Veneno e vinho
8 Capítulo 7
Notas iniciais
Elise arregalou os olhos verdes quando sentiu a boca de Adam pressionar seus lábios. Quanto atrevimento! Ficou alguns segundos sem reação. Ela não esperava por tal ato naquele momento. Algo em seu corpo a impedia de se afastar, mas sua mente esforçava-se o suficiente para alertá-la de que era perigo demais se deixar ser envolvida por ele.
Não era só o jeito enigmático que ele possuía. O moreno vinha com mais um problema bônus. Um problema de sotaque forte e pele bronzeada, com nome e endereço. A loira sabia que sua aproximação com Adam, a faria uma provável inimiga de Katherine. Se já não era. A latina já não simpatizou com Elise no primeiro dia que a viu, e logo depois, quando percebeu o jeito que seu amante cobiçava com os olhos a novata, passou a nutrir um sentimento odioso pela moça.
Sabendo disso, e de todas as outras circunstâncias que aquela loucura poderia lhe trazer, ela reuniu todas as forças que lhe restaram e empurrou o moreno para longe de si. Sem perder tempo, atingiu-o com uma tapa estridente na bochecha esquerda e virou-se, quase correndo em direção ao seu quarto.
O homem levou a mão ao rosto, sentido o queimar, inusitadamente prazeroso, de tal agressão. Ele não demonstrava raiva em sua expressão, pelo contrário. Aquele bendito sorriso torto não deixava de habitar seu rosto. A sensação de ter os lábios da loira colados ao seus, só o instigou ainda mais a consegui-la para si. Elise poderia até tentar, mas era inegável que o sentimento de atração era recíproco.
E, para o seu azar – ou sorte – o moreno já tinha percebido o que estava atrapalhando seu processo de conquista. Ou melhor, quem estava atrapalhando.
Ajeitou a gola da camisa branca, passou a mão pelos cabelos e caminhou em direção à escadaria. Seu olhar era determinado. Ele sabia para onde estava indo e o que faria, porém, foi interceptado no meio do caminho, por uma Constance não muito simpática.
— O que você está pensando da vida, Adam? — A mulher colocou o dedo indicador no peito do moreno, de uma forma intimidadora.
— Do que você está falando, Constance? — Ele se fez de desentendido, afinal, não tinha construído sua fama de dissimulado do dia para a noite.
— Onde está com a cabeça em assediar Elise dessa forma? O que você quer? Uma guerra interna no meu cabaré?
— Eu não estava assediando ninguém.
— Ah não?! Então o que a Katherine iria achar se eu contasse que você estava conversando com Elise próximo aos aposentos dela?
— Engraçado, eu estava indo descobrir isso.
Ele abriu o jogo e Constance não gostou nada de saber disso. Katherine era sua dançarina principal, mas tinha um sério descontrole emocional. Adam com certeza iria desestabilizá-la se contasse sobre sua atração por Elise. Já era o bastante ter que domar a latina em relação a dividir o palco com a loira. Por mais que a dona do cabaré tivesse jogo de cintura, não conseguiria contornar isso.
— Disse certo: estava. — Ela foi clara, encarando-o nos olhos. — Agora não é a hora certa. Temos que tornar Elise minha dançarina principal, para então poder arcar com as consequências da saída da Kath.
— Ela não iria sair...
— Ah, claro que não. Ela continuaria aqui vendo você lamber o chão que a novata pisa. — Constance revirou os olhos. — Controle o ser que vive no meio das suas pernas. Ou eu mesma vou ter que dar um jeito nele.
Adam semicerrou os olhos.
— Se eu conseguisse conquistar a Elise, certamente teria um maior poder de persuasão sobre ela.
— Talvez. Mas ela ainda está crua demais. Não é a hora certa. Você a terá, mas só quando eu permitir.
Ele preparou-se para argumentar, mas Constance o cortou:
— Sem “mas”, Adam. — Suspirou. — Agora, conte-me, como anda nossa querida senhora Pilsbury?
— Não a tenho visto ultimamente.
— Claro que não! Está mais ocupado correndo atrás de um rabo de saia novo. Trate de colocar sua cabeça no lugar e começar a pensar na jovem senhora que poderá ser uma ótima presa para nós.
