Velha Velha
2 Gato Macaco
Os minutos correram em silêncio e após duas pequenas ribanceiras, os olhos da guia foram atraídos pela imensa mansão centrada em uma clareira imensa. A casa aparentava ser de época vitoriana, repleta de detalhes e variadas texturas de madeira, dois pisos mesclavam-se em um, transformando o prédio em um verdadeiro palácio luxuoso. No jardim, flores e plantas dividiam espaço com arvores frutíferas e ervas medicinais.
— UAU!
— Não é nada, essa casa já existe faz um tempão e já ta caindo aos pedaço. — Odete mostrou os dentes imundos em um projeto de sorriso.
— A senhora mora sozinha? — Ela questionou, esperando uma resposta positiva.
— Eu e meu gato, o Macaco!
— O nome do seu gato é Macaco?
— É! Ele ta meio doente coitado... Depois dos rato morto que comeu, não sei se vai longe! — Odete apontou com o rosto o pequeno bichano que espreguiçava-se tentando sair pela janela. O gato além de gordo era arisca, as listras prevaleciam no corpo sedentário que começava a perceber a chegada da nova visitante.
— Vamo entra, vo faze um chá pra gente toma, tem até uns biscoitinhos de milho! — A velha dirigiu-se a entrada da casa e depositou o balde no chão, desvencilhando-se do guarda-chuva, ela abriu porta para a gloriosa sala de estar. O ambiente era imune à era digital, fatos bizarros, como uma lareira acesa em um dia de calor insuportável, perdiam-se em meio aos quadros, móveis e estofados antigos e requintados. As duas mulheres entraram pela porta e antes que a convidada arriscasse falar, Odete pisoteou o tapete produzindo uma consistente nuvem de poeira e uma importuna crise de tosses.
— Posso usar o banheiro? — Ela perguntou, ainda tossindo.
— Claro, é por ali! — A velha apontou para uma porta em um corredor ao lado.
A mulher apressou-se para chegar ao banheiro, e ao abrir a porta encontrou um cômodo imundo, ela entrou e fechou a porta com dificuldade. O espelho, o balcão e o vaso sanitário estavam cobertos por uma substancia semelhante a um musgo, ela receava até em abrir a torneira. A visitante recuperou-se da tosse, lavando o rosto com a água fria e respirando fundo o ar impuro e mal cheiroso. Ela girou a maçaneta, mas a porta não foi aberta, em meio a tentativa falhada, o primeiro alerta gritou em seus pensamentos: “Essa veia me prendeu aqui”.
A mulher usou de toda a sua força e em um impulso surpreendente chocou-se com a porta, que abrira repentinamente, e com um armário do corredor. Os resultados fora vários quadros tombados no chão e uma afobação para descobrir se Odete ouvira essa confusão.
— Que porcaria! — Ela ronronou brigando com os quadros que despencavam como um efeito dominó. Quando finalmente eles estavam em ordem, a mulher voltou para sala onde encontrou Odete com duas xicaras de chá e um prato de biscoito.
Elas sentaram-se em frente à lareira e logo o interrogatório informal iniciou:
— Como a senhora veio parar aqui? — A mulher indagou.
— Eu moro aqui há muitos anos, meu falecido marido me deixou essa casa velha e eu so obrigada a toma conta dela, tomara que apodreça no inferno, aquele Filho da mãe!— Entre goles de chá, Odete continuou falando:
— E tu guria, o que veio fazer aqui?
— Eu sou guia turística.
—E o que tem nesse fim de mundo que é tão importante? — Odete franziu as sobrancelhas.
— Os pesquisadores falam que... — A guia foi interrompida.
— O minha filha, tu pode ajeita mais uns galho ali na lareira? — Odete apontou com uma das mãos para a lareira.
— Claro.
A guia ergue-se do sofá e caminhou até a lareira, onde apoiou-se sobre a proteção e procurou algum galho de lenha no chão empoeirado. Antes que ela pudesse encontrar, mãos frias forçaram seu corpo contra o fogo. A última visão foi seu rosto sendo consumido pelas chamas. Seus olhos se abriram e a luz branca invadiu seus olhos, um barulho sincronizado interrompeu seus pensamentos.
— PUTA QUE PARIU! — E o despertador soou.
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