Vampire Academy - (Terra das Sombras)
2 Capítulo 2 - Eu Não Canso De Errar
Comecei a não pensar muito, sobre o quão ferrada eu estava, conforme íamos em direção a sala da diretora da Academia, Kirova. Aquela bruxa velha havia tentado se livrar de mim, pelo menos umas duzentas vezes, desde que vim com Lissa para a Academia, logo depois, do acidente que matou seus pais e seu irmão mais velho.
Graças a sua implicância comigo, tive que sempre me preocupar demais com minha reputação e não quebrar a cara, de nenhum aluno em especial, antes de pegar meu diploma. Até agora, eu estava fazendo um trabalho excepcional. Até agora.
Quando chegamos à sala, Kirova estava de costas para nós, pelo vidro embaçado de sua janela do escritório, encarando o pequeno jardim da Academia. Pediu-nos que sentássemos nas cadeiras disponíveis em frente a sua mesa. Eu e Lissa, fizemos o pequeno trajeto em silêncio. Alberta e o ruivo de agora conhecido nome Benjamin, estavam logo atrás de nós, em suas posturas rígidas de guardiões.
–O que os trazem há essa hora em minha sala? – Ela perguntou, para logo em seguida virar para nos encarar. Nitidamente a mulher estava dormindo a poucos minutos atrás. Sua aparência sonolenta e suas olheiras arroxeadas denunciavam, tanto falta de descanso, como falta de sangue.
Kirova era Moroi, e assim como Lissa, necessitava de sangue para sobreviver. Além é claro, de uma alimentação balanceada, como o resto de nós. Moroi poderiam ficar dias sem comer, mas dias sem sangue, era realmente preocupador.
Foi Alberta, que começou a falar.
–A Srta. Rosemarie Hathaway tem algo para falar com a Senhora
Pronto. Alberta estava ferrando com a minha vida ainda mais, me fazendo explicar diretamente para Kirova o ocorrido.
–Rosemarie? – Os olhos cansados, mas atentos de Kirova, pararam em mim.
–Eu.... – Comecei a falar, mas eu não sabia como começar. Evitei ao máximo virar para o lado e encarar os olhos de Lissa. Pelo laço, pude sentir seu medo passar para mim.
–Sim? – Kirova insistiu, já sem paciência. Com certeza absoluta, ela queria encerrar logo o mal entendido.
–Eu.... – Fechei e abri os olhos algumas vezes, tentando ganhar tempo, enquanto pensava em alguma resposta esperta.
–Srta. Rosemarie Hathaway! – Todo o controle e cansaço de Kirova, explodiram de uma vez só. – Eu espero realmente que a Srta não tenha se metido em problemas sérios! – Kirova olhou ao redor. Seus olhos passaram por Lissa ao meu lado, e pararam em Benjamin. – Ou eu vou ter que....
–Foi um acidente– A interrompi. Minha voz era quase inaudível. – Foi apenas um acidente.
–Que tipo de acidente? – Perguntou Kirova, erguendo uma sobrancelha interessada para mim.
Respirei fundo, antes de continuar.
–Do tipo acidente – Dei de ombros e ela não pareceu gostar disso. Atrás de mim, escutei o suspiro exasperado de Alberta. Se eu enrolasse mais um pouco por uma resposta, eu poderia me considerar ferrada ainda mais.
–E a Srta pode me descrever o ocorrido? – Kirova deu um passo em minha direção, saindo de trás da mesa – Ou eu vou ter que perguntar a Srta. Dragomir?
Engoli em seco.
–Afinal, as duas estão aqui em minha sala no meio da noite, e eu pareço ser a única desinformada.
–Eu.... – Lissa gaguejou.
–Ela não tem nada haver com isso. – Levantei da cadeira rápido demais. E falei alto demais também. De forma alguma iriam culpa-la.
–Sente-se – Foi à vez de Alberta falar.
Sinalizei com a cabeça e sentei novamente.
–Eu ataquei um guarda. – Disse por fim, abaixando um pouco a minha cabeça, em derrota. A sentença iria ser dura. Eu poderia lidar com isso. Alguns dias trabalhando na limpeza ou ajudando o padre na igreja aos domingos poderiam ser superados. Não tão facilmente, mas eu poderia lidar com isso.
O silêncio foi mortal dentro do pequeno cômodo. Ponderei várias vezes, antes de levantar a cabeça e encarar Kirova. Seus olhos eram flamejantes. Em todos esses anos de Academia, eu nunca há vi com tanta raiva transparecendo. Suas mãos estavam cerradas em punhos e eu tinha certeza, que em sua cabeça, engrenagens estavam trabalhando para me despachar para um castigo daqueles. Logo agora que eu estava para me livrar de St. Vladimir.
–E posso saber por que diabos, você fez isso? – Kirova falou em tom controlado. Ela estava lutando ao máximo para mantê-lo.
–Eu...precisei ir até Lissa. – Minha honestidade havia me pego de guarda baixa.
–E por que atacar um guarda? – Seu tom subiu um pouco e eu vi, o quão difícil estava sendo para ela mantê-lo.
Era inadmissível atacar um guardião. Ainda mais, um guardião da escola. Deixávamos sempre o combate, para quando encontrássemos os Strigoi. Só lutávamos com nossos professores e alguns guardiões, quando precisávamos passar nos exames. Eu havia feito um exame desses antes de me formar. Eu havia passado e só estava aguardando receber as notas finais junto com o meu diploma, para dar entrada na papelada de guardiã oficial de Vasília Dragomir. Derrepente um nó se formou na minha garganta. Eu não estava totalmente certa da facilidade para obtê-los agora.
–Eu tinha que ir rápido – Desviei o olhar dela. Por Deus, eu não estava mentindo. Eu só o ataquei, por que realmente não poderia parar. Lissa estava sufocando.
–E por que não me avisou? – A voz autoritária de Alberta, me fez virar para trás.
–Eu... eu já tinha perdido muito tempo. – Finalizei, mas não foi o suficiente.
–E acha que atacar um guardião iria te ajudar? – Alberta perguntou em tom indignado. Bem lá no fundo, eu sabia que o que eu havia feito era errado. Mas o que eu poderia fazer? Meus sentimentos estavam mais confusos e aguçados ultimamente, graças ao espirito de Lissa. Era quase, como se eu não pudesse me controlar.
–Eu...eu só... – Várias e várias emoções passavam pelo nosso laço naquele momento. Era muito difícil explicar quais sentimentos eram meus e quais eram de Lissa. Isso muito contra gosto, me fez lembrar, de alguns dias atrás.
–Ela é muito poderosa! – Victor Dashkov repetia como um louco, enquanto era forçado a se manter sentado no lugar, pelos três guardiões, que o cercavam.
A sala de conferência estava um verdadeiro caos. Vários Moroi gritando, tanto por pânico como medo, quando Victor, na frente de todos havia dito que Lissa Dragomir era usuária de Espírito. Essa breve declaração, havia causado um verdadeiro pandemônio do mundo Moroi.
Usuários de Espirito eram raríssimos e muitas de suas habilidades, ainda eram um mistério para nós. Victor estava atrás dessas habilidades misteriosas, que Lissa possuía. Ele alegava que somente ela, poderia salva-lo da morte certa.
Se ele não a tivesse tentado sequestrar, eu meio que teria pena dele. Sua aparência recente era horrível. Sua pele estava enrugada, e além do seu cabelo quase que totalmente branco, suas olheiras por dias sem se alimentar de sangue, o deixavam com um aspecto temeroso. Victor tossia e convulsionava sem parar, mas mesmo assim, eu não o queria vivo.
Ele havia armado uma cilada daquelas para Lissa e para mim, nos colocando separadas. Victor enviou dois bilhetes. O de Lissa continha uma festa surpresa, em um dos quartos vazios do depósito. E o meu, uma reunião às pressas com a suposta Lissa, na floresta, logo após o toque de recolher.
O que me ajudou muito, foi o fato de Victor não esperar para me pegar, antes de tentar ataca-la. Eu senti no exato momento, quando três homens de capuz tentavam arrasta-la para um van, na entrada da Academia.
Eu e Lissa, nunca entendemos muito bem nosso laço, de uma única via. Recentemente e acredito eu, ser por causa do espírito, ela foi capaz de algumas vezes me bloquear de sua cabeça. No dia do atentado de Victor, ela havia feito exatamente isso, mesmo que depois, ela tenha jurado de pés juntos, não ter feito isso, conscientemente.
Um pigarreio, me fez voltar à realidade.
–Rose... ? – Lissa pegou minha mão. – Você está bem? – Seus olhos jade, transmitiam em silêncio, diversas emoções. Lissa estava passando por tanto ultimamente.
Seus pais terem morrido, já havia sido demais para ela. Ela havia se apegado tanto a mim desde aquele maldito acidente. Agora, seu único ente mais próximo, Victor Dashkov, a estava querendo sequestrar e a manter como sua refém pessoal.
–Vasília Dragomir – O som da voz de Kirova estava começando a me irritar. Derrepente, todo medo e receio que eu havia sentido mais cedo, estava a ponto de evaporar. – Pelo que entendi até agora, a Srta nada tem haver com isso – Kirova me lançou um olhar frio. – Portanto, eu quero que volte ao seu dormitório e permaneça lá, até ser chamada novamente.
–Vá – Disse para Lissa, fingindo estar bem. – Eu logo vou te encontrar – Pisquei para ela. Definitivamente, Lissa não precisava saber, que a qualquer momento eu poderia seguramente pular no pescoço de alguém ali, por ter que responder a estas perguntas estúpidas.
Lissa se levantou de seu lugar em silêncio, mas antes de sair, me deu um olhar pesaroso, para logo depois, fechar a porta atrás de si.
–Qual a minha punição? – Cerrei os olhos para Kirova. Uma onda violência passava por mim.
Kirova quase pareceu surpresa, pela minha mudança drástica de humor.
–Muito bem.... – Kirova deu a volta na mesa, para depois sentar em sua cadeira. – Pelo que entendi aqui você agrediu um guardião.
–Sim. – Respondi secamente, não esperando por outra pergunta. Eu havia cansado de conversar.
–E não se arrepende? – Ela estava brincando comigo. Seu tom desafiador era a prova disso. Kirova sempre me quis fora daquele lugar.
Desde que eu havia voltado com Lissa para St. Vladimir, ela me queria fora dali. Repetia para todos que quisessem ouvir, que eu era má influência. A garota que era rebelde e sem lei. Infelizmente para ela, a ideia de colocar Lissa em uma bolha de vidro não estava nos meus planos e nem dos de Lissa.
–Eu já disse que precisei fazer isso. – Escolhi bem as palavras antes de solta-las. Qualquer desvio ali poderia ser o fim.
–Sabia que poderia ter falado com alguém – Kirova continuava usando seu tom irritante e persuasivo. Meu autocontrole, era como veias em meu cérebro e uma por uma, estava se estourando aos poucos.
–Eu já disse que não tinha tempo. – Respondi de olhos fechados. Minha respiração estava pesada. O que diabos estava acontecendo comigo?
–Sabe que Vasília é a última de sua linhagem não é? – O tom de Kirova foi um pouco mais alto. – Sabia que ela é um lembro importante da realeza. – Suas duas mãos foram para a mesa de mogno. Eu acompanhei o gesto com o olhar.
–Se ela é tão importante assim, por que estou passando por esse questionário imbecil! – Também aumentei um tom de voz. – Eu já disse várias vezes, que fiz para protegê-la.
–Protege-la do que? – Os traços de Kirova estavam mudando novamente, enquanto ela voltava a ficar de pé. – Do que Rosemarie? – Olhe ao redor! – Kirova gesticulou ao redor da sala. – Isso é uma Academia! Muitos guardiões trabalham para manter esse lugar seguro! E um deles você nocauteou!
Eu quase ri. Resolvi ignorar.
–Se é tão seguro assim, por que diabos Victor Dashkov estava conseguindo sequestra-la? – Apontei um dedo em sua direção. Senti nas minhas costas, Alberta e Fred se aproximarem, temendo o pior. – Você sabe a resposta! – Cuspi minhas próximas palavras. – É claro que você sabe a resposta! A segurança é falha e vocês sabem! Se eu não tivesse visto o ataque, vocês jamais iriam suspeitar daquele pobre homem doente!
A expressão de Kirova era feroz, mas ela não me interrompeu. Ninguém o fez. Havia um novo brilho em seu olhar.
–E ainda por cima, tive que ficar repetindo milhares e milhares de vezes, que o homem que vi com Lissa era realmente seu tio. Por quê? Por que vocês não estavam acreditando em mim!
–Rose... – Alberta tocou o meu braço, mas a empurrei.
–Você precisa aceitar que eu preciso ficar do lado dela! – Disse de dentes trincados para Kirova. – Se eu disse que ela estava precisando de mim, era por que estava – Minha voz estava quase estrangulada.
Para minha total surpresa, Kirova apenas me olhou por um longo segundo. Sua expressão, oscilando devagar para algo neutro e calmo, enquanto ela voltava a sentar.
–Sente-se – Ela disse por fim, quando já havia voltado a sentar.
Respirei fundo, esperando por suas próximas palavras.
–Me responda uma última coisa, Rose. – Ela olhou bem no fundo dos meus olhos, antes de fazer, sua próxima pergunta. – E se você morrer? – A olhei confusa. O que Kirova queria dizer com isso? – E se não estiver disponível? Pessoas morrem Rose... Pessoas ficam indisponíveis.
Vendo minha confusão aparente, Kirova resolveu continuar.
–O que quero dizer Rose é que se algo acontecer com você, como vamos manter Vasília Dragomir a salvo?
–Eu não entendo. – Minha voz saiu como um sussurro.
–Como você disse....Sobre você ter descoberto sobre Victor Dashkov quando resolveu sequestra-la. – Kirova me olhou rapidamente, buscando entendimento. – Nós a achamos por sua causa Rose. Mas você não pode esquecer que você não é imortal.
Meu cenho franziu quando entendimento começou a passar por mim. – Você precisa também nos ajudar, Rose. Precisamos aprender a protegê-la sem precisar do seu laço.
Diabos, eu estava entendendo o que ela estava dizendo.
Mesmo que eu não quisesse admitir, somente eu compartilhava desse laço com Lissa. Sem mim, qualquer tentativa de localiza-la atrás da mente era impossível. Eu tinha que admitir que Kirova tinha um ponto. Se algo acontecesse comigo, outras pessoas teriam que defender Lissa.
–Você está certa. – Assumi por fim. Fracasso estampado em minhas feições.
Kirova assentiu com um gesto de cabeça.
–Por isso, acabou de tomar uma decisão. – Voltei meu olhar aborrecido para Kirova. Alguma coisa estava prestes a vir.
–Qual seria? – Perguntei rapidamente.
–Prepare suas malas, você está se mudando daqui. – Kirova disse em um tom tão natural, que contrastava com o grande ó formado pela minha boca.
–Como assim me mudando? Eu e Lissa vamos para a faculdade? – Seria muita sorte. Algo me dizia que não era nada disso.
–Você está se mudando. – A ênfase no você me fez começar a suar.
–Eu? Eu? Como assim? – Levantei rápido da cadeira.
–Achei que você tinha concordado em nos ajudar. – Kirova também se levantou, mas diferente de mim, seu aspecto era neutro.
–Mas... Bem...Eu concordo – Cocei a cabeça, confusa
–Pois bem. – Kirova incentivou. – Precisamos aprender a cuidar dela, Rose.
–Ah! Não! – Eu quase berrei. – Você não acha mesmo que vou deixa-la sozinha aqui! – Agora, eu estava beirando um ataque.
–Ela não estará sozinha. – Alberta deu alguns passos a frente, se colocando ao meu lado. – Eu mesma vou vigia-la de perto Rose.
–Meu Deus! – Eu nunca havia me imaginado longe de Lissa. – Isso só pode ser um pesadelo. – Tapei meu rosto com as minhas duas mãos.
Quando pensei ter me recomposto um pouco, voltei a encarar Kirova com um olhar triste.
–Quanto tempo? – Eu não fazia ideia, de para onde eu estava indo. Eu não fazia de ideia, de com quem eu estava indo, mas a única coisa que me importava realmente era saber por quanto tempo eu ficaria longe de Lissa.
Kirova ponderou por um momento, antes de me responder.
–Alguns meses. – Ela disse por fim.
–Quantos meses? – Pressionei. Algo me dizia que isso não havia sido planejado de última hora.
–Doze meses. – Kirova disse por fim.
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