Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
14 Aprendendo a dizer não
Notas iniciais
Leona teve noção da grandeza do planeta antes de conseguir ficar em duas pernas. Assim que aprendeu a engatinhar, dedicou sua curta vida a conhecer cada pedacinho da habitação militar aonde morava com a mãe. Quando o mundo ficou mais alto, Leona substituiu a vontade de passar pela porta pelo desejo enérgico de atravessar o portão, para assim explorar a maravilhosa terra desconhecida do outro lado
O quartel-general dispunha de muitos locais. Alguns aposentos não tinham nada para oferecer além de tédio, enquanto outros eram tão legais que dava vontade de ficar lá para sempre. Como o estábulo, por exemplo. Embora fossem pouco lá, todas as vezes foram inesquecíveis.
O lugar mais odiado pela garotinha não era exatamente um aposento, mas uma passagem. Leona detestava os corredores xadrezistas do segundo andar. As janelas quadriculadas eram altas, indo do inferior da parede até o teto. Ela sentia vertigem toda vez que tentava fitar a última linha de formas geométricas, e caia sentada de tanto levantar a cabeça. O piso alternava vinho e preto, e o toc-toc dos sapatos ecoava quando alguém pisava nele. Alguma coisa nos corredores a deixava ansiosa, uma espécie de medo inconsciente trazido do primeiro ano de vida. Ela temia olhar para os cantos e ver monstros pendurados nas teias de aranha, esperando encontra-la sozinha.
Havia milhões de adultos no quartel-general. Pessoas de todas as vozes, tamanhos e rostos, algumas tão engraçadas que era impossível segurar o riso, e outras tão horrendas que a faziam buscar refúgio atrás dos joelhos da mãe – às vezes chamadas de Hange, outras de comandante. Todavia, Leona aprendeu rápido que assustador nem sempre é sinônimo de perigo. O senhor Levi é a prova perfeita dessa verdade, pois ele era o adulto mais aterrorizante da superfície terrestre e nunca sequer levantou a voz para consigo — em contrapartida, ele também não conversava com ela ou a pegava no colo como o resto da gente grande. Toda ação gera reação. Leona não fazia caretas nem estendia os braços para o senhor Levi. Não era preciso ser adulto para ver a imensa bolha ao redor do capitão carrancudo impedindo a aproximação das outras pessoas, e ela estava mais do que satisfeita em observá-lo de longe. Não tinha motivos para ter medo do Senhor Levi, mas, por outro lado, possuía razões de sobra para não perturbá-lo.
Gostava de morar no quartel-general. Adorava os soldados, os animais, a familiaridade dos largos aposentos, e, sobretudo, se sentia verdadeiramente amada por todos. No entanto, um dia, a mãe a colocou numa carruagem, e as duas saíram de lá para nunca mais voltar.
A nova casa era diferente do local aonde vivera até então. No quartel, ela só podia sair do quarto acompanhada, pois não alcançava a maçaneta sozinha. Agora, não precisava se preocupar com fechaduras, pois nenhuma porta ficava completamente fechada.
De todas as mudanças, a mais drástica foi a presença da mãe. As novidades, lugares para explorar e brinquedos novos não supriam a falta daquela cidadã. Nessa nova realidade, Hange aparecia ao entardecer ou não vinha por dias a fio. Nessas ocasiões, Leona adormecia tarde, de olhos vermelhos e cabeça pesada. A garotinha detestava dormir sozinha, e por isso chorava de saudade a noite inteira.
Portanto, apesar da liberdade para ir e vir, considerava a troca desfavorável.
A vida era uma mancha colorida sem forma definida. Os conceitos de bem e mal não existiam, o certo e o errado, indistinguíveis. Naquela idade, o mundo de Leona tinha como base as VONTADES derivadas das EMOÇÕES intensas e incontroláveis. A minha barriga está DOENDO, logo preciso do LEITE DA MINHA MÃE. No quartel-general, sempre tinha alguém para atender as suas VONTADES e ajudá-la a controlar as EMOÇÕES, mas, na nova moradia, o tratamento era outro. Leona usaria as palavras "bárbaro, insensível, hediondo e desumano" para descrevê-lo, se soubesse pronunciar esses vocábulos.
Não, não era como se estivesse totalmente solitária, pelo contrário. Enquanto o quartel abrigava vários adultos, naquela casa não havia ninguém além de Leona e outra pessoa. Todavia, enquanto a menina era invisível para a maioria dos soldados na antiga casa, na atual ela era o foco total desse único individuo cuja identidade mudava de tempos em tempos e nunca, absolutamente nunca, a deixava sozinha.
A primeira mulher, Leona recordava, era a mesma que cuidava dela no quartel durante as saídas de Hange. Ela aprendeu cedo a associar a presença daquela moça com a ausência da mãe, e por isso a odiava. Tê-la consigo na casa, dia após dia, não a AGRADAVA. Aquela mulher fazia o seu coraçãozinho PESAR, e por isso ela queria que a malévola fosse EMBORA e sua mãe VOLTASSE.
