Notas iniciais
Olá, Chegamos ao penúltimo episódio de VMP, pessoal! O Q&A continua aberto. Se alguém quiser participar, aqui está o LINK: https://forms.gle/Z6tuA7XibYr6YKZB9 Lembre-se de responder o formulário dos leitores, caso você ainda não o fez. LINK: https://forms.gle/1siu5axAFzaJn9LB6 Boa leitura.

Leona recebeu as férias de braços abertos. Foi um deleite acordar tarde na segunda-feira seguinte à despedida de Peter. Depois de alimentar os pássaros, Leona trabalhou tarde adentro. Gastou muito dinheiro no bar e no parque de diversões, o que, somado ao valor da bicicleta recém-comprada, estourou o seu orçamento. Para recuperar a sua fortuna, trabalharia sem parar pelas próximas semanas.

Após dezoito dias de economia, Leona merecia um luxo. Ela, então, escreveu uma carta para Simon e Verônica, convidando-os para ir ao cinema no fim de semana — "O fugitivo" estava em cartaz. Na carta, pediu para a dupla chamar Zeke – não sabia o endereço do orfanato do liberiano.

A resposta chegou em dois dias. Verônica escreveu o seguinte:

É melhor nos encontrarmos pessoalmente para conversar sobre isso, mas já vou te preparar: eu fui no orfanato do Zeke ontem para convidá-lo para o cinema, e a diretora me disse que o Zeke não é visto desde o último dia de aula. Ou seja, fazem vinte dias que ele não volta para casa. Ninguém sabe onde o Zeke está. Você chegou a vê-lo nesses meio-tempo? Por favor, diga que sim!

Eu e o Simon vamos estar na frente da Schoul amanhã (quinta-feira) às 9:00. O Simon está de folga e eu não trabalho pela manhã.

Esperamos você.

Verônica e Simon

Leona pegara a carta com tanto entusiasmo, e agora, conforme avançava na leitura, suas mãos apertavam o papel e seu sorriso se transformava numa expressão desassossegada.

Zeke desapareceu. Leona desejava ter uma resposta positiva para a pergunta de Verônica, todavia a última vez em que viu Zeke e o seu saxofone foi no palco em que ela própria o incentivou a subir. Leona não recordava de vê-lo saindo do bar.

Estava trabalhando quando recebeu a mensagem. Sua vontade era a de sair correndo por Belavista gritando o nome do liberiano até ter dor de garganta. No entanto, o senhor Levi havia saído para ir ao psiquiatra e para comprar os antidepressivos (ele não precisava mais de remédios para dormir, pelo menos). Leona não podia deixar a loja sozinha.

Com a ansiedade à mil, Leona andava de um lado para o outro, parando apenas para atender os eventuais clientes. Como almejava as habilidades investigativas de Sherlock Holmes, ou que no mínimo o famoso detetive fosse real.

Ela mirou a carta de Verônica. Sem raciocinar, Leona sentou na banqueta alta, apanhou um lápis da gaveta e começou a rabiscar, nas costas do papel, o retrato de Zeke. Absorta, caçava na memória os traços do rapaz, pondo empenho na tarefa de desenhar o rosto mais fidedigno.

XXX

Na manhã de quinta-feira, os três adolescentes se encontraram na Schoul. Leona estava tão ansiosa que acabou chegando meia hora mais cedo. Para a sua sorte, Simon e Verônica achavam-se em igual estado, e chegaram em menos de dez minutos, ambos com cara de quem não sabe o próximo passo. Felizmente, Leona bolara um plano. Mal os ingleses apareceram, Leona enfiou o desenho na cara deles:

— Eu fiz o retrato do Zeke. — Leona mostrou a ilustração. Estavam lá o sorriso ingênuo, os olhos gentis, o nariz aquilino e o queixo fino.

— Leona! — Verônica pegou o desenho, abismada. — Está muito bom. Por que nunca contou pra gente sobre o seu talento artístico?

— Não é nada demais. — Leona deu de ombros.

Verônica passou o desenho para Simon, que sugeriu:

— Podemos colar esse desenho em algum poste e...

Leona arquitetara uma estratégia melhor. Ela arrancou o desenho das mãos de Simon.

— Não. Vamos levar o retrato na delegacia e reportar o desaparecimento do Zeke. — Determinou Leona.

Simon e Verônica se entreolharam de um jeito que transparecia o descontentamento perante a ideia.

— Qual é o problema? — Irritou-se Leona. — Vocês não querem encontrar o Zeke?

— Queremos! — Apressou-se Verônica. Os irmãos se encararam outra vez, e então, com um suspiro de desistência, acataram.

Pegaram o bonde e desceram na parada mais próxima à delegacia de Belavista. O prédio era grande e antigo. Policiais entravam e saíam. Para serem recebidos, precisaram dar os nomes completos, a idade e o nome de um responsável maior de idade. Após fornecerem os dados, os três amontoaram-se em frente ao policial gorducho que atendia no balcão. O policial escrevia um pequeno texto em seu caderninho – Leona percebeu ser uma poesia.

— Posso ajudar? — O policial largou o caderninho.

Verônica abriu a boca, mas Leona foi mais rápida. Ela entregou o retrato ao policial pelo buraco em semicírculo na divisória de vidro que separava o atendente do público.

— Nós viemos reportar um desaparecimento, senhor. — Comunicou Leona com assertividade. — O nome dele é Zeke Yeager Duster. Ele desapareceu no dia vinte de novembro. Foi visto pela última vez no bar...

— Ei, ei, calminha, mocinha. — Pediu o policial entediado, analisando o desenho. Ele devolveu o papel. — Ouçam, faz apenas vinte dias que esse garoto sumiu. Esse orfanato nem nos procurou ainda. Na certa, o amigo de vocês está se divertindo por aí. — Com um sorriso tranquilizador que pouco escondida a displicência, o policial consolou-os: — Ainda é muito cedo para considerarmos um desaparecimento. Garanto a vocês que o... — O policial leu o nome no desenho. — Zeke volta em menos de quarenta e oito horas.

Os adolescentes trocaram olhares confusos e impotentes. Leona fitou o retrato sorridente, e ergueu os olhos assustados da folha para o policial preguiçoso. Com um rosnado afrontoso, ela se jogou no balcão, grudando o desenho no vidro.

— O ZEKE NÃO É ASSIM! — Enfurecia-se Lena. — O ZEKE NUNCA PASSARIA TANTO TEMPO LONGE! POR FAVOR, NOS AJUDE A PROCURÁ-LO.

O policial não se abalou.

— Mocinha, tire as mãos do vidro. — O policial solicitou com indiferença.

— EU NÃO VOU SAIR DAQUI ATÉ VOCÊS SE MEXEREM! — Gritou ela. — VOCÊS SÃO POLICIAIS, TÊM QUE NOS AJUDAR! VERÔNICA, SIMON, DIGAM A ELE!

Verônica resmungou um "por favor, nos ajude" muito manso, enquanto Simon se limitava a, sem olhar o policial nos olhos, crispar os lábios e fazer cara de paisagem — ele controlava, por meio de muita força de vontade, o seu gênio destrutivo.

— POR FAVOR, O ZEKE PRECISA DE AJUDA! — Clamava Leona.

A eldiana berrava e batia no vidro, tentando se fazer ouvida. Os policiais, cansados do chilique de Leona, agarraram-na pelos pulsos e a arrastaram à força para fora da delegacia, ignorando os protestos e os pedidos de resgate.

Outros dois policiais se encarregaram de acompanhar Simon e Verônica. O que levava a garota apertou o braço dela com força o bastante para fazê-la choramingar. Simon, enfim atingindo o limite da tolerância, defendeu a irmã:

— EI, CARA- SENHOR, QUEM VOCÊ PENSA QUE É PRA APERTAR A MINHA IRMÃ? SOLTA ELA!

— Cale a boca. — O policial que levava Simon deu-lhe um tapa na nuca. Simon espumava, mas conteve-se à contragosto. Segurar-se custou-lhe tanto esforço que seus ombros tremiam.

Os três foram expulsos da delegacia. Os policiais largaram Leona sem o mínimo de cuidado. Ela caiu de joelhos no chão de terra. O policial de Simon lhe deu outro tapa na nuca ao libertá-lo. E Verônica, assim que foi solta, alisou o vermelhão no braço.

— Procurem o amigo de vocês no puteiro. — Zombou o policial de Simon.

Nenhum deles ficou contente com o desfecho da história. Simon passou a mão na testa, Verônica abaixou a cabeça, e Leona, que desde criança detestava negativas, batia na estrada de terra o punho que amassava o desenho.

