Veneno e vinho
10 Capítulo 9
Notas iniciais
Elise acabava de arrumar sua maquiagem para o grande dia. Hoje ela estrearia – oficialmente – no palco do Django. Estava animada para o seu primeiro número como principal dançarina e ainda cantaria alguns versos com sua voz aveludada.
Ao seu lado, uma latina bastante chateada, ajeitava silenciosamente seus cachos amarronzados.
Katherine não faria parte da apresentação. Por mais que Constance tentasse fazer com que a morena se entendesse com a loira, ela não conseguia engolir o sucesso repentino de Elise. Era inadmissível para a latina que a outra caísse de paraquedas no cabaré e fosse colocada em um pedestal por todos.
Além disso, ela tinha certeza que Adam a deixaria assim que conseguisse uma chance com a novata.
— Kath, onde está Adam? — Demetria questionou, chegando ao cômodo e quebrando o silêncio.
Recebeu um olhar mortal da morena e sorriu de lado. Irritá-la era um de seus passatempos favoritos e agora que tinha a deixa certa para fazê-lo, tudo se tornava ainda mais fácil.
— Eu não sei onde ele está... — Ela respondeu baixo. — Talvez aplicando um de seus golpes. Vai saber.
— Pois é. Deve estar na cama com alguma ricaça da cidade.
— Demetria... — Katherine advertiu.
Ela olhou uma última vez para a ruiva, antes de largar o pente que segurava e sair do camarim.
— Não deveria irritá-la desse jeito, Demetria. — Elise comentou.
— Ah, ela merece!
— Mesmo assim. Katherine tem sangue quente, ela pode fazer alguma loucura. Não é bom provocá-la.
— Ora, não dê uma de santa, Rivers. Sabemos que você está de olho no homem dela.
— O quê? Adam? — Elise gargalhou. — Quero distância daquele ali.
— Me engana que eu gosto! — Demetria disse com ar de riso. — Se apresse, iremos entrar em cinco minutos.
A loira respirou fundo. Não gostou nada da atitude da colega. Esse assunto a tirava do sério e mesmo que não admitisse, Adam a desestabilizava de uma maneira inexplicável.
Olhou para si mesma no espelho. Estava deslumbrante.
— Hora do show! — Sussurrou para o seu reflexo e saiu em direção ao palco.
Todas as meninas já estavam concentradas na coxia. Algumas se alongavam e outras batiam papo, até perceberem a presença de Elise.
— Uau! Que arraso, hein, Rivers? — Uma das dançarinas soltou, tendo o aval de todas as outras.
— Meninas, não me deixem com vergonha.
— Querida, se quer mesmo essa vida pra você, vai ter que aprender a ser totalmente sem vergonha.
Todas riram e o sinal que a apresentação começaria foi dado com a voz de Dough ecoando pelo salão.
— Senhores, temos o prazer de vos apresentar a mais nova deusa do Django. A jovem, belíssima, encantadora e deliciosamente talentosa: Elise White Rivers.
O anfitrião do luxuoso cabaré no centro de Chicago anunciou a atração da noite. Logo que ele terminou sua fala empolgada, o público masculino explodiu em palmas e gritos, para recepcionar a estonteante loira.
A cortina foi aberta e lentamente a silhueta da mulher ficava distinta no pequeno palco. Seu longo vestido vermelho, justo ao corpo e com uma enorme fenda em sua perna direita, levou todos os presentes a aumentarem o som da ovação. As luzes diminuíram e o holofote focalizou na protagonista da noite.
Os belos olhos verdes misteriosos pareciam combinar perfeitamente com a luxúria explícita de seu batom vermelho-sangue. Os cabelos loiros presos na lateral e levemente ondulados deixavam todo o visual mais provocante. Ela tinha a sua frente um clássico microfone prateado, suspenso por um pedestal.
Sua mão enluvada por um pano vermelho e ostentando um grande número de joias, envolveu delicadamente o objeto. Aos poucos, ela aproximou os lábios do microfone e a voz rouca ecoou pelo ambiente, dando vida a uma canção bastante popular.
Os primeiros versos eram lentos e exploravam a voz aveludada da jovem. Uma voz capaz de deixar todos hipnotizados. Logo depois, a música ganhou o seu ritmo habitual. As outras dançarinas, com vestidos flanelados na cor preta, subiram no palco e cercaram a cantora. Elise ficou nervosa nessa parte. Teria que trocar de roupa rapidamente, enquanto as mulheres lhe davam cobertura ficando ao redor de seu corpo.
