No fim da aula, Thomas levantou e saiu pela porta apressado, dando um passo de cada vez pelos corredores, sentindo dentro de si uma vontade enorme de sair correndo para longe dali, estava se sentindo tão deslocado daquele novo mundo que mal podia respirar.

– Thomas, ei! – Gritaram atrás dele. Thomas não queria parar, não queria olhar para trás, mas respirou fundo e parou. Era Newt.

– Por que a pressa?

– Nada. Só, vontade de ir pra casa.

Newt assentiu. Seus lábios abriram para falar algo, mas fecharam-se em seguida. Os dois ficaram em silêncio por um breve segundo.

– Vai ter uma festa de recepção para os novatos. Quer ir?

– Festa, né?– Thomas balançou a cabeça afirmativamente. Não costumava ir para festas, na verdade era mais parecido com um medroso (meio maricas) do interior, do que qualquer outra coisa. Desejou não ir, dentro de sim um outro eu gritava “não vá”, mas concordou. Lembrou das palavras de sua mãe, para aproveitar a nova vida, fazer amigos. Talvez aquela fosse uma oportunidade.

Newt ficou feliz, parecia mais animado com o novo amigo, do que Thomas.

*

O local da festa era na praia, como um luau. Havia música eletrônica, muitos jovens embriagados ou se embriagando, outros se pegando. Thomas respirou fundo e seguiu Newt por entre os dançarinos bêbados.

– Quer uma? – Newt estendeu um copo transparente para Thomas. Ele podia sentir o cheiro do álcool de longe. Balançou a cabeça negativamente, preferia se manter sóbrio. – Ah, qual é Thomas. Vamos animar essa cabecinha. – Ele disse dando um tapinha de leve na cabeça de Thomas, que riu em seguida. Estendeu a mão e pegou o copo, era vodka. Sentiu o líquido gelado descer pela garganta queimando, como se injetasse fogo dentro de si.

Newt deu uma gargalhada sonora ao ver a careta do novo amigo, para ele parecia bastante engraçado tentar embriagar as pessoas. Thomas recusou todos os outros copos que lhe foram oferecidos, aquilo não parecia muito bom.

– Ei novato! – Era a mesma garota da aula de Ciências Humanas e Sociais.

– Oi… Veterana! – Thomas tentou ser o mais amigável possível, mas o apelido “novato” lhe soou um pouco pejorativo.

– Thomas, né? – Ela disse. Talvez mencionou seu nome ao ver a cara que fizera ao ouvi-la chamá-lo de novato.

– É. – Ele concordou. Ela sorriu, em seguida o baixou os olhos fitando-o cabeça a baixo.

– Hey, você é gatinho, sabia? Thomas enrubesceu com o elogio, a garota era bem calorosa com as pessoas, até demais. Mas ele entendeu de onde vinha tanta “simpatia”, o copo cheio de vodka brilhava com as luzes na mão de Teresa, ela sorria abobalhada. Embriagada, é claro. Ele tentou se afastar, mas a mão de Teresa segurou a sua, o fazendo se arrepiar com o toque macio da pele dela. Ela notou e sorriu ainda mais e se aproximou ainda mais. O rosto agora tão próximo do seu, a boca tão próxima da sua. Thomas podia sentir o calor emanar da língua dela, e também podia sentir o cheio forte do álcool que parecia sair de todos os seus poros. Thomas virou o rosto, deixando que Teresa beijasse apenas sua bochecha. Por um segundo, correu um lapso de lucidez nela, que se sentiu envergonhada e apenas saiu de perto dele, sem ao menos se desculpar. Thomas suspirou de alívio, não que ele não gostasse de garotas, mas não queria se aproveitar de uma delas embriagada.

– Deixou passar essa ein. – Era Gally de novo. Sua boca cheia de dentes estava aberta, deixando escapar uma risada estrondosa. – Seu mulherzinha.

Thomas sentiu novamente uma vontade de lhe esmurrar, mas se controlou. Era apenas o primeiro dia na faculdade. Não podia arranjar brigas, muito menos uma garota embriagada e atirada para lhe atrapalhar. Girou nos calcanhares e se distanciou.

Mais alguns passos e a música ficou longe o suficiente para que enfim pudesse ouvir seus próprios pensamentos e cair na real, aquilo era mesmo pra ele? Sentiu as lágrimas brotarem em seus olhos, mas respirou profundamente antes de pensar em qualquer besteira. Seu sonho era ir para a cidade grande, seu sonho era entrar na faculdade e se formar. Não podia deixar isso passar por conta de ser apreensivo e medroso, e realmente, como Gally dissera, meio mulherzinha. Não podia deixar que pessoas como ele o deixassem tão pra baixo, ele sempre fora tão determinado, porque estava perdendo a esperança tão depressa?

– Tá tudo bem? – Seus pensamentos se dissiparam com a voz de Newt. – Sim. – Thomas disse e sentou em uma pedra, onde a água do mar batia em seus pés e voltava lentamente.

– O Gally está te irritando de novo?

– É, por aí.

– O que mais?

– Aquela garota, Teresa. Ela é louca. Aliás, todos são. – Thomas respirou fundo e disse tudo que sentia em uma enxurrada só, pro um momento sentiu como se Newt fosse realmente seu único amigo. – Sabe, é difícil. Eu não sou daqui, eu não conheço ninguém e olha a recepção que eu estou tendo. Eu estou com medo Newt, muito medo. Eu… Eu não… Ah! – Thomas baixou a cabeça e se sentiu tonto, não sabia se por conta da pouca bebida que consumiu ou por tantas lágrimas acumuladas.

– Ei cara, calma. Todos se sentem assim no início sabia? É normal sentir medo, não tenha medo de sentir medo.

– Acho que você é o único amigo que tenho. – Thomas sorriu. Newt pareceu chocado, mas sorriu de volta, um sorriso engraçado, meio de lado.

– É, amigos. Bom isso.

Thomas deu um tapinha de leve nas costas de Newt e continuou ali, prosseguiram com uma longa conversa, onde puderam se conhecer ainda mais. Newt já era formando, faltava um semestre para ele finalmente sair da faculdade, e isso o aliviava tanto quanto o deixava com saudade. Enquanto Thomas estava no primeiro semestre, e parecia mais um rato medroso de laboratório, com seus olhos miúdos vasculhando os lados à procura de qualquer ameaça repentina.

Era como se fossem amigos a tempos, ambos eram fãs de The Beatles e tinha macarronada como comida predileta, finalmente Thomas encontrara afinidade em alguém naquela cidade imensa, alguém onde sabia que podia confiar. Um amigo, finalmente um amigo. Thomas sabia que sua esperança não tinha morrido. E os dois ficaram ali, conversando, a noite indo embora, o dia surgindo.

Thomas e Newt… Eles não sabiam, é claro, mas o futuro lhes reservava grandes surpresas.