— OS POLICIAIS NÃO QUEREM PROCURAR O ZEKE PORQUE ELE É ELDIANO! — Rugia Leona num estado de raiva tão profundo que os irmãos não se animaram a interrompê-la. — SE O ZEKE FOSSE BELAVITENSE, JÁ ESTARIAM PROCURANDO POR ELE! MAS COMO ELE É UM ELDIANO ÓRFÃO, NÃO ESTÃO NEM AÍ! — Num ímpeto, ela se levantou e encurralou Simon, enfiando o dedo na cara dele. — POR QUE VOCÊ NÃO AJUDOU? VOCÊ ANDA POR AÍ SE ACHANDO O BRIGUENTO, MAS NA HORA DE PROTEGER O SEU AMIGO, VOCÊ NÃO FALOU PORRA NENHUMA! GRANDE COVARDE VOCÊ, SIMON!

Simon não abaixou a cabeça, mas não revidou, tampouco. A irmã respondeu por ele. Verônica se intrometeu entre os dois e abaixou o braço de Leona com um firme movimento, a encarando com uma severidade que Leona nunca a viu expressar.

— O Simon não disse nada, Leona, porque, se você faz um escândalo na frente da polícia, eles te jogam pra fora, como você viu. Mas, se o Simon e eu nos alterássemos igual você fez, nós iríamos direto pro caixão.

As palavras duras, e sobretudo aquele olhar soberano, impactaram Leona. Ela abaixou o dedo acusador e assim o manteve. Fazendo beiço, desviou o olhar e nada disse, mas estava claro para os irmãos que Leona se submetera por não possuir uma resposta, e não por ter entendido Verônica. Devido a este motivo, a inglesa se viu obrigada a acrescentar, tão objetiva e séria quanto antes:

— Os eldianos não são os únicos que sofrem.

— BESTEIRA! — Revoltava-se Leona. Que direito tinha Verônica de diminuir a sua dor, ou a de Zeke? Simon e Verônica não foram presos numa ilha cheia de titãs, e nem nasceram em uma colônia que os criava como porcos para o abate. — VOCÊS NÃO SABEM DE PORRA NENHUMA! MUITO OBRIGADA POR NADA!

Chutando a areia, Leona deu-lhes as costas. Verônica, arrependida da forma como falara com ela, tentou ir atrás da eldiana, mas Simon (que havia absorvido as palavras de Leona profundamente) impediu a irmã.

XXX

Leona foi direto para o viveiro. Lá, armou o saco de pancadas e o esmurrou até a morte. Seus pulsos e pernas doíam. Os pássaros a assistiam de cima, girando as cabecinhas. Um corvo berrava impacientemente — ele queria catar as migalhas de pão, mas Leona e seus pulos ininterruptos o impossibilitavam.

Descontando a raiva, Leona pensava na falta de consciência de Verônica. O que ela e Simon tanto sofriam, afinal? Simon foi chamado de carvão no bar, e daí? O que eram umas ofensinhas de nada sobre cor de pele, perto de todas as infelicidades que Leona sofrera desde os oito anos? E a cor deles nem era feia. A pele de Verônica era belíssima. Ela era linda com aquele cabelo cacheado, aquele nariz charmoso, aqueles olhos...

— ARGH! EU TE ODEIO! — Leona deu uma cabeçada no saco de pancadas. Seus socos e chutes perderam a graciosidade adquirida no treinamento. Leona começou a socar e chutar à esmo. — POR QUE EU SOU DESSE JEITO? A VERÔNICA É UMA MULHER! UMA MULHER! MULHER! E NEM É UMA GAROTA LEGAL! POR QUE EU NASCI TODA ERRADA? — Seu pé errou o alvo. Leona perdeu o equilíbrio e caiu de bunda. — Que raiva de mim... que raiva de mim... — Murmurava ela estirada no chão, de bumbum dolorido. Os pássaros a observavam com comicidade. Leona xingou-os: — O QUE ESTÃO OLHANDO, PÁSSAROS IDIOTAS? — Avançou no saco de sementes amarrado perto da porta, abriu-o e começou a atirar as sementes no chão. Os pássaros, piando de felicidade, desceram para comer, enquanto Leona esbravejava: — É ISSO O QUE VOCÊS QUEREM, NÃO É? SÓ PENSAM EM COMER, COMER, COMER, ANIMAIS BURROS! — Os pássaros faceiros dançavam e pulavam ao redor da garota, bicando as sementinhas.

Após alimentar os pássaros, Leona, carrancuda, apanhou o seu porta-moedas, guardou-o na mochila, e pôs a mochila na cestinha da bicicleta. Ela saiu empurrando a bicicleta pela porta dos fundos da loja de chás. O senhor Levi estava no balcão, esfregando uma xícara.

— Aonde você vai? — Perguntou ele.

— Vou na Landgraab ver a Verônica.

— Vai ir de bunda suja? — O senhor Levi arqueou a sobrancelha.

Sua calça estava poeirenta por causa do tombo. Fazendo beiço, Leona se limpou com as mãos. Ainda brava, ela levou a bicicleta para fora e se pôs a pedalar. Verônica nojenta, tirana, egocêntrica... foi má comigo, e eu é quem estou indo pedir desculpas! Exasperada, Leona rosnou, apertou o guidão da bicicleta com mais força e aumentou o ritmo da pedalada ao ponto de se erguer do banco. Eu sou uma otária. A verdade que Leona se negava a ver era: gostava tanto de Verônica, que não conseguia guardar rancor.

Estacionou na livraria do centro e perguntou à funcionária se tinha algum livro da Agatha Christie, a nova obsessão literária de Verônica. A garota possuía apenas um livro da autora, o romance de estreia chamado "O misterioso caso de Styles". Como prova de seu pedido de desculpas, Leona comprou o novíssimo "O assassinato de Roger Ackroyd".

Com o presente na cestinha, Leona pedalou para a Landgraab. Nossa, há quanto tempo não realizava aquele trajeto... sinceramente, não sentia saudade. Sofreu um desagradável calafrio no estômago ao contemplar a fachada azul solene e enjoativa do colégio. Resmungando, Leona amarrou a bicicleta no bicicletário e bateu no portão. O porteiro não a reconheceu.

Embora o ano letivo tivesse acabado, a enfermaria e a biblioteca da Landgraab continuavam abertas, pois ambas as salas tinham um propósito social para com a comunidade de Belavista. Alguns alunos estudiosos e sem dinheiro para adquirir livros visitavam a biblioteca nas férias. Já a enfermaria funcionava como uma espécie de postinho em miniatura. Dona Elis e Verônica realizavam somente procedimentos simples, como curativos e aplicações de vacinas.

Caminhar pelos corredores da Landgraab deveria incomodar Leona, mas não. Na verdade, ela reparava como aqueles corredores eram simples e normais com a ausência de cartazes infantis, bem diferente da aparência opressiva que Leona guardava na memória.

Agora, o que realmente fez o seu coração doer foi ouvir a voz de Verônica através da porta aberta da enfermaria. Engolindo em seco, Leona apertou o livro contra o peito. Ela podia não ser mais uma menininha fraca e assustada, mas, certamente, seu coração não evoluiu junto com os músculos e com a altura. Morrendo de medo de Verônica não aceitar suas desculpas (ainda que a inglesa não as merecesse), Leona encostou as costas na parede ao lado da porta. Respirando fundo, tomava coragem para entrar.

Acabou, sem querer, entreouvindo o diálogo de Verônica com uma paciente:

— ...eu vivo dizendo para o meu marido: Jack, tem que arrumar o telhado, tem que arrumar o telhado, tem que arrumar o telhado...

— Dona Irene, por favor, não se mova. — Pedia Verônica num acento profissional, bem diferente da adolescente inexperiente e vibrante que Leona conheceu naquela mesma enfermaria.

— ...e ele não me escuta. — Continuava a voz enfadonha de mulher idosa. — Quando chove, inunda o chão, por causa das goteiras. Cansei de aturar a preguiça daquele homem. Subi no telhado eu mesma. Você vê agora por que eu me machuquei? Eu caí na descida... pelo menos, as telhas estão nos trinques.

— Fico contente, senhora. — Parabenizou Verônica com simpatia educada. Depois, ela alertava: — Mas, é melhor tomar cuidado, viu? Na idade da senhora, quedas podem ser fatais.

Seguiram-se dez segundos de silêncio constrangedor. Leona sentiu a tensão do lado de fora.

— É verdade, dona Érica? — Dona Irene, descrente sobre a veracidade do conselho da aprendiz, questionou outra pessoa.

— O meu nome é Elis, senhora. — Respondeu a voz rouca da enfermeira-chefe. — Verônica está certa. Nada de subir em telhados.

— Meu Deus... — Entristeceu-se a dona Irene. — A idade chega para todos. — Então, ela aplaudia, com sincera surpresa: — Uau. Jovenzinha, confesso, quando vi que eu ia ser atendida por você, pensei que eu sairia daqui com o braço pior do que quando entrei. Você me surpreendeu. Que bom serviço você fez! Um digníssimo trabalho de branco!

Leona paralisou. Seu peito ferveu consoante traduzia o preconceito no "elogio" que a velha acabara de dar à sua amiga. Desde quando a cor de pele de Verônica era um indicativo das suas capacidades intelectuais?