Ela tirou o vestido longo e deixou o micro flanelado à mostra. Com uma alça só e muito brilho, a peça se tornou ainda mais sedutora, mostrando a meia-calça e a cinta-liga de Elise propositalmente.
Nesse momento, a performance é cheia de danças, mas não perde o nível provocativo e sensual da coisa. Deixando os homens animados e jogando dólares aos montes em cima do palco. Assim que aquilo terminasse, todos dariam a sua melhor proposta visando conseguir uma noite com a loira. Sem saberem eles que a jovem era apenas uma talentosa dançarina.
Um cliente em especial ficou fascinado por Elise. E não era qualquer cliente. Era um Duque. Um dos mais assíduos e respeitáveis frequentadores do Django. Ele sempre escolhia uma garota por vez e passava longos períodos visitando sempre a mesma cortesã. Porém, nenhuma delas conseguia fisgar o coração do solitário William.
Até aquele momento.
Ele estava encantado com a loira em sua frente. Ela parecia um anjo com seu rosto inocente, e uma grande tentação com seu corpo curvilíneo. Vagou seus olhos pelo salão, à procura de Constance e como não a achou, mandou que seu fiel empregado Pablo, saísse em sua procura.
Continuou a observar os movimentos de Elise até que o número acabasse. No final, ela abriu um sorriso satisfeito que não passou despercebido pelo nobre cavalheiro sentado em uma espécie de camarote particular.
Ela reverenciou o público e partiu para fora do palco.
{...}
— Procurava por mim, William? — Constance apareceu delicadamente no espaço reservado para o homem.
— Olá, Constance. É sempre um prazer encontrá-la.
Ele beijou o dorso da mão da senhora, como sempre fazia. Ela sorriu simpática e sentou-se ao seu lado.
— A que devo o chamado?
— Bom, eu queria questioná-la sobre uma de suas meninas.
— Oh! Vejo que finalmente interessou-se por alguém, querido Duque.
— Mais que isso! Estou encantado. — Ele disse alegremente. Pondo-se de pé. — Nunca vi tamanha beleza, delicadeza e sensualidade juntas. Era como se eu estivesse admirando uma obra de arte viva!
Constance já conseguia imaginar de quem ele estava falando.
— Creio que está se referindo a Elise, certo? A nossa estrela da noite?
— Isso! Elise. Que nome gracioso.
— Oh, Duque, é inevitável apaixonar-se por ela.
— Não é mesmo? Fico feliz por concordares comigo, Constance.
Ela assentiu.
— Porém, sinto informá-lo que, no momento, Elise apenas faz parte do nosso corpo de dança. Ela não presta serviços particulares.
A expressão no rosto de William chegou a ser engraçada de tão decepcionada. O homem encolheu os ombros e perdeu o brilho no olhar, deixando que em seus lábios formasse um bico de insatisfação.
— Não me diga isso!
— Infelizmente... Ela é jovem, inocente, ainda está aprendendo a se virar nesse mundo.
— E se eu tentasse cortejá-la de forma indireta?
— Dando-lhe presentes e agrados? Talvez a impulsionasse a algo, mas não é nada garantido.
— Mas eu devo tentar, certo?! Preciso daquela maravilha em meus braços, Constance.
— Só posso dizer que terás o meu apoio nisso.
— Obrigada pela cortesia de sempre, querida amiga. — O Duque beijou novamente a mão da loira. — Que tal começarmos por um pequeno presente de boas-vindas? Um par de brincos! O que acha?
Ele caminhou até sua mesa e recolheu uma pequena caixa aveludada na cor preta, voltando para perto da dona do cabaré.
— Posso? — Ela questionou, estendendo a mão para pegar o objeto.
— Deve! — Ele a entregou, observando sua reação ao abri-lo.
— Oh! São belíssimos, William!
— Acha que ela gostará?
— Certamente que sim!
— Então entregue-a e diga apenas que foi um admirador que mandou. Não cite meu nome, ou muito menos meu título de nobreza.
— Pode confiar. — A senhora o encarou confiante e levantou.
— Até logo, Constance.
— Até logo, William. Espero que esse seja o começo de uma belíssima parceria.
Ele assentiu, sorriso de lado. A mulher caminhou lentamente para fora do cabaré, pensando em como lucrativa seria essa relação para ela.
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