E o pior, a vil mulher nem se esforçava para Leona gostar dela, pois as vontades infantis permaneciam insaciadas até Hange voltar. Sendo Leona dona de uma determinação incessante, beirando tirania bruta e descontrolada, na intensidade das suas emoções, berrava, batia na babá e recusava a comida que lhe era dada. Em sua lógica de criança, a partida da moça significava o retorno da sua mãe, portanto, precisava expulsá-la para ter Hange consigo. Quando bebê, não tinha capacidade de se defender, mas agora os tempos eram outros.
A luta durou semanas. A menina chegou a achar que não venceria, porém, na manhã após outro dia de batalha, Leona acordou numa carruagem em movimento, e a primeira pessoa que viu ao acordar foi Hange, caolha e sorridente ao seu lado. A garotinha quase chorou ao ver-se de volta no quartel-general. Leona visitou Buck e brincou com os soldados. Foi um dia danado de bom, e ela achou que se manteria assim. Porém, voltaram para a casa maldita na mesma noite, e na manhã seguinte, Leona despertou abandonada na cama onde dormia com a comandante.
O caso da primeira babá ensinou uma lição valiosa. Leona descobriu duas coisas chamadas caminho e fim, e isso mudou sua percepção de mundo, separando muito ligeiramente a gama de cores caóticas na grande mancha disforme. O fim é a última parte de um objetivo, e o caminho se trata das coisas que precisam ser feitas para completar a missão. Minha barriga está DOENDO, logo preciso do LEITE DA MINHA MÃE, assim irei ME ALIMENTAR (caminho) e MATAREI A MINHA FOME (fim).
Partindo desse pressuposto, a lógica era: viver nessa casa NÃO ME AGRADA, eu preciso ELIMINAR AS AMEAÇAS até não restar nenhuma, assim ninguém vai me impedir de MORAR NO QUARTEL.
E assim, a nova babá, uma moça chamada Heidi, sofreu o mesmo mal da anterior. Leona passava o dia a desobedecendo tanto pelo divertimento de vê-la arrancar os cabelos quanto para alcançar o objetivo. Heidi foi eliminada em cinco dias.
Porém, em vez de acordar na carruagem, Leona despertou em sua própria casa. Na sala havia outra mulher, dessa vez uma jovem de vinte anos. A garotinha se viu no corredor xadrez do quartel-general, prestes a atravessá-lo sozinha para alcançar a mãe do outro lado. A mulher pegou o serviço na segunda e largou-o na quinta.
O terceiro era uma idosa. Essa foi osso duro de roer. A voz mansa da senhora quase a fez desistir do fim, contudo, a determinação implacável prevaleceu. A velhinha simpática pediu demissão na terceira semana.
Depois, veio uma mulher de expressões severas. Essa aguentou mais tempo – um mês inteiro. A mulher suportava os golpes e ignorava suas vontades. Então, por acidente Leona descobriu que se colocasse as pernas dos soldadinhos de brinquedo fundo na garganta, seu estômago devolvia o almoço. Essa técnica veio bem a calhar na garantia da vitória.
Os rivais continuaram chegando nos mais diversos tamanhos e gêneros. Todos eliminados com sucesso. Leona, em seu mundo colorido desprovido de consequências, não enxergava a malignidade das próprias ações. Seus propósitos infantis iam além de sua percepção para com o outro, ela não via ninguém além de si mesma e o fim.
E então, na manhã seguinte após o extermínio da babá nariguda, Leona acordou acometida por um cheiro maravilhoso de mingau vindo do andar de baixo. Ela seguiu o odor de nariz empinado, quase flutuando. Ao descer a escadaria para a sala/cozinha – a separação entre esses dois cômodos era um largo batente — encontrou no fogão uma adolescente de quinze anos. A garota pequena amarrava o cabelo loiro num rabo de cavalo. Ela se virou. Sorriso receptivo, olhar alegre. Leona recuou na escada, subindo no primeiro degrau e escondendo metade do corpo atrás do corrimão. A garota na cozinha deu um passo para o lado, mostrando a panela no fogo.
— Oi, Leona, dormiu bem? Estou fazendo mingau, sua mãe me disse que você adora. Vamos colocar bastaaaante canela.
A estranha lambeu os próprios lábios exageradamente e esfregou a barriga lisa com a mão que não segurava a colher de pau. O cantinho da boca de Leona tremeu. Dentro dela, sentimentos confusos se misturavam num confronto horripilante. Camaradagem e curiosidade fizeram dupla para enfrentar a determinação feroz, mas a terceira, custosamente, derrotou ambas. Leona mostrou a língua. A adolescente riu e voltou ao fogão.
E assim, ela conheceu Minnie.
XXX
Logo após o mingau, Leona fez uma descoberta desagradável em relação à Minnie, e a miúda amizade sentida à primeira vista evaporou.