Em resposta à idosa, Verônica deu uma risada mansa. O riso era convincente, Leona, porém, a conhecia bem; a risada era forçada.

— Obrigada, dona Irene. — Verônica agradeceu respeitosamente.

Se o emprego de Verônica a impossibilitava de se defender, Leona o faria – ah, ela defenderia sua amiga até o fim dos tempos! Entrou de supetão. A dona Elis, chocada com a invasão malcriada, censurou Leona com o olhar pesado. Já o olhar de Verônica era uma mistura de espanto com o reconhecimento natural que sentimos ao encontrarmos alguém amado por nós. Em contrapartida, a dona Irene, uma velhinha pequena e magrinha, de olhos doces e cabelos brancos, transparecia apenas confusão e curiosidade.

As reações das mulheres abalaram a determinação de Leona. A eldiana a segurou, embora não com a cólera de outrora. Apontando o dedo para a idosa, Leona começou:

— A senhora não pode dizer isso para a Verônica, ela

Dona Irene, à moda insensível dos idosos que não dão a mínima se os outros querem falar, fez uma involuntária cara de nojo compassivo. Ela pôs a mão boa no rosto e falou, cheia de pena:

— Minha nossa, jovenzinha, que nariz feioso você tem... O nariz dos eldianos é tão feio, pobrezinha...

A naturalidade da idosa ao ofendê-la desconjuntou Leona. Seu dedo parou no ar e ela se engasgou com as próprias palavras. Verônica sorriu de canto. Sem dar-se de conta, Leona leu a mente da inglesa tal qual o senhor Levi costumava ler a de Hange: "ah, Leona, deixa pra lá, é só uma velhinha."

Entretanto, Leona, por si própria e por Verônica, principalmente por Verônica, não iria deixar para lá.

— A senhora não pode falar desse jeito comigo e com a Verônica. — Determinou Leona duramente. — Não existem "trabalhos de branco", existem bons trabalhos, e só. E eu não tenho culpa de ter nascido com esse nariz. — Leona pôs o dedo indicador na ponta do nariz — Não faça eu me sentir mal por algo que eu não posso controlar!

Dona Irene piscava com inocência. Claramente, a idosa não via maldade nos seus apontamentos, tamanho era o preconceito enraizado em suas crenças e em sua moral. Ao menos, Leona gerou nela a dose ínfima de vergonha necessária para se desculpar:

— Puxa, desculpa se eu ofendi vocês. Eu só estava fazendo um comentário. Sabe, nós, pessoas velhas, não temos com quem conversar em casa. O marido não escuta, os filhos vão embora... aí acabamos falando com as pessoas de fora... — E a dona Irene se perdeu em seu monólogo de gente idosa.

Verônica e Leona entreolharam-se. Verônica ofereceu-lhe um pequeno sorriso de cumplicidade. Leona retribuiu. A dona Irene seguiu conversando, mas as garotas resolveram deixar o falatório para a dona Elis aturar. Com muita educação, no primeiro instante em que a dona Irene fez uma pausa para molhar os lábios, Leona e Verônica se despediram e saíram de fininho. A senhora mal notou a saída delas. Dona Elis, sim, reparou, e odiou as meninas por deixarem-na sozinha com a idosa falante.

— Obrigada por me defender. — Verônica agradeceu ao chegarem no pátio da Landgraab. Leona muito correu de valentões e de valentonas nessa extensa área externa fechada por muros.

Sentaram num dos bancos. O livro comprado por Leona achava-se em seu colo. Verônica havia reparado nele, mas nada disse, por achar que o assunto não lhe dizia respeito.

— Aquele elogio nojento. "Elogio", aquilo nem pode ser considerado um elogio. — Atestou Leona, dando um suspiro frustrado. Fitou os próprios pés, e então fez a pergunta que deveria ter feito pela manhã: — Isso acontece muito?

Verônica exibiu um sorriso triste.

— Alguém me subjugar, ou me julgar mal, por causa da minha cor, você diz? Acontece com uma frequência bem indesejável.

— Por quê? — Espantou-se Leona. Sem pensar, reclamou: — A sua pele é tão linda!

Verônica boquiabriu-se. A garota não estava acostumada a escutar elogios daquela natureza. Leona, enrubescendo, coçou a nuca e desviou o olhar. Verônica, por sua vez, mordeu o interior da bochecha durante as risadinhas envergonhadas que geralmente emitimos quando ouvimos um elogio súbito.

— Você é a primeira pessoa que diz isso pra mim. — Confessou ela. — Quer dizer, tirando a minha mãe... mas, mãe não conta.

Leona, ainda chocada com a sua própria ousadia, ofereceu como resposta uma pequena risada nasal – se começasse a listar todas as qualidades de Verônica, elas passariam a noite naquele banco. Querendo retomar o assunto anterior, indagou com honestidade:

— Por que as pessoas são assim contigo, Verônica? Eu não consigo entender.

— É uma questão meio histórica, eu acho. — Verônica deu de ombros. — É isso o que os mais velhos nos ensinam.

— Você não quer ensinar pra mim? — Leona pediu humildade sincera.

— Você quer ouvir mesmo? — Insistiu Verônica, duvidosa. A inglesa, tal como Leona, não gostava de falar sobre as dificuldades que o seu povo enfrentava e enfrenta.

— É claro.

— Bom... — Verônica mirava o chão. Sua mão direita brincava com o jaleco. Ao começar a explicação, ela abandonou a inquietação. — Em todos os livros de história está escrito que os marleyanos foram os que mais sofreram no império de Eldia, mas é mentira. Quem mais sofreu, na verdade, fomos nós, os negros.

"O nosso continente de origem, a África, foi o último colonizado por Eldia. Os negros eram arrancados de suas terras e vendidos como mercadoria. Os eldianos pensavam que os negros não eram humanos; achavam que nós não tínhamos alma. Na cabeça deles, nós não passávamos de uma espécie de macaco superdesenvolvido."

"Como eu falei, eles removiam os negros de suas terras à força e os vendiam para tudo quanto era lugar, principalmente para a Inglaterra (Eldia planejava transferir sua base real lá, não sei se você sabe). Na África existiam muitos povos, cada um com sua língua, e os eldianos misturavam as pessoas de diferentes localidades para garantir que elas não se comunicassem e bolassem fugas. Eldia comercializava os homens e as mulheres feito bicho, mesmo — macho e fêmea."

"Botavam os negros para fazer todo o serviço pesado... tudo quanto era serviço braçal, digo, trabalhos que exigiam pelo menos três homens, eles davam para um único negro. Os negros trabalhavam até a exaustão. Quando não serviam mais, eram jogados aos titãs. Os negros não tinham direito ao estudo, nem a uma casa..."

"Depois que Eldia caiu, os marleyanos tomaram o poder e escreveram a história do império eldiano pondo Marley como a principal vítima, já que Eldia tomou o país deles e tudo o mais... eles omitiram totalmente o sofrimento dos negros nos livros."

"Marley estava muito interessada nos titãs e em se vingar de Eldia. Depois da queda, os marleyanos empenharam-se em caçar e escravizar eldianos. E assim, os negros foram colocados para escanteio. Os negros estavam livres, enfim, mas era uma falsa liberdade. Como eles não tinham estudo, e como mal falavam eldiano vulgar ou marlês, ninguém queria contratá-los para serviços que não fossem os pesados. Os negros se viram obrigados a continuar trabalhando até colapsar, só que dessa vez — Verônica fez aspas com as mãos — por vontade própria. Claro, muitos se rebelavam..."

"O resumo do resumo é esse. — Verônica respirou fundo, cansada de falar. — Até hoje as pessoas brancas acham que nós, os negros, somos burros, que só servimos para arrastar ferro, que somos uns bandidos rebeldes... Você entende, Leona, por que eu precisei insistir tanto para trabalhar na Landgraab, e por que me preocupo com o meu irmão?"

Leona, que ouvira a tudo com toda a concentração do mundo, e sem nunca desviar os olhos de Verônica, sentia uma mistura de sentimentos. Raiva, remorso e empatia misturavam-se dentro dela. A história dos negros fora praticamente apagada dos livros em prol dos interesses de outras pessoas. A dor de Verônica era algo que somente ela, o irmão, e o resto de seu povo sentiam. Leona pensou em como aquele mundo gigante era cruel com alguns e tão benevolente com outros.

— Eu não sabia... — Lamentou Leona, arrependida do seu egocentrismo.

Verônica compreendeu o pedido de desculpas implícito.

— Não tem problema. Como eu disse, a história dos negros não é contada nas escolas. — Verônica consolou-a. Em seguida, animava-se. — Eu não ligo. O que eu vou fazer? Ficar sentada e chorando? Não mesmo. Vou é correr atrás dos meus sonhos. — Entoou ela com grande determinação. — Os pacientes e médicos brancos vão ter que me engolir!

