Vazio
1 One-shot
Notas iniciais
Ela estava deitada, jogada em seu colchonete. Olhava para o teto, às vezes, dormia alguns minutos e então, despertava. Seu edredom enroscado em seu pé, mesmo estando muito, muito calor pra isso. Ela estava só de calcinha. Mentira, cuecas femininas. Havia até mesmo um estranho urso caolho “fofinho” desenhado nela. A TV não estava ligada. Na verdade, ela não podia ligar fazia algumas semanas. Ela não quis saber nem porquê, não via mesmo. Livros e revistas e papéis com escritos desvairados e desenhos estavam por toda a parte, junto a garrafas, latas, embalagens de pizza e salgadinhos. Provavelmente daria formigas. Ou baratas. Mas ela não se importava mais. Jogado no outro canto, um emaranhado de roupas emboladas se encontrava também. Algumas limpas, algumas sujas, quem se importava? Não ela, não mais. Havia trancado a faculdade. Lhe perguntaram o motivo, mas ela mesma não fazia menor ideia. Na verdade, não fazia ideia de nada. A vida não tinha mais nenhum sentido.
“Pra que trabalhamos?
Pra que estudamos?
Pra que vivemos?
Não vamos todos morrer no final?
Pra que estamos aqui?
Pra sentir prazer?
Só estamos vivos pra isso?
Trabalhos pra isso?
Estudamos pra isso?
Ganhamos dinheiro pra isso?
Mas o que é prazer?
E se o prazer é efêmero, pra que ele serve?
É uma corrida sem fim atrás do pote de ouro finito.
Pra que corremos?”
Olhou pra geladeira. Se levantou com muito esforço, como se suas pernas fossem de pedra. Um tanto arcada, coçou sua cabeça, seu cabelo estava todo pro alto. Esticou a coluna que fez “cléc” e então, foi andando timidamente até o eletrodoméstico de gelar as coisas. O abriu. 2 ovos, 5 latas de cerveja. Pegou uma lata, abriu, tomou umas goladas. Colocou a lata no chão, meio cheia, e então, se jogou de volta no colchonete. Seu pé envolveu – agora propositalmente – o edredom embolado. Bocejou à contra-gosto.
“Pra que comemos?
Pra que bebemos?
Pra que dormirmos?
Pra que respirarmos?
Pra que nos arrumarmos?
Pra que?
Deveria me matar?
Tenha coragem de me matar?
Pra que morrer?
O que vinha depois da morte era melhor que aquilo?
Não… Certamente que não”
Fechou os olhos e acabou embalada naquele sono de novo, que parecia ser a única coisa que lhe acalentava, mas…
De repente, a realidade começou a se distorcer e modificar. E então, ela se viu em outro momento, em outro lugar. Em uma cama grande, macia, espaçosa, gostosa, confortável, branca e cheirosa. Em quarto amplo, bem arrumado, confortável, bonito e com ar condicionado. E havia também uma TVde tela plana, LED, de 46 polegadas, que exibia canais em HD da TV à cabo. Mas nenhuma dessas coisas lhe apetecia, e sim, uma figura logo ao seu lado, deitada naquela cama, como ela. A figura era uma linda, linda garota. Pele branca, cara de criança, corpo de mulher, olhos esperançosos e ávidos, sonhadores, cabelos ondulados avermelhados, selvagens como a dona, sorriso largo e contente, cheiro bom e viciante, seus dedos se entrelaçavam nos seus, suas pernas nas suas, e então, seus corpos se tocavam de forma macia e familiar. E então, um beijo acontecia. Suas bocas se tocavam plenamente, amaciando e molhando nos lábios uma da outra, a língua passeando pela língua da outra, num gosto bom de tesão e…
Vazio.
Ela abria os olhos, sentava-se no colchonete em posição fetal, agarrava os próprios joelhos, e então, um murmuro, e um choro contínuo…
Desde que terminaram não mais via motivos para viver.
FIM
Fale com o autor