A palavra favorita de Minnie era NÃO. Leona não podia ir ao quintal sozinha, nem mexer nos armários na cozinha ou brincar no corrimão da escada. Em pouco tempo, NÃO se tornou o seu vocábulo mais odiado, e tratava de punir Minnie por usar essa palavra grosseira. Gritos e pontapés geralmente eram o suficiente para fazer a babá ceder às suas vontades. Na falta disso, sempre tinha a técnica do vômito. Minnie partia após a chegada de Hange. Leona sonhava em acordar no quartel-general, contudo, despertava em casa, sempre encontrando a megera na cozinha. Um círculo infernal.
A agitação para receber a comandante começava ao canto dos grilos, sendo esse som indício da volta de Hange. Leona atormentava Minnie sem parar, perguntando uma vez atrás da outra:
— A Mãe tá vindo? E agola? Hein? A Mãe tá vindo? Cadê? Tá vindo?
Minnie limitava-se a responder sua palavra favorita. De vez em quando, ela dizia uma frase completa, sendo essa sentença proferida numa voz complexa carecida de gentilezas.
— Espero que esteja.
Na verdade, as perguntas eram desnecessárias. Leona sabia exatamente quando Hange retornava. Ela sentia as vibrações no ar, o cheiro característico de terra e papel cada vez mais forte, a voz familiar no lado de fora, e de repente o barulho da cerca. Mal a porta rangia, Leona disparava para pular na recém-chegada.
A garotinha alisava os cabelos castanhos e tentava arrancar o tapa-olho com beijos. Os braços envolviam Hange com tanta força que nada era capaz de tirá-la dali, e o coraçãozinho batia forte de felicidade. Tudo ao redor se tornava desimportante durante os reencontros, tanto que a saída de Minnie passava despercebida.
A presença da comandante acalentava a casa fria. Se a palavra favorita da babá era NÃO, a predileta da mãe era SIM. Brincar no fogão? Com certeza, se Hange estiver supervisionando. Ir para o quintal? Claro. Comer terra? A mãe come junto. Volta e meia, a comandante a surpreendia com um combate súbito, sua brincadeira favorita. Leona amava brigar com a mãe. Adorava lutar com todo mundo, na verdade. Ganhava sempre.
O banho vinha antes da hora de dormir. Num geral, Leona não gostava dessas duas tarefas. Em sua opinião, era um tempo que podia ser usado em outra atividade mais interessante. No entanto, após a mudança, passou a amar o ritual noturno. A mãe lhe dava um banho quente cheio de histórias com direito a caretas e efeitos especiais. E, quando Hange entrava junto, as duas encharcavam o banheiro brincando de guerra d'água.
Claro, as coisas nem sempre eram assim, vale apontar. Às vezes, Hange vacilava, e aí cabia a Leona animá-la. Para isso, a menina empurrava, puxava o cabelo da comandante, gritava, e se fosse necessário, batia. Qualquer coisa para fazer Hange prestar atenção NELA e somente NELA.
A única parte da rotina sempre igual era a hora de dormir. Leona aguardava Hange com impaciência na larga cama de casal. Mal a comandante deitava e a menina já se aconchegava ao seu corpo, enterrando o rostinho no colo. O nariz farejava o leite materno, e em poucos segundos Leona sonhava acordada naquele doce transe familial que a embalava desde o nascimento. Emanava confiança e amor por aquela pessoa, e no calor dos braços protetores, sentia o mesmo fluindo na alma de Hange.
A mulher desaparecia pela manhã. A mãe tinha o dom incrível de ser silenciosa quando queria, de forma que a garotinha nunca a pegava no flagra. E por mais cedo que acordasse, nunca a encontrava ao seu lado.
Enquanto batalhava para alcançar o fim, Leona acabou se acostumando à rotina da nova realidade e adaptava os dias para serem o menos cansativo possível. Isso incluía colocar Minnie nos eixos e aproveitar a companhia de Hange quando ela estivesse presente.
Porém, as coisas não foram do seu jeito por muito tempo.
XXX
A data começou como qualquer outra. Leona passou a manhã brincando no quintal. Minnie esteve lá também, cumprindo sua meta matutina de encheção de saco. Choveu por volta do meio-dia e as duas foram para dentro. As sessões intermináveis de “Leona, não faça isso” recomeçaram dentro da cozinha e se estenderam até perto do horário de Hange retornar. De propósito, Leona perguntou as horas para Minnie uma vez atrás da outra. Quando a babá cansou de responder, Leona puxou-a pelo vestido com tanta força que descosturou a saia. Minnie sentou no sofá, exaurida, e foi possível ver os dedos trêmulos quando ela cobriu os olhos com a mão. Leona, observando da escada, sorriu com prazer maldoso. Quem manda você ser tão chata, Minnie? Ninguém gosta de uma pessoa que só sabe falar uma palavra.
As vibrações no ar mudaram de repente. Leona ergueu a cabeça, ansiosa pelo súbito pressentimento psíquico. Ao giro da maçaneta, correu com os braços esticados e os dentes a mostra num largo sorriso. Abraçou as pernas da recém-chegada e foi prontamente erguida para o alto.