— Caramba, Verônica... — Murmurou Leona. Seus olhos castanhos brilhavam admirados diante da personalidade inabalável da inglesa. Verônica era o tipo de pessoa que retirava forças dos obstáculos da vida, em vez de entregar-se. — Eu tenho certeza que você vai alcançar o seu objetivo. Quero cair mortinha, se você não se tornar a melhor médica desse país!

— Cruzes, Leona, não faça promessas tão radicais! — Verônica lhe deu um tapinha no ombro. Em seguida, meio constrangida, disse: — aliás... eu queria dizer, eu não concordo com aquela velhinha- digo, sobre o seu nariz. Eu o acho muito elegante.

Leona arregalou os olhos de choque e de consternação. Ficou tão absurdamente vermelha que cobriu o rosto com as duas mãos e balançou-o em negação. Por que Verônica brincava com os seus sentimentos?

— O que foi? — Verônica riu. — Eu estou falando sério, besta!

— E-eu comprei isso para você! — Anunciou Leona subitamente, atirando o livro no colo da amiga. Ela queria desesperadamente mudar de assunto.

— Huh? Não precisava... AAAH! — Verônica deu um grito fino ao abrir o embrulho e encontrar o novo suspense da Agatha Christie. Ela sufocou Leona com um abraço apertado. — OBRIGADA! OBRIGADA!

— De nada, Verônica. — Respondeu Leona num fiozinho asfixiado de voz.

— É novinho. — Verônica chapou-se com o cheiro de livro novo. — Ahhh!

Leona, sorrindo sem mostrar os dentes, abraçada aos próprios joelhos, observou com deleite as manifestações de paixão de Verônica pelo livro. A alegria, porém, não pendurou, pois uma parte de sua mente continuava voltando a Zeke, como se fosse uma afronta ao desaparecimento do amigo Leona estar aqui, rindo e dando presentes. Ela deu um suspiro desanimado.

Verônica, que aprendera a ler Leona tal qual Leona aprendeu a decodificar o seu repertório de expressões, entendeu o que se passava na cabeça dela. Verônica pôs a mão no ombro da eldiana. Leona olhou para ela.

— A ideia de espalhar retratos do Zeke ainda está de pé. — Sugeriu Verônica, sorrindo de maneira compreensiva. — Se você conseguir fazer mais alguns desenhos, Simon e eu pudemos colar os papéis por aí.

Daria trabalho, mas Leona poderia, sim, fazer mais retratos. Ela já tinha um pronto; só precisava copiá-lo para outras folhas pelo método do traçado – em que você faz um desenho novo por cima de um já finalizado. Usando essa técnica, faria uns vinte desenhos em doze horas. Com a ajuda de Simon e de Verônica, logo encheriam Belavista com cartazes de resgate.

Sorrindo, Leona assentiu.

XXX

Em razão da importante missão, Leona se trancou no quarto com uma xícara de café e dois sanduíches. Ela virou a madrugada desenhando. A noite desprovida de descanso valeu a pena quando, ao amanhecer, Leona contemplou a quantidade infinita de retratos espalhados pelo quarto – como não havia mais espaço na escrivaninha, Leona foi despejando os desenhos pelo chão conforme os terminava.

Escreveu, acima do rosto de Zeke, em letras grandes e legíveis: GAROTO DESAPARECIDO, e, logo abaixo: O NOME DELE É ZEKE YEAGER DUSTER. SE VOCÊ TEM INFORMAÇÕES DO PARADEIRO DESSE RAPAZ, CONTATE O ORFANATO e transcrevia, em letras grossas, o endereço que Verônica lhe dera. Na opinião de Leona, os cartazes estavam ótimos e cumpriam o seu caráter informativo.

Na cozinha, Leona preparou uma xícara de café cheia até a boca. Ela sentou no sofá e bebeu tudo num gole só. Serviu-se de mais. Na terceira xícara, o senhor Levi, que havia acabado de acordar – ainda vestia seus pijamas -, observou-a da porta de seu quarto.

— A sua cara não está nada legal. Você não dormiu?

— Não pude. — Respondeu ela com cansaço. — O Zeke desapareceu. Passei a noite desenhando cartazes.

— Hein? — O senhor Levi abismou-se. — Desde quando?

— O Zeke não é visto desde o dia do Peter.

— Nossa, bastante tempo. — Sensibilizou-se o capitão. — Eu vou fazer um chá da manhã de verdade para você, ok? Deixe alguns cartazes aí em cima, eu vou colar um na loja e dar outros para os clientes pendurarem.

— Certo. — Leona aquiesceu, dando um sorriso lânguido e agradecido. — Obrigada, senhor Levi.

O senhor Levi preparou ovos, pão torrado, café, e uma tigela de mingau, tudo só para Leona. Ela devorou o banquete com gula, agradeceu pela comida e avisou que iria voltar para os seus cartazes, pois ainda detinha de algumas horas até o horário marcado com Verônica. O senhor Levi tentou convencê-la a dormir, mas Leona recusou, alegando que não devia desperdiçar tempo.

Mais tarde, o capitão cozinhou um almoço igualmente reforçado. Bem alimentada, Leona trocou de roupa, lavou o rosto, e guardou os cartazes na mochila da escola. Ela se despediu do senhor Levi e se foi para a Schoul.

Verônica já a aguardava.

— Oi, Verônica.

— Leona! Você está parecendo um urso panda! — Surpreendeu-se Verônica. — Você não dormiu?

— Foi por uma boa causa. — Leona abriu a mochila.

— Nossa, os cartazes estão perfeitos! — Aprovava Verônica, analisando os cartazes. Ela aproveitou e, usando a fita que trouxera na própria mochila, colou um no portão da Schoul. — Pronto, nosso primeiro cartaz. — Em seguida, criticava Leona. — Você deveria ter dormido.

— Eu vou dormir bastante depois que acharmos o Zeke. — Disse Leona à guisa de "vamos focar no que realmente importa, por favor?" — Aonde está o Simon?

— Está trabalhando. Vamos encontrá-lo.

Simon era auxiliar de obras. Diferente do emprego de Verônica e do de Leona, o serviço de Simon não era frequente – só o chamavam quando a equipe precisava de reforço. Todavia, nos últimos meses, Simon, por não ser mais um mero novato, destacara-se em todas as funções a ele desempenhadas. Dessa forma, o construtor civil chefe começou a recrutá-lo diariamente.

Elas pegaram o bonde (aproveitaram para colar um cartaz dentro do transporte) e logo chegaram no serviço de Simon. A construção da vez era uma enorme estrutura de um andar que viria a ser uma nova escola. Lá, as meninas pediram permissão para falarem com Simon. O construtor concedeu.

No olho do sol, Simon carregava nos ombros caixas e mais caixas de material de construção. Ele respirava pela boca, e sua camisa achava-se amarrada na cintura. Simon mudou muito naqueles dois anos. Quando Leona o conheceu, Simon era um garoto grandalhão e bruto, mas ainda um garoto. Agora, ele se transformava num homenzarrão tremendo de forte, o que, combinado com o seu temperamento, certamente não daria num bom resultado.

— Oi. — Ele as cumprimentou ao largar a última caixa. Simon tirou um pano do bolso e esfregou a testa suada. — O que aconteceu?

— Leona fez os cartazes do Zeke. — Verônica contou. — Pode nos ajudar a colar?

— Se fosse ontem, teria dado muito bem. — A indireta acusadora era dirigida à Leona. — Vou ter que perguntar pro meu chefe se ele me dá a tarde de folga. Por sorte, acho que tenho uma sobrando. Já volto.

Simon voltou em menos de três minutos. O construtor chefe não ficou alegre em dar uma tarde livre a Simon depois de o garoto ter um dia de folga, contudo, como Simon trabalhou quinze dias seguidos nas duas últimas semanas, o homem, por lei, deveria liberá-lo. Simon pediu licença às garotas para tomar um banho. Ele retornou três minutos mais tarde, vestindo a roupa limpa que trouxera para usar no fim do expediente.

— Pronto. — Falou ele, arrumando a boina. — Podemos ir.

— Vamos logo. — Leona quase caiu desmaiada de sono no ínterim que Simon demorou.

Leona portava os cartazes, Verônica levava a fita, e Simon trazia o martelo e os pregos. Eles colaram o rosto de Zeke nos muros, nos portões, nas paradas de bonde, dentro dos próprios bondes, e nas portas dos cinemas e dos bares. Pregaram cartazes nos postes, nas árvores e nas cercas. Entraram em estabelecimentos com grande movimentação de pessoas e imploraram para colar o retrato de Zeke. Muitos gerentes permitiram, mas outros tantos negaram – um rosto eldiano prejudicaria a estética da decoração.

E assim seguiram tarde adentro. Leona, tombando de cansaço, lutava para manter os olhos abertos, pretendendo fechá-los somente quando não houvessem mais desenhos na mochila. Seus amigos, porém, preocupavam-se. A última gota para os ingleses foi o instante em que Leona, ao tentar pregar um cartaz, errou a martelada quatro vezes consecutivas.

