Variable Geo: Exile

11 Acusação - Parte 2


No lado de fora do prédio, os relâmpagos e o vento se intensificavam. Aos poucos, a chuva começava a cair.

– O torneio que se passou no Cruzeiro Venus possuía o maior prêmio já pago na história do Variable Geo. Dez milhões de Ienes. Eu me inscrevi porque com essa quantia eu poderia salvar o restaurante do meu irmão.

Maxwell se espantou.

– ...Dez milhões de Ienes? Eu não sei quanto isso vale em Dólares americanos, mas ainda assim é espantoso imaginar uma única pessoa recebendo essa quantia.

– Mas na realidade, esse prêmio não passava de uma armadilha para atrair as lutadoras.

– Armadilha? Como assim? Algo do tipo, mantê-las aprisionadas como reféns?

Yuu colocou a xícara de volta na mesa.

– O que você sabe sobre o torneio? — Perguntou Yuu.

– Deixa eu ver... É um esporte praticado por garçonetes do Japão para atrair freguesia para seus restaurantes e conquistar público.

Yuu negou com a cabeça.

– Isso é só o que a mídia e a população pensam. Existe algo aterrorizante escondido.

Maxwell começou a se interessar cada vez mais.

– Aterrorizante?

– Sim. Havia uma organização por trás daquele evento.

– E o que eles faziam?

Yuu pensou um pouco.

– Vou tentar explicar da forma mais simples possível... Basicamente, havia um grande sistema instalado naquele navio. Toda vez que as lutadoras entravam no ringue, esse mesmo sistema coletava seus dados... Como se fosse um DNA.

Maxwell estranhou.

– DNA?

– Sim. Essa data era armazenada em um laboratório escondido no interior do Cruzeiro. O objetivo era coletar toda a data das lutadoras e criar uma terrível arma biológica com um poder inimaginável.

Naquele momento, Maxwell se esforçou para não rir.

– Espera, senhorita Asuka. Você está me pedindo para acreditar que estavam estudando criar um ser humano artificial naquele Cruzeiro a partir dos dados das lutadoras?

– Eu não disse artificial.

Maxwell se espantou.

– Havia um corpo humano. — Continuou Yuu — Eles o armazenaram no laboratório. Esse corpo receberia a data coletada das lutadoras, e se transformaria na arma biológica.

Aquilo era informação demais.

– Deixa eu ver se eu entendi... O que todos pensavam que era só um torneio de artes marciais, era na verdade um projeto para criar uma arma biológica coletando dados das competidoras?

– Sim.

– Alguém sabia disso?

– Yuka sabia.

Naquele momento, Maxwell sofreu um choque.

– Ela se inscreveu no torneio para tentar evitar que isso se concretizasse. — Concluiu Yuu.

– Yuka sabia... Como?

– Pelo que ela me contou, algo semelhante ocorreu no passado. Porém, numa escala muito menor.

Após Yuu terminar de falar, Maxwell percebeu que sabia muito menos sobre sua amiga do que ela havia lhe contado. O que mais poderia ter acontecido?

– Ok, isso tudo eu entendi... E sobre o acidente? O que você pode me dizer?

– Bem... Eu fiquei sabendo sobre o acidente em cima da hora.

– Não tem problema... Tudo que você me disser será o bastante.

Yuu juntou as mãos.

– Então... O que aconteceu foi o seguinte...

Yuu estava em seu quarto, no navio. De repente, percebeu que a luz estava piscando.

– Heim...? O que está acontecendo?

Naquele instante, alguém bateu violentamente na porta. Yuu correu atender.

– Takigawa?! O que está havendo?!

O navio sacudiu com força, quase fazendo com que ambos caíssem.

– Temos que sair daqui! Rápido! — Disse Takigawa, puxando Yuu pelo braço.

Os dois atravessaram o corredor principal. Quando chegaram ao salão, encontraram dezenas de pessoas correndo desesperadas. Havia inclusive algumas desmaiadas. Talvez tivessem sido atingidas por alguma coisa, ou apenas o susto foi o bastante.

– Takigawa... O que é isso?!

– O navio não vai aguentar muito tempo. Parece que houve algum desastre na parte inferior. Irá afundar em breve!

Em meio a toda a gritaria, Os dois correram até a escada que levava ao Deck. Takigawa olhou para o céu e viu três helicópteros.

– Droga! Isso foi tudo que conseguiram?!

Yuu olhou em um dos helicópteros, e viu as outras lutadoras do torneio. Nos outros, haviam pessoas aleatórias.

Porém, havia alguém faltando...

– Yuu, suba em um dos helicópteros. Eu vou... Tentar ver se consigo trazer mais pessoas.

Yuu pegou no braço de Takigawa.

– Espere! Onde está a Misty... Digo, a Yuka?

– Eu... Eu não sei. Sinceramente, não a vi em local algum!

Determinada, Yuu correu de volta para o salão.

– Yuu! Espere! — Gritou Takigawa.

– Eu vou procurar pela Yuka! Você pode ir na frente!

Takigawa notou que não podia fazer mais nada.

Yuu passou pelo meio da multidão, que aos poucos começava a tomar conta do Deck.

– Yuka!! — Gritava, tentando encontrá-la.

Mas parecia impossível. Não havia mais ninguém nos corredores a essa altura. E aos poucos, a água fatalmente estava tomando conta dos andares inferiores.

Quando estava prestes a perder as esperanças, notou que havia alguém sentado ao lado da porta, no final do corredor. Ao se aproximar, encontrou Yuka, com os olhos fechados.

– Yuka!! É você!!

Yuu tentou acordá-la.

– Yuka! Eu vim te buscar! Vamos logo!

– ...Me deixe... — Disse Yuka.

– ...Te deixar? Por quê? De forma alguma, venha comigo!

Yuka resistiu.

– Eu não quero ir! Me deixe em paz!

Yuu não respondeu, mas imediatamente, pegou Yuka pelo braço, e a carregou até o final do corredor. A água já começava a subir.

– E então? — Perguntou Maxwell.

– Foi só isso... Yuka adormeceu no helicóptero, e voltamos para Tóquio. Óbviamente, nem todos conseguiram sair do navio, e alguns... Ou melhor, muitos acabaram perdendo suas vidas.

Maxwell pensou.

– Takigawa... Ele estava lá também... Por que Yuka não me contou?

– Eu não faço idéia. — Disse Yuu.

"Poderia... Yuka ter causado o acidente?" — Se perguntou Maxwell.

Yuu olhou pela janela. A pequena chuva de antes havia se transformado em uma tempestade.

– Parece que eu vou me molhar bastante até chegar em casa. — Comentou Yuu.

Maxwell refletiu.

– Você... Gostaria de passar a noite aqui? — Perguntou calmamente.

Yuu olhou para ele, surpresa.

– A... Aqui?!

– Sim. Se você quiser, pode avisar seu irmão. Eu tenho um quarto de hóspedes. É bem pequeno, porém.

– Eu... Não sei...

Naquele instante, um relâmpago clareou toda a sala. Um estrondoso trovão se seguiu.

– É melhor ficar... — Comentou Maxwell.

Maxwell levou Yuu até o quarto de hóspedes.

– Desculpe o estado... Eu não costumo receber hóspedes então...

– De forma alguma. — Comentou Yuu — Pra mim é perfeito.

Yuu sentou-se na cama.

– Se precisar de alguma coisa... Estarei no meu quarto.

– Eu vou ficar bem. Obrigada, Maxwell.

Maxwell sorriu levemente, e saiu, fechando a porta. Em seguida, foi até seu quarto, e deitou-se.

"Hum... Se tudo que ela disse for verdade... Eu vou precisar mesmo da informação da Yuka. Mas... Como farei isso? Ela se recusa a falar... E eu não posso forçá-la. Seria muita crueldade, além de ser errado como policial. Eu me sinto como um rei que está afogado."

No xadrez, existe um movimento chamado "Afogar o Rei". Isso acontece quando você não consegue deixar o rei do adversário em xeque, porém o mesmo fica sem saída. Nesse caso, a menos que existam outras peças rivais no tabuleiro, a partida não pode ser concluída, e o jogo termina empatado.

Era assim que Maxwell se sentia. Ele não podia avançar em Yuka, mas se ficasse parado, não chegaria a local algum.

Por hora, ele não podia fazer nada, a não ser processar as informações de Yuu, e dormir.

Maxwell acordou às sete horas no dia seguinte. A tempestade havia terminado. Após levantar-se, foi checar se estava tudo bem com Yuu.

– Yuu? Você já acordou? — Perguntou pela porta.

Não houve resposta. Será que ela havia ido embora? Ou ainda estava dormindo?

Maxwell calmamente abriu a porta. Ao entrar no quarto, notou que definitivamente havia alguém debaixo das cobertas.

– ...Yuu? Está tudo bem?

Estava calmo demais. Gentilmente, Maxwell se aproximou e puxou a coberta, bem devagar. Em seguida, uma expressão de pavor tomou conta de seu rosto.