— Olá, Minnie. Como foi hoje?
A moça cansada, tão jovem quanto os recrutas do exército, suspirou antes de responder que havia sido bom. A menina se comportou? Sim, sim, um anjinho, comandante Hange. Leona foi segurada por apenas um braço para a mãe estender um maço de dinheiro à adolescente, sem conta-lo antes.
— Eu que agradeço, Minnie. Mande lembranças aos seus pais. Boa noite.
Por trás do ombro da mãe, a menina mostrou a língua para o nome da babá. Ficou satisfeita ao ouvir o tintilar do chaveiro trancando a porta.
— E você, Bolinha?
A mulher apertou a filha e a beijou na bochecha, fazendo Leona derreter-se toda. Os braços pequenos a agarravam com tanta força que Hange precisou puxá-los para colocá-la no chão.
As mudanças começaram no jantar. Fazia parte do contrato de Minnie deixar a refeição preparada. Mãe e filha comiam no mesmo prato, e era a comandante quem dava as garfadas na boca da menina no clássico jogo do passarinho. Leona era perfeitamente capaz de segurar um talher – ela fazia o resto das refeições sozinha – porém aceitava o método da mãe de bom grado.
Entretanto, nessa noite, a menina foi surpreendida pela presença de dois pratos. Não foi uma surpresa negativa, queria mesmo mostrar à Hange suas habilidades excepcionais com a colher.
— O que você fez hoje, Bolinha?
Durante a refeição, Leona tagarelou sobre a chuva, falou de Minnie, contou sobre os brinquedos e as histórias que inventou para eles. Para adultos de fora, o papo da garotinha era banal e sem sentido, e a maior parte das palavras atropeladas soavam ininteligíveis. Hange, no entanto, compreendia tudo, até os sons mais indecifráveis.
— É mesmo? Isso é muito legal! Me conta mais.
A mãe apoiava o maxilar na mão e olhava para a filha com interesse. A menina continuou falando entre uma garfada e outra, adorando as expressões engraçadas feitas por Hange conforme escutava as histórias. Em certo ponto, Leona, já saciada, olhou para o próprio prato e... era impressão sua ou tinha arroz demais? Ergueu o olhar, a mãe tamborilava as unhas na mesa, sorrindo esquisito.
— Quer ouvir o que eu fiz hoje?
Leona concordou, entusiasmada. As aventuras da mãe eram mais divertidas. Hange começou um relato mágico sobre Eren, um dos soldados do quartel. De acordo com ela, o garoto tinha a habilidade de se transformar num monstro horrível. A história causou horror e fascínio. Mesmo sem entender metade, Leona não conseguia desgrudar os olhos da mãe. A comandante falava com exultação. Em determinada parte, quando Hange fechou o punho e jogou a cabeça para a esquerda, o lampião transformou seus óculos em dois clarões de luz. A mãe era simplesmente apaixonada por titãs. Leona sabia da existência das criaturas antes mesmo de ter nascido, no entanto, nunca os tinha visto – sua mãe desmentia essa informação, mas a garotinha honestamente não lembrava.
— Bom, vamos subir?
Leona assentiu. O estômago pesava dentro da barriga inchada pela refeição farta. O prato estaria completamente vazio se não fosse o molho da carne.
Leona recebeu um banho rápido. A água quente e o estômago estufado a entorpeciam, nem sentia vontade de brincar. Hange a esfregou em todos os lugares, sem demorar no cabelo tão diferente do castanho escuro. Leona mal aguentava o sono, e teria adormecido na banheira caso a mãe não tivesse lhe jogado água na cabeça para tirar o sabão. Já vestida e no colo de Hange, Leona aninhou a cabeça em seu ombro; o calor dela era acolhedor, e o cheiro do leite expandia o estômago cheio.
Então, as coisas ficaram complicadas. Em vez de ir para o cômodo onde dormiam juntas, a mãe a levou para o quarto dos brinquedos, onde também existia uma cama de solteiro.
Leona ficou totalmente desperta ao perceber que fora deitada em seu próprio colchão. A garotinha tentou sair, gemendo tanto de surpresa quanto de aborrecimento. No entanto, Hange a fez ficar.
— Ainda tenho algumas coisas para fazer, depois eu volto.
A certeza na voz dela tranquilizou a menina. Leona encostou a nuca no travesseiro e fitou a mãe com ar de não-vou-dormir-até-você-voltar embora seus olhos pestanejassem. Hange sorriu, tirou os óculos e encostou o nariz no seu. A comandante havia deixado o tapa-olho no banheiro, Leona conseguia sentir a pele macia completamente. Colocou as mãos nas bochechas de Hange, beijando o espaço entre o olho castanho e a cicatriz do outro lado. Não muito depois, o subconsciente a transportou para uma terra longe do plano de terrestre, distante da vida real, e o sonho foi meigo até o corredor xadrez aparecer nele, sem as janelas e com um monstro à espreita, cujos passos emitiam o mesmo eco das botas militares.