— Chega por hoje... — Verônica comentou com o irmão. — A Leona nem está se aguentando em pé.

— Eu estou bem! — Insistiu ela numa voz exageradamente alta e grogue.

— Leona, amanhã, no meu horário de almoço, a gente cola o resto. — Propôs Simon.

— Não. Vamos terminar hoje. Eu consigo, juro que consigo! — Amanhã poderia ser tarde demais para Zeke. Precisavam espalhar cartazes até do outro lado da cidade. A segurança de Zeke estava em jogo.

Simon e Verônica percebiam que não faria bem a Leona continuar a empreitada. Ela protestou, mas não tinha forças para resistir aos puxões. Os amigos a arrastaram para a parada do bonde. Leona encontrava-se ranzinza e irritadiça, porém, a revolta logo se dissipou: Leona mal sentou e já apagou. Dormiu com a cabeça pendida, e sua mão, forte e fechada feito um gancho, agarrava a alça da mochila.

XXX

Zeke não voltou em quarenta e oito horas, como apontara o policial negligente. O verão terminou sem que os três amigos recebessem notícias do melhor saxofonista de Belavista.

Aquele ano letivo seria o primeiro do ensino médio. Isto é, depois desse, só haveriam mais dois pela frente até a formatura. Leona, entretanto, não estava animada para essa nova fase, embora estivesse empolgada para a volta às aulas, porque nutria a forte esperança de que Zeke estaria lá — para continuar orgulhando a avó.

No entanto, Zeke não apareceu no primeiro dia de aula. Leona, Verônica e Simon passaram as quatro horas fitando a porta, aguardando, a qualquer minuto, a aparição do liberiano. O segundo dia foi igual. Verônica e Simon continuavam esperançosos sobre o retorno de Zeke. Leona, contudo, tinha uma forte impressão de que não mais o veriam.

Zeke não foi o único a abandonar o colégio. O mesmo ocorreu com Simon, embora o inglês tenha feito o caminho reverso. Após três meses de aula, Simon começou a faltar três dias na semana. De acordo com o garoto (e confirmado por Verônica), estavam pintando muitas oportunidades de trabalho nas construções civis.

— Infelizmente, estudar não enche o meu bolso.

Era esse o argumento de Simon. E, de fato, o valor da diária enchia os olhos de qualquer garoto ou garota. Ele aumentou as faltas de três para cinco, até que Simon fechou um mês inteiro sem dar as caras na Schoul.

Verônica alegava que Simon vinha juntando dinheiro para "nós dois irmos embora dessa espelunca de orfanato, Nica". A esse ponto do ano, ele não era mais um auxiliar de obras comum, mas sim o braço do direito do construtor civil chefe, que confiava em Simon mais do que em qualquer outro trabalhador.

Simon não era o único estudante nessa migração escola-trabalho. Muitos empregos razoáveis aceitavam somente o diploma do ensino fundamental como pré-requisito, e por isso muitos adolescentes largavam a escola. A Schoul perdeu inúmeros alunos do primeiro ano do ensino médio, e Leona perdeu dois de seus três amigos.

Entretanto, Leona não perdeu amigos unicamente da Schoul. Oito meses após o sumiço de Zeke, os jornais explodiram com o anúncio de que Paradis derrotou o Médio Oriente. Não apenas aniquilaram as cidades costeiras, como tomaram o território e assassinaram os principais comandantes do ditador árabe. Chegou a notícia de que o primeiro navio paradisiano enviado ao Médio Oriente estava retornando à ilha e pararia em Belavista para abastecer.

Ao saber dessa notícia, Leona pedalou até o porto cedinho da manhã, a fim de rever Peter. Pretendia catá-lo na divisão que demarcava o terreno até onde era permitido aos civis se aproximarem das embarcações. O navio paradisiano chegou pelas nove da manhã. Leona o viu de longe: era um barco grande maltratado pela guerra, com a pintura branca descascando e um longo nariz pontudo quebrado.

Os jovens perversos que Leona conheceu estavam mudados. Atônitos e de olhos vidrados, os adolescentes seguiam o líder bebum (que no momento achava-se perfeitamente sóbrio) tal qual sonâmbulos seguem os instintos do sonho no meio da madrugada. Leona reconheceu a garota que lhe dera um empurrão – apenas parte dela voltou inteira; uma de suas pernas ficou no Médio Oriente. A vitória levou um número considerável de soldados do esquadrão do velhote, e Peter não estava entre os restantes.

Leona pedalou para a Schoul se perguntando qual terá sido o destino de Peter. Existe a possibilidade de ele ter sido escalado para vigiar as terras no Médio Oriente. No entanto, Leona descartava essa alternativa com o pessimismo das pessoas que estão acostumadas a receber notícias ruins. Ela sabia, dentro de si, que nunca mais veria Peter novamente.

Verônica sabia sobre Peter. Óbvio, não a história completa. Leona inventou a mentira de que, depois que Verônica e o irmão foram embora, o soldado desconhecido a atazanou até ela chamar o senhor Levi.

Leona e Verônica ficaram mais próximas do que nunca. Leona sentia medo de Verônica largar o colégio como Simon e tantos outros. Verônica, entretanto, a consolava anulando essa chance. A garota pretendia terminar os estudos e dar seguimento a eles na faculdade de medicina.

Em meados de outubro, num sábado em que passaram a tarde comprando sapatos novos, Leona, querendo estender a companhia agradável, convidou Verônica para passar a noite em sua casa, proposta a qual a inglesa aceitou – conhecia Leona há dois anos e nunca tinha ido em sua casa, tampouco visitado a loja de chás.

— O seu padrasto gosta de ser chamado de senhor ou de tio? — Questionava Verônica com expectativa ansiosa enquanto Leona abria a porta do apartamento.

— De senhor. — Ela imaginou a cara que o senhor Levi faria caso alguém o chamasse de "tio". — Chama ele de senhor Rivaille.

— Rivaille? — Verônica franziu as sobrancelhas. — Levi não é o último nome do seu padrasto?

— Não, Levi é o primeiro nome.

Verônica fez uma careta confusa.

— Por que você chama o seu padrasto de "senhor", e aí usa o primeiro nome?

Leona nunca tinha parado para pensar nisso. Desde que se entendia por gente, chamava o capitão de "senhor Levi", nunca de "senhor Ackerman" (o verdadeiro sobrenome de Levi) ou meramente pelo primeiro nome.

— Agora você me pegou.

— Como você é esquisita, Leona. — Verônica riu entredentes.

Assim que entrou em casa, Leona imediatamente retirou os sapatos e as meias. Verônica, prestando atenção nos costumes da dona do apartamento, a imitou. Leona a avisou:

— Você pode ficar de sapatos, se quiser. Eu tirei os meus porque gosto de andar descalça.

Encontraram o senhor Levi na sala. Graças a um telefonema, o velho capitão estava à par da vinda de Verônica. Por conseguinte, para o jantar, ele preparou uma panela de macarrão com frango e ervilhas, cujo perfume maravilhoso inundava o apartamento.

O cheiro da comida era tão bom que se sobrepunha ao do desinfetante que o senhor Levi esfregava no chão. Os olhos cinzentos e apáticos do capitão encontraram os de Verônica. A garota sorriu de maneira acuada. A frieza do senhor Levi sempre desconcertava as pessoas novas.

— Boa noite, senhor Rivaille. — Verônica cumprimentou-o com polidez. Ela trazia uma bolsa de roupas, a qual segurava na frente do corpo

— Boa noite, Verônica. — Disse o capitão à seu modo fleumático, e voltou ao trabalho.

O papo acabou aí. Verônica, que não estava acostumada com aquela discrição exagerada, associou o comportamento sisudo e fechado do capitão com implicância e antipatia. Leona riu do desconforto da amiga, e a convidou para o quarto. Quando ficaram sozinhas, Leona anunciou, sorrindo:

— Ele gostou de você.

— Huh? — Verônica apertou as sobrancelhas. — Tem certeza? Ele me deu um olhar tão feio.

— O senhor Levi é assim mesmo. — Se o senhor Levi não tivesse aprovado Verônica, ele teria olhado feio para a enteada, e não para a convidada. — Você vai se acostumar. Quer jogar alguma coisa? Damas, cartas...? Eu tenho um tabuleiro de xadrez, mas não sei jogar.

— Xadrez? — Verônica riu.

— Pois é. Não sei por que eu tenho isso. — Concordou Leona.

— Você já fez o dever de geografia? — A pergunta de Verônica era um convite.

— Ah, Verônica. — Leona deu de ombros. — Para que deixar para hoje o que eu posso fazer semana que vem?

Apesar da negativa inicial, Leona concluiu que, já que não estavam fazendo nada de interessante, valia a pena. Sendo assim, Leona apanhou seus cadernos e deu algumas folhas a Verônica, para que a garota pudesse copiar as respostas.

