peter só andava com a menina da tiarinha porque Diana era amiga de Leona. Num geral, ele não fazia questão da amizade de Diana. E isso, meus amigos, foi o que mais enfureceu Leona. Peter foi embora depois do almoço. Pela primeira vez, Leona se alegrou em ver seu melhor amigo partir.

Enfim sozinha, Leona caçou a carta escondida entre os trabalhinhos da escola. A Diana e a Leona de mentirinha sorriam no papel pólen. Logo acima, em caligrafia infantil, lia-se: gosto muito de você. Um nó enrolou-se na garganta de Leona. Ela partiu a carta em duas. Contudo, arruinar o serviço piorou as coisas. O beiço de Leona tremeu e as lágrimas rolaram.

Leona chorou com o rosto enterrado no travesseiro. Ela não compreendia por que a carta de Diana para Peter a deixou tão mal. Era ciúmes? Se sim, ciúmes de Diana ou de Peter? Leona não tinha a mínima ideia. Estava com raiva dos dois. Não queria mais estudar com eles. Devia ter pulado a primeira série, como a mãe pediu. Se tivesse obedecido, agora não estaria vivendo essa sofrência.

Porém, diferente do que parecia, a dor não era interminável. Em menos de meia hora, Leona sentou, secou o ranho e encarou a janela aberta. O sol brilhava no céu sem nuvens. Leona apertou os olhos cegos pela luz solar. De alguma forma, o calorzinho a consolou. Leona não chorava mais. Ela foi até o baú de brinquedos, entretanto, nenhum dos bonequinhos a agradou. Quanto ao caderno de desenho dando sopa na mesa de cabeceira, este recebeu um xingamento — a última coisa que Leona queria era desenhar. Por fim, resolveu ler.

Leona escolheu um dos livros trazidos por Onyankopon. Leona gostava de ler, apesar de não tanto quanto amava correr na rua. Ela costumava ler antes de dormir. Leona acomodou as costas no travesseiro e abriu o livro na página marcada. A história era sobre quatro jovens detetives investigando um caso paranormal numa mansão riquíssima. O detetive chamado Salsicha tinha um cachorro de grande porte. Foi o desenho do cão na capa que chamou a atenção de Leona.

No entanto, ela não se prendeu à leitura. Seu corpo passava pelo cansaço físico e mental consequente do choro, e como Leona lia durante a noite, o cérebro entendeu que já era hora de dormir. O texto se condensava na visão sonolenta. Leona largou o livro aberto sobre o peito e fechou os olhos. Não precisou de lençol. O calor aconchegante do sol bastou para aquecê-la.

XXX

— Filhotinho.

A voz vinha de algum lugar distante. Leona sonhava com um riacho de mingau. Ela nadava sozinha naquele creme branquinho salpicado de canela. Ignorou a voz e continuou boiando.

— Bolinha, acorda.

De novo essa voz enxerida. Leona mergulhou até o fundo do riacho. Entretanto, a voz veio junto. Leona foi chamada mais duas vezes, e nisso mãos não tão gentis a sacudiram. O mingau desapareceu. Leona abriu os olhos e deparou-se com o teto de seu quarto. Ela acordou faminta, gelada, e acompanhada. Hange ocupava uma parte generosa da cama. A perna da comandante tremia sem parar. Pelo sorriso largo, a ansiedade não era negativa.

— Bolinha, você

— Mãe, por que você me acordou? Tá frio, fecha a janela.

Leona deitou com as costas viradas para Hange. O livro jazia no chão, derrubado durante o sono da criança. Hange deitou sobre Leona e a beijou nas orelhas. Leona não queria rir das cócegas, mas acabou rindo. Ela empurrou a mãe, no entanto, Hange não se afastou, pelo contrário: aproveitou a mudança de posição para beijar o rosto da menina rabugenta, e subiu na cama de botas e tudo. Na verdade, Hange ainda vestia o uniforme militar completo. O olhar de Leona encontrou o da mãe. O olho da comandante cintilava.

— Você vai ganhar um irmãozinho.

Leona encarou Hange como se ela tivesse falado grego. Então, um sorriso tão largo quanto o da mãe surgiu no rosto dela.

— Mãe, é sério? Eu vou ter uma irmãzinha?

— Ou irmãozinho.

— Ela já está dentro de você? — Leona apertou as sobrancelhas. Cadê o barrigão? — Mas você está normal.