Leona sentou-se sobressaltada. Os olhos correram o ambiente sem reconhecer o quarto, cada sombra abstrata confundindo a cabeça apavorada. Nem Hange nem Minnie estavam por perto, e o silêncio do quarto gritava mais alto que os quadrados cor de vinho. O pesadelo deixou para trás a sensação de calor escaldante e a necessidade de ver sua mãe.
De olhos fechados, Leona atravessou o quarto às pressas, fugindo das sombras. Derrubou a caixa de brinquedos pelo caminho. O conteúdo rolou para fora da larga boca do baú, alguns brinquedinhos permanecendo dentro. No escuro, mais parecia uma besta devorando os pobres animais, soldadinhos e bonecas. A menina empurrou a porta violentamente e deixou-a aberta, temendo ver-se no corredor xadrez caso virasse para fechá-la.
A corrida até o quarto da mãe foi menos complicada. A porta emitiu um alto barulho quando Leona a abriu. Hange estava desperta como se soubesse que a filha apareceria a qualquer segundo, quase como se estivesse esperando por isso. A garotinha escalou a cama e escondeu o rosto no peito da mulher sentada, ganindo de pavor.
— Huh? O que aconteceu? Por que está chorando?
A menina tocou a própria bochecha e surpreendeu-se ao encontra-la molhada. Voltou a enterrar a face no corpo da mãe sem responder, focada em respirar o cheiro tranquilizador, prendendo-se ao conforto característico transmitido pela comandante. O horror enfraqueceu quando Hange a abraçou, e pouco a pouco a sensação escaldante deu lugar ao calorzinho agradável que a contornava toda vez que a mãe a pegava no colo.
— Você teve um pesadelo?
A garotinha sacudiu a cabeça positivamente. No escuro, não conseguia ver muito além do formato do rosto e a íris brilhante da mãe. A garotinha estava sentada nas pernas dela, com os braços ao redor da comandante e o rosto na altura de seu peito. Leona já não recordava nada do pesadelo, e seus olhos começavam a fechar conforme a mão gentil afagava a nuca desnuda, roçando o polegar no fim do cabelo loiro.
— Pronto, filhotinho, já terminou.
Hange a consolava com a costumeira delicadeza familiar, afastando de vez o restinho de terror. Leona, aninhada, apertou o pijama dela à altura do colo num pedido silencioso, e teve o pulso pequeno segurado numa firmeza nunca sentida antes. Foi afastada lentamente. A resposta incomum a deixou sem reação.
— Ei, ei, você já tem dois anos, não acha que já chega?
A voz de Hange tinha um tímido tom divertido, como se fizesse piada sobre um assunto delicado merecedor de mais seriedade. Ela empurrou a garotinha atônita, fazendo-a descer de seu colo. Reticências estampavam a face de Leona. Hange a beijou na testa e deitou com o lado esquerdo do rosto, aquele sem olho, repousado nos dois braços.
A garotinha franziu o cenho ligeiramente, pendendo o rosto para lado enquanto tentava entender a situação. A mãe não parecia irritada – poxa, ela sorria. Sendo assim, deu de ombros e avançou na direção dos seios cobertos. Outra vez, Hange a barrou.
— Bolinha, não.
A menina foi empurrada pela testa. Por que a mãe agia igual às babás? Leona ficou de joelhos, superando a altura da mulher deitada. Ela olhou o rosto da mãe de braços cruzados, boca contorcida e sobrancelhas apertadas. A fitava de cima, tal qual um empregador encararia o funcionário desobediente. A garotinha proferiu a mesma pergunta repetida para Minnie dia após dia:
— Por que não?
— Porque você não é mais um bebezinho.
— Mas p-
— Leona, vai dormir.
Hange a interrompeu, incisiva, o olhar duro feito rocha. Encarava a filha diretamente, a linguagem verbal e corporal indicando inflexibilidade. Leona, desorientada, começou a gaguejar, e seu lábio inferior tremeu. Hange continuou impassível, e permaneceu assim quando as lágrimas rolaram pelas bochechas da filha, não mudou quando o choro quieto evoluiu para pranto agudo, nem suavizou quando a garota a empurrou, berrando a plenos pulmões.
— ME DÁ ME DÁ ME DÁ ME DÁ!
A comandante continuou agindo como se aquela situação não fosse real. Se você fosse vizinho de Hange, certamente teria acordado com a gritaria e pensado em pular o muro para conferir se a criança em questão sofria uma tentativa de assassinato. Leona não parou de esbravejar nem quando a garganta secou. Cinco, sete, vinte, trinta, quarenta minutos de insistência. A respiração da garotinha falhava e os olhos molhados estavam inchados. Seu olhar cruzou com o da mãe no escuro e Leona não viu empatia naquele único olho castanho. Hange tinha uma pedra de gelo no lugar da cabeça.
A mãe se moveu. Ah! Finalmente seria obedecida – ela só queria dar e receber amor até adormecer, era pedir muito? A hora de dormir sempre foi assim, por que agora tinha de ser diferente? Trocar de casa já não era o bastante?