Verônica pesquisava as informações nos livros e Leona formulava as respostas e complementava-as com as anotações feitas em seu caderno. Entretempos, interrompiam os estudos para compartilhar alguma história engraçada da vida, ou simplesmente para reclamar dela, ou então para comentar as imagens no livro – havia duas fotos mostrando o antes e o pós-Revolta da torre Eiffel (Eren Yeager amassou-a).

Finalizavam a última questão do questionário quando o senhor Levi bateu na porta as chamando para jantar. Leona explicou que o capitão não gostava de comida dentro do quarto, e por isso jantariam na cozinha. Verônica alegou que o orfanato funcionava pelas mesmas regras.

Os pratos de macarrão aguardavam-nas. Na pia encontrava-se o prato sujo que evidenciava a refeição do senhor Levi. Verônica se sentiu constrangida pelo padrasto de Leona ter evitado comer com elas.

— O meu padrasto não desgosta de você. — Reafirmou Leona. — É que ele não quer atrapalhar as nossas conversas, por isso ele comeu antes.

As duas sentaram para jantar. Leona comeu com satisfação. Verônica também aprovou a culinária do padrasto da amiga, e fechou os olhinhos ante o tempero do frango. O macarrão do senhor Levi era tão delicioso que as adolescentes se focaram em saboreá-lo. Pouco conversaram durante a refeição. No fim do jantar, Verônica obrigou Leona a deixá-la lavar a louça.

No tempo em que Leona e Verônica jantavam, o senhor Levi preparou uma caminha ao lado da de Leona, para Verônica dormir. Como colchão, o capitão utilizou lençóis e colchas que Leona não estava usando, e separou dois cobertores para Verônica se cobrir.

Se Verônica aparentara choque ao encontrar o padrasto de Leona limpando a casa, agora quase caia para trás por descobrir a sua preocupação em preparar um espacinho somente para ela.

— S-senhor Rivaille, não precisava, sério. Eu posso dormir no sofá, sem problemas.

— No sofá? — Exasperou-se Levi. — É claro que não. Aonde já se viu?

— Que é isso, Verônica? — Estranhou Leona, completando a confusão do senhor Levi. — Se eu te convidei para dormir comigo, é óbvio que eu não vou te colocar no sofá.

Verônica continuava desconcertada. O sorriso trêmulo e enviesado que a inglesa deu parecia pouco à vontade. Leona achou esquisito pra caramba essas reações. O capitão, percebendo que sua presença atormentava Verônica, decidiu sair de cena.

— Bem, boa noite, meninas. — O senhor Levi mancou para a porta. Antes de sair, ele se voltou a Leona: — Smith, se vocês comerem de madrugada, limpem o que vocês sujarem.

— Claro, senhor Levi.

Depois que ele saiu, Verônica relaxou. Uma expressão meditativa se fez no rosto dela. Leona encarou-a com curiosidade. Aprendera a ler algumas particularidades da linguagem corporal e facial de Verônica, sabia que a amiga estava prestes a lhe contar alguma coisa.

— Eu nunca vi nada parecido. — Confidenciou Verônica em voz baixa, como se temesse a volta do senhor Levi.

— Huh? Parecido com o quê?

— Com o seu padrasto. — Replicou Verônica com obviedade. Em aparente desorientação, ela se deitou na caminha que o senhor Levi fez como se estivesse deitando numa mesa de pregos. — Eu nunca vi um homem limpando a casa, nem fazendo comida, e nem preparando camas para as meninas. Lá no orfanato, são as garotas que fazem tudo.

— Huh? — Leona piscou, aturdida. — Os garotos não fazem nada? Nem o Simon?

— Não. O Simon não sabe nem varrer.

Agora, tudo fazia sentido. A perturbação de Verônica se devia principalmente ao papel que o senhor Levi exercia dentro de casa.

Leona, em contrapartida, chocou-se ao saber que Simon não ajuda nas tarefas domésticas. O baque, é claro, converteu-se em zanga. Leona não fora criada dessa forma. Ela cresceu vendo o senhor Levi cozinhar e limpar para ela e para Hange. Não que Leona não ajudasse em casa, mas quando o senhor Levi ia visita-las, essas funções sempre cabiam a ele. Ademais, os outros homens do quartel também eram assim – o senhor Levi os fazia limpar o quartel-general de cabo a rabo.

— Por que você não obriga o Simon a te ajudar? — Sugeriu Leona num tom exigente e com um toque de julgamento.

— Eu... — Verônica desviou o olhar. As próximas palavras pareceram uma mentira verde: — É que ele não sabe fazer. Se eu faço sozinha, termino mais rápido.

— Eu acho que nunca é tarde para aprender.

Respondeu Leona com simplicidade. Ela foi até o armário, apanhou o pijama e avisou que iria se trocar no banheiro. Nesse entretempo, Verônica se trocou dentro do quarto de Leona, de maneira que, quando a eldiana voltou, a inglesa vestia uma camisola amarela.

Leona desligou a luz elétrica e subiu em sua cama pelos pés do colchão – a caminha de Verônica fora feita ao lado da sua; Leona teria que passar por cima dela caso fosse subir pela lateral. Se enfiou em baixo dos cobertores e, deitando-se de lado, fitou a amiga no chão. Verônica, de barriga para cima, mirava o teto de testa franzida, como se enfrentasse um conflito interno.

— Você está bem?

— Estou pensando no que você disse. — Respondeu Verônica, fitando Leona. — Eu nunca parei para questionar por que os meninos do orfanato não ajudam na limpeza e na cozinha. Acho que nunca fiz isso porque sempre foi assim na minha casa. Sempre era a mamãe quem limpava, quem cozinhava... o papai nem colocava o copo sujo na pia.

Leona se arrependeu do tom acusador que usara com ela minutos atrás.

— A culpa não é sua. A culpa é deles.

— É... — Considerou Verônica. Ela respirou fundo e tornou a olhar o teto, como se refletisse sobre um assunto importante. — Me diz uma coisa, o que você lembra sobre o seu pai?

— Nada. — Disse Leona, também olhando para o teto. — Não o conheci. Ele morreu antes de eu nascer.

— Puxa... — Falou Verônica vagamente. — O meu... ah. — Verônica deu o suspiro aliviado e cansado de alguém que passou por um dia difícil. — Estou feliz que ele não sobreviveu à Revolta.

Surpresa, Leona moveu a cabeça para olhar, pelo canto do olho, a amiga deitada. Nunca ouviu alguém falar com tanta frieza sobre a morte do próprio pai. Quer dizer, pelo menos não a de um pai que conviveu com os filhos por oito anos. Com delicadeza, porém com um toque de curiosidade, Leona indagou, baixinho:

— Por que você diz isso?

— O meu pai não era uma pessoa boa. — Refletia Verônica, enrolando o dedo nos cachos do cabelo. De súbito, sua voz tornou-se ansiosa: — Nunca diga essas coisas ao Simon, tudo bem? O Simon ama o papai... — Em seguida, Verônica voltava ao tom de reflexão. — Também, o papai só era bom pro Simon. Ele levava o Simon para jogar bola, para o parque, agora, eu... nunca me levou à lugar nenhum. — Verônica bufou de indignação. — Nem eu e nem a mamãe. Eu lembro de ver o papai e o Simon saírem cedo para pescar. Eu ficava na janela chorando pra ir junto, mas o papai dizia que pescar não é coisa de menina, e que era pra eu ficar em casa ajudando a mamãe.

— Que horror! — Indignou-se Leona, apoiando-se no cotovelo. Com um pai desses, ninguém precisa de inimigos. E pensar que na infância Leona achava o senhor Levi o pior dos piores. — Isso lá é um motivo decente!? Pra mim, é crueldade pura!

— Concordo. — Continuou Verônica. — Às vezes, eu penso... se ele estivesse vivo, tenho certeza de que ele não me apoiaria no meu sonho de ser médica. Ele iria querer que eu me casasse e desse netos a ele... era isso o que ele me dizia na Inglaterra.

— Besteira. Ninguém é obrigada a ter filhos, e nem a se casar. O seu pai foi terrível em exigir coisas que só cabem a você escolher. — Solidarizou-se Leona em meio à fúria.

— Obrigada. — Verônica sorriu. — Não tem importância. Ele já morreu.

Um silêncio curto se fez entre elas. Leona intercalou:

— E a sua mãe?

— A minha mãe conseguiu se salvar da Revolta. — Ao contrário de quando conversava sobre o pai, Verônica sorria ao mencionar a mãe. — Quando a notícia sobre Paradis chegou, Simon e eu estávamos em casa com a mamãe. O papai estava fora, enfiado naqueles jogos de azar... Mamãe correu comigo e com o Simon para os navios e conseguimos nos salvar. — O sorriso de Verônica tornou-se triste. — Mas ela não viveu por muito tempo aqui em Belavista. Ela ficou doente uns anos depois... pneumonia. Eu tinha dez anos, o Simon tinha onze. — Por incrível que pareça, Verônica não transparecia desolação ao narrar a morte da mãe. O motivo veio a seguir: — Mas, mesmo doente, ela estava feliz... sinceramente, eu nunca vi a mamãe tão feliz, como a vi aqui em Belavista.

