Vazio

1 Nascido para morrer - Capítulo Único


Notas iniciais
É sempre estranho quando você se dá conta do que você pensa de você mesmo. Pode parecer que não faz sentido, mas pare e pense na imagem e na mensagem que você tem e você quer para você mesmo. A vida é frágil. Escrevi porque sei que nunca seria escrito.

Pés não me falhem agora, preciso ir até a linha de chegada, o meu coração rompe a cada passo, mas vou esperar os portões abrirem, para me lançar ao vazio. Ao vazio que sempre fui.

***

Tente imaginar um garoto. Completamente sozinho, sem ninguém para consertá-lo quando ele estiver quebrado. Ou quem sabe, ele sempre esteve quebrado, um produto defeituoso. Descartável. Sem graça, só mais um desse que anda escondido pelas vielas de uma cidade qualquer, ele é um qualquer, completamente clichê. Mas tente pensar, que ele não suporta mais, que nem tudo é possível de se aguentar. A vida é frágil, as pessoas são fracas. Uma combinação perigosa.

Só não o façam mais chorar, não o deixem mais triste. O amor não é suficiente, e quanto menos a falta dele. O pior ainda está por vir, e o sorrisos já não querem mais sair. Estão sufocados dentro dele. Tudo vai ficar bem. Não hoje. O silêncio já foi quebrado, ele falou na aula de hoje, pelo menos uma vez, ele falou hoje. Algumas últimas palavras de desespero. Uma última chance de ser lembrado. Mas ninguém se importa, ainda precisa pegar o que queria e deixar sua marca vermelha no lugar onde tudo acontece. Ele é um paradoxo.

Ele está acordado, dá pra sentir em seus ossos. Estranho. Tentem pensar nele como um garoto comum. Ele fala sozinho em voz alta na rua, ele sai de pijama as duas horas da tarde, ele gosta de limão e de canela, ele gosta de livros, e até bebe algo alcoólico de vez em quando. Comum. Mas ele é radioativo, isso, radioativo. Erguendo suas bandeiras e tingindo suas roupas. Não se aproxime, ele é radioativo. Não queira se contaminar com a dor, mesmo que ela precise ser sentida. Ele escreve porque sabe que nunca será escrito.

Escolhendo suas últimas palavras, pela última vez.

Nós nascemos para morrer. Ele apenas nasceu para morrer. Nasceu para escrever amores, não para vivê-los. Nasceu para escrever garotas, não para conhecê-las. Nascido para morrer.

***

O vazio, ele me preenche. Preenchido de vazio, caminhando para a linha chegada ou talvez seja apenas uma partida. Estou partindo do fim. Tentarei esquecer isso, apagar do quadro negro. Tudo vai ficar bem, por que ninguém pode parar meu coração. Somente eu. E acho que ele está quieto agora.

Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.

Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.

Trecho de "Quero Escrever o Borrão Vermelho de Sangue", Clarice Lispector.

Notas finais
Ele escreve, por que sabe que nunca ser escrito. Algum comentrio?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!