O coração parou de bater quando a mulher deu as costas, puxando o cobertor até o pescoço sem dizer nada. Os soluços recomeçaram baixos, cheios de tristeza. Hange a ignorava e Leona sequer sabia o porquê. Aquela pessoa tão amada simplesmente lhe fazia mal de propósito.
— Mãe...
A garotinha apoiou a frente do corpo nas costelas de Hange, tentando atravessar para o outro lado, ou, pelo menos, ver o olho bom. Daquele ângulo, só conseguia enxergar a inexpressiva cicatriz. A voz da menina adquiriu um tom suplicado misturado aos soluços do choro.
— Mãe, só um pouquinho de nada, um cadinho pouquitozito titiquinho assim ó — Ela fez um círculo pequeno com o polegar e o dedo indicador. — Por favôzinho.
Ela tentou atravessar e foi, pela terceira vez, rejeitada. O peito da menina adoeceu. Leona não compreendia as razões para aquele comportamento hostil. O dia foi normal, não tinha feito nada errado.
— Mãe.
Leona colocou as mãos pequenas no ombro alheio num último pedido desesperado. Hange não reagiu. Percebendo que empurrões, choradeira e apelação não iam dar resultado, a menina resolveu utilizar a técnica imbatível guardada para guerras perdidas.
Ela enfiou os dedos na boca, indo o mais fundo possível, até o médio encostar na campainha. O maxilar estalou de dor e a garganta soou esganada ao convulsionar para expulsar a mão. O jantar veio correndo e Leona arrancou a mão encharcada de saliva para longe. Ela nunca tinha ido até o fim porque nunca houve necessidade, no entanto, Hange continuava de costas, imóvel, indiferente à angústia da própria filha. Leona afogou a si mesma novamente, porém, não foi capaz de alcançar a garganta pela segunda vez. Não tinha coragem.
Nenhuma estratégia funcionou. Continuava tendo como resposta as costas frias da pessoa que devia amá-la e protege-la. Leona se sentia infeliz, e acima de tudo, traída. Então, ocorreu-lhe de repente, Hange não era menos cruel que as babás, e a conclusão desoladora de a própria mãe ser culpada da mudança a abalou.
A inocência e a irracionalidade são irmãs, sendo a selvageria prima em primeiro grau. O choro de Leona transformou-se num brado de raiva, toda a determinação feroz posta para fora de repente, caracterizada nos lábios repuxados e nas sobrancelhas franzidas, no ódio jorrado. A menina avançou com os punhos, batendo-os repetidas vezes nas costelas, ombro e até na cabeça de Hange, sem medir a força. Leona, cheia de ar pela adrenalina do momento, rugiu xingamentos enquanto se punha a puni-la.
De repente, a comandante retribuiu o ataque. CONSEQUÊNCIA é o nome disso, Leona viria a descobrir. A menina foi presa de costas no colchão. A comandante agarrava seus dois braços, mantendo-os estendidos e imobilizados. As duas se encararam, Leona boquiaberta em silêncio, a gritaria momentaneamente substituída pela respiração rápida. Tentou livrar as mãos, sem sucesso. Percebendo isso, solavancou o corpo para cima, chutando o ar em tentativas de acertar Hange, ou pelo menos fazê-la largar.
— ME SOLTA! ODEIO VOCÊ! ODEIO VOCÊ!
Mas Hange não largava. A mãe era forte, muito forte mesmo. Como perdia as brincadeiras possuindo tamanha força? O rosto vermelho contorcia-se de fúria. A comandante, por outro lado, tinha os lábios cerrados, as narinas inflando devido a respiração pesada, mantendo a filha firme no mesmo lugar. O olho dominador mirava o rosto infantil fixamente, buscando fitar a selvageria diretamente.
O total horror daquela bestialidade colapsou o cérebro jovem. A raiva desvaneceu pouco a pouco dando lugar a uma espécie de lucidez amedrontada – pela primeira vez, a perturbadora sensação de que não era a dona do mundo caiu sobre ela, a noção de que o fim às vezes é inalcançável. O olhar acusatório desafiou o de Hange, mas não por muito tempo. A autoridade muda foi o bastante para controlar a determinação indisciplinada. Nos próximos anos, mesmo após a noite infernal cair no esquecimento, aquele olhar soberano teria para sempre o poder inigualável de imobilizá-la.
Hange, percebendo o término do espetáculo (não devolvemos o valor do ingresso após o show), soltou os braços da menina, pegou o cobertor do chão e cobriu a si mesma, de propósito deixando um grande pedaço de pano para a criança.
A dor física dos solavancos agressivos começava a se sobrepor sob a emocional, mas Leona mordeu o lábio e sufocou o peito, abafando a nova onda de lágrimas. Lá no fundo, uma voz inédita muito parecida com a sua própria lhe alertava para não chorar.