— Acho que ficar longe do seu pai fez bem a ela. — Arriscou Leona. Na hora, temeu que Verônica se ofendesse, mas a garota apenas riu.

— É isso o que eu penso.

Sorrindo sem mostrar os dentes, Leona voltou a olhar o teto. Se tivesse escolhido a Schoul, em vez de ter cismado com a Landgraab, ela teria conhecido a mãe de Verônica. Alguma coisa em seu interior dizia à Leona que teria gostado da mãe de Verônica. Simultaneamente, tinha certeza de que Hange amaria a sua amiga.

— A minha mãe morreu na Revolta, infelizmente... É uma pena, você iria gostar dela, Verônica. — Comentava Leona, sonhadora. Ela se lembrou do quartel, do relincho dos cavalos, da marcha dos soldados, do cheiro da estrada de terra nos dias de chuva... lembrou-se de quando Hange lhe contava fatos científicos para ajudá-la a dormir, e de quando buscava o amor dela nos momentos de dor. — A minha mãe era a mulher mais doce e inteligente de Liberio. — Buscando uma profissão que se assemelhasse às múltiplas funções que sua mãe desempenhava em Paradis, Leona inventou: — Ela era professora de ciências. Eu juro, Verônica, não tinha ninguém, nem em Marley e nem em Liberio, que soubesse tanto de ciências quanto a minha mãe.

Leona queria contar a verdade. Queria contar sobre a sua mãe ter sido a comandante de Paradis e a principal cientista de titãs da sua geração. No entanto, é óbvio, Leona não podia dizer nada disso a ninguém, nem mesmo à sua melhor amiga.

— Que legal! — Verônica deitara-se de lado e olhava Leona de baixo, com atenção. — Você tinha a obrigação de ser a melhor da turma em ciências, garanto.

— Rá! — Riu Leona. — Minha mãe não tolerava notas vermelhas, nenhumazinha, em qualquer matéria. Ela me alfabetizou em casa, inclusive. Eu já fui para a escola sabendo ler e escrever. — Leona devaneava, incorporando mentiras às verdades do passado: — Ela era uma professora maravilhosa. Minha mãe tinha graduação em biologia, em química e em física, e estava estudando mecânica, antes da Revolta. Ela sabia de tudinho. E era uma boa líder, também! Ela poderia ter sido diretora, se quisesse.

— Uau! — Os olhos de Verônica brilharam de admiração respeitosa. — Quem me dera ter uma professora assim. Aposto que todos os alunos gostavam dela.

À menção dos "alunos", a imaginação de Leona voou longe. Ela recordou Armin, Mikasa, Sasha, Jean, Connie... todos os soldados em quem sua mãe mandava. Até o senhor Levi abaixava a cabeça quando Hange entrava em cena.

— Sim! Minha mãe era muito amada e respeitada. No ensino médio tinha um aluno de cabelo loiro, assim, da cor do meu, ele era o melhor da turma, tentava agradar a minha mãe... e havia outro aluno bem alto, de barba e cabelo comprido, que muitas vezes ficou no comando da turma quando a minha mãe saia... e também

Leona engasgou-se de repente. Ela falou de Armin e de Jean. O próximo da lista, porém, não representava boas lembranças. Por impulso e por associação, Leona iria falar de Eren, o quase-irmão de Armin e o quase-rival de Jean. Leona engoliu em seco perante a memória que inundou sua mente que, devido ao momento de imaginação fértil, reproduziu a recordação em cores e com som.

O brado masculino reverberou dentro de sua cabeça (ME DIGA, COMANDANTE HANGE ZÖE, QUAIS SÃO AS OUTRAS OPÇÕES?). Num pulo, Leona sentou-se com as mãos apoiadas no espaço entre as pernas dobradas. Como ocorreu naquele dia, ela sentiu a bexiga afrouxar. Mordendo o lábio, segurou a vontade de urinar.

— Ei, você está bem, Leona!?

— Estou... — Murmurou Leona, pondo a mão na cabeça. É claro, aquele trauma estava guardado nos confins do seu ser há quase uma década. Óbvio que, ao começar a falar de Hange, essa memória soberana iria se impor. — É que eu lembrei de uma coisa que não gosto de pensar...

— Em quê? — Perguntava Verônica, usando a mesma delicadeza curiosa com que Leona lhe perguntara sobre o seu pai.

Leona avaliou Verônica e a si mesma. Nunca contou a ninguém sobre a violência que presenciou na prisão aos sete anos de idade. Aquele episódio aconteceu pouco antes da morte de Hange, e foi o tema dos principais pesadelos de Leona desde então. Nem o senhor Levi sabia do episódio.

Contudo, não mais suportava guardar esse segredo. Já abrigava segredos demais em seu jovem coração, tantos e tantos que chegava a sufocar. Esse segredo em específico precisava ser compartilhado, ou acabaria explodindo de amargura.

— Quando eu tinha sete anos, eu vi um homem bater na minha mãe. — Começou Leona, fitando as palmas das mãos trêmulas. — Não era qualquer homem... era um dos ex-alunos dela. Quando penso sobre isso, que o homem que bateu nela na verdade lhe devia respeito por ela ter sido sua professora, mais raiva eu sinto. Era um homem grande... muito grande... ele pegou a minha mãe pela camisa e a sacudiu bem forte, machucou ela... — Conforme falava, o medo retornava. Leona empalideceu. Ela respirava em arfadas pesadas. Seu peito palpitante subia e descia. Recordava com clareza daquele braço levantando Hange e batendo o corpo dela nas grades da cela como se ela fosse uma boneca de pano. Sua boca continuou a narração – agora que começou, não mais conseguiria parar. — Eu não fiz nada para protegê-la. Eu estava lá, bem do lado, e não fiz nada. — Repetiu Leona, dando uma risada engasgada e nervosa. — Sabe o que foi que eu fiz, Verônica? Eu fiz xixi nas calças.

— Leona, não fale desse jeito.

Verônica advertia mansamente, como quem tenta acalmar, e tomou a mão de Leona, segurando-a firme entre os dedos. A mão de Leona, gelada feito a de um cadáver, entrou em contato com a pele quente da outra garota. Leona, que não esperava aquele gesto de carinho, quase repeliu o contato, mas o seu coração traumatizado necessitava daquele conforto.

— Você não ouviu, Verônica? — Choramingou Leona em voz embargada. Estava prestes a chorar – nossa, como andava chorona ultimamente, puta merda. — Eu não fiz nada para ajudar a minha mãe, eu deixei ela apanhar...

— Você tinha sete anos! — Verônica interrompeu-a com firmeza. — Você era uma criancinha, o que você poderia ter feito contra um homem?

Por mais verdade que fosse, Leona, graças àquele doloroso sentimento antigo de culpa, não conseguia ver a razão. Se tivesse protegido Hange, talvez os eventos seguintes discorressem de forma diferente. Quem sabe sua mãe tivesse confiado em sua coragem para leva-la à Revolta, em vez de abandoná-la na fazenda, e aí, quem sabe, durante a batalha, Leona conseguisse salvar a sua mãe da morte... Com a cabeça pegando fogo e o peito ardendo, Leona virou o rosto para o outro lado, se negando a encarar Verônica (e a verdade). A inglesa apertou a sua mão, e repetiu, na mesma entonação firme:

— Leona, você não pode mudar o passado.

— Eu sei. — Fungou Leona, mais para não deixá-la falando sozinha do que por aceitação. — Mas eu queria tanto que tivesse sido diferente...

Verônica a olhou por um longo e silencioso segundo, e então, à meia-voz, confessou:

— Eu passei por algo parecido.

A resposta de Leona foi um olhar indagador. No quarto escuro, viu o brilho das lágrimas nos olhos de Verônica. A inglesa limpou-as com o pulso. Ao retomar a fala, Verônica descreveu a seguinte história:

— O papai era viciado em jogos de azar, como falei. Ele saia para jogar aos sábados à noite. Se o papai voltasse na madrugada de domingo, nós já sabíamos que ele tinha vencido, e que a semana ia ser tranquila e sem estresse. Mas, quando nós acordávamos sem o papai em casa, era certo que só o veríamos na madrugada de segunda, e que ele não estaria nada contente.

"Quando o papai não voltava, a mamãe dormia no nosso quarto, num colchão velho no chão. Eu e o Simon dormíamos num beliche, eu em baixo e ele em cima. Ela sempre trancava a porta... eu nunca entendi o porquê. Então, numa madrugada de segunda (não recordo a minha idade, devia ser sete anos), eu acordei com vontade de beber água. Quando voltei, esqueci de trancar a porta. Não sei que horas eram, mas a mamãe e o Simon já estavam dormindo."

