Veneno e vinho
14 Capítulo 13
Notas iniciais
Os olhos de Adam percorriam todo o lugar já conhecido, mas não possuíam o mesmo fogo ganancioso de outrora. Eles estavam preocupados, cheios de incertezas e dúvidas, e também, por mais que ele não quisesse admitir, repletos de medo.
Enquanto isso, os dois capangas divertiam-se com o nervosismo do moreno. Não pensavam que seria tão fácil assustá-lo, julgando que ele tinha fama de durão na cidade, mas, vê-lo angustiado daquela forma, colocava tal título em questão. Os brutamontes trocavam olhares que levavam o moreno a crer que estava sendo ligeiramente caçoado por eles. E realmente estava. O que o irritava ainda mais.
Continuou andando com os homens em seu encalço e ao passar ao lado da grande porta de vidro que rodeava a casa, ele foi notado por Louise, que lia um livro sentada no sofá da sala. Ela se espantou com a presença do moreno em sua mansão, já que não o tinha convidado e não conseguia achar nenhuma razão no mínimo aceitável para ele está ali.
Ainda mais na companhia dos dois capangas de seu marido. Thomas e Henry eram os mais leais funcionários do Conde, que carregava seu título de nobreza com orgulho, mesmo ele não tendo o prestígio que tinha anos atrás.
A jovem senhora praticamente saltou do sofá coberto de tecido marrom e deixou transparecer em sua aparência a preocupação que aquela cena lhe causou. Adam perdeu o restinho de esperança daquilo ser um chamado inesperado de Louise ao ver a expressão em seu rosto. Ela estava tão surpresa – ou mais – do que ele.
Olhando para dentro da casa, seus olhos foram atraídos para uma certa morena parada no topo da escadaria que dava acesso aos quartos. Seu rosto era sapeca, como o de uma criança que acabou de fazer uma travessura. Ela tinha um sorriso satisfeito no rosto, que se alargou ainda mais ao notar o desespero de Adam. Lára estava mesmo se divertindo com tudo aquilo.
Tinha em suas veias uma sensação boa ao ver sua mãe e o amante totalmente perdidos e sem controle algum da situação. Enquanto ela sabia exatamente as próximas cenas que se sucederiam a partir dali.
O golpista sentiu um ódio descomunal percorrer todo o seu corpo e fechou os punhos tentando controla a súbita raiva que teve ao ver o contentamento da morena. Ele a amaldiçoou silenciosamente por tê-lo entregado e a si mesmo, por ter se deixado levar por um corpinho bonito e uma boquinha de veludo.
Não entendia para onde estava indo, já que eles não o levaram para dentro da mansão. Pelo contrário, continuaram conduzindo-o pelos arredores da residência, para uma espécie de quintal enorme. Ao aproximarem-se mais um pouco, Adam pode notar uma pequena construção ao leste do terreno, não menos luxuosa que a principal, mas muito menor e mais discreta.
Sua mente que estava quase paralisada de medo, só conseguia pensar que aquele fosse o escritório oficial para se tratar de assuntos ilegais, como exterminar pessoas que cruzam o caminho do Conde ou qualquer outro caso criminoso que envolvesse tortura e sofrimento.
Por um momento ele teve que rir de si mesmo, por está sendo tão medroso e covarde. Por mais óbvio que fosse o seu destino final, ele deveria, ao menos, manter sua pose de homem valente e destemido para morrer com um mínimo de classe que fosse.
Quando chegaram à porta do escritório externo, um dos capangas solicitou a entrada e em seguida adentrou o local, deixando Adam plantado ao lado do cara careca. Não demorou muito e logo saiu para mandar um recado ao moreno:
— Pode entrar. O Conde já irá recebê-lo.
Receber-me? Mas eu não estou vindo visitá-lo! Adam pensou. Demorou-se um pouco receando entrar no local, mas depois de um longo suspiro, rodou a maçaneta dourada, provavelmente banhada a ouro, e adentrou o ambiente que era maior do que parecia.