Derrotada, Leona enrolou-se no cobertor e enfiou o rosto no travesseiro. Difícil para respirar, bom para se esconder. Ela começava a passar pelo doloroso processo da aceitação, que é o ato de ceder a alguma condição imutável por mais que você se esforce ou seja merecedor do contrário. O silêncio preencheu o ambiente até a menina não mais aguentar a vontade de chorar e retomar os soluços baixinhos, e eles duraram pelos três minutos que aguentou acordada.
Hange, por outro lado, não conseguiu dormir. Sofria como se cada partícula da dor da filha fosse compartilhada consigo, ao ponto da noção de estar fazendo a coisa certa quase não superar o remorso.
Todas as babás contratadas haviam pedido demissão. Hange só foi suspeitar de Leona na terceira. Afinal, quando duas pessoas não gostam de você, pode ser que o problema seja elas, mas se três te odeiam, então já está na hora de você repensar sua personalidade.
Entretanto, a culpa vinha de dois lados. Hange sabia que a forma como a vinha tratando era o principal motivo para o comportamento birrento. Se continuasse assim, Leona iria se tornar uma adulta mimada e dependente. Nesse mundo de guerra, crescer fraco era o pior destino de qualquer criança, principalmente as eldianas.
O que mais a machucava era a consciência de que filha era incapaz de entender o porquê de aquilo estar acontecendo. Em sua cabeça infantil, passava pouco tempo com a própria mãe e queria aproveitá-lo o máximo possível a sua própria maneira. Esse pensamento dificultava as coisas. Hange precisou de muita garra, principalmente quando Leona começou a gritar declarações de ódio. Palavras vazias também podem machucar.
Vê-la quieta daquela forma deixava a comandante ansiosa. A comandante respirou fundo, tentando não pensar em nada. Era normal os filhos testarem os pais, o problema era quando os pais cediam. Se desistisse agora, Leona ia voltar com força total na próxima vez. Portanto, permaneceu imóvel até a menina adormecer, e quando teve certeza de que ela dormia profundamente, foi a vez do choro da mãe quebrar o silêncio do quarto.
XXX
Hange piscou ao encontrar a fraca iluminação do nascer do sol. Ela sentia alguma coisa quente encostada em suas costas, e ao afastar o cobertor, deparou-se com uma criança encolhida em posição fetal, chupando o polegar.
Quando não estavam em missão, Hange simplesmente perdia a capacidade de ser furtiva. Levi vivia reclamando de sua personalidade barulhenta, alegando que dez soldados jovens faziam menos barulho do que ela sozinha. Entretanto, depois do nascimento da filha, Hange desenvolveu a habilidade de entrar em modo silencioso a qualquer momento, e só foi ter consciência disso quando a própria garota reclamou de nunca vê-la sair.
Só que hoje foi diferente.
— Mãe?
Mal deu dois passos e a bolinha no cobertor remexeu preguiçosamente até uma criança pequena, loira e sonolenta aparecer. A comandante aproveitou para ajeitá-la numa posição confortável, afagando o cabelo curto enquanto a deitava no travesseiro.
— Volte a dormir, está frio.
— Mãe... tá doendo aqui ó. — Leona tocou o topo da cabeça.
— Sua cabeça está doendo porque você não dormiu o suficiente.
E porque você fez fiasco a noite toda.
Os olhos piscavam vagarosamente, resistindo ao cansaço embora o resto do corpo se rendesse ao confortável travesseiro.
— Mãe, você tá brava?
— Não.
Os lábios da comandante fizeram uma tentativa de sorriso consolador. Uma mão pequena e hesitante surgiu por baixo do cobertor. Hange apertou o espaço entre os olhos e disse não antes da menina abrir a boca, no entanto, ela pediu mesmo assim.
— Mãe, me d-
A comandante a interrompeu colocando a mão da filha novamente para baixo do cobertor, balançando a cabeça devagar. Seu olhar adquiriu a dureza da noite anterior, mas o toque foi carinhoso de uma forma meio infeliz, como se pedisse desculpas. Leona pareceu captar a mensagem, pois lamentou sem retomar a choradeira.
XXX
A garota despertou duas horas mais tarde. O cobertor a envolvia por completo, como uma toca. Os acontecimentos da noite anterior estavam nublados, e ela perguntou a si mesma se foram reais ou parte de um longo pesadelo.
O dia seguiu recheado de desobediências costumeiras, mas Leona não fez uso da técnica do vômito. Á noite, as desventuras recomeçaram. Dessa vez, Hange recusou todas as brincadeiras, reduzindo as tarefas diárias às necessidades básicas da criança sem se preocupar com as suas próprias. Ou seja, a mãe – parecendo fisicamente exausta – foi direto para o quarto sem jantar nem tomar banho. Leona tentou tirá-la da cama, sem sucesso. Quando pediu peito, Hange rolou de bruços e respondeu, impaciente:
— Me deixa em paz.
As próximas semanas foram parecidas. A mãe estava muito diferente. Nem sempre ela queria brincar, contudo, quando por ventura resolvia lutar, Leona quase nunca saía vitoriosa, o que a frustrou bastante. Hange não lhe dava mais a liberdade de antes nem fazia algazarra todas as noites. A hora de dormir tornou-se entediante, e a garotinha logo descobriu o quão divertido era ficar em seu próprio quarto, onde podia brincar e fazer barulho.