"Algumas horas depois, acordei com o barulho de alguém gemendo bem baixinho... sabe quando a gente quer chorar sem fazer barulho? Assim que eu abri os olhos, vi o meu pai em cima da minha mãe. Ele estava... — Aqui, a voz de Verônica engrolou-se. Ela continuou com dificuldade: — ...batendo nela, só que não dava de ouvir nada porque ele enrolou um pano nas mãos. A minha mãe não se defendia... ela só tentava ficar em silêncio. Só depois de grande fui entender que ela não queria que eu e o Simon acordássemos e a víssemos apanhando do papai."

As palavras "do papai" foram pronunciadas num soluço molhado. Em segundos, Verônica estava imersa em um choro barulhento de criancinha. Ela tentava dar seguimento ao relato, mas os soluços não a permitiam. Leona, sem pensar duas vezes, se ajoelhou na caminha da amiga, e de pronto a abraçou.

— Eu também não protegi a minha mãe, Leona... eu fechei os olhos e fingi que estava sonhando!

— Eu sinto muito, Verônica. — Gemia Leona, apertando Verônica em seus braços. — As nossas mães não mereciam nada disso.

Verônica chorou com o rosto enterrado no peito de Leona. E Leona, abraçada a ela, chorou também. Choraram pela dor da outra e por seus próprios traumas. Aquele elo invisível que une garotas floresceu entre elas. Ambas sentiam a compaixão sincera, bem como o consolo da certeza de que compartilhavam uma dor íntima que nunca abandonaria aquelas quatro paredes.

Aos poucos, Leona, a primeira a se recuperar, parou de chorar. Verônica continuava amolada. Respeitou o tempo da amiga. Sua mão subia e descia pelas costas da garota num carinho consolador e paciente. Sem parar de chorar totalmente, Verônica falou, com o rosto deitado no ombro de Leona:

— Eu já tentei conversar com o Simon sobre essa noite um milhão de vezes, mas ele diz que não lembra, diz que eu inventei... mas, eu conheço o meu irmão. Ele também viu. Só que o Simon se nega a acreditar... ele era apaixonado demais pelo papai. O vê como um herói, um exemplo... — Verônica fungou. — Isso me assusta um pouco... é até meio difícil olhar para ele hoje em dia. A cada ano que passa, toda vez que eu olho pro Simon, eu vejo o nosso pai nele.

Leona não tinha uma resposta com palavras para essa reclamação. Portanto, apenas abraçou Verônica com mais força e intensificou o carinho. Resmungou, tentando a consolar:

— O Simon é um... — Leona queria dizer "arrombado" — ...bobo, por não acreditar em você.

— Eu sei. — Cessando o choro, Verônica se afastou de Leona. Ela tornou a se deitar. — Ele está com planos de voltar para a Inglaterra e me levar... eu não sei se vou.

À pronúncia de "voltar para a Inglaterra", Leona estremeceu dos pés a cabeça. Ela estava voltando para a sua cama quando Verônica contou essa informação. Para a amiga não ver o seu descontentamento, Leona se deitou de frente para a parede. Porém, quando Verônica complementou com o "eu não sei se vou", Leona prontamente virou-se (agora tentando esconder o alívio).

— O Simon é tudo o que me resta. Eu não tenho mais ninguém. Mas, por outro lado, não quero voltar à Inglaterra... tenho recordações tão ruins daquele lugar... Eu não sei o que vale mais a pena: ficar aqui sozinha, porém feliz, ou ficar na Inglaterra, acompanhada e infeliz.

Se antes Verônica tomara sua mão, agora Leona fazia o mesmo. Esticou o braço para fora da cama e alisou, de levinho, com as pontas dos dedos, as costas da mão da amiga. Verônica levantou o braço e permitiu o carinho. As duas se entreolharam. Os olhos de Leona brilhavam tanto pelo choro recente quanto pelo amor que sentia por Verônica.

— Se você resolver ficar em Belavista, saiba que você não estará sozinha. — Afirmou Leona, sorridente e confiante. — Eu vou estar aqui com você.

Verônica deu um sorriso tão bonito que a pele de Leona se arrepiou.

— Leona, obrigada por estar comigo.

— Eu quem agradeço, Verônica.

Elas voltaram a deitar de barriga para cima, porém, nenhuma delas fez questão de soltar a mão da outra. Leona, olhando para o teto, concentrava-se em sentir a maciez da pele de Verônica sob as falanges. Ah, como amava aquela garota. Fechou os olhos, sorrindo. Estava tudo bem, se Verônica não a amasse de volta. Segurar a mão dela era mais do que o suficiente.

XXX

Leona acordou antes de Verônica. Adormeceram de mãos dadas, no entanto, durante o sono pesado, acabaram se separando. Verônica dormiu com a mão repousada fora da caminha, e Leona com o braço pendurado. A eldiana sentia uma desagradável dor muscular por ter dormido com o braço esticado no ar.

Ao ir para fora, Leona percebeu, pelo sol, que eram quase onze horas da manhã. O senhor Levi deixara na mesa o café da manhã protegido por uma redoma de vidro. O prato e a xícara dele estavam na pia para Leona lavar – o trato da casa era um-cozinha-o-outro-limpa.

Resolveu esperar Verônica acordar, assim poderiam comer juntas. Enquanto esperava, Leona foi tomar um banho rápido, no qual sonhou acordada sobre a noite trágica e ao mesmo tempo maravilhosa. Ao sair do banheiro, encontrou Verônica já vestida no corredor. A inglesa apoiava-se na janela que dava para o viveiro.

— Nunca vi tantos pássaros. — Comentou ela.

— Gostou? Nós preparamos o pátio pra eles fazerem ninhos. Tem uns casais que estão conosco desde que nos mudamos.

— Muito legal!

Foram tomar o café da manhã. Comiam em silêncio — não havia muito a ser dito. Por ora, nenhuma delas mencionou a noite. A expressão tranquila no rosto de cada uma mostrava que não precisavam de nem uma palavra.

— Vem, vou te mostrar a loja do meu padrasto. — Convidou-a.

Desceram pelos fundos. A loja estava aberta. No salão achavam-se alguns clientes, e também estavam lá a senhora Marper, o senhor Onyankopon, Gabi e Falco. A visita da senhora Marper já era rotina, mas os outros três não os visitavam há alguns meses.

— Que surpresa! — Cumprimentou-os Leona, animada. — Gente, essa é a Verônica, a minha melhor amiga.

— Bom dia! — Verônica acenou.

Os visitantes responderam com cumprimentos igualmente cordiais. Os convidados estavam sentados na mesma mesa, tomando chá e escutando o rádio da senhora Marper – ela trazia o rádio às vezes, para o senhor Levi ouvir as músicas. Por falar nele, o velho capitão estava atrás do balcão, organizando a caixa registradora. A saudação dele foi um movimento de cabeça.

— Gabi, Falco, como está a vida de casados? — Perguntava Leona ao mesmo tempo em que mostrava os chás importados a Verônica.

— Muito bem. — Assegurou Falco. — Nós arrumamos uma cachorrinha.

— É. — Gabi não parecia feliz. — Mas já avisei, quem vai cuidar dela é você. — E pôs o dedo no peito de Falco.

— Ah, Gabi, não banque a durona, vocês duas até dormiram abraçadas essa noite...

À exceção do senhor Levi, todos os presentes riram. No rádio tocava a canção motivacional "algumas mudanças serão feitas", das irmãs Boswell. Todos apreciavam a música, sobretudo quando o ritmo lento tornou-se acelerado e dinâmico. Até o senhor Levi murmurava a letra para si mesmo.

— Senhor Onyankopon. — Veio dizendo Leona quando, após mostrar os chás raros à Verônica, a trouxe para sentar com os seus amigos. — A Verônica nasceu na Inglaterra, igual ao senhor.

— É mesmo? — Interessou-se o senhor Onyankopon. — De qual parte da Inglaterra você veio?

— Ah, meu irmão e eu viemos de Londres. — Respondeu Verônica, cortês.

O senhor Onyankopon ia acrescentar alguma coisa, no entanto, o chiado do rádio interrompeu-o. O som rançoso e cortante assustou os presentes que não esperavam o fim prematuro das irmãs Boswell. A senhora Marper, nervosa, mexeu nos botões em tentativas de arrumar o rádio. O senhor Onyankopon avisou que o problema era na estação, e não no aparelho.

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A música das irmãs voltou e sumiu duas vezes até que, por fim, uma voz masculina e grave a substituiu. Dava para perceber, pelos efeitos sonoros e pelas vozes ao fundo, que o locutor não conseguia segurar o microfone corretamente. O homem informou, perturbado:

— Comunicamos a todos os ouvintes que a rainha Historia, monarca de Paradis, foi assassinada pelo próprio povo. A facção Yeager declara-se a nova governante de Paradis. Que Deus nos proteja!