— O bebê precisa crescer, Leona, não é "assim" — Hange estalou os dedos. — Vai demorar um tempinho.

— Puxa vida. — Leona pareceu desapontada num primeiro momento. No próximo, sorria outra vez. — Posso tocar?

Hange mal tirou o casaco e Leona já veio pondo a cabeça na barriga da mãe. Ah, como fervia de felicidade. Ela ia ter uma irmã para brincar, compartilhar segredos, dormir junto e aprontar. Mais do que isso, Leona vai ser a IRMÃ MAIS VELHA. Isso significa proteger, ensinar, amar e servir de exemplo. Leona cumpriria esse papel. Ela seria a melhor IRMÃ MAIS VELHA do mundo.

A criancinha no ventre sentiu o amor da do lado de fora, pois Leona ouviu murmurinhos vindo lá de dentro. Deviam ser sons do corpo de Hange, ou a imaginação de Leona, contudo, ela acreditou cegamente que sua irmãzinha falava consigo. Em meio a juras de amor, Leona chorou aninhada na barriga quente e macia de sua mãe.

— Bolinha, assim eu vou chorar junto com você.

Hange tirou os óculos e limpou o olho molhado. As lágrimas vieram com força e ela não se esforçou para segurá-las.

XXX

A "irmãzinha" virou a estrela da casa. Leona não falava de outra coisa. Ainda bem que Hange não pensava em manter segredo sobre a gravidez, pois Leona não teve papas na língua e espalhou a notícia para todos e todas. Ela dizia aos cocheiros, faxineiros, mendigos, atendentes, qualquer um que cruzasse seu caminho: VOU GANHAR UMA IRMÃZINHA!

Dezembro passou voando para Leona. Em contrapartida, do ponto de vista de Hange, as semanas arrastavam-se. A comandante agradecia o apoio de Onyankopon, Yelena, dos vizinhos e dos subordinados, entretanto, as únicas pessoas que ela de fato desejava eram Leona e Levi, e o segundo não se encontrava na ilha.

Noite após noite, Hange fantasiava com o retorno de Levi. Ela tentava prever a reação do capitão perante a notícia esplêndida. O conhecendo bem, Hange imaginava que ele fosse, antes de mais nada, a insultar pela suposta piadinha de mau gosto. E então, quando percebesse que Hange falava sério, Levi arregalaria aqueles olhos cinzentos e faria cara de abobado.

Leona tinha uma opinião diferente. As duas conversavam sobre isso na manhã do dia trinta de dezembro, enquanto aguardavam o avião hizurunês voltar à ilha com Levi e os outros soldados.

— Eu acho que o senhor Levi vai DESMAIAR, mãe.

Leona abriu os braços num gesto expansivo gesticulando o tamanho da queda do senhor Levi. As duas esperavam no esqueleto do futuro aeroporto, metros a frente da pista de pouso improvisada construída para o aeroplano hizurunês.

— Não é improvável.

— Deixa eu falar com a minha irmãzinha.

Apesar de soar como uma pergunta, Leona não estava pedindo, e sim ordenando. Hange revirou o olho, incapaz de não sorrir. Leona queria conversar com o bebê o tempo inteiro. Hange levantou a camisa até o umbigo, e Leona de pronto encostou-se nela.

— Maninha, você vai gostar do senhor Levi. Ele é o namorado da nossa mãe. Tá bom, ele tem uma cara meio assustadora, e às vezes ele dá uns cascudos na gente... mas, eu juro, ele é um cara legal. Você sabia que ele me deu uma bicicleta? Quem sabe ele dá uma para você também.

Hange sorriu de canto, achando graça do falatório e sobretudo de como a filha falava de Levi. Leona ainda não ligara os pontos sobre a paternidade do bebê. Ah, Levi, não suporto mais pensar em você. Venha logo, por favor, pensava Hange.O coração da comandante palpitava de expectativa. E, quando o pontinho cinzento apareceu entre as nuvens, Hange levantou-se batendo palmas e pulando de empolgação. Ela só não lembrou que Leona estava deitada em suas pernas.

— SÃO ELES! CHEGARAM!

— Ai, doeu. — Gemeu a criança esparramada no chão.

— VEM, BOLINHA, VAMOS RECEBÊ-LOS!

Hange agarrou Leona pelo pulso e voou para a pista de aterrisagem, rápida feito o trem que as trouxe para estação praiana. Os pés de Leona mal encostavam no chão. Ela exclamou:

— Mãe, devagar! E se você cair?! Você vai se machucar e machucar a minha irmã.

