Vazio Infinito
1 Vazio Infinito
Vazio Infinito, por Darlan Fernandes.
Certo dia estava promovendo uma faxina em minha casa daquelas bem intensas, onde móveis são arrastados, tapetes e cortinas são lavadas e tudo é trocado de lugar. Chegando com a limpeza em meu quarto, decidi arrastar uma cômoda antiga, que ganhei de herança da minha mãe, que ganhou da mãe dela... E por aí vai. Era uma madeira bruta bem entalhada e, embora houvesse um contraste entre ela e os móveis modernos do resto da casa, eu gostava de mantê-la como um souvenir, um lembrete de meus antepassados. Ao arrastar o móvel notei uma mancha escura na parede, uma mancha de fungos, porém não havia infiltração em minha casa e a cômoda estava em perfeito estado. O que mais chamava atenção era a forma que a proliferação fazia: um triângulo perfeito, aparentemente de dimensões exatas. Qual a probabilidade disso acontecer?
Após a surpresa momentânea, peguei um pano, bucha e vassoura e danei a esfregar a parede, até vê-la alcançando sua cor original. Depois de muito trabalho finalmente acabei a faxina e comecei a colocar os objetos em seus devidos lugares. Chegando no quarto para arrastar a cômoda, lá estava a mancha de novo, uma mancha de um preto mais intenso e espesso, como se fosse uma tinta brilhosa e densa, que formava um triângulo perfeito. Eu não aguentei a curiosidade e toquei no meio daquela coisa estranha, a sensação era fria e gelatinosa e eu subitamente retirei o os dedos ao senti-los afundando para dentro da substância lodosa. E no momento em que pisquei os olhos, a cor mudou, de preto para azul, um azul claro que eu nunca vi em minha vida, intriguei-me cada vez mais por aquela...”Criatura” e coloquei novamente os dedos sob ela, que imediatamente começaram a afundar, até que toda minha mão estava dentro daquela massa azul e Gelatinosa. De repente senti como se um espaço se abrisse onde minha mão estava e, algo a tocou lá dentro, era como se um abraço englobasse minha mãos de forma tão suave e tão delicado, uma sensação única que nunca tinha experimentado, fiquei extasiada por um momento, mas logo depois do susto puxei minha mão de volta, que saiu com facilidade e nenhum tipo de marca ou resíduo vindo daquele “ser”, que por sua vez, começou a mudar novamente, dessa vez para um verde claro belíssimo, como águas do mar mais puro existente. Comecei então a fazer experimentos com aquela coisa, coloquei um graveto por inteiro, que jamais voltou, depois um sapato velho, depois um cabo de vassoura, e vários objetos que nunca mais voltaram, mas também não promoviam nenhuma alteração na cor da coisa, como meu toque promoveu. Então imaginei que poderia ser algo vivo que fazia a coisa mudar e comecei então a colocar folhas, até uma planta decorativa que eu tinha em casa, com vaso e tudo, mas nada acontecia, só tudo que entrava lá nunca mais voltroço
Já obcecada pelo mistério, comecei a colocar pequenos animais, primeiro moscas, lagartas e besouros, depois pequenos lagartos e até um gato vira-latas que perambulava pelas redondezas, atitude essa da qual me arrependo amargamente, só para registrar. Mas nada mudava a cor daquele troço.
Então novamente toquei, dessa vez com as duas mãos e coloquei cada vez mais até que meus dois braços estavam lá dentro e minha testa se encontrava com a parede a minha frente. E novamente, aquela sensação, agora intensificada, potencializada milhares de vezes, uma sensação indescritível, que eu só posso imaginar como seria se eu voltasse para o ventre de minha mãe, era um conforto, um abraço, um estímulo e sensação de pertencimento, que me faziam pensar como se minha vida valesse a pena.
Comecei a sonhar com aquilo, aquela sensação, comecei a ficar horas com os braços enterrados lá, e cada vez que eu retirava, ele mudava de cor, vermelho, roxo, rosa, dormia do lado daquele ser, com medo de que ele desaparecesse, e acordava no outro dia, ansiando pelo prazer que ele me proporcionava.
Até que finalmente, decidi fazer o que eu já pensava há algum tempo, mas não tinha coragem de fazer: colocar meu rosto e ver o que tinha lá dentro.
