Vasto enquanto nosso
1 Sentados no silêncio.
Vasto Enquanto Nosso
Você sabe que está apaixonado quando se força a fazer algo que até então considerava impossível, e jura estar fazendo isso por um bom motivo.
Eu juro que estou fazendo isso por um bom motivo.
Procurei o maço de cigarros amaçados entre os bolsos da minha jaqueta, por precisar urgentemente de algo que me distraísse. Nós estávamos ali, ambos intensamente entediados e incomodados, e mesmo assim não fizemos nada para nos descontrair. Você sabe que alguém sequer cogita a possibilidade de corresponder a sua paixão quando ela não dá a mínima para você.
Noah não dava a mínima para mim.
Para ser sincero, não sei se Noah se importava com alguma coisa. Provavelmente era por isso que estávamos ali no silêncio da rádio, já há três horas de viagem, e não fazíamos nada para tornar tudo aquilo um pouco menos doloroso. Ele, por não se incomodar, eu, por não ter coragem.
Aliás: eu nunca tinha coragem para fazer nada quando o assunto era Noah, e eu juro que tenho um bom motivo para isso também.
“Vai fumar de janelas fechadas?” perguntou, quase que preocupado. Entregou-me o isqueiro, mesmo que eu não tivesse encontrado os cigarros ainda.
“Não quero que chova dentro do carro” respondi sem graça. Noah abaixou, ainda que só um pouquinho, o vidro do meu lado. Eu podia sentir as gotas grossas se desfazerem na janela antes de respigarem em meu rosto frio.
“Já estamos chegando”
O silêncio voltou a fazer sentido. Sempre que ele falava, eu me sentia mal de alguma forma. Na maioria das vezes, minha respiração parecia querer acabar, e uma angústia desconhecida preenchia meus pulmões até o ar voltar. Inspira, expira. Aí ele se cala, e eu peço por mais. Por mais que me doa, preferia tê-lo daquele jeito a me perder em uma última memória qualquer.
Troquei de rádio algumas vezes. A madrugada gelada estava extremamente escura, e eu me perguntei quando é que a chuva iria parar. Minhas costas doíam, e o cheiro de bebida ainda estava impregnado em mim. Estávamos em uma das muitas viagens que costumávamos fazer, sem nenhum destino em específico, apenas para ter o prazer de chegar.
“Nós não estamos chegando” expus a realidade. Ele deu um meio sorriso sem graça, como se sequer ele mesmo tivesse alguma fé no que tinha acabado de falar.
Estávamos longe de casa, tanto eu, quanto Noah. A estrada aberta parecia cada vez mais distante de tudo; a chuva reduzia nosso campo de visão e a última cidade já tinha ficado para trás há alguns quilômetros. Olhei para o rádio mais uma vez, me perguntando quantas horas seriam.
Voltei a procurar meus cigarros – nós não conversamos mais depois disso, e eu meio que sabia o porquê.
Noah odiava tudo o que eu fazia.
Eu não o culpava por isso. De alguma forma, nossas viagens se tornaram a pior coisa que poderia nos acontecer, apesar de tudo.
Não sei dizer quando foi que elas começaram a dar errado. Quando as conversas e os variados assuntos passaram a ser exprimidos contra o vidro do carro, e nossas personalidades tornaram-se incômodas, ocupando todo o couro do banco. Não sei dizer quando foi que eu me tornei uma pessoa chata, e minhas exigências se tornaram mais importantes do que a espontaneidade do momento. Quando foi que Noah tornou-se um nada, porque de tão indiferente e inseguro, suas melhores características evaporaram como combustível. Sabia, porém, que Noah não me suportava mais todo aquele tempo de viagem, mas ainda assim eu continuava chamando-o para todas.
Não sei se tinha um bom motivo para isso também.
De qualquer forma, eu já havia me acostumado como seu novo jeito de me tratar. Ele ignorava minhas dores e me culpava por minhas consequências. Assim, só me bastava buscar por sua atenção e agonizar minha paixão, quilômetro por quilômetro.
Era como se estivéssemos brincando de correr e esconder. Como se eu estivesse sempre correndo e ele sempre se escondendo.
O meu bom motivo? Não tenho certeza. Acho que eu comecei a correr quando percebi que o amava. Acho que estou correndo até hoje. Sendo muito honesto, não acho que o amor seja um bom motivo para nada. Não é uma boa justificativa para me forçar àquelas viagens que já me faziam tão mal.
Porque não importa o quanto corra, Noah sempre estaria escondido.
Escondido atrás de minhas desculpas, em cima de meus problemas, dentro do seu carro muito bem cuidado. Ele estava escondido bem debaixo de meu nariz, mas eu nunca poderia fazer nada em relação a isso.
Encontrei o maço caído quase atrás do banco. Voltei para o meu conforto e acendi o cigarro antes de recolocar o cinto. A primeira tragada sempre parecia ser mais difícil, porém nunca demorava muito para eu me encontrar nos prazeres da nicotina.
Voltei a fumar logo depois que o conheci. Seus olhos azuis me entorpeceram, fizeram minhas pernas bambearem. Sua voz grave me fez me esquecer de todas as minhas esquisitices por um tempo, e eu logo percebi que queria cada vez mais disso. Não me julguem errado: eu não me destruo apenas porque sofri de um amor não correspondido. Eu me mato aos poucos todos os dias por perceber que qualquer cigarro me faz melhor que o Noah.
Soltei a fumaça pela fresta da janela, as gotas que escapavam para dentro do carro molhando o cigarro amassado. Alguma coisa ali, naquele carro, naquele rádio mal sintonizado, me fazia mal. Nós não nos fazíamos bem mais, sequer o mínimo necessário para se considerar isso uma relação saudável.
Ficávamos lá, presos atrás das janelas, com medo de uma chuva forte no meio de uma estrada qualquer. Como se a única coisa que nos forçasse a ficar juntos fosse a quantidade de gotas gordas que batiam na lataria do carro.
Porque nós estávamos lá. Fazendo bem ou não.
Eu sabia dos meus bons motivos. Sabia que havia me acostumado em receber o mínimo, me forçado a aceitar qualquer coisa, me inclinado a fazer o que me tornava pior apenas por passar algumas horas com alguém que sequer me olhava. Já Noah, bem, Noah me detestava, e tentava inutilmente esconder isso.
E por mais que ele me odeie e me julgue desnecessário, ele estava lá. E o único bom motivo que eu via para isso, é que ele tentava esconder de si mesmo o quanto me repugnava, como se fosse errado me odiar. Como se eu tivesse que me enquadrar nas suas estradas, de um jeito ou de outro. Como se estivesse tentando me consertar.
De alguma forma, acho que nós dois nos forçávamos a acreditar que aquilo não era tão ruim quanto parecia. Quer dizer, tudo começou tão bem, não foi? Não tinha como ter desaparecido toda a magia. Não tinha como toda a euforia ter se acabado em pó, em vento. Não tinha como uma pessoa tão curiosa quanto Noah, fazer tão mal para uma pessoa tão sorridente quanto eu.
Nós éramos perfeitos – nós nos forçávamos a acreditar que éramos, porque de alguma forma estranha, ambos precisávamos daquilo, mesmo que pelos motivos mais errados. Porque não queríamos acreditar que algo tão maravilhoso havia se acabado tão rápido. E assim, nós acreditávamos. Acreditávamos que, enquanto fosse nosso, sempre seria bom.
Que bastava um pouco de gasolina e de disposição para nos tornar grande. Vívido. Contagiante. Que enquanto fosse nosso, não existiriam problemas. Talvez, isso fora verdade por um tempo. Talvez realmente tenha sido vasto enquanto nosso; entretanto, com o passar das viagens, o que quer que fosse aquilo já não era mais nosso.
O cigarro já estava passando da metade quando Noah virou à esquerda para encontrar algum posto de gasolina. Ajeitei-me no banco com pressa, um tanto quanto nervoso.
Até um tempo atrás, considerava impossível que eu, cheio das estranhas confianças e experiências, encontrasse e aceitasse qualquer tipo de relacionamento que me machucasse. Sempre aceitei todas as opiniões e exclamei meus incômodos para evitar isso. Todavia, quando conhecia Noah, comecei a correr atrás de motivos para aturar aquilo que, se colocado na balança, provaria o peso das coisas negativas.
Dei mais alguns tragos antes de abrir a janela, jogando o resto do cigarro no asfalto molhado.
Noah estacionou e pediu para encherem o tanque. Suspirei pesado. Eu era mais do que isso. Mais do que tudo aquilo. Eu era o suficiente, e deveria fazer coisas que me fizessem sentir como tal. Soltei o cinto.
“O que você está fazendo?” ele me perguntou, surpreso. Abri a porta do carro, saí e não voltei a fechar. Andei alguns passos. “Aonde você está indo?”
As gotas de chuva caíram no meu ombro, molharam meu cabelo e escorreram pelo meu jeans. Era só chuva. Só água, limpa e densa, e eu não precisava me trancar no carro para fugir dela. A chuva era pesada, como se me empurrasse para baixo, e eu nunca estive tão leve. Sorri, mostrando todos os dentes, como não fazia há muito tempo.
Eu poderia, sim, acabar com todas as minhas boas causas e exterminar todas as minhas certezas, todas as minhas paixonites. E aí, de repente, eu não precisaria mais me forçar a viver um relacionamento tão tóxico, apenas pela ilusão de que um dia poderia voltar a ser grandioso como fora um dia. Não precisaria mais chorar antes dos sonhos ou me agoniar de ansiedade. Não precisaria mais me sentir não suficiente, porque eu era, sim, o suficiente, e cada goda de água me afirmava isso. Eu poderia, sim, jogar para cima tudo o que quisesse, e ele não precisaria mais se esconder. Nós iriamos acabar com essa brincadeirinha sem graça.
Eu estava vivo e cheirando a álcool.
“Vem, Chris” ele me chamou depois de pagar o combustível. Noah virou para trás, encontrou uma toalha seca entre suas mochilas já reviradas e fez um sinal breve com a mão, como se dissesse para me apressar. Ainda molhado, cogitei sobre o assunto. Havia algo naqueles olhos azuis que incompreendiam toda e qualquer ação minha. Senti vontade de fumar mais uma vez.
Voltei para o meu lugar, sentado do seu lado.
Nós ainda estávamos sem graça, e eu ainda estava mal por uma relação que sequer sei porque mantenho. Procurei um bom motivo para ter ido de novo ao encontro de Noah dentro daquele carro cheirando a cigarro.
E então, me lembrei do meu melhor motivo: eu ainda estava correndo.
Fale com o autor