Vazio
33 Agonia - EXTRA
Notas iniciais
O clima entre Levi e Eren teria sido perfeito... se o toque do celular de Eren não fosse tão alto. Levi soltou um grunhido baixo e apertou o garoto mais forte contra si, como se pedisse para que ele não fosse atender. Mas Eren teve o flashback da última vez que foi para a casa de Levi e não atendeu ao telefone — e acabou de castigo —, o que o fez insistir mais ainda em atender a chamada.
Mesmo que relutante, Levi se viu forçado a ceder e deixar o namorado fugir de seus braços e correr até um canto do balcão, onde tinha posto a mochila junto com as compras. E tinha que admitir que não fora de todo uma má ideia; Eren inclinou o corpo para apoiar-se em cima do balcão, deixando sua bunda numa posição privilegiada para Levi.
— Sabia que era você me ligando — disse Eren, assim que checou o número da chamada.
Aquele tom muito casual chamou a atenção de Levi, que permaneceu atento ao resto da conversa.
— Eren — a voz de Armin era urgente, alarmando o amigo —, tenho boas e más notícias.
— Como assim? — perguntou Eren, já tenso. Sabia que, quando Armin falava nervoso daquele jeito, era porque tinha motivo.
— Antes de qualquer coisa — apressou-se Armin —, onde você está agora?
— Por que isso importa? — disse Eren, aumentando o tom de voz.
— Está tudo bem? — perguntou Levi, preocupando-se também, mas obteve apenas uma palma estendida de Eren como resposta.
— Porque você tem que correr para casa — respondeu Armin, nervoso. — O mais rápido possível!
— Armin, que merda foi que aconteceu? — Eren já estava começando a se irritar com a enrolação do amigo.
— Você parou para pensar que, com essa suspensão, você não participa do Torneio de Primavera, e nem Connie?
Só então a ficha tinha caído para Eren. Ele sequer tinha pensado nesse detalhe, e inventou de ir para casa de Levi sem nem mesmo conversar sobre isso com o diretor.
— Caralho, Armin! — exclamou Eren, voltando-se para o sofá e catando as roupas do chão. — E o que eu faço agora?!
— Você corre pra casa — respondeu Armin, como se fosse óbvio.
— Isso não ajuda em porra nenhuma! — ganiu Eren, tentando apoiar o celular no ombro para deixar ambas as mãos livres e começar a vestir-se.
— Eren, o que aconteceu? — insistiu Levi, sentando-se no sofá na posição ereta.
— Calma que eu também não sei direito — respondeu Eren, sem nem mesmo olhá-lo.
— Do que você está falando? — perguntou Armin, confuso.
— Eu não estava falando com você — explicou Eren. — Agora, diga-me por que eu tenho que voltar para casa, aconteceu alguma coisa com minha mãe?
— É esse o problema — murmurou Armin. — Eu e o resto do time estamos conversando com o diretor para desconsiderar a sua suspensão, já que ela foi meio injusta.
— Só “meio”? — retrucou Eren.
— Dá para você me escutar? — devolveu Armin, fazendo Eren morder a língua, mas calar-se. — Shadis-sensei disse que, antes de tomar uma decisão sobre a participação de vocês ou não no Torneio, ele iria comunicar aos pais e saber qual o posicionamento deles.
— Já ligaram para minha mãe? — O sangue de Eren havia congelado assim que havia ligado os pontos.
— Já, ela sabe que você foi suspenso.
— E que eu não voltei para casa...
— Na verdade, era sobre isso que eu queria te falar — Armin tinha um tom de lamento, o que não era bom sinal. — Ela me ligou faz alguns minutos, perguntando onde você está agora...
— E o que você disse?
— Disse que não sabia, já que não havia sido suspenso também.
— Bom... — murmurou Eren, a camisa já quase totalmente abotoada. — Vou correr para lá agora, acho que posso enrolar dizendo que...
— Isso não é tudo — Armin o cortou.
— Como assim? — Eren perguntou de cenho franzido.
— Ela falou de alguma coisa sobre Hannes-san ter ligado para ela...