Todas as palavras que eu usar para descrever o que vi e senti quando coloquei meu rosto naquele espaço não serão suficientes para expressar a magnitude real do que foi. É um misto de euforia, melancolia, dor, perda, ausência, vazio, escuridão... E então, luz, calor, amor, aceitação, preenchimento, sentido, realização, tudo ao mesmo tempo, em diferentes intensidades. Cores que eu nem sabia que existiam, formas complemente fora das leis da física, gostos e cheiros únicos, todos meus sentidos aguçados de uma forma tão intensa que se tornaram um só, a visão ativava o olfato, que ativava o paladar e ia em cadeia. Eu não queria parar, não queria deixar de ver e sentir, foi então que fui puxada bruscamente para fora por alguém. A claridade da luz que vinha da janela não me permitiu ver, de início quem era, mas conforme meu cérebro foi se acostumando eu voltei meus olhos para cima e vi minha irmã. Ela gritava comigo e as lágrimas desciam pelo seu rosto como um curso infinito de uma cachoeira, perguntava o que tinha acontecido comigo, pois eu não atendia suas ligações e não aparecia no meu trabalho há 1 mês, mas eu acabei de colocar o meu rosto ali, eu tentava respondê-la, mas minha voz não saía, eu não tinha forças para falar, então levantei a mão para apontar para a parede, para que ela olhasse para a maravilha sobrenatural que habitava ali mas antes notei que meus dedos estavam finos, magros, assim como meus braços, só pele e osso. Levantei com muito custo e com ajuda dela me vi no espelho: era a visão da morte, uma caveira, estava tão magra que a camisa que eu usava não ficava em meus ombros e tendia a cair. Vi então minha sobrinha atrás da porta, olhando-me com espanto e apreensão totalmente compreensíveis.
Minha irmã me tirou dali, me ajudou a tomar banho, trouxe roupas limpas e fez o jantar, que devia estar uma delícia, mas eu já não sentia o gosto de nada, pois nada se equiparava a sensação que o fungo proporcionava. Comecei então a explicar o que aconteceu, enfrentando caras e gestos de descrença e pena feitos pela minha irmã, que insistia que eu precisava de uma intervenção, pois eu não conseguia superar sozinha a tempestade de emoções em que eu me encontrava, depois de ter perdido meu marido e meu filho num acidente há meses atrás, o que acarretou em mim depressão e ansiedade severas, com as quais lido todos os dias desde então. Mas não era esse o caso, achei melhor mostrar a coisa para ela, assim ela entenderia. Então quando chegamos no quarto, consegui enxergar apenas os dois pés da minha sobrinha para fora do triângulo na parede, enquanto quase todo seu corpo estava sendo tragado por prolongamentos que saiam daquele monstro.
Minha irmã num rompante gritou e agarrou os pezinhos dela, em vão, porque quanto mais ela puxava, mais a criança era engolida. Ela colocou então os dois braços lá dentro, na tentativa de puxar o corpo da filha de dentro pra fora, porém, ela também ficou presa e começou a afundar naquela massa como areia movediça, que engolia tudo sem parar, eu agarrei a cintura dela, e ouvi seus gritos entre lágrimas, enquanto todo seu corpo era tragado lentamente.
Eu no desespero só consegui sair do quarto enquanto chorava sem parar, meu coração parecia que explodiria meu peito, não conseguia respirar, fui para a varanda, olhei para o céu, ouvi o canto dos pássaros, fechei os olhos, limpei a mente e finalmente me acalmei.
Sequei as lágrimas e voltei para o quarto, me deparando com a cena que eu já imaginava. Ambas, minha irmã e minha sobrinha já não estavam mais lá. O triângulo agora se movia, como rastros de cobras no deserto, cheio de cores e formas. Eu não era sugada como os outros, conseguia colocar meus braços e rosto por completo e sentia aquela sensação única todas as vezes, cada vez mais intenso, cada vez mais profundo em meu ser, até que finalmente consegui ver as pessoas que perdi, meus pais, minha filha , minha irmã e sobrinha e, meu marido. Não consegui conter as lágrimas de felicidade e subitamente de raiva por não conseguir me juntar a eles lá. Eu já não comia nada, não bebia nada, não precisava, havia meses que eu não saia de casa, não saia do quarto. Agora pouco algo diferente aconteceu, acordei de um sonho onde via o triângulo no escuro, brilhando com uma luz neon vermelha que acentuava seus traços na escuridão. Então me levantei e ele estava brilhando, me chamando, coloquei a ponta dos dedos e ele os dissolveu no exato momento em que toquei. Não senti nada, nem dor, nem ardência, mas sabia de alguma forma que a matéria dos meus dedos foi levada para lá, isso era um sinal que ele estava me dando: finalmente chegou a hora. Finalmente serei levada!
Se algum dia alguém encontrar esta carta, por favor não alimentem-no, ele nunca se satisfaz, sempre vai querer mais, sempre vai querer tudo o que você tem, até não sobrar mais nada, até não sobrar nem mesmo você.
Rio de janeiro, 9 de outubro de 1992.
Nota: Esta carta foi encontrada em meados dos anos 2000 por jovens que entraram no terreno à noite, para explorar o local dito como mal assombrado pelo espírito de uma mulher que enlouqueceu depois de perder a família em um acidente terrível. Eles encontraram a carta em cima de uma cômoda empoeirada, ao lado, coberto por galhos e vegetação, havia um corpo de joelhos, extremamente magro sem a cabeça, com o pescoço encostado na parede, dentro de um triângulo perfeito feito com algo escurecido que, segundo eles parecia sangue, informação que não pôde ser confirmada pela polícia devido ao tempo do ocorrido Ao retirar o corpo do local, a polícia não conseguiu explicar porque o corpo se encontrava tão preservado dado a data estimada da morte, e principalmente, onde estava a cabeça e dois dedos do cadáver.
Notas finais
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