Vazio
1 Capítulo Único.
Notas iniciais
Uma vez ouviu dizer que, para os humanos, o fundo do mar era tido como vasto e misterioso. Para Lívia, nunca tinha sido tão exótico assim. Contudo, isso nunca tinha sido uma razão forte o suficiente para cogitar sair daquele lugar, que era o lar de seus ancestrais, assim como de sua família e de Alessia. Para que tentar ir para qualquer outro lugar?
Era água e água, mas, diferente do que se poderia prever com informações limitadas, a estrutura da sociedade de Acqua tinha as circulações complicadas que aparentemente se teria nas cidades humanas. A diferença seria nas várias criaturas marítimas que se movimentavam por essas circulações, que eram esgotantes, mas suficientes, satisfatórias.
Haviam muitas inconsistências, por conta dos não tão recentes desaparecimentos que se havia naquelas profundezas, mas não era o bastante para tingi-la de medo. Tinha um emprego de renda razoável e também a companhia daquela menina de temperamento difícil que iluminava o desespero mais inerte e obscuro que pudesse surgir.
Fosse o que estivesse realmente sentindo, o universo já lhe havia revelado pela sua vivência de duas décadas: para um viver, eventualmente um terá de perecer de uma forma ou de outra. Se vive pisando em sonhos. Nenhum pesadelo era imune a isso, nem mesmo os mais belos como as sereias.
Tivesse fechado os olhos, era uma evidência provável que pudesse ter continuado morando em sua cidade pouco pacata com algum sossego. Quem sabe. Mas Alessia não poderia ser ignorada.
Ainda mais quando a viu segurando o coração, que parava de pulsar, de sua prima, que tinha passado as últimas semanas aos seus cuidados por conta de uma desavença com os próprios pais, sentiu que água faltou em sua via respiratória.
Lembrou-se de todo tipo de violência que já havia visto na mídia, que tinha acontecido no passado, no tempo atual, e que era bem possível, infelizmente, de ainda acontecer no futuro da metrópole que chamava de lar: explorações, violências urbanas, domésticas, sexuais, difamações.
Aquele vermelho do sangue da ex-viva, ex-garota, ex-parente manchava a água já amargada por todo aquele cotidiano e pelo que ainda estava por vir.
“Você me seguiu” Alessia disse, terminando sua ação de colocar o coração de sua parente em uma bolha, e pô-la junto de outras em uma caixa de primeiros socorros de tamanho significativo.
Lívia se limitou nadar até a outra e tentar alcançar a caixa, mas sem muito sucesso, pois seu corpo estava mais lento em reação pela surpresa, espanto pela cena vista, e porque também foi impedida pela namorada, e pelas unhas afiadíssimas que foram usadas para perfurar a carne da menina, que naquela mesma semana tinha comentado contente como gostaria de encontrar alguém como ela tinha encontrado Alessia.
“Vocês se dão tão bem”, Meire tinha lhe dito com aqueles olhos de quem não conhecia em detalhes relacionamentos em geral, e imaginava o resto que lhe faltava, o que era boa parte.
“Não totalmente, é claro” Lívia tinha dito a Meire depois de uma risada curta, imaginar uma totalidade de algo lhe parecia absurdo, e não era porque tinha ficado mais velha, tinha aquele tipo de visão desde muito antes, mas também não achava ruim quem a tivesse, uma vez que lhe fazia ser um pouco mais otimista quanto ao lugar em que estava.
O que não a impedia de ter em maior parte aquele olhar obscuro sobre as coisas. Desde que fechasse os olhos, sentisse apenas o que estava a sua frente, ela poderia continuar vivendo ali, Lívia acreditava. E mesmo que isso não fosse uma verdade, o que teria na Terra que seria diferente de Acqua? Ela não iria cair, não iria ceder ao Tabu. Não mataria ninguém para buscar uma esperança ínfima em uma terra que não conhecia. Que demorasse bastante para que sequer enlouquecesse dessa forma, pelo menos.
“6 corações de sereia são o suficiente para fazer o remédio” Era o que se tinha a respeito desse tabu: “virar humano”. A humanidade que havia nessas criaturas seriam o suficiente para realizar o encantamento.
As sereias, que originalmente eram seres originados de um mito, tinham se tornado reais quando as mulheres que tinham potencial mágico se ressentiram, depois de terem sido acusadas de injustiças sem provas, durante casamentos, relacionamentos familiares, sociais, e foram mortas por afogamento imposto durante períodos mais extremos da sociedade humana, como as perseguições às bruxas durante a Inquisição.
O ressentimento as fizeram reencarnar como uma criatura híbrida, que possui em essência um complexo a não pertencer nem totalmente ao mar, pois possui no interior da existência uma procura por vingança que não aparecia em outros seres marítimos, nem totalmente a humanidade, uma vez que a água era o ar delas.
Descendentes dessas primeiras mulheres sereias, como todos ainda vivos de seu tempo, ouviram essa história e em geral se criava aquele receio e bloqueio a ansiar “por tal saída”. Afinal, os próprios humanos se causavam mal desde que tivessem um “motivo legítimo”. Mas sempre havia alguém que mataria por isso e, então, havia os “desaparecimentos”, que na verdade se entendia bem o resultado final.
Fechava, abria os olhos, voltava a fechá-los outra vez, mas a realidade era um fato que era visível e que queimava bastante seus sentidos às vezes. Realmente, admirava pessoas como Meire que conseguiam ouvir tudo aquilo, e ainda tinham disposição a sorrir daquela forma espontânea. Não que conhecesse sua prima como conhecia a si mesma. Aparências podem enganar, mas preferia ficar ignorante a essa verdade também.