Ele não respondeu. Virou o rosto, fitando a mesma direção que a loira olhava. Um dos empregados de Louise Pilsbury, uma dama da alta sociedade a qual Adam estava prestes a dar um golpe, bebericava um pouco de vinho em uma das mesas do Django, enquanto apreciava a apresentação das meninas. O homem era discreto e parecia estar esperando por algo.
— Edward fez uma viagem de negócios e só retornará no fim de semana. — Constance começou. — A pobre senhora Pilsbury está sozinha em casa, à procura de uma companhia agradável. Você tem alguma sugestão?
Perguntou ironicamente. Adam a encarou com um olhar não muito agradável e começou a andar em direção ao empregado.
— Bom menino. — A loira sussurrou ao vê-lo obedecer suas ordens.
Ele estava furioso internamente. Odiava-se por ser dependente dessa manipulação de Constance. Ela sempre conseguia o que queria, pois sabia ao certo o que manteria o homem de rabo preso. Adam apreciava a vida boa que os golpes arquitetados pela loira lhe proporcionava, a luxúria de ir para cama com poderosas mulheres que dominavam a sociedade e ser presenteado por elas com os mais caros presentes, era algo que ele não estava disposto a abrir mão.
Porém, encontraria um jeito de controlar sua vida sozinho. Estava cansado de ser uma peça de xadrez que ela movia quando bem lhe era conveniente. Só que isso precisava de tempo. Tempo e uma parceria forte para destronar a francesa poderosa.
Adam precisava de Elise.
Não essa menina linda e talentosa, mas a mulher sexy e ambiciosa que ela se transformaria. Esse era o plano de Constance. Torná-la uma grande cortesã do Django. E era exatamente esse plano que o moreno usaria contra a mais velha. Ela prepararia a jovem para ele, para ser usada como uma arma para lhe destruir.
Quando chegou próximo à mesa do empregado de Louise, o homem se apresentou:
— Sou Adam Spencer, creio que esteja à minha espera.
O outro deu uma rápida olhada para conferir se as características do moreno batiam com as descritas pela sua patroa e por fim falou:
— Queira me acompanhar.
{...}
Adam chegou em poucos minutos à enorme mansão onde vivia sua madame. Ele nunca tinha entrado ali, pois seus encontros eram sempre o mais rápido e escondido possível. Afinal, ela era casada com um dos homens mais influentes de Chicago. O empregado que lhe acompanhava chamava-se Joseph. O moreno descobriu assim que chegaram ao portão principal, quando a madame Pilsbury, que lhe esperava com ansiedade, agradeceu pelos serviços.
— Obrigada, Joseph.
— Ao seu dispor, madame. — O homem alto e forte respondeu educadamente e se retirou do local.
— É um prazer revê-lo, Adam. — Ela disse correndo os olhos pelo corpo do moreno. Cobiçando cada parte que via ali.
— Faz algum tempo que não tenho o prazer de vê-la, madame. — Ele se aproxima lentamente dela, pegando sua mão e beijando-lhe o dorso.
— Eu também reparei. Não me diga que nossos encontros se tornaram entediantes para você!?
Na verdade sim. Desde que Adam conhecera Elise, tudo o que ele pensava em fazer ela levá-la para cama e fazê-la gritar o seu nome.
— Mas é claro que não. Não existe companhia mais agradável para mim...
Louise era uma mulher de cinquenta anos que pouco aparentava a idade. Os cabelos negros e os olhos da mesma cor forneciam vivacidade para ela. Os traços de seu rosto eram marcados por uma expressão de divertimento. Seu passatempo favorito era ser cortejada por um homem mais novo e obter dele tudo o que seu marido não a fornecia. Dessa vez, o sortudo era Adam. Que usufruía dos agrados da solitária madame.
Os dois subiram a grande escadaria em direção ao quarto da mulher. Quando entraram no cômodo, a morena fechou a porta atrás de si e em seguida a trancou. Os olhos do moreno permaneciam na figura esbelta à sua frente, enquanto ela caminhava devagar até a cama.
— Ficou surpreso com o meu convite, Adam? — Ela perguntou recostando-se no colchão.
— Um pouco, mas foi muito prazeroso saber que a reencontraria em uma noite tão bela.
— Que tal então tornamos tudo ainda mais prazeroso? — Essa frase foi o ponto de partida para que tudo começasse.
Adam caminhou até ela, envolvendo seus cabelos com propriedade e puxando-a para si. Um leve arfar escapou dos lábios da madame, antes que eles fossem silenciados por um beijo avassalador.
Fale com o autor