Vamos voar

1 Capítulo Único


- Eu queria voar.

Foi um pensamento que tomou voz. Algo que eu costumava fantasiar e que tomou vida, escapando de meus lábios sem que eu percebesse a tempo. E após ouvir a frase, talvez essa não fosse uma ideia tão maluco assim.

Era um domingo tranquilo, recheado de calmaria e procrastinação. Eu estava deitado na grama de um parque próximo, assistindo às nuvens, tentando entender o que aqueles pedaços de algodão significavam. Não era incomum eu sonhar acordado. Era um hábito que eu tinha desde criança que costumava me trazer mais problemas do que alívios, mas que eu não ousava largar. O que era incomum, no entanto, era eu expressar o que eu sentia com esse nível de facilidade.

E o mais incomum e assustador do que isso era ouvir uma resposta.

Não entendi muito bem na primeira vez que ouvi. Olhei em volta, mas eu continuava sozinho. Me remexi um pouco, e a grama pinicou de volta. Podia ter delirado, e não seria a primeira vez, principalmente enquanto eu ficava neste estado. Mas mesmo assim, indo contra todo o meu bom-senso, perguntei em voz alta:

- O que você disse?

Minhas palavras se espalharam pelo ar, rapidamente perdendo o se rumo. Continuei observando o céu, sem ter ideia do que esperava. Aguardei uma quantidade de tempo indeterminada, e quando eu achava que não teria nenhuma resposta, o vento me respondeu:

“Eu disse para você voar.”

Alguém ter me respondido me dava um certo alívio, porque eu sabia que não estava mesmo ficando maluco. Mas não podia dizer se era realmente uma voz. Não parecia vir de fora. Era mais como um pensamento que simplesmente brotava dentro da minha consciência. E isso me frustrava um pouco.

- Não seja tolo. Eu não posso voar.

O sol começava a ganhar espaço no céu, e a temperatura aumentava gradualmente. A luz morna da manhã começava a ser substituída pela ferocidade da luz do meio-dia, e logo, logo, eu estaria encharcado de suor e vermelho. Mas sair dali não estava nos meus planos, então eu apenas rezava para que eu não me queimasse muito.

“Quem disse que não?”

- Não é óbvio? Os pássaros voam. Eu não sou um pássaro.

Por coincidência ou não, ouvi um passarinho cantar ao longe. Bentivi, bentivi.

“Quem disse que apenas os pássaros podem voar?”

Impaciência.

- Tá bom, tá bom. Mas eu não tenho asas.

“Será que não?”

Uma brisa mais forte me encobriu. Algumas folhas voaram do chão, galhos de árvores balançaram mais ao fundo, meu cabelo dançou sozinho. Me senti um pouco mais refrescado, o que era uma sensação ótima. Me peguei imaginando o que seria sentir isso todo o momento, no topo do mundo.

Bentivi, bentivi.

- Eu não vejo minhas asas. Eu estou preso ao chão.

“É mesmo? E eu não vejo nenhuma corrente te prendendo.”

Me remexi de novo.

- Existe a gravidade, sabe. É ela que me segura.

“Ela também segura os pássaros, mas ela não consegue prendê-los. Será que a presença ou ausência de asas é o único problema?”

Pensei um pouco. Demorei mais do que queria para responder.

- Eu não sei – Admiti.

“O mais importante que ter ou não asas é ter a crença que se pode voar. Os pássaros são ensinados desde cedo que podem voar, e quando descobrem que têm asas, tudo fica mais fácil. E com as pessoas, não faz diferença se elas têm ou não asas; o céu é estabelecido como um limite, e ficam longe dele. Você entende agora?”

- Acho que sim.

A conversa morreu ali. Embora não tivesse sido falada com tom de encerramento, eu sabia que a voz nunca mais voltaria. Me senti um pouco triste com isso, embora eu soubesse que seria uma boa ideia procurar um psiquiatra agora. Mas... Mesmo assim...

Bentivi, bentivi.

Fechei os olhos, e repensei tudo o que tinha escutado. Sobre ter asas e ser ensinado a voar...

O sol queimava minha pele, a grama pinicava, o ar ficava cada vez mais abafado. No instante seguinte, o sol havia ido embora, a grava havia sumido e o vento passava por mim como um turbilhão descontrolado.

E quando eu abri os olhos, eu estava em meio ao azul, e não havia mais limites.

Bentivi, bentivi.

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