— Leona, não começa.

Chegaram antes da aeronave. O avião se aproximava da pista. Hange saltava e acenava, gritando "PESSOAL, AQUI, AQUI", e Leona rodopiava e berrava para seus amigos descerem logo. O avião aterrissou em instantes, e quando a porta se abriu, Hange avançou no primeiro que apareceu pela frente.

Era Jean.

— Comandante Hange, que saudades!

O subordinado abraçou Hange, e ela retribuiu com um leve toque de impaciência tolerante. A recepção de Leona foi mais calorosa. A menina saltou nos braços do soldado. Jean a girou no ar. Enquanto era girada, Leona contou que sua mãe estava grávida. Jean se assustou e quase deixou Leona cair. Depois vieram Armin, Mikasa, Sasha, Connie e Eren. Este último esfregou a cabeça de Leona até a menina surtar e ser acudida por Mikasa. E aí, só faltava um viajante.

No segundo em que Levi apareceu na escada de embarque, Hange pulou nele de braços abertos, anunciando:

— LEVI, EU ESTOU

Mas, como nem sempre as coisas saem como planejado:

— SENHOR LEVI, A MINHA MÃE ESTÁ GRÁVIDA!

— Poxa, Leona! — Reclamou Hange, fechando os punhos. — EU ia contar, sua intrometida.

Leona não deu a mínima. Ela dançou ao redor dos dois, cantarolando minha mãe está grávida minha mãe está grávida. Quanto à Levi... bom, se Hange estava carrancuda, Levi estava muito mais. Armin, reparando que os superiores queriam espaço, chamou Leona.

Levi e Hange se encararam. A comandante acertou a reação do subordinado — Levi achava que era brincadeira. O capitão fechou a cara. Hange, por outro lado, voltou a sorrir.

— Acabo de chegar e você já vem com pegadinhas, doente?

— Não é piada, Levi. Nós conseguimos. — Sem se importar com os presentes, Hange abraçou Levi e encostou a testa na do capitão. — Nós vamos ter um bebê.

— Isso é...

Levi não precisava perguntar. O olhar de Hange dizia tudo. Ele arregalou os olhos do jeitinho como Hange imaginou. Levi deu uma risada fraca e sem-graça, como se ainda não acreditasse. Eles conversaram através do silêncio. O semblante gentil de Hange cortava qualquer desconfiança. Por fim, Levi e Hange mataram a saudade e comemoraram a novidade com um beijo profundo.

A poucos metros, Leona tinha um olho nos soldados e outro em sua mãe – ela se tornara meio ultra protetora. Ao perceber Levi agarrando Hange, Leona perdeu o controle. O senhor Levi não tinha o direito de ser abusado com sua mãe. Ele só podia dar selinhos e pronto, já estava de bom tamanho, obrigada. Leona, cheia de marra, pisoteou a areia ao socorro de sua mãe. Mikasa e Armin a mandaram deixar Hange em paz, mas Leona não queria nem saber. Quem o senhor Levi pensa que é?

— SENHOR LEVI, LARGUE A MINHA MÃE AGORA!

Hange e Levi não lhe deram ouvidos. Eles não se beijavam, porém continuavam abraçados, o que muito incomodou Leona. A menina enfiou-se entre os dois e empurrou Levi. Adotando a postura ousada e agressiva digna dos guarda-costas, Leona estendeu a mão aberta em sinal de PARE para Levi. O outro braço protegia Hange.

— Senhor Levi, o que é isso? Por que o senhor beijou a minha mãe? Atrevido.

Quando o senhor Levi baixou a cabeça, Leona engoliu em seco. Mesmo com medo, ela manteve a pose valente. No entanto, tudo o que o senhor Levi fez foi... espera, aquilo ali é uma lágrima? Atrás de Leona, Hange gargalhava feito louca. Leona entreolhou a mãe e o capitão. Ela estava confusa e começando a se enervar.

— MÃE! — Leona bateu o pé. — Do que está rindo?

Hange fitou o olhar do capitão numa daquelas conversinhas que só eles entendiam. O senhor Levi tocou na barriga dela e SORRIU. Ele ESTAVA SORRINDO. Elevando o horror da filha ao nível máximo, Hange confessou:

— O Levi me beijou porque ele é o pai do bebê, sua maluca.

No fim, quem desmaiou foi Leona.