E assim, Leona se tornou mais curiosa pelo mundo e menos conectada à sua progenitora. A antipatia por Minnie desapareceu e elas viraram boas amigas. A adolescente mostrou saber muitas outras palavras além de negativas, e às vezes Leona ficava triste quando a babá partia.
Leona não passava o entardecer ansiosa esperando por Hange como costumava fazer, e em pouco tempo perdeu o sexto sentido de antecipar sua chegada. Essa mudança em especial abalou a comandante bem mais do que o esperado, por falar nisso.
— Conseguiu resolver aquele probleminha, Hange?
A voz pertencia a uma mulher de idade chamada Sophie, ela bebericava uma xícara de chá e olhava para Hange com curiosidade. A comandante estava sentada de pernas abertas na poltrona a frente da senhora. Ambas espreitavam a menina brincando distraidamente no tapete.
— Foi difícil, mas sim, consegui.
Foi complicado lidar com a separação. Sim, a obsessão da menina com a sua presença incomodava bastante, não só a ela mas os outros também. Minnie, a última babá, teria pedido demissão caso Hange não tivesse tomado atitude. No entanto, não esperava que o processo fosse ser doloroso para ela também. Não sabia que ela própria se tornara tão obcecada pelo laço familiar quanto Leona.
A maior parte dos pais dão o melhor de si pelos filhos. No caso de Hange, cujo emprego podia reduzir o prazo de sua vida a qualquer momento, era complicado fazer a coisa certa. Ela só queria dar amor, balas, abraços e brincar com sua única filha o máximo possível antes que os soldados mortos a chamassem. Entretanto, nem todo o afeto do mundo seria o bastante para trazer paz ao seu coração. Se uma bala Marleyana atravessasse sua cabeça, morreria com a certeza de não ter amado a filha tanto quanto podia, independentemente de tê-la amamentado até os dois ou até os vinte.
— A gente precisa colocar limite enquanto são pequenos. Aos cinco, a personalidade da criança já está pré-estabelecida, e depois dos sete é praticamente imaleável. Pelo menos com o Erwin foi desse jeito.
— É mesmo?
— Claro. Precisava ver o sufoco que era lidar com aquela determinação. Quando ele metia algo na cabeça, ninguém tirava.
Hange sorriu para sua própria xícara de chá. Sophie era mãe de Erwin e avó de Leona. A senhora era de outro distrito e as visitava raramente. Hange gostava dela.
— E aquele problema com vômito?
Hange recordou o pânico quando a filha enfiou os dedos na garganta. Sua parte materna ficou apavorada, mas a cientista dentro de si disse para ignorar, deixar ir até o fim, só para ver o que ia acontecer e como Leona se comportaria a partir dali. Recordava de ter pensado “um pouco de vômito nunca matou ninguém”.
— Ela tentou fazer comigo e não conseguiu, ficou assustada. Duvido muito que tenha ido até o fim alguma vez.
— Ela tentou de novo?
— Não, nem com a babá.
Leona, de costas para as duas, resmungava consigo mesma enquanto brincava. No círculo de brinquedos, um lobo de madeira rodeava a fazendinha composta por cavalos, bois, ovelhas, bonecas, soldados, bichos de pelúcia, pedaços de tábua soltos, talheres quebrados e até fósforos.
— A Leona está diferente, sabe?
— Como assim?
— Ela não fica mais eufórica quando chego em casa e nem sempre quer a minha companhia. Você acha que ela...
Hange recordou as declarações de ódio e a sinceridade selvagem colocada nas afirmações. Na ocasião, as palavras entraram por um ouvido durante a noite e saíram pelo outro de manhã, mas vinham voltando nas últimas semanas. O pensamento fez a comandante interromper a si mesma antes de terminar a pergunta.
— ...pode não ter superado?
Leona fez dois anos há três meses. A garotinha vinha adotando um comportamento reservado, e Hange tinha o medo sincero daquele distanciamento ser desvalorização, uma maneira de punir a própria mãe.
Sophie analisou Leona com ar pensativo, a mão esquerda alisando a pele frágil do queixo idoso, logo abaixo, o lento sorriso se desenhava nos lábios finos. Não olhou para Hange ao responder.
— Eu acho que essa aí é a personalidade verdadeira dela, Hange.
De repente, uma vela acendeu no cérebro incomodado da comandante, e tudo fez sentido. Ela ergueu a cabeça, sorrindo. Sophie estava certa. Aquela criança independente era sua filha verdadeira, não o bebê mandão que bate na própria mãe e vomita para ser obedecido. Sem o sufocamento de ambas as partes, Leona finalmente pôde crescer.
A expressão lamentosa da comandante deu lugar a serenidade. O longo suspirou de orgulho veio acompanhado de alívio. Sentiu vontade de abraçá-la, mas desistiu. Leona estava bem em sua própria companhia.
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