“A gente tenta, pelo menos” Tinha continuado a dizer à prima que teve a sua vez de dar uma risada pequena.
E, ao recordar tudo isso, fez com que a coragem se acumulasse um pouco mais, então, disse para Alessia, depois daquele devaneio que devia ter durado um momento curto de silêncio:
“Só me responde o porquê”
“Eu não preciso, Lívia. Você já sabe” Alessia disse olhando para ela com os olhos manchados de uma distorção estranha. Estranha, pois “nunca a tinha visto agir daquela maneira”.
Não... como podia fingir ignorância naquele momento? Tinha ficado atenta as notícias da mídia, que em geral preferia desconhecer, e não era por uma mudança de ideais: as vítimas desse último assassino em série tinham um perfil que a perturbava, pois ou eram ex-colegas de escola suas, outras eram amigas de amigas, nunca esteve tão longe.
“Você realmente pretende quebrar o Tabu? Realmente acha que vale a pena? Os humanos são tão egoístas quanto a gente. Nos separamos deles por esse motivo. ” Lívia disse como se estivesse explicando para uma criança e não disfarçava, pois queria que a outra percebesse isso.
“Eu achava que você tivesse entendido, mas vejo que não... É uma pena, parece que não me conhecia bem como eu e você imaginamos.” Alessia disse antes de perfurar o próprio corpo, tirando o próprio coração e o colocado nas mãos de Lívia, que ficaram tremidas com aquele resultado súbito.
“...o... sex... to... feliz... niver... sário...” Alessia disse, com esforço, antes de seus olhos perderem o brilho.
Lívia ficou parada por uns instantes, mas sua cabeça estava em espiral, confusa, uma bagunça. Ao notar que realmente tinha o coração de Alessia nas mãos, e uma cor mais vermelha de sangue ao seu redor, por causa dos corpos de sua prima e namorada, soltou o coração que tinha nas mãos em um susto, um grito, e ele afundou com o próprio peso até o chão sem se destruir.
Sentou-se próxima de tudo aquilo, escondendo o rosto na própria cauda, as mãos de sangue a manchando por um momento, para depois ser lavada em pouco tempo pela água salgada que rodeava tudo.
“Eu não entendo, eu não entendo mesmo.” Lívia disse para si mesma, mas aquilo também se tratava de uma mentira. Pelo menos, ela entendia que todas aquelas vítimas tinham no passado causado algum mal a sua namorada, com exceção de sua prima, mas Meire teria sido a vítima para afetar os pais da garota que não aprovavam a pessoa que Alessia era em um relacionamento com Lívia.
E quem era Alessia, afinal, para ser um alvo de todas aquelas pessoas? Ela era seu maior tesouro naquele fundo dos mares, mas nunca tinha lhe iluminado sobre aqueles problemas. “Tinha ficado tudo no passado”, uma vez ela tinha lhe dito, e mesmo que Lívia tivesse insistido em algum ponto não houve muito efeito. Contudo, aparentemente teria acontecido situações bem desagradáveis.
Quando Meire brigou com os pais para manter a amizade com ela e Lívia, resultando até mesmo na fuga da garota da casa que vivia desde o nascimento, Alessia preocupou Lívia por conta daquela obscuridade que tinha visto no rosto dela, mas era algo que tinha caído no esquecimento, uma vez que tinha aqueles “dias tão pacíficos”.
Teria sido aquela última rejeição a gota d’água? Era bem possível que Alessia teria feito tudo aquilo por causa de vingança.
Isso podia ser explicado, mas o que responderia aquela conclusão? Porque Alessia daria o próprio coração, e aparentemente todos aqueles outros que tinha conseguido, para sua pessoa, quando a própria Alessia podia tê-los usado para sair dali? Mesmo que amasse Lívia...
De fato, aquele dia era realmente seu aniversário, e Lívia odiava aquele lugar, só não queria admitir isso. Mais: ela queria que tudo aquilo acabasse o quanto antes. Era doloroso, o dia a dia que tentava ignorar, quando aquelas pessoas que se importava, e se importavam com ela, estavam longe. Era doloroso, então, ela queria destruir, esperava alguma destruição. Mesmo que não admitisse, mesmo que escondesse isso no fundo de seus pensamentos.
Um sorriso amargado como o sangue cruzou sua face, os olhos estavam bem fechados, ela acabou deixando algumas poucas lágrimas escaparem de seus olhos e se misturarem ao mar, sem que ninguém pudesse presenciar isso.
“Só você... só você que não quis desviar os olhos, não é, apesar de tudo... De seus problemas, dos meus... Apesar de ser sido uma pessoa terrível também, não foi nem um pouco o anjo que eu te pintava... você poderia ter me contado de seus problemas. Entendo que eu também não fiz o mesmo, e provavelmente nossos papéis teriam sido invertidos se nosso cotidiano continuasse como estava. Ainda assim, mesmo que se importasse comigo o suficiente para que tenha me dado essa chance, me dado o seu “prêmio”, não posso te perdoar, assim como não posso me perdoar também... Talvez eu tenha sido o motivo para que você tenha decidido matar ao invés de qualquer outra coisa, de forma que eu pudesse sair daqui como eu queria, me desculpe por isso.” Lívia voltou a refletir consigo, levantando a cabeça, e contando o que tinha acontecido ali, mudando algumas verdades, para a bolha que construía com sua magia.
E a verdade que ficou conhecida foi: que Lívia matou todas aquelas meninas, porque seu dia a dia aborrecedor a acabou enlouquecendo.
E isso não era muito longe da verdade.
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