Um tapete de veludo vermelho ocupava todo o piso do local, uma cortina dourada na frente da janela e vários móveis luxuosos, como poltronas e uma mesa de marfim.
— Queira sentar-se, sim?
Adam assentiu, fitando a arma prateada em cima da mesa à sua frente. Ele sentou disfarçando melhor o medo em seus atos, esperando qualquer coisa que fosse acontecer dali adiante.
O Conde Edward era um homem que se encaixava perfeitamente nos padrões de ricaços e marajás da cidade. Seu cabelo acinzentado com alguns fios brancos mostrava a experiência e impunha respeito sobre todos; a barba e a camisa branca sempre bem engomada completavam a imponência do jovem senhor. Em sua mão dois anéis dourados brilhavam exageradamente.
O mais velho passou alguns minutos encarando o jovem rapaz, que não tirava o olho da arma prateada em cima da mesa. Ele soltou um suspiro e resolveu acalmar o moreno:
— Oh, não se preocupe, eu não irei te matar.
Não foi evitável para Adam respirar aliviado com aquela notícia. Fazendo com que o Conde questionasse a informação dada por sua filha.
— Mas devo confessar que estou um pouco desapontado com sua coragem, meu rapaz. — Ele pontuou.
Sua fala anterior deu ao golpista a tranquilidade necessária para voltar a ser ele mesmo. O homem esperto e sagaz de sempre.
— Senhor Conde, vamos combinar que é uma bela arma, capaz de fazer um belo estrago. — A ideia do mais novo era fazer uma piada com o outro, mas não arrancou nem um princípio de sorriso do rosto carrancudo.
— Um homem tem que ter honra, senhor Spencer. Honra e coragem acima de tudo. Acima do medo de morrer, principalmente. Eu me arrisco a dizer que na hora da morte é que devemos demonstrar ainda mais nossa honra e coragem. — O homem estava sério. Sem nenhum resquício de simpatia no rosto.
— Concordo plenamente, senhor Conde. E posso garantir que tenho os dois em demasia! — Isso soou tão verdadeiramente falso para Adam. Honra? Tudo o que ele menos tinha.
— Creio que esteja curioso para saber o motivo de tê-lo chamado até aqui, não é mesmo?
— Sim. Com todo o respeito. Estou morrendo de curiosidade.
— Pois bem, eu irei contá-lo o meu propósito. Para início de conversa, se aceitar participar deverá a mim lealdade acima de tudo. E se aceitar e faltar com a mesma para comigo, aí sim utilizarei a minha bela arma para fazer um belo estrago em você, senhor Spencer.
Adam não pensou duas vezes. Ele realmente era um cara de sorte! O Conde o queria como aliado em algo que exigia confiança. Pensou na possibilidade de haver dedo de Lára no meio dessa conversa. Como o Conde saberia dele se não por intermédio dela? Talvez esse fosse o sinal necessário para ele investir no plano e na aliança com a filha de Louise.
— Senhor Conde, seria para mim uma honra imensa destiná-lo a minha lealdade.
As palavras soaram tão verdadeiras, que não restou alternativa para Edward, a não ser acreditar. Ele começou então a contar seu plano para Adam, que gostava cada vez mais do que ouvia. Parecia que o destino estava ao seu favor. Ele sorriu vitorioso ao perceber que ganhara ali, a chance de antecipar seus planos. Assim que possível, procuraria Lára para terem uma conversa.
Ele queria confirmar que a indicação viera dela, por mais que já tivesse certeza.
Enquanto isso, Lára já se preparava para o próximo passo de seu plano. Ela tinha Adam praticamente em sua mão, mas não o queria como refém, queria como parceiro, como aliado. Alguém que a ajudasse a se livrar do peso que era ter que fingir ser algo que não é. Ela estava cansada de ser a filhinha exemplar do Conde e da Condessa, que de nobre só tinha o título mesmo.
E um novo jogo acabava de se iniciar. Um jogo onde o manipulador agora era a marionete.
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