— Ah, vai à merda, Hannes! — grunhiu Eren, o que fez Levi arquear as sobrancelhas. — O que ele falou para ela?
— Não sei, cara, mas parece ter sido algo que fez sua mãe ter ficado bem irritada...
— Eu estou voltando para casa agora — anunciou Eren, tanto para Armin quanto para Levi. — Estou te devendo uma, Armin.
— Nós vamos continuar a insistir com o diretor, preocupe-se apenas em acalmar sua mãe.
— Pode deixar. — E encerrou a chamada.
Eren pôs o celular no bolso e terminou de arrumar o uniforme, tão apressado que sequer percebeu o olhar inquisidor do namorado.
— Não vai me contar o que aconteceu? — murmurou Levi.
— A suspensão — Eren falava afobado. — Graças a ela, eu possivelmente ficarei de fora no Torneio de Primavera.
— Que lindo, o pirralho joga num time — comentou Levi com ironia. Bastou uma carranca de Eren para que mudasse sua postura. — Qual é o esporte?
— Baseball — respondeu seco.
— Que posição?
— Rebatedor.
— Hm... — Levi se lembrou da máquina de rebater do fliperama, e de como Eren gostava dela. — Faz sentido.
— O problema — Eren falava pausadamente, tentando manter a calma — é que ligaram para minha mãe...
— E o que é que tem?
— Ela vai me matar! — grunhiu baixinho. — Eu já estava de castigo, e agora...
— Castigo?
— Levi... — gemeu Eren, passando as duas mãos pelo rosto. — A gente pode conversar depois? Eu realmente preciso voltar para casa.
Levi não respondeu nada; apenas cruzou os braços e continuou a observar Eren com sua expressão impassível. Eren arfou e foi até o sofá — mesmo com pressa, sabia que não era justo tratá-lo daquela forma. Segurou o rosto de Levi em ambos os lados com ternura e inclinou-se para selar seus lábios nos dele. Deixou que seu polegar direito afagasse com carinho a maçã do rosto do namorado, o que motivou Levi a aprofundar o beijo. Era tão bom estar em sintonia um com o outro que, quando se separavam por falta de fôlego, sentiam como se deixassem uma parte de si.
Eren tomou a distância necessária para olhar Levi nos olhos, sem tirar as mãos que o afagavam tão delicadamente. Levi parecia ainda mais inconformado com a saída de Eren depois do beijo; queria ter aqueles lábios macios consigo o resto do dia. Mas seu coração cedeu quando Eren abriu seu sorriso mais simples e verdadeiro.
— Tem mesmo de ir embora? — perguntou Levi, baixinho, como se fosse um segredo só deles.
— Não faz ideia do quanto quero ficar aqui — respondeu Eren, com a voz mais mansa. — Principalmente depois dessa proposta de fazer amor comigo.
Levi segurou o pulso esquerdo de Eren e o puxou para baixo, trazendo a boca de Eren até a sua mais uma vez. Mas Eren resistiu virando o rosto para o lado, fazendo com que os lábios de Levi roçassem em sua bochecha.
— Mas sei que você não transaria comigo agora — concluiu Eren.
— Acho que a farmácia não fica muito longe — ronronou Levi. — Talvez eu possa ir comprar uma camisinha...
— Levi... — gemeu baixinho e se afastou do namorado outra vez. — Eu não quero brigar com minha mãe de novo.
Levi suspirou e soltou o garoto, recostando-se ao sofá enquanto apoiava os braços em cima do encosto. Eren aproveitou aquele momento para respirar fundo e convencer-se de que estava fazendo a coisa certa.
— Ok, você venceu — murmurou Levi mal-humorado. — Quer que eu te leve em casa?
— Não, não precisa — disse num sussurro.
— Pensei que estava com pressa.
— Não quero te incomodar.
Levi estalou a língua e levantou-se do sofá, ficando frente a frente com Eren.
— Não seria um incômodo levar meu namorado até a casa dele —constatou, olhando-o nos olhos. — Até porque eu gosto da forma como você se segura a mim quando eu acelero.
— Não é justo — gemeu Eren; podia sentir o ritmo cardíaco acelerar.
— O que não é justo? — Levi dizia enquanto se aproximava, abaixando a voz que era tomada pela rouquidão.
— Você. — Eren controlava a respiração com algum esforço. À medida que Levi se aproximava, seu corpo queimava em expectativa. — Sabe que tenho que ir, e ainda assim...
— Ainda assim...?
Levi já estava próximo o suficiente para que seus lábios tangessem os de Eren. Não esperou por uma resposta e o prendeu pela cintura contra seu corpo, encravando possessivamente os dedos no garoto e dominando sua boca mais uma vez.
Eren, que já estava na beira de seu limite, deixou-se entregar àquele carinho antes de ir. Suas mãos correram pela nuca de Levi, puxando-o e prendendo-o junto a si.
Antes que o beijo se intensificasse, Eren afastou a boca experiente de Levi, um último ato de rebeldia contra a tirania de seu namorado. Ambos ficaram parados de frente um para o outro, arfando e almejando por mais. Levi deu um sorriu felino e recuou um passo.
— Se você quer ir embora — a rouquidão na voz de Levi acendia toda a libido de Eren —, vá antes que eu me esqueça da minha promessa e o faça meu aqui e agora.
— Você realmente não joga limpo...
— Como se ter que resistir a você fosse algo fácil. — Os olhos de Levi ardiam nos de Eren.
— Levi... — Eren gemeu.
— Não chame pelo meu nome assim — avisou, recuando mais um passo. — Pare de enrolar e vá ver sua mãe.
Eren não respondeu mais nada; sabia que, se continuasse aquela conversa, chegaria à conclusão de que queria transar com Levi muito mais do que resolver seus problemas. Com um suspiro de desistência, Eren foi até o balcão pegar sua mochila e depois se dirigiu à porta. Antes de abrir a porta, virou-se para Levi e admirou um pouco a vista do corpo perfeitamente esculpido de seu namorado antes de despedir-se.
— Quando eu terminar de resolver tudo — disse com um tom cheio de promessas —, eu te ligo.
— Vou estar esperando — respondeu Levi, com um sorriso torto de tirar o fôlego.
Como sempre, as palavras saíram sem que Eren pudesse, de fato, pensar no que estava dizendo.
— O que você diria se eu te dissesse que... — Eren fez uma pausa assim que percebeu o que estava prestes a dizer. Ah, eu já comecei a perguntar mesmo. —... Se eu, talvez, dissesse que estou... começando a me apaixonar de verdade por você...?
Levi arqueou as sobrancelhas, mas manteve-se inabalado. Eren arrependeu-se do que disse assim que o viu cruzar os braços e suspirar lentamente. Pensou em dizer que era uma brincadeira, que não pretendia dizer nada daquilo. Já tinha feito a besteira de adiantar as coisas no início do relacionamento, não queria cometer o mesmo erro agora... Mesmo que realmente sentisse que...
— Eu prefiro... — Levi cortou o silêncio falando pausadamente, o que apenas aumentou a ansiedade de Eren. —... Não dar a minha resposta agora.
— O quê? — disse num fio de voz.
— Acho melhor você ir ver logo sua mãe — explicou Levi, impassível —, e deixar para conversar depois.
Eren não encontrou voz para respondê-lo, então apenas assentiu com a cabeça e abriu a porta, querendo ir embora o mais rápido possível.
— Não se esqueça de me ligar quando acabar — lembrou Levi.
— Ok — foi tudo que conseguiu dizer antes de fechar a porta atrás de si e correr para o elevador.
Enquanto isso, Levi descarregava a tensão num arfar tão pesado quanto seus pensamentos. Deitou-se no sofá e cobriu os olhos com o antebraço direito, privando-os de qualquer raio de luz. Seu coração estava encolhido em seu peito, numa dor estranha e crescente.
— Ah não, Eren... — murmurou para ninguém em especial.
Seu momento reflexivo foi interrompido pelo barulho de seu celular tocando, e agradeceu mentalmente a quem quer que estivesse ligando. Não queria pensar naquelas coisas, não queria pensar no que diria a Eren, não queria pensar no motivo de sentir tanta dor...
Ao menos, não ainda.
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