Vastalto - O Cachecol e o Dragão

4 Capítulo 1 - "Capaz" (Fragmento Três)


Bástilo não estava entendendo. Pegou outro livro, um vermelho. Seu título era:

“Escreva aqui a sua história nestas páginas! Nunca seja esquecido!”.

Achava divertida a forma como os livros eram tão diretos só pela capa. Aquele era como um livro do povo. Todos que queriam desabafar ou escrever sua história de vida, ali poderiam. Bastava pegar uma caneta e começar a escrever. Folheou algumas páginas. Algumas citações e histórias pareciam ter sido escritas por crianças e outras por pessoas mais adultas. Bástilo limpou sua garganta e virou o rosto para a direção de Raja. Lia tudo em voz alta, para ela:

“Eu adoro a comida que minha mãe faz. É muto gostosa. Queria comer todo dia mas não sei se ela deixa... Ela é dona do rastorante mais famoso da ilha. Todos adoram ir lá!”

“Minha vida é horrível. Todos os caras de quem eu já gostei me deixaram, e eu sempre termino sozinho. Gosto de vir à biblioteca pra chorar. Não aguento mais isso.”

“Jude sempre será o grande amor da minha vida. Pedi ela em casamento há anos, depois de gravar nosso nome numa árvore. Desde aquele dia, ela usa uma flor na cabeça como símbolo de amor. Tempos depois, compramos uma casinha perto da biblioteca, e esperamos vir aqui sempre com os nossos filhos. Ela está grávida e nosso segundo filho vai nascer próxima semana. Estamos ansiosos.”

“Hoje, eu brinquei com meu amigo Kolly. Ele é legal e muito bonito. Quero brincar com ele pra sempre. Espero que o parque da cidade esteja sempre livre para nós.”

“Achei um novo amor hoje. Nem todos os caras me deixaram, afinal. Quero ficar com ele pra sempre, aqui na Ilha de Nápagos.”

“Jude recebeu uma oferta de emprego, a de proteger o aquecedor. Uau, o trabalho mais prestigiado da cidade! Espero que ela seja feliz aqui. Ela me disse que só aceitou o trabalho depois de lhe falarem que poderia continuar com a nossa flor na cabeça enquanto trabalhava. Virei visitá-la todo dia com nossos filhos.”

Achava graça nas citações até chegar na última. Sua feição de divertimento, em segundos se transformava em uma de medo. Percebia que tinha acontecido algo mais naquela ilha e não era nada bom. Leu em silêncio:

“Não sabemos quem são esses caras, mas estão matando a todos. Minha família inteira já se foi. Não consegui pedir desculpa pra mamãe depois da briga de ontem. Estão todos morrendo lá fora. Não quero morrer, mas acho que não vamos resistir por muito mais tempo. Que fique aqui gravado, pra sempre, a memória de nosso povo. ”

Seus olhos arregalaram de preocupação. Apertava o livro com força e suas fitas tremiam. Fechou os olhos por um segundo e respirou fundo.

— Garota, tem algo errado! Alguém invadiu a ilha!

O dragão fechou o livro e correu até a porta escura por onde Raja tinha passado. Não conseguia enxergar muita coisa ali dentro, então não entrou. Apenas tentava falar o mais alto possível para que Raja conseguisse ouvi-lo lá de dentro.

— Acho que você já deve saber quem foram...!

Ela ouvia, mas não entendia. Continuava a procurar alguma coisa relevante pela escuridão, mas era como andar numa sala vazia. Se virou para Bástilo.

— Como eu vou saber quem invadiu a ilha? – perguntou, andando de costas. Não prestava atenção no que tinha logo atrás dela, até que sentiu suas costas colidirem com alguma coisa.

— Raja, não me diga que você não sabe que... — Preocupado, se deteve. Imaginava que ela soubesse. — Eles são como pragas no mundo todo. — Aumentava o tom de voz. — São eles que estragam tudo! Eles! ― saiu com mais rancor do que gostaria.

A garota contornava o seu ombro lentamente, com medo do que poderia encontrar ali atrás dela ao se virar. Mas não conseguia enxergar muito bem o que era. Foi passando a tocha de baixo para cima, tentando entender o objeto logo adiante. Percebeu que era uma estátua, de pedra, acinzentada, quase azul. Feminina. Sua posição era de quem estava prestes a ser atingida. De quem estava indefesa e com medo. Tentava se proteger com as mãos e suas roupas estavam rasgadas. Sua feição era de puro terror.

— Sua ilha não é a única amaldiçoada por eles, Raja. Eles com certeza estão em toda parte! ― continuou Bástilo, falando com raiva. A garota escutava, com medo; não era muito comum ver Bástilo gritando com tanto ódio daquela forma, ele sempre pareceu ser bastante calmo.

— Você não acha que eles existem só na sua ilha, não é, Raja? Você sabe disso, não sabe?

Raja olhou para a estátua direito. Tinha certeza do que via e finalmente compreendia o que Bástilo sentia. Olhou para a cabeça daquilo. A estátua, com sua expressão tão pesada de dor em seu olhar, tinha uma flor emaranhada em seus cabelos.

Enquanto o seu pulmão parecia estar expulsando ar, se afastou da estátua boquiaberta e ofegante. Não queria acreditar que estava vendo aquilo. Suas mãos foram à boca, negando, mas já era tarde demais. Estava ali, bem em sua frente, uma mulher morta. Estava petrificada. Tudo culpa deles... Não sabia que fora da ilha dela eles também estavam dominando tudo. Não queria acreditar. Era terrível demais para ser verdade.

— Os Cobradores. — falou com a voz tremida e corria até Bástilo, prendendo a respiração aterrorizada. ― Tem uma moça de pedra, com uma flor na cabeça, aqui! Foram eles! — apontava para a estátua e o seu cachecol não mais dançava, apenas arrastava no chão. Ela estava fora de si.

— E provavelmente foram eles que desligaram o Aquecedor também! Claro que foram!

Enxergava o dragão na porta, esperando por ela do lado de fora da sala escura. Disparou-se em sua direção, mas seu pé prendeu na própria perna e a garota caía no meio do caminho. Estirada no chão, sentia algo nada agradável. Era o azulejo embaixo dela afundando no piso. Como um botão disfarçado ali. A sala onde ela estava e toda a biblioteca começaram a tremer.

— Raja?! – Bástilo a chamava, preocupado com o silêncio repentino. — Raja?! Está tudo bem? — sentia o tremor e olhava em volta. — Saia daí de dentro, garota! Tem algo errado!

Em um estrondo, a única saída da garota se fechava sozinha e o dragão começou a se desesperar.

— Bástilo! Socorro! — olhava para cima. Uma plataforma enorme de pedra descia lentamente sobre sua cabeça. — É o teto… Ele está descendo… — berrava, com a voz agonizando. Olhava para todos os lados possíveis, procurando alguma saída, algum jeito de fugir dali. Pensou. Fechou os olhos e se esforçava para fazer o cachecol empurrar o teto para cima. Suas duas pontas empurravam a plataforma enorme de pedra, mas o cachecol não era forte, apenas veloz. De nada adiantava. — O cachecol não funciona, Bás! — vociferou para ele. — Não é forte o suficiente!

Bástilo se arrastava pela biblioteca, procurando alguma forma de agir.

— Calma, menina! Eu vou te tirar daí! — tentava acalmar a garota, mas, na verdade, não tinha a mínima ideia de como tirá-la de lá e provavelmente estava até mais nervoso do que ela.

Fechava os olhos e respirava fundo, novamente. — Calma, Bástilo. Vamos pensar! — ele disse para si mesmo. — Os Cobradores não querem que liguem o Aquecedor, então eles colocaram armadilhas por toda a Biblioteca. — Isso parecia explicar a quantidade de sangue velho em todo lugar. — E a guardiã do Aquecedor está lá dentro. Ela tem uma flor na cabeça — concluiu. Não sabia exatamente o que tinha acontecido com ela, mas sabia de uma coisa: guardiões sempre têm todas as chaves do lugar que guardam.

O dragão abria os olhos ferozmente, e se esgueirou rapidamente até a porta do cômodo onde Raja estava presa. — Garota! Procure na mulher petrificada alguma chave! — disse, tentando enxergar alguma coisa com os olhos na fechadura. — Ela deve ter todas as chaves daqui, para todas as portas!

Raja prestava atenção em Bástilo, mas aterrorizada e descontrolada, deixou a tocha cair no chão e apagar. Estava na escuridão total e, ainda por cima, precisava achar a chave naquela pedra.

— Droga, a tocha apagou! ― reclamou sozinha, apesar do seu amigo a ter escutado. Apalpava a estátua inteira, procurando a chave. Sentia o teto cada vez mais perto de sua cabeça, fazendo um barulho estrondosamente assustador enquanto derrubava poeira nos cabelos de Raja. Quanto mais perto ficava, mais elétrica sentia seu corpo.

Finalmente sentia a chave no corpo da mulher, mas estava presa num cordão afivelado à sua cintura. Tentou puxar o cordão com o máximo de força possível, mas a chave não parecia estar muito “disposta” a sair dali.

— Droga, Bás! Não consigo tirar a chave! – ela exclamou. Bástilo não sabia nem o que dizer. Ele não poderia fazer muita coisa do lado de fora da sala. Mas tentava bater na porta com força a fim de forçar sua abertura. Sem sucesso. A plataforma descia e descia, e Raja não sabia mais como agir. Continuava a puxar a chave, mas de nada adiantava.

Foi quando o teto chegou a ficar tão baixo, que tocava na cabeça da moça morta. O peso dele era muito grande e, ao forçar a estrutura dela contra o chão, crás. Rachou, despedaçando-se completamente. Sobravam apenas a chave e o seu cordão. A garota estava cada vez mais apertada ali. Não conseguia nem ficar de pé.

De joelhos, enfiou a mão no que sobrou da estátua e pegou a chave.

— Peguei a chave! — engatinhava, procurando a parede. ― Mas não consigo encontrar a porta! ― No escuro, não conseguia achar a saída. Bástilo percebia sua dificuldade e começou a cantar qualquer coisa para que ela seguisse sua voz. Cantava muito mal, sobre morte e destruição. Provavelmente eram as palavras que vinham em sua cabeça na hora. Sua voz arranhava e Raja se sentia ouvindo um cantor de ópera ruim, cantando uma música de terror. Mas deu certo. — A letra dessa música não é bem o que me tranquiliza, Bástilo! — achou a saída.

Movimentava as mãos pela porta, procurando o buraco da fechadura, para ter acesso à saída que estava bem à sua frente. O que ela não esperava era que a plataforma já tivesse coberto metade da porta e, assim, a fechadura também — não poderia usar a chave do lado de dentro da sala. Teve uma ideia.

— Ei! Eu vou tentar passar a chave por debaixo da porta! — comunicava a Bástilo enquanto se jogava no chão,e arrastava a chave por ele, passando-a para o lado de fora. Em menos de cinco segundos, Bástilo pegou a chave e, do outro lado, destrancou a porta criando finalmente uma saída para a garota. Ele, então, enrolava suas fitinhas nos braços dela, a puxando.

A plataforma enorme, pesada e volumosa tocava no piso, e finalmente fechava a entrada completamente.

Bum.

A garota, deitada de barriga para cima, respirava tão profundamente que dava para sentir sua vida quase a se esvair. Não tinha morrido, obviamente, mas estava triste e se sentia vazia. Ela se levantou. Bástilo trocava olhares com Raja, rapidamente. Estava triste por ter descoberto que os Cobradores dominaram a Ilha de Nápagos. A mulher que estava ali dentro tinha sido assassinada por eles. Raja já estava acostumada a ver aquela expressão de medo em quem se bate com os Cobradores, mas não sabia que eles existiam em todos os céus de Glaar.

— Eu não acredito ― falou enquanto olhava fixamente para o chão, como se tivesse algo de interessante nele. — Eles destruíram tudo…! — Passou a olhar para a biblioteca, reparando em toda a bagunça e em todo o sangue. — Como eles podem chegar na ilha de alguém e fazer isso? — se perguntava, enfurecida. Já o bicho, consentia, calado. — Eles morreram, Bástilo. — Raja sentava no chão. — É o que vai acontecer com a minha ilha? Eles vão secar todos os nossos recursos, pegar todo o dinheiro, nos transformar em pedra e ir embora?

Bástilo levantava a cabeça, alcançando a altura de seu pescoço. Ao lado dela, segurava sua mão. Suas fitas eram lisas e macias, como um gigantesco dedo maleável.

— Não ainda, Raja. Sua ilha, a Ilha de Venépole, é uma das mais coloridas de todos os céus. Eu já viajei para muitas, então, sei do que estou falando. ― Bástilo tentava alegrá-la. — Eles vão demorar muitos anos até que sequem vocês completamente.

Sabia que o dragão estava tentando fazê-la se sentir melhor, mas apenas piorava a situação. Não se sentia muito melhor ouvindo aquilo, apesar de saber que era verdade. Apenas tinha certeza de que precisava sair da ilha onde estava e rápido.

— Bás… — Ela olhava para ele com seu olhar penetrante e triste. — Eles podem ter matado todos nessa ilha… Mas as pessoas que vierem aqui precisam lembrar, precisam saber que essas pessoas existiram. ― estava angustiada. — Está tudo coberto de neve. Nossa… Eles merecem, no mínimo, ser lembrados.

Levantou-se e limpou as mãos uma na outra.

— Eu quero ligar aquecedor de novo! — seus olhos apertavam determinada. ― Se tudo o que restou desta ilha foi a cidade, não deveria estar soterrada! — soltou um suspiro profundo e colocou as mãos na cintura. Esticou o pescoço e estalou a coluna num movimento nada agradável de se ver. O cachecol voltava a dançar em volta dela e se sentia disposta a continuar em frente.

— As criaturas lá fora… — olhava para o portão da biblioteca que tremia. — Elas não têm olhos. Nem ouvidos. Apenas… bocas. Como elas sabem onde estamos?

Bástilo se surpreendia com a habilidade de Raja que, de repente, já estava focada de novo. Ele já sabia a resposta para sua pergunta, mas preferiu olhar para a garota e esperar algo dela.

— O único jeito seria… — pensava, até que estalou os dedos e abriu um sorriso. — Sentindo o calor! — olhou toda feliz para o dragão. — Mas a única coisa que realmente emite calor aqui… — olhou para baixo. — É o cachecol. — Segurou-o, firme e forte. — Foi por isso que elas começaram a me seguir lá fora…! — Tentou apontar para alguma janela, mas não tinha nenhuma visível, então abaixou o braço. — Foi quando o cachecol começou a me esquentar, a emitir calor, que elas apareceram e nos perseguiram!

O amigo consentia com a cabeça, enquanto ia até a mesma prateleira que estava antes.

— Aqui diz que o Aquecedor fica no subterrâneo da Biblio-Prefeitura. Se vamos mesmo ligá-lo, temos que achar o caminho para lá — informava ele.

A garota olhava para todas as outras entradas que tinha ignorado anteriormente. Apenas uma delas tinha uma escada que descia. Raja, então, segurou Bástilo pelas fitas e correu até lá, puxando-o.

— Nós vamos ligar esse aquecedor. – Raja murmurava, falando para o povo morto, não mais presente ali. ― Eu prometo. Vocês vão ressuscitar na memória do mundo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.