Vamos viver tudo que há pra viver

1 Vamos viver tudo o que há pra viver


Notas iniciais
A série A Arma Escarlate é da autora Renata Ventura, publicada pela Novo Século. Confiram. O destino dos personagens nesta one-shot eu inventei, não estão relacionados a nada que acontece ou acontecerá nos livros, então spoiler-free. Dedicado ao meu amigo Lucas. Eu sinto sua falta.

Comemoram seu primeiro aniversário no corredor do Inferno Astral. Achava que todos se lembravam daquela.

Fizeram uma cerimônia de união abençoada por fadas, elfos e toda sorte de seres mágicos, de amigos e família querida. Isso foi logo que a escola acabou e eles se mudaram para Santos, onde a mãe de Lucas poderia vê-lo com frequência.

Tinham a casa mais adorável da comunidade bruxa da cidade: uma casa térrea tradicional, cada estação uma cor diferente, batentes de concreto branco, flores nas janelas.

Era onde criavam seus quatro filhotes, três meninas e um menino: os Mini-Pixies, riam. Seus nomes refletiam memórias amadas, amigos queridos.

Era o fim da infância, o fim da juventude turbulenta na escola, dos anos sob a sombra de um golpe, sob a tortura e morte que os Chapeleiros trouxeram. Era para ser o fim.

Sentada em meio ao ambiente vibrante da sala de estar com uma janela para a cozinha, com almofadas de fuxico e redes coloridas, havia uma dor gigante em seu coração pelos anos em que não estivera por perto.

A pequena Renata, já com seus 20 anos, saía pela porta para um encontro. Nádia e Guilherme não tinham voltado do cursinho pré-Mag ainda. Sabrinininha estava no primeiro ano de MagiMedicina.

–Eles devem estar em casa logo mais, tia. Fica à vontade.

Meneou em agradecimento.

Havia um pedaço seu – se não vários – eternamente perdido para os horrores que experimentaram na juventude. Os professores que sumiram por um boato ou uma fala, as bolsas de faculdade canceladas quando pensavam que conseguiriam levar os estudos adiante e ficar juntos, as batalhas que enfrentaram, as cicatrizes que tinham, os amigos que nunca se sentariam naquele sofá amarelo ou à mesa verde-bandeira.

Capí nunca mais viria, apesar de Gislene vir com os gêmeos. Caimana perdera a perna em uma câmara de tortura. Beni ainda tinha pavor de raios. Índio e Nádia eram felizes, mas havia aquela sombra de quem sobrevivera sobre os dois.

Mas Lu ainda estava lá, naquela casa que feitiço algum poderia achar, a casa que só recebia amigos e amores. Lu estava a salvo.

Viny podia ir à merda. Achava isso com 14 anos, achava isso agora, com quase 40.

O pensamento trouxe uma risada que trouxe um soluço ao seu peito. Chorou em silêncio, os dedos tocando com reverência as almofadas, o xale colorido sobre o qual se sentava.

Ouviu as risadas se aproximando. Ouviu os sons tão familiares de quando eles vinham chegando, Viny empurrando a cadeira de Lu com uma velocidade imprudente que o fazia gargalhar.

Havia o cheiro de mar e areia, os últimos raios de luz do dia, os risos. Como um dia qualquer depois da aula na Korkovado e todos vão estar aqui já, já.

Todos os meus amigos e pessoas que eu conheci vão estar… Sim, logo mais, vão todos chegar aqui.

A gente ainda é tão jovem, com tanta vida pela frente.

Certo?

Me diga que sim.

–Pois não?

Uma voz cortou sua viagem pela estrada do passado e ela levantou-se, apressada, ajeitando o cabelo.

–Ah, meu Deus, olha quem o Saci trouxe – Viny gorjeia, os cabelos compridos e a barba rala matizados discretamente de cinza.

Mas Viny não importava agora.

Lucas estava ali, seus cabelos em tranças nagô com um ou outro fio cinza despontando em meio ao negrume, olhos castanhos gentis e receptivos, e um sorriso gigante.

–Você veio – ele diz, gesticulando para ela.

Stephanie abandona a bolsa sobre o sofá e se aproxima, nervosa como se estivesse pedindo para ser amiga dele de novo, no primeiro dia de aula.

–Eu… Sua casa é linda. Seus filhos são adoráveis… Eu… Eu senti tanto a sua falta. Me desculpa por ter ido embora.

–Besteira – Lucas ri, enquanto Viny deixa-os para fazer algo na cozinha – você voltou. É o que importa.

Eles se abraçam como se um terremoto estivesse prestes a jogá-los em direções opostas, como um último abraço antes de ir. Um primeiro abraço.

Deu-se conta de que eles ainda eram jovens e que, a despeito do passado, tinham toda a vida pela frente. Tanta vida quanto